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Hockey

Fissuras no Gelo Fino

O fim de semana foi uma tentativa desesperada de fingir que a minha vida continuava normal.

Passei o sábado inteiro enfiada no porão aquecido da minha casa com a Chloe e o Lucas, meus melhores amigos do nono ano. Comemos pizza congelada, rimos de vídeos idiotas na internet e passamos quase duas horas discutindo sobre quem convidaria quem para a festa da fogueira de inverno que os garotos do clube de esqui estavam organizando. Lucas estava tentando tomar coragem para falar com uma menina da turma de artes, e eu passei boa parte da tarde dando conselhos a ele sobre como puxar assunto sem parecer um bobo.

Era o tipo de drama de quatorze anos que eu entendia, o tipo de conversa confortável em que o mundo parecia leve, seguro e descomplicado. Nenhum deles desconfiava da tempestade silenciosa que estava me engolindo fora daquelas paredes. Eu não contei a ninguém sobre a porta trancada da sala de equipamentos, nem sobre o toque dos dedos de Ashley no meu pescoço, e muito menos sobre a imagem dela parada na nevasca, me observando fugir pelo retrovisor. Parecia um segredo sujo e pesado demais para colocar em palavras.

Na manhã de segunda-feira, a realidade me atingiu no instante em que as portas automáticas da Saint Patrick High se abriram, liberando o cheiro familiar de cera para piso, lanches aquecidos e jaquetas molhadas de neve. O termômetro digital no saguão marcava vinte e dois graus negativos lá fora. Dentro, o aquecimento central zumbia forte, mas o arrepio que desceu pela minha espinha não tinha nada a ver com o clima de Alberta.

Eu tentei manter minha rotina. Fui para a aula de ciências, respondi às chamadas de história e passei o intervalo do almoço na ala sul, onde os armários dos calouros ficavam bem distantes do domínio dos veteranos. Por algumas horas, consegui me convencer de que Ashley talvez tivesse entendido o recado. Afinal, eu a havia empurrado. Eu tinha deixado claro, com todas as letras, que não queria nada daquilo.

Essa ilusão durou exatamente até o final da última aula, quando precisei atravessar o corredor do ginásio para pegar meus livros no armário principal.

O corredor estava quase vazio, mergulhado na penumbra do entardecer que começava a escurecer o céu canadense antes mesmo das quatro da tarde. Eu estava fechando a porta de metal com o cadeado quando ouvi o rangido inconfundível de solas de borracha contra o linóleo.

Nem precisei me virar para saber quem era. A presença de Ashley parecia alterar a pressão atmosférica ao meu redor.

— Running again, Miller? — a voz dela soou baixa, carregada de um sarcasmo cortante, mas desprovida do deboche estridente de semanas atrás.

Respirei fundo, puxei a alça da mochila pesada sobre o ombro e me virei para encará-la. Ashley estava com a jaqueta do time aberta, uma regata escura por baixo e as mãos enfiadas nos bolsos da calça de moletom cinza. O cabelo castanho estava preso em um rabo de cavalo alto, destacando a linha tensa do maxilar e os olhos castanhos que pareciam queimar como brasa viva sobre mim.

— I’m not running — respondi em inglês, tentando imprimir toda a firmeza do mundo nas minhas palavras. — I have practice in twenty minutes, just like you.

Ela deu dois passos lentos na minha direção, diminuindo a distância sem a menor pressa, como uma predadora que sabia exatamente que a presa não tinha muitas rotas de fuga em um corredor sem saídas laterais.

— You shoved me, Anne — disse ela, inclinando a cabeça de lado, os lábios desenhando um sorriso quase imperceptível, perigoso e teimoso. — Nobody shoves me. Not on the ice, and definitely not off it.

— You cornered me! — retruquei, sentindo meu peito subir em indignação. — I told you to back off, and you didn't. I meant what I said on Friday, Ashley. I’m not interested. I like guys. What is so hard for you to understand about that?

Ashley parou a menos de um metro de mim. Desta vez, ela não tentou me tocar, mas a sua proximidade física já era invasiva o suficiente. Ela era mais alta, tinha ombros mais largos esculpidos por anos de treinamento pesado e exalava uma autoconfiança arrogante que beirava o absurdo.

— You're just a kid — murmurou ela, descendo o olhar pelo meu casaco antes de prender meus olhos com uma intensidade sufocante. — You repeat what everyone else says because you think you have to. But the way you play? You don't hesitate. You're fearless out there. Why are you so terrified of me?

— I’m not terrified of you! — rebati, com a voz falhando um milímetro antes de eu conseguir estabilizá-la. — I just want you to leave me alone! We're teammates, that’s it. Stop looking at me like that!

Ashley soltou uma risada nasalada, curta e sem humor, dando mais meio passo à frente, forçando-me a recuar um passo até minhas costas encontrarem a frieza dos armários vermelhos.

— Keep telling yourself that — sussurrou ela, os olhos brilhando com uma obstinação feroz. — See you on the ice, rookie. Don’t be late. Coach gave me the first half of practice today.

Ela não esperou minha resposta. Deu meia-volta com a elegância controlada de uma atleta de ponta e seguiu pelo corredor em direção aos vestiários, deixando para trás o eco ritmado de seus passos e o meu coração martelando contra as costelas como um alarme de incêndio.

Aquele aviso final caiu como uma sentença de morte. A treinadora Miller tinha o hábito terrível de delegar a liderança dos primeiros quarenta minutos de treino para as jogadoras seniores quando precisava participar de reuniões com a diretoria atlética do distrito. E, com a capitã titular afastada por uma gripe severa, o apito havia caído diretamente no colo de Ashley.

Dez minutos depois, quando amarrei os patins no vestiário feminino sob o olhar atento e desconfortável de algumas colegas de time que ainda se lembravam da nossa briga violenta no último jogo, percebi que o treino daquela tarde seria um pesadelo calculado.

O rinque coberto da escola estava gélido. As lâmpadas de vapor metálico zumbiam alto no teto abobadado, refletindo uma luz azulada e crua na superfície imaculada do gelo recém-raspado pelo zamboni. Quando deslizei para o centro da pista, o ar cortante ardeu na minha garganta.

Ashley estava no círculo central, segurando uma prancheta com o cronômetro pendurado no pescoço. Ela usava o uniforme de treino preto, o capacete sem a grade completa, apenas com o visor de acrílico que deixava à mostra a linha severa de suas sobrancelhas.

— Alright, listen up! — gritou ela, batendo a ponta do taco de hóquei com força contra a borda do banco de reservas para chamar a atenção de todas. — Coach is delayed. Today we’re working on board battles and transition pressure. No slacking off. If you drop the pace, you skate suicides until you puke. Pairs! Now!

Eu tentei me misturar no fundo do grupo, deslizando para o lado de Maya, uma defensora quieta do décimo ano que costumava ser neutra e focada. Mas Ashley nem sequer olhou para a prancheta antes de erguer o taco e apontá-lo diretamente para o meu peito.

— Miller. You’re with me — comandou ela, a voz ecoando pelas paredes vazias do ginásio.

— What? — disparei, antes de conseguir me conter. — Maya and I always pair up for board drills.

— Did I ask for your opinion? — retrucou Ashley, patinando até parar diante de mim com uma derrapagem lateral brusca que lançou uma chuva de lascas de gelo contra as minhas caneleiras. — I’m running this drill. And I want the best forward pushing the defense. Unless you think you can’t keep up?

O desafio foi lançado no tom exato que ela sabia que me atingiria. Eu amava aquele esporte com cada fibra do meu corpo. Odiava ser subestimada, odiava que minha idade fosse usada como munição contra a minha capacidade atlética. Apertei os dedos ao redor da fita áspera do meu taco e ergui o queixo.

— Fine. Let's go — respondi friamente.

O exercício começou nos cantos da pista, onde o gelo se encontrava com a barreira de acrílico reforçado. O objetivo da rotina era simples e brutal: uma jogadora tentava manter a posse do disco prensado contra a mureta enquanto a outra usava o peso do corpo e o stick para desarmar, girar e arrancar em direção ao círculo de tiro.

No primeiro ciclo, Ashley foi com tudo.

Ela não me deu espaço para respirar. No instante em que o disco tocou o gelo, ela colou o corpo no meu. Não foi uma trombada limpa de jogo; foi um choque calculado que me prendeu contra a proteção transparente com um estrondo que reverberou por todo o ringue. As ombreiras dela rangeram contra as minhas, e a luva pesada de couro de Ashley pressionou a curva da minha cintura com uma força desmedida, prendendo meu quadril contra a borda de madeira.

— Push back, Anne! — rosnou ela no meu ouvido, a respiração quente e ofegante queimando a pele exposta do meu pescoço por baixo do protetor acolchoado. — You’re too soft! Come on, fight for it!

Eu tentei usar o jogo de pernas, girando as lâminas para criar uma alavanca e me desvencilhar, mas ela antecipou cada centímetro do meu movimento. Ashley não estava apenas me marcando; ela estava me prensando com o peso do próprio corpo, colando o peito nas minhas costas de um jeito que mandou uma onda de calor desconfortável e sufocante por todo o meu corpo. Não era apenas hóquei. Era domínio físico disfarçado de treino tático.

— Get off me! — rosnei entre dentes, jogando o cotovelo para trás para abrir espaço e batendo a lâmina do taco contra o puck para chutá-lo para longe da mureta.

Com um puxão brusco, consegui me desvencilhar e derrapei três metros à frente, o coração acelerado e a garganta seca. Ashley recolheu o disco solto com uma facilidade irritante, mas não arremessou no gol vazio. Ela apenas parou, segurando o puck na ponta da lâmina, os olhos fixos em mim, brilhando com uma satisfação arrogante e predatória.

— Again — ordenou ela, jogando o disco de volta no canto com um toque displicente.

— That wasn't a clean check — disse eu, recuperando o ar com dificuldade, as mãos trêmulas dentro das luvas pesadas. — You're using too much hands.

— This is varsity hockey, sweetheart — provocou ela, patinando lentamente ao meu redor em círculos, a respiração condensando no ar gelado da quadra. — If you want soft touches, go back to middle school gym class. Now get back on the boards. Unless you want to admit you're scared of getting close to me?

As outras meninas do time estavam nos cantos opostos, concentradas em seus próprios exercícios, mas o clima no rinque estava tão tenso que até os risos e as conversas paralelas foram morrendo aos poucos. Todo mundo sentia a eletricidade estática entre nós duas. A diferença era que ninguém ali entendia a verdadeira natureza daquela hostilidade. Elas achavam que era apenas uma rivalidade esportiva entre a veterana consagrada e a caloura prodígio.

Elas não sabiam da loucura que brilhava no fundo dos olhos castanhos de Ashley toda vez que ela olhava para mim.

Voltamos para a marcação. Desta vez, decidi que não seria prensada de novo. No momento em que ela veio para o contato de ombro, baixei meu centro de gravidade, firmei os patins na largura dos ombros e bati com força com a lateral do quadril contra o dela. O impacto fez Ashley recuar meio passo no gelo, surpresa pela minha agressividade repentina.

Aproveitei a brecha, passei a lâmina por baixo do taco dela, roubei o disco em um movimento fluido e girei sobre o calcanhar da bota de couro para arrancar em direção ao gol.

Eu estava livre. O rinque se abriu diante de mim, a linha vermelha se aproximando em um borrão cinzento e veloz.

Mas Ashley não aceitava perder.

Ouvi o corte violento do aço rasgando o gelo atrás de mim. Ela acelerou com uma fúria desesperada, alcançando minha trajetória em questão de segundos. Antes que eu pudesse armar o pulso para disparar o arremesso, o taco de Ashley não desceu sobre o disco; desceu atravessado entre as minhas pernas, travando a lâmina do meu patim esquerdo.

Foi uma falta covarde, uma rasteira descarada que qualquer árbitro puniria com dois minutos de penalidade imediata.

Minhas pernas foram arrancadas de baixo de mim. Caí de costas no gelo com uma violência que arrancou o resto do ar dos meus pulmões. O capacete bateu com um estalo seco na superfície branca, e eu deslizei vários metros até bater com o ombro na trave de ferro do gol. A dor se espalhou em uma pontada aguda pelas minhas costelas e pelo cóccix, me deixando paralisada, piscando contra as luzes brilhantes do teto enquanto tentava puxar o oxigênio de volta.

O apito de Ashley soou, agudo e estridente, quebrando o silêncio atordoado do ginásio.

Ela patinou até mim rapidamente. Não parecia culpada; parecia transtornada, uma mistura doentia de adrenalina e urgência que eu não conseguia decifrar. Ela largou o próprio taco no gelo com um estalo oco e se ajoelhou ao meu lado, tirando as luvas em um movimento rápido e jogando-as sobre o gelo antes de se inclinar sobre mim.

— Anne! — a voz dela perdeu a dureza por um segundo, soando quase em pânico. — Hey, are you okay?

Suas mãos nuas, quentes pelo esforço físico, foram direto para as laterais do meu rosto. Ela segurou minhas bochechas com uma intimidade desesperada, os dedos pressionando a pele fria que queimava pelo impacto da queda. Seus olhos vasculhavam o meu rosto com uma intensidade febril, tão perto que pude sentir o calor do suor e da respiração dela contra os meus lábios entreabertos.

— Look at me. Did you hit your head? — sussurrou ela, com a voz embargada por algo que parecia carinho, mas que para mim soava como puro veneno. — Talk to me, Anne. Please.

Aquele toque. Aquele olhar descarado na frente do rinque inteiro. A invasão completa do meu espaço pessoal.

Uma onda violenta de repulsa e raiva me deu forças para agir. Com um empurrão brutal dos meus antebraços acolchoados, bati contra o peito de Ashley, afastando-a com tanta força que ela teve que apoiar as mãos no gelo para não cair sentada.

— Get your hands off me! — gritei, a voz ecoando pelas vigas de aço do teto alto, alta o suficiente para fazer todas as jogadoras pararem imediatamente o que estavam fazendo e olharem em choque na nossa direção.

— Anne, I was just checking... — tentou dizer Ashley, a expressão mudando de choque para uma dor machucada, como se a minha rejeição ardesse mais do que qualquer golpe físico.

— Don't touch me! Ever! — disparei, apoiando a mão na trave do gol para me levantar trôpega, ignorando a pontada de dor que queimava nas minhas costelas. As lágrimas de pura frustração e raiva ameaçavam arder nos meus olhos, mas me forcei a engoli-las a seco. — You tripped me on purpose because you couldn't take losing a drill! And now you act like this? You’re sick, Ashley! Stay the hell away from me!

Peguei meu taco caído no gelo com um movimento brusco, passei por ela sem olhar para trás e patinei em direção ao banco de reservas com passos pesados e trôpegos.

— Anne, wait! — gritou ela, levantando-se rapidamente do gelo, mas a voz dela vacilou quando percebeu que as outras doze meninas da equipe estavam paradas na quadra, encarando a cena em um silêncio absoluto e constrangedor.

Passei pela portinhola de madeira do banco, bati a tranca com toda a força e marchei pelo piso de borracha do túnel dos vestiários sem tirar os patins. A lâmina afiada cortava o tapete protetor a cada passada furiosa. Eu estava farta. Farta dos olhares, farta daquele jogo doentio de aproximação e violência, farta de ser tratada como se fosse um quebra-cabeça que ela tinha o direito de desmontar.

Cheguei ao vestiário vazio, arranquei o capacete com um puxão raivoso e o arremessei contra o banco de madeira. O metal e o plástico ecoaram como um tiro no espaço fechado.

Apoiei as mãos na pia fria de aço escovado do banheiro, encarando meu reflexo no espelho manchado. Minhas bochechas estavam vermelhas de frio e adrenalina, meu cabelo preso estava desgrenhado e meus lábios tremiam levemente. Eu tinha apenas quatorze anos. Eu só queria jogar hóquei, rir com meus amigos na hora do almoço e tentar a sorte com algum garoto engraçado do time de futebol na primavera.

Eu não queria a atenção sufocante de uma veterana descontrolada que não sabia aceitar um não.

A porta do vestiário se abriu devagar. O trinco fez o mesmo estalo metálico de sexta-feira.

Virei-me num sobressalto, os punhos fechados ao lado do corpo, pronta para gritar com a pessoa que estivesse ali. Mas não era Ashley.

Era a treinadora Miller, que acabara de chegar com a pasta de couro debaixo do braço, o semblante carregado de uma severidade gélida que congelou o resto do ar na sala. Ela olhou para o capacete jogado no chão, olhou para a minha respiração descompassada e cruzou os braços sobre o peito largo de sua jaqueta oficial da escola.

— Do you want to tell me what’s going on out there, Miller? — perguntou a treinadora, com a voz firme, em um tom que não admitia meias-verdades. — Because from where I’m standing, my two best forwards look like they’re about to tear this entire program apart before the season even begins.

Engoli em seco, sentindo o peso daquela pergunta esmagar meus ombros. Do lado de fora, no corredor silencioso, a sombra de alguém parado além do vidro fosco da porta revelava que Ashley ainda estava ali. Ouvindo. Esperando. Recusando-se, obstinadamente, a sair do meu caminho.

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