Voltar ao resumo

Híbridos

O Batismo nas Águas de Cristal

O despertar de Kim Taeshin foi abrupto, uma transição violenta do sono profundo para um estado de alerta predatório. O primeiro sinal de que algo estava errado não foi um som, mas a ausência de um peso. O lado direito da cama, onde Wen Junhui deveria estar aninhado como uma pérola em sua concha, estava frio. Os lençóis de seda estavam revirados, guardando apenas o fantasma do aroma de baunilha e sal marinho que o ômega exalava.

Taeshin sentou-se na cama em um movimento único, o coração martelando contra as costelas. Seus tentáculos emergiram das sombras de suas costas em um reflexo defensivo, chicoteando o ar, prontos para subjugar qualquer ameaça que pudesse ter levado seu companheiro. O pânico, uma emoção que ele raramente permitia que se manifestasse, subiu por sua garganta como bile.

— Junhui? — chamou ele, a voz rouca e carregada de autoridade Alpha, mas tingida por um fio de desespero.

Nenhuma resposta.

Ele fechou os olhos por um segundo, forçando-se a respirar. A lógica começou a lutar contra o instinto animal. Ele levou a mão ao próprio pulso, onde um relógio de design minimalista escondia um terminal de monitoramento avançado. Com um toque rápido, a tela holográfica brilhou no quarto escuro. O ponto verde, indicando a localização exata da aliança de Junhui, estava estável. O anel, uma peça de platina que continha um micro-rastreador GPS de nível militar, indicava que Junhui ainda estava dentro do perímetro da cobertura.

Taeshin soltou o ar que nem percebeu que prendia. Era um dos seus protocolos de segurança mais rigorosos — e, alguns diriam, obsessivos. Ninguém tocava em sua pequena sereia, e ninguém a levava sem que ele soubesse em milissegundos. Se o sinal não tinha disparado um alarme de proximidade, Junhui estava seguro. Mas onde?

Foi então que seus ouvidos, aguçados pela linhagem de predador, captaram o som. Um murmúrio rítmico, o suave borbulhar de água sendo deslocada, vindo da direção do banheiro monumental da suíte.

Taeshin levantou-se, ignorando o frio do chão de mármore. Ele caminhou silenciosamente, seus tentáculos deslizando atrás dele como sombras líquidas. À medida que se aproximava da porta entreaberta, o cheiro de Junhui tornava-se mais forte, saturado pela umidade.

Ele empurrou a porta de vidro fosco e parou.

O banheiro era um templo de luxo, com uma banheira que mais parecia uma pequena piscina, escavada em pedra vulcânica e cercada por velas que Junhui devia ter acendido em algum momento da madrugada. A luz bruxuleante refletia na água e nas paredes de mármore escuro.

Junhui estava lá. Ele estava submerso até o peito, os cabelos escuros flutuando ao redor do rosto como algas finas. Seus olhos estavam fechados, uma expressão de serenidade absoluta pintada em suas feições. Mas o que prendeu a respiração de Taeshin foi a transformação. Embaixo da água cristalina, as pernas humanas de Junhui haviam dado lugar a uma cauda magnífica. As escamas brilhavam em tons de madrepérola, azul-celeste e prata, refletindo a luz das velas com uma iridescência hipnotizante. A nadadeira caudal, vasta e delicada como seda, movia-se preguiçosamente, criando redemoinhos lentos.

— Junnie... — sussurrou Taeshin, o pânico finalmente se dissipando para dar lugar a uma adoração avassaladora.

Junhui abriu os olhos devagar. Suas pupilas pareciam um pouco mais verticais, um sinal de que sua natureza de sereia estava no controle total. Ele sorriu, um gesto lento e etéreo, estendendo uma mão molhada em direção ao Alpha.

— Você acordou — disse Junhui, a voz soando como o tilintar de conchas ao vento. — Desculpe. O estágio de preparação para o comeback... meu corpo estava seco demais. Eu sentia como se minhas escamas estivessem queimando sob a pele humana. Eu precisava do toque do oceano, mesmo que fosse este oceano artificial.

Taeshin caminhou até a borda da banheira e ajoelhou-se, ignorando o fato de que suas calças caras estavam se molhando. Ele pegou a mão de Junhui e a beijou, sentindo a temperatura da pele do ômega, que estava mais fria do que o normal, adaptada à água.

— Você me deu um susto, pequena pérola — admitiu Taeshin, sua mão livre acariciando o rosto úmido de Junhui. — Acordar e não sentir você... foi como se o ar tivesse sido arrancado dos meus pulmões.

— Eu nunca iria embora, Taeshin-ah — Junhui puxou a mão do Alpha, guiando-a para baixo da água. — Sinta.

Taeshin mergulhou a mão. O contato com as escamas de Junhui era uma experiência sensorial única. Não eram ásperas como as de um peixe comum, mas sim lisas, firmes e levemente vibrantes, como se cada escama fosse um sensor de energia. Um de seus tentáculos, incapaz de resistir à proximidade da água e do companheiro, deslizou para dentro da banheira, enrolando-se suavemente na cauda prateada.

Junhui soltou um suspiro de prazer, fechando os olhos novamente enquanto o tentáculo do Alpha Prime massageava a base de sua nadadeira.

— É por isso que os outros estão tão inquietos, não é? — perguntou Taeshin, sua voz voltando ao tom grave e protetor. — O estresse do trabalho ativa os instintos de Híbrido. Eles precisam de seus elementos.

— Sim — respondeu Junhui, movendo a cauda para se acomodar melhor contra o toque de Taeshin. — As nagas precisam de calor e terra, os tubarões precisam caçar ou nadar em mar aberto... e eu, eu só precisava me sentir fluido novamente. As coreografias são tão rígidas, Taeshin. Às vezes esqueço que minhas costas foram feitas para curvar-se na correnteza, não para ficarem retas sob luzes de estúdio.

Taeshin sentiu uma pontada de culpa. Ele era o homem mais poderoso dos mares comerciais, mas não podia evitar que seu ômega se desgastasse em um mundo humano que pouco entendia de naturezas ancestrais.

— Eu deveria ter construído um tanque de água salgada maior para você — murmurou Taeshin, a possessividade brilhando em seus olhos. — Um lugar onde você pudesse nadar de verdade, sem paredes.

Junhui riu, um som cristalino que ecoou pelo banheiro.

— Esta banheira é maravilhosa, bobo. E eu não preciso de um oceano inteiro se você estiver na borda dele me esperando.

Taeshin não resistiu. Ele inclinou-se para frente, capturando os lábios de Junhui em um beijo que sabia a água e desejo. O ômega respondeu com fervor, suas mãos molhadas puxando o Alpha para mais perto, sem se importar com as roupas dele. Os tentáculos de Taeshin, agora mais numerosos, emergiram para envolver o corpo de Junhui sob a água, criando um abraço complexo de membros humanos e cefalópodes.

— Entre — pediu Junhui contra os lábios dele. — A água está perfeita.

Taeshin não precisou de um segundo convite. Ele se livrou do restante de suas roupas com pressa e mergulhou na banheira espaçosa. O encontro de suas peles na água morna foi explosivo. Como um híbrido de polvo, Taeshin sentia-se em casa naquele elemento, e sua forma Alpha parecia expandir-se. Seus tentáculos, livres da restrição do ar seco, ganharam cores mais vibrantes e força renovada, enredando-se na cauda de Junhui como se estivessem tecendo um ninho subaquático.

Junhui abraçou o pescoço de Taeshin, suas pernas — agora cauda — envolvendo a cintura do Alpha. A sensação das escamas roçando a pele de Taeshin era inebriante.

— Você é tão lindo assim — sussurrou Taeshin, observando como a luz das velas dançava na pele perolada de Junhui. — Às vezes eu esqueço que você é uma criatura de lendas.

— E você é o monstro que governa as lendas — brincou Junhui, beijando o maxilar de Taeshin. — O Alpha Prime que faz os oceanos tremerem.

— Eu só quero fazer o seu mundo ser seguro, Junnie.

Eles ficaram ali por um longo tempo, flutuando no silêncio úmido, apenas sentindo a presença um do outro. A tensão da reunião, o estresse do comeback e as preocupações com o jantar de domingo com a Matriarca pareciam pertencer a outra vida, a outro planeta. Ali, entre a água e o mármore, eles eram apenas dois seres das profundezas que haviam encontrado um ao outro na vastidão do mundo.

— Taeshin? — Junhui chamou após um tempo, sua voz sonolenta.

— Sim, meu anjo?

— Sobre o jantar com sua mãe... você acha que eu deveria ir na minha forma de sereia?

Taeshin parou de acariciar a nadadeira de Junhui e olhou para ele, surpreso.

— Por que você faria isso?

— Ela é uma de nós — disse Junhui, os olhos brilhando com uma sabedoria antiga. — Eu sinto que, se eu me apresentar como eu realmente sou, sem esconder minha cauda ou meus instintos, ela saberá que eu não estou aqui pelo nome da família Kim, ou pelo poder. Ela saberá que eu pertenço a você da mesma forma que o mar pertence à lua.

Taeshin sentiu um aperto no peito, uma mistura de orgulho e amor que quase o sufocou. Ele puxou Junhui para um abraço apertado, enterrando o rosto na curva do ombro molhado do ômega.

— Minha mãe vai adorar você — afirmou Taeshin com convicção. — Mas não porque você é uma sereia, Junnie. Mas porque você é a única pessoa que consegue fazer este monstro de tentáculos se sentir um homem de sorte.

Junhui sorriu e, com um movimento ágil da cauda, jogou um pouco de água no rosto de Taeshin, quebrando o momento solene com sua travessura habitual.

— Ei! — protestou Taeshin, rindo enquanto seus tentáculos começavam a fazer cócegas nas laterais de Junhui.

— Você é muito sério, Alpha Prime! Precisa relaxar mais.

A brincadeira na banheira durou até que a água começasse a esfriar e as velas se tornassem apenas tocos de cera. Quando finalmente saíram, Taeshin envolveu Junhui em uma toalha felpuda e enorme, carregando-o de volta para a cama. A cauda de Junhui, em contato com o ar seco e o desejo de estar perto do calor humano de Taeshin, começou a retroceder, as escamas desaparecendo em um brilho suave até que suas pernas longas e pálidas retornassem.

Eles se deitaram novamente, mas desta vez, Taeshin não permitiu que houvesse espaço entre eles. Ele entrelaçou suas pernas nas de Junhui e usou seus tentáculos para cobri-los como um cobertor vivo e protetor.

— Tente dormir agora — murmurou Taeshin, beijando a testa de Junhui. — Eu estarei aqui quando você acordar. E desta vez, eu não vou deixar você escapar para o banheiro sem mim.

— Promete? — Junhui bocejou, seus olhos se fechando enquanto ele se aninhava no peito largo do Alpha.

— Prometo. Pelas profundezas do oceano, Junnie. Eu nunca vou deixar você sozinho.

O silêncio voltou à cobertura, mas era um silêncio diferente. Não era mais o silêncio do pânico ou da ausência, mas a quietude de um porto seguro. Taeshin vigiou o sono de Junhui até que os primeiros raios de sol começassem a pintar o horizonte de Seul. Ele sabia que os desafios viriam — o comeback, a pressão da mídia, a aprovação da Matriarca —, mas enquanto ele tivesse sua pequena sereia em seus braços, ele era invencível.

E Junhui, mergulhado em sonhos de correntes frias e abraços quentes, sabia que, não importa quão exaustivo fosse o mundo lá fora, ele sempre teria um Alpha Prime pronto para mergulhar no desconhecido apenas para buscá-lo. Naquela noite, a água não apenas curou o corpo de Junhui; ela batizou a união deles com uma força que nem o tempo, nem as marés, poderiam apagar.