Hockey
Fogo Sob o Gelo
O silêncio que se instalou no vestiário feminino parecia mais denso do que a própria nevasca que rugia lá fora. O cheiro de borracha queimada, gelo derretido e suor pairava no ar úmido enquanto a treinadora Miller continuava plantada diante de mim, com a prancheta de metal presa sob o braço musculoso e os olhos semicerrados em uma mistura de decepção e autoridade inabalável.
Minhas mãos ainda tremiam. As costelas latejavam a cada respiração funda e o gosto de fel na minha garganta tornava quase impossível formular uma resposta que não revelasse o abismo assustador em que minha rotina havia se transformado.
Como eu poderia explicar aquilo? Como uma garota de quatorze anos explicaria para a treinadora do time do ensino médio que a melhor atacante veterana da escola não estava apenas cometendo faltas graves no gelo, mas estava desenvolvendo uma obsessão romântica sufocante, tocando meu rosto e ignorando todas as barreiras do bom senso? Dizer a verdade parecia uma sentença de humilhação pública.
— She tripped me on purpose, Coach — disse eu em voz baixa, puxando o ar com dificuldade e apontando o queixo na direção do corredor. — It wasn’t a drill. She hooked my skate from behind. She’s dangerous out there.
A treinadora Miller deu um passo à frente, soltando um suspiro pesado que fez as pontas do seu casaco acolchoado oscilarem.
— I saw the fall, Anne — respondeu ela, a voz firme e cortante. — But I also saw the way you shoved her off. And I saw you screaming at her like you were about to throw punches. This isn’t a street fight. This is varsity hockey.
Antes que eu pudesse tentar me defender, a porta de ferro dos fundos rangeu. A sombra no vidro fosco se moveu e Ashley entrou no vestiário com a calma calculada de quem sabia perfeitamente como manipular qualquer situação.
Ela ainda usava o uniforme de treino preto, mas já havia tirado o capacete, deixando os cabelos castanhos presos no rabo de cavalo alto, alguns fios colados na testa úmida de suor. Não havia vestígio da vulnerabilidade desesperada de minutos atrás, quando ela havia segurado meu rosto no rinque. No lugar daquela fraqueza febril, havia a máscara gélida e arrogante da veterana intocável.
— It was an accident, Coach — mentiu Ashley com uma naturalidade desarmante, aproximando-se sem sequer vacilar os olhos na minha direção. — She lost an edge trying to protect the puck. I reached out to break her fall, but she freaked out and shoved me. She’s overreacting.
O sangue subiu quente para as minhas têmporas. A cara de pau daquela garota não tinha limites.
— You're lying! — gritei em inglês, dando um passo involuntário na direção dela, esquecendo a dor que irradiava das minhas costelas. — You put your stick between my legs! And you touched me! You grabbed my face!
A treinadora Miller bateu a prancheta de metal com força contra um dos armários de aço. O estrondo ecoou pelas paredes de concreto como um tiro de advertência, fazendo nós duas congelarmos no lugar.
— Enough! Both of you! — vociferou a treinadora, o tom de comando fazendo o vestiário tremer. — I don’t give a damn about your personal drama. You two are supposed to be my top scoring line against St. Jude's this Friday! If you can’t act like teammates, I will bench both of you for the entire tournament. Am I making myself clear?
A simples menção de ficar no banco contra o colégio rival St. Jude’s fez meu estômago despencar. O hóquei era a minha vida inteira. Eu tinha sacrificado manhãs de sábado, enfrentado o frio congelante de Alberta e suportado o peso de ser a única caloura do nono ano no time principal justamente para poder jogar aquela partida.
— Yes, Coach — murmurei, engolindo a fúria e o orgulho, fitando o chão emborrachado.
— Crystal clear, Coach — respondeu Ashley, a voz suave demais, quase zombeteira.
A treinadora nos encarou por longos dez segundos, julgando se nossa rendição era genuína, antes de ajeitar a bolsa esportiva no ombro.
— Good. Because the two of you are going to clean the rink equipment room tonight — disparou a treinadora Miller, caminhando em direção à porta de saída. — You will tape the spare sticks, restock the puck crates, and you won’t leave this building until you learn how to stand in the same room without killing each other.
A porta se fechou atrás dela com uma batida seca.
O pânico foi instantâneo. Olhei para Ashley como se ela fosse uma bomba-relógio prestes a explodir. Ficar trancada sozinha com ela, na mesma sala estreita onde ela havia tentado me prensar contra a prateleira na sexta-feira passada, era meu pior pesadelo.
— I’m not doing this — declarei em inglês, virando as costas e marchando em direção ao meu armário para pegar minha mochila pesada. — I'm going home.
Ashley não perdeu tempo. Com dois passos largos e atléticos, ela se posicionou na frente da porta principal, cruzando os braços sobre o peito e apoiando as costas largas na madeira espessa, bloqueando a saída da mesma forma irritante de sempre.
— If you walk out, she benches you, rookie — disse ela, com um sorriso de canto que fazia meu estômago revirar de ódio. — And we both know you’d die before missing Friday’s game.
— Get out of my way, Ashley. I swear to God...
— Or what? — provocou ela, dando um passo à frente, diminuindo a distância até que eu pudesse sentir o cheiro característico do sabonete cítrico que ela usava misturado à maresia fria do rinque. — You’re gonna scream again? Cry for help? Come on, Anne. We have work to do.
Aproximei-me, mantendo a postura mais rígida e fria que consegui reunir, encarando os olhos castanhos que pareciam vasculhar cada milímetro do meu rosto em busca de uma brecha.
— We do the work in total silence — exigi, a voz firme, embora meus punhos estivessem cerrados com tanta força nos bolsos do casaco que as unhas cravavam na palma das mãos. — You don’t speak to me. You don’t touch me. And you stay on your side of the room. Deal?
Ashley deu uma risada baixa, um som áspero que me causou um arrepio desconfortável na nuca. Ela descruzou os braços e deu um passo para o lado, abrindo espaço para que eu passasse.
— Whatever you say, little girl — sussurrou ela enquanto eu passava por ela como um vendaval, desviando o ombro para não encostar no tecido do uniforme dela.
Os quarenta minutos seguintes foram uma tortura silenciosa. A sala de equipamentos ficava nos fundos do complexo esportivo, um espaço apertado cercado por grades de metal, prateleiras cheias de caneleiras desgastadas e caixotes de plástico preto cheios de discos vulcanizados. A luz fluorescente zumbia no teto, piscando em intervalos irregulares, banhando o ambiente em um tom pálido e hospitalar.
Eu me concentrei obstinadamente na minha tarefa. Peguei um rolo de fita adesiva preta e comecei a enrolar as lâminas dos tacos reservas com um ritmo mecânico, sem erguer a cabeça nenhuma vez. Minhas mãos trabalhavam rápido, mas eu podia sentir a presença de Ashley queimando no ar rarefeito.
Ela não estava trabalhando no ritmo normal. Ela empilhava os discos com uma lentidão deliberada, arrastando as caixas pesadas apenas para se posicionar cada vez mais perto de onde eu estava encostada na bancada de trabalho. A cada movimento que eu fazia, eu sentia o peso do olhar dela cravado em mim.
Era uma atenção invasiva, doentia em sua persistência. Eu tinha apenas quatorze anos; eu gostava de meninos, gostava de pensar em garotos desajeitados da minha turma, de conversar com meus amigos no almoço sobre filmes e videogames. A forma como Ashley me olhava carregava uma urgência adulta e faminta que me aterrorizava porque eu não tinha ferramentas emocionais para lidar com aquilo sem querer fugir para o mais longe possível.
— Your hands are shaking — a voz dela cortou o zumbido da lâmpada, repentina e próxima demais.
Dei um sobressalto e recuei meio passo, batendo a base da coluna contra a mesa de madeira. Ashley havia parado a menos de meio metro de distância, segurando um taco que precisava de reparos. Os olhos castanhos dela estavam fixos nos meus dedos.
— I'm fine — respondi em inglês, fria e ríspida, puxando outro pedaço de fita adesiva com um estalo seco. — Keep working so we can get out of here.
Ashley não se moveu para pegar a fita. Em vez disso, colocou o taco de lado sobre a mesa, apoiando as duas mãos espalmadas na borda de madeira, uma de cada lado do meu quadril, prendendo-me efetivamente no pequeno vão entre o móvel e o corpo dela.
Meu coração saltou para a garganta. O pânico gelado voltou com força total.
— Back off, Ashley! — sibilei, tentando empurrá-la pelos ombros com as palmas das mãos, mas ela mal se moveu, mantendo o peso firme e as pernas plantadas no chão.
— Why are you so angry at me? — perguntou ela, a voz descendo para um sussurro rouco, quase suplicante, uma contradição assustadora com a força física com que ela me encurralava. — I checked on you because I was worried. When you fell... my chest hurt, Anne. I hate seeing you on the ground.
Olhei para ela incrédula, sentindo o ardor da indignação queimar sob a pele do meu rosto.
— You put me on the ground! — gritei, a respiração batendo quente no espaço minúsculo entre nossos narizes. — You tripped me! Are you completely out of your mind?!
— I lost control because you don't look at me! — rebateu ela, os olhos brilhando com uma intensidade desesperada que me fez gelar a espinha. Ela inclinou o rosto um centímetro para mais perto, e pude ver a textura da pele dela, o arfar acelerado de sua respiração. — On the ice, you ignore my passes. In the halls, you act like I'm invisible. I’m tired of being ignored by you.
— Because you're a girl, Ashley! — disparei, sem medir as palavras, tentando perfurar aquela névoa de loucura obstinada com a verdade mais óbvia do mundo. — I am not interested! I will never be interested! I like guys! Can’t your thick skull understand that?!
Por uma fração de segundo, a máscara de confiança inabalável de Ashley rachou. Uma sombra de mágoa crua e ferida passou pelos olhos dela, mas foi rapidamente substituída por uma teimosia furiosa. Ela ergueu a mão direita devagar, não para me bater, mas para alcançar a lateral do meu pescoço.
A ponta dos dedos dela roçou minha pele logo abaixo da orelha. O toque era quente, elétrico e repulsivo para mim; cada fibra do meu corpo gritava em rejeição absoluta àquele contato.
— You don’t know what you want yet — murmurou ela, a voz trêmula de uma convicção cega, o olhar caindo pesadamente sobre os meus lábios. — You just need to stop fighting it. Just let me show you...
Ela se inclinou para a frente.
A sensação de iminência de um beijo indesejado disparou todos os meus instintos de autopreservação. Em um movimento reflexo e desesperado, puxei o rolo de fita adesiva que ainda estava na minha mão esquerda e bati com a ponta plástica dura contra o peito dela, empurrando com todo o peso do meu corpo e girando o quadril para escapar pela lateral antes que os braços dela pudessem me fechar novamente.
Ashley tropeçou para o lado, batendo a coxa na beirada da mesa com um gemido baixo de surpresa.
— Anne, stop! — gritou ela, virando-se rapidamente para tentar me segurar pela manga do casaco.
Seus dedos chegaram a roçar o tecido térmico da minha blusa, mas eu já estava em movimento. Agarrei minha mochila de equipamentos que estava no chão perto da porta, chutei a grade de ferro para abri-la e disparei em direção ao corredor iluminado do complexo.
— Don't you dare run away from me! — o grito dela ecoou pelas paredes metálicas, cheio de raiva e frustração desmedida.
Eu não parei. Corri como se minha vida dependesse daquela fuga. Meus tênis derrapavam nas placas de linóleo molhadas pelo degelo das botas de outros alunos que já haviam ido embora. Atravessei o saguão principal, empurrei as pesadas portas automáticas com o corpo inteiro e caí na escuridão congelante do início da noite de Alberta.
O vento ártico me atingiu no peito como um muro de gelo, arrancando o ar dos meus pulmões e fazendo meus olhos arderem instantaneamente. Flocos grossos de neve rodopiavam furiosos sob as luzes alaranjadas dos postes da rua, acumulando-se nas calçadas desertas. Aqueceu-me apenas a certeza de que, pelo menos ali fora, ela não podia me tocar.
No dia seguinte, a terça-feira amanheceu sob uma tempestade de inverno rigorosa. O termômetro da Saint Patrick High marcava vinte e cinco graus negativos, e as janelas dos corredores estavam cobertas por uma camada grossa de geada que distorcia a paisagem exterior em padrões de gelo branco.
Passei a manhã inteira em estado de alerta máximo. Toda vez que ouvia o bater de um armário ou o som ritmado de passos pesados no corredor, meu estômago dava um nó. Eu me mantive colada aos meus amigos do nono ano, rindo de piadas que mal conseguia registrar e fingindo normalidade enquanto meu olhar vasculhava as esquinas das alas escolares em busca da silhueta imponente de Ashley.
No intervalo do almoço, encontrei um breve refúgio na biblioteca. Eu estava sentada em uma mesa afastada nos fundos, perto das prateleiras de literatura histórica, tentando terminar um relatório de ciências, quando Ethan puxou a cadeira à minha frente.
Ethan tinha quinze anos, cursava o décimo ano e jogava como meio-campo no time juvenil de futebol durante o outono. Ele era gentil, tinha cabelos castanhos ondulados sempre bagunçados pela touca de lã e um sorriso tímido que fazia minhas bochechas esquentarem de um jeito saudável e comum. Ele era exatamente o tipo de garoto que ocupava os meus pensamentos inocentes de adolescente.
— Hey, Anne — disse ele em inglês, apoiando os braços na mesa de madeira e abrindo um sorriso simpático. — You look exhausted. Rough practice yesterday?
Respirei fundo, sentindo uma onda genuína de alívio por ouvir uma voz normal, sem segundas intenções tóxicas.
— You have no idea — respondi, sorrindo de volta e empurrando o caderno para o lado. — Between drills and Coach Miller’s punishments, my legs feel like jelly.
Ethan soltou uma risada baixa, prestando atenção nas minhas palavras com aquele interesse doce e despretensioso que eu adorava.
— Well, some of the guys from the soccer team are getting hot chocolate at the diner near the arena after school tomorrow — disse ele, coçando a nuca com um leve rubor nas orelhas. — I was wondering if you wanted to come along? You know... just hang out. Away from the cold.
Meu coração deu um salto leve no peito, mas desta vez de uma expectativa agradável e borboletas no estômago. Era um convite normal. Um encontro casual entre garotos da minha idade.
— I’d love to, Ethan — respondi, sentindo um peso invisível começar a se dissipar dos meus ombros. — Practice ends at four, so I can totally make it.
O sorriso dele se alargou, pronto para combinar os detalhes, quando uma sombra densa caiu sobre a nossa mesa, bloqueando a luz da lâmpada de leitura.
O ar congelou.
Ashley estava parada ao lado da mesa. As mãos estavam enfiadas nos bolsos da jaqueta vermelha e preta do time escolar, a postura relaxada, mas com os ombros travados em uma tensão agressiva. Os olhos castanhos dela queimavam, não com a raiva de uma capitã de hóquei, mas com uma fúria gélida e possessiva que fez o sorriso de Ethan morrer instantaneamente nos lábios.
— Am I interrupting something? — a voz de Ashley saiu baixa, quase um ronco contido, pingando sarcasmo puro.
Ethan piscou, surpreso pela presença repentina da veterana mais temida do colégio.
— Uh, no... we were just talking about after school — gaguejou o garoto, ajeitando a touca na cabeça, intimidado pela presença física superior de Ashley.
Ashley inclinou a cabeça de lado, dando um passo lento para a frente, diminuindo a distância até que sua sombra cobrisse Ethan quase por completo.
— She has team meetings after school — mentiu Ashley descaradamente, os olhos cravados nele com uma frieza cruel. — She doesn’t have time to drink cocoa with JV benchwarmers. Beat it, kid.
Ethan arregalou os olhos, chocado pela grosseria gratuita, e olhou para mim em busca de alguma explicação.
— Ashley, stop it! — disparei em inglês, levantando-me da cadeira tão rápido que as pernas de madeira rangeram alto contra o chão encerado da biblioteca, atraindo o olhar reprovador da bibliotecária ao longe. — You don’t tell me what to do! Ethan, don't listen to her.
Ashley nem piscou. Ela deu mais meio passo na direção de Ethan, inclinando o corpo sobre a mesa com uma agressividade palpável.
— I said walk away — sibilou ela, com a mandíbula travada. — Now.
Ethan engoliu em seco. A atmosfera estava tão sufocante que ele não hesitou; recolheu a própria mochila às pressas, murmurou um pedido de desculpas desconexo para mim e saiu apressado pelo corredor estreito de livros, abandonando a biblioteca sem olhar para trás.
A raiva me cegou por completo.
— What the hell is wrong with you?! — gritei em um sussurro furioso, marchando até ficar a poucos centímetros do peito de Ashley. — Why do you keep ruining everything?! Leave me and my friends alone!
Ashley não recuou. Seus olhos vasculhavam o meu rosto com uma mistura perigosa de ciúme descontrolado e triunfo doentio. Ela aproveitou o espaço vazio entre as prateleiras de livros antigos, deu um passo rápido e me prensou contra a madeira sólida da estante às minhas costas. O impacto seco fez alguns volumes de capa dura vibrarem nas prateleiras acima da minha cabeça.
Ela colocou os dois antebraços de cada lado do meu rosto, cercando-me contra a madeira, o corpo dela tão próximo que pude sentir o calor que emanava do seu peito através da grossura das roupas de inverno.
— You don’t actually like him — murmurou ela em inglês, a voz saindo baixa, tensa e afiada como uma lâmina de aço recém-afiada. — You’re just talking to that loser to get on my nerves.
— I like him a hundred times more than I will ever like you! — cuspi as palavras, com as lágrimas de ódio ameaçando queimar meus olhos, mas mantendo a voz tão cortante quanto conseguia. — I am not yours, Ashley! I will never be yours! Get your hands away from me!
Em vez de se afastar com a rejeição violenta, a intensidade no olhar de Ashley pareceu dobrar. Ela desceu a mão direita devagar, ignorando a minha resistência desesperada, e segurou a lateral do meu queixo com os dedos firmes. O polegar dela pressionou a pele fria da minha mandíbula, forçando meu rosto a permanecer erguido, encarando os olhos dela que pareciam queimar em febre.
— Look at me, Anne — sussurrou ela, inclinando-se para a frente, tão perto que senti a respiração dela quebrando contra os meus lábios em um arfar quente. — Say that again looking right into my eyes. Say you feel nothing when I touch you.
O pavor e a revolta explodiram no meu peito. Eu não podia mais suportar aquilo.
Com um puxão brusco da cabeça para o lado, livrei meu queixo do aperto dos dedos dela. No mesmo segundo, juntei as forças que tinha e usei o joelho em uma alavanca rápida contra a coxa de Ashley, empurrando o peito dela com as duas palmas das mãos abertas ao mesmo tempo.
Ashley perdeu o equilíbrio no piso encerado e cambaleou para trás, esbarrando na estante oposta com um baque surdo de madeira.
— Don't you dare touch me again! — gritei, a voz ecoando alto o suficiente para fazer passos apressados soarem do outro lado da biblioteca.
Aproveitei o segundo de hesitação e a dor temporária que ela sentia no impacto da coxa para escapar do cerco. Agarrei meus livros que haviam ficado na mesa, dei as costas para ela e disparei pelo corredor da biblioteca.
— Anne, wait! — o chamado dela ecoou atrás de mim, cheio de urgência e frustração, mas eu não diminuí o passo.
Passei correndo pelas portas de vidro do espaço de estudos, ignorei o aviso da bibliotecária que tentava me repreender e continuei em disparada pelo corredor cheio de alunos que se preparavam para a última aula da tarde. O ar frio que entrava pelas frestas das janelas não era suficiente para esfriar a queimação de pânico que subia pelo meu pescoço.
Eu sabia que sexta-feira estava chegando. Sabia que teríamos o jogo crucial contra St. Jude's, onde estaríamos dividindo o mesmo gelo, o mesmo uniforme e o mesmo objetivo. Mas, enquanto eu corria desesperada em direção à segurança da minha sala de aula, percebi que a verdadeira batalha não seria contra o time adversário.
A verdadeira tempestade estava patinando logo atrás de mim, implacável, obstinada e decidida a quebrar cada defesa que eu construísse.