Hockey
Ponto de Ruptura
A sexta-feira chegou arrastando uma das piores nevascas daquele inverno sobre as estradas secundárias de Alberta. As rajadas de vento sopravam a quase oitenta quilômetros por hora, atirando agulhas de gelo contra a fachada de concreto da Saint Patrick High e sacudindo as vigas do teto abobadado do complexo esportivo. As aulas haviam sido encerradas mais cedo para que os alunos não ficassem presos nas estradas, mas as arquibancadas de madeira do ginásio estavam lotadas. O clássico regional contra a St. Jude’s Academy era uma tradição feroz, e ninguém na cidade perderia aquele confronto por causa de alguns palmos de neve acumulada.
No vestiário feminino, o ar estava saturado pelo cheiro forte de cânfora, suor seco e o aroma metálico característico das lâminas de patins recém-afiadas. Ninguém conversava em voz alta. O som predominante era o barulho seco de fitas adesivas sendo rasgadas, fivelas de capacetes estalando e as ordens curtas da treinadora Miller, que desenhava esquemas táticos frenéticos na lousa magnética fixada na parede de blocos de concreto.
Eu estava sentada no banco de madeira, concentrada em passar uma nova camada de fita branca na lâmina do meu taco. Minhas mãos estavam frias, mas o coração batia num ritmo acelerado de pura ansiedade. Eu queria aquele jogo. Queria provar que a garota de quatorze anos, recém-saída do nono ano, merecia a camisa titular número doze da equipe principal.
O único problema real estava sentado a menos de três metros de mim.
Ashley terminava de ajustar as tiras das suas caneleiras com uma calma quase insolente. Ela não parecia nem um pouco nervosa com o clássico; na verdade, parecia faminta. O uniforme vermelho e preto caía perfeitamente nos seus ombros largos, e o cabelo castanho escuro estava preso tão firme que esticava a pele ao redor dos olhos penetrantes.
Desde o incidente na biblioteca na terça-feira, eu havia me esquivado de todas as tentativas dela de me encontrar a sós. Não respondi aos recados que ela mandou através de outras garotas, mudei meu caminho entre as aulas e passei os intervalos cercada pelo grupo da Chloe e do Lucas. Eu sabia que estava fugindo, mas era a única linha de defesa que eu tinha contra aquela insistência sufocante.
Ashley, no entanto, agia como se soubesse que, no final das contas, o gelo sempre nos traria de volta ao mesmo metro quadrado.
— Miller! Foster! — a voz grave da treinadora Miller cortou os meus pensamentos, fazendo eco nas telhas metálicas do teto. Ela bateu o giz contra a lousa, apontando para a representação da zona de ataque. — I don’t care about whatever petty grudge you two have off this rink. Tonight, you are my first forward line. St. Jude’s plays a physical, suffocating trap in the neutral zone. Anne has the speed to break it; Ashley has the muscle to keep the puck on the boards. If you don't connect on those passes, we lose this tournament. Do you understand me?
— Yes, Coach — respondi de imediato, sem hesitar.
Ashley ergueu o queixo, sustentando o olhar da treinadora com uma frieza inabalável.
— We won’t lose, Coach — disse ela, a voz baixa e segura, antes de desviar lentamente os olhos castanhos na minha direção. — She just needs to follow my lead.
Apertei os dedos ao redor do cabo do taco com tanta força que o couro das minhas luvas rangeu. Eu não precisava seguir a liderança de ninguém; eu sabia exatamente o que fazer com um disco no rinque.
Quando a treinadora liberou o time para a entrada em quadra, o barulho ensurdecedor da torcida explodiu pelos alto-falantes do ginásio. O calor das pessoas amontoadas contrastava com a névoa fria que subia da superfície do gelo recém-preparado. As jogadoras da St. Jude’s já estavam na pista, vestindo uniformes verde-escuros e patinando com a agressividade pesada que lhes era característica.
Antes de pisar na borracha do túnel de acesso ao rinque, senti uma mão firme agarrar o tecido espesso da minha camisa oficial na altura da omoplata.
Fui puxada para trás de supetão, batendo as costas contra a mureta que delimitava o banco de reservas. Virei o rosto em pânico, já sabendo exatamente quem era.
Ashley estava colada a mim. O capacete dela já estava afivelado, mas a grade metálica não escondia a intensidade perturbadora que faiscava no fundo dos seus olhos. Ela usou o próprio antebraço para manter a pressão contra o meu peito, inclinando-se até que o hálito quente de hortelã tocasse a pele sensível do meu pescoço, por cima da gola térmica.
— Don't do that! — sussurrei em inglês, empurrando a luva dela para longe com o meu taco. — People are looking!
— Let them look — respondeu ela, a voz saindo quase num rosnado baixo, sem recuar um único milímetro. Os olhos dela percorreram meu rosto, demorando-se nos meus lábios antes de subir para as minhas sobrancelhas franzidas. — You’ve been running from me all week, Anne. But you can't run out there. We’re on the same line. You move with me, or we drown together.
— I play for the team, Ashley. Not for you — rebati entre dentes, sentindo a raiva queimar no peito e espantar momentaneamente o medo constante que ela me causava. — Back off and do your job.
Ela soltou um riso curto, um som áspero e sem diversão alguma, antes de deslizar a luva pesada pela lateral da minha cintura até a barra da camisa, apertando o tecido em um gesto possessivo que fez meu estômago se contorcer em pura aversão.
— We’ll see about that, rookie — murmurou ela, afastando-se um passo e derrapando com elegância sobre o gelo em direção ao círculo central.
Eu respirei fundo três vezes, tentando expulsar a sensação pegajosa daquele toque indesejado, e patinei para a minha posição na ponta direita.
O primeiro período foi uma guerra de trincheiras. A equipe da St. Jude’s não dava espaço. Suas defensoras jogavam no limite da brutalidade, usando as bordas do acrílico para esmagar qualquer jogadora que tentasse carregar o disco pela zona neutra. Minhas pernas trabalhavam no limite da velocidade; o ar gelado rasgava meus pulmões a cada arrancada, e eu já sentia as marcas das trombadas latejando sob os protetores plásticos.
Apesar de todo o veneno que existia fora do rinque, jogar com Ashley era uma experiência desconcertante. Ela lia o gelo com uma genialidade selvagem. Toda vez que duas defensoras rivais tentavam me encurralar no canto, Ashley surgia como um trator, usando o corpo inteiro para bloquear os choques e cavar o disco para mim. E toda vez que ela recebia a marcação dupla, eu antecipava seus giros, patinando nas costas da zaga para receber o passe milimétrico.
Éramos uma força devastadora juntas. Mas cada momento de celebração esportiva se tornava um pesadelo pessoal.
Aos doze minutos do segundo período, roubei a posse na linha azul adversária. Girei sobre as lâminas com uma finta curta, cortei para o centro e soltei um passe cruzado perfeito para Ashley, que entrava em velocidade pela ala esquerda. Ela não hesitou: acertou um disparo de primeira que explodiu no ângulo superior da goleira da St. Jude’s.
A sirene tocou estridente. O ginásio veio abaixo em gritos e aplausos ensurdecedores. Placar: um a zero.
Eu levantei o taco no ar, sorrindo pelo sucesso da jogada coletiva, mas meu sorriso morreu no instante seguinte.
Ashley não patinou até o banco para cumprimentar o resto da equipe. Ela veio direto na minha direção, com uma velocidade cega, colidindo contra mim em um abraço violento que quase me derrubou no gelo. Ela passou os dois braços acolchoados ao redor da minha cintura, erguendo meus patins alguns centímetros do chão enquanto girava nossos corpos em meio à comemoração.
— I told you! — gritou ela contra a grade do meu capacete, a respiração entrecortada e febril, pressionando o corpo dela contra o meu com uma intimidade descarada e desnecessária. — You and me, Anne! Nobody can stop us!
O contato era sufocante. A torcida achava que era pura euforia de time, mas eu sentia a força descomunal com que os dedos dela apertavam minhas costelas, a urgência de quem tentava me prender e não me soltar nunca mais.
— Put me down, Ashley! — gritei em inglês, batendo as luvas contra as ombreiras dela com força até que as lâminas dos meus patins tocassem o gelo novamente. — Stop doing this! Let me go!
Ela me soltou devagar, os lábios entreabertos desenhando um sorriso desafiador, ignorando completamente a repulsa evidente nos meus olhos. As outras meninas do time chegaram derrapando para nos cercar com tapinhas nos capacetes e comemorações ruidosas, quebrando aquele momento claustrofóbico antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa.
A partida, no entanto, estava longe de ser pacífica. Irritadas pela desvantagem no placar, as jogadoras da St. Jude’s começaram a apelar para a violência deliberada.
No terceiro período, com apenas cinco minutos restantes no cronômetro e o jogo ainda em um a zero, a situação descarrilou.
Recebi um disco rebatido na zona neutra e comecei a arrancada em direção ao gol rival. Eu estava focada na trajetória do puck quando a zagueira capitã da St. Jude’s — uma garota enorme do último ano, conhecida por sua agressividade desleal — cruzou a pista em uma velocidade cega. Ela não tentou disputar o disco; veio com o cotovelo erguido na altura da minha cabeça em um golpe ilegal de ponto cego.
O impacto foi devastador.
O cotovelo rígido dela acertou a lateral do meu capacete com o peso de uma marreta. O estalo seco reverberou dentro do meu crânio. O mundo girou em um borrão cinzento de luzes e sombras enquanto eu era arremessada no ar, caindo de lado no gelo duro. Minha cabeça quicou na superfície congelada e meu taco escorregou para longe.
Fiquei estatelada, sem ar, com o zumbido agudo perfurando meus tímpanos e uma dor lancinante irradiando pelo lado esquerdo do meu rosto e pescoço.
O apito dos árbitros começou a soar freneticamente, mas o apito não foi capaz de impedir o que veio a seguir.
Do outro lado da linha vermelha, Ashley viu a queda.
Ela não hesitou uma fração de segundo. Seus olhos se arregalaram em uma fúria animal, uma expressão tão descontrolada e aterrorizante que paralisou as jogadoras mais próximas. Ashley arrancou com passadas monstruosas, cortando o gelo em uma aceleração selvagem, e atirou as duas luvas no chão antes mesmo de alcançar a capitã adversária.
— You're dead! — o grito de Ashley cortou o barulho ensurdecedor da torcida como um trovão.
Ela atropelou a defensora da St. Jude’s com o ombro, derrubando a garota de costas no gelo. Antes que a adversária pudesse sequer erguer os braços para se proteger, Ashley já estava montada sobre ela, agarrando a gola da camisa verde e desferindo socos violentos com as mãos nuas contra o capacete e a grade da rival.
— You don't touch her! — berrava Ashley, completamente cega de ódio, o rosto contorcido em uma fúria psicótica. — Nobody touches what's mine! I’ll break your neck, you hear me?!
O rinque virou um caos absoluto. As jogadoras dos dois bancos invadiram a pista, empurrando-se em um princípio de briga generalizada. Dois árbitros masculinos tiveram que se jogar sobre Ashley para tentar conter os golpes desmedidos dela, mas ela se debatia com uma ferocidade insana, chutando o gelo e tentando acertar a rival a qualquer custo.
— Get off her! Seven, that's a match penalty! You're out! — gritava o juiz principal, segurando os braços de Ashley por trás com a ajuda de outro bandeirinha.
Eu tentei me sentar, apoiando as mãos enluvadas na superfície fria enquanto a treinadora Miller e a médica da escola chegavam correndo para me socorrer. Minha cabeça latejava em ondas de náusea, mas a visão da violência desenfreada de Ashley me gelou muito mais do que a pancada que eu acabara de sofrer.
Aquelas palavras não saíam da minha mente: *Nobody touches what's mine.*
Ela achava que era dona da minha vida. Achava que tinha o direito de me reivindicar diante de centenas de pessoas, disfarçando sua loucura de proteção e lealdade.
— Are you with me, Anne? How many fingers? — perguntava a médica da escola, segurando uma pequena lanterna diante dos meus olhos atordoados.
— Three — murmurei em inglês, balançando a cabeça de leve para afastar a vertigem. — I'm fine... my neck just hurts.
— You’re done for the night. Sit down on the bench — ordenou a treinadora Miller, visivelmente estressada enquanto olhava para a confusão que ainda se desenrolava na zona neutra.
Com a ajuda da médica, consegui me levantar e patinar trôpega até a saída lateral. Enquanto eu cruzava a portinhola, Ashley estava sendo escoltada à força pelos dois juízes em direção ao túnel dos vestiários. O capacete dela havia caído; seu nariz sangrava levemente por causa de um corte acidental e os cabelos estavam soltos, caindo desgrenhados sobre os olhos que pareciam chamas acesas na escuridão.
Quando nossos olhares se cruzaram, ela parou de se debater com os árbitros por um segundo. A fúria brutal em seu rosto se desfez em uma expressão de angústia crua, desesperada, quase infantil em sua intensidade doentia. Ela tentou dar um passo na minha direção, ignorando as ordens dos juízes.
— Anne! Are you hurt?! — a voz dela soou rouca, trêmula de desespero. — Tell me she didn't hurt you!
Eu apenas desviei o olhar, sentindo uma pontada de pavor me atravessar, e fechei a porta do banco de reservas, recusando-me a dar a ela o que ela mais queria: minha atenção.
A partida terminou dez minutos depois. Sem Ashley e sem mim na linha de frente, a Saint Patrick recuou as linhas e segurou a vitória magra de um a zero sob vaias da torcida adversária e aplausos exaustos dos nossos colegas de escola.
Quando o apito final soou, a médica me examinou brevemente no consultório anexo ao ginásio e constatou que eu não havia sofrido uma concussão grave, apenas uma forte contusão cervical. Ela me entregou uma bolsa térmica de gelo e recomendou repouso para o fim de semana.
Eu só queria ir embora. Queria tomar um banho quente em casa, abraçar meu travesseiro e esquecer o terror silencioso daquela temporada.
Como o vestiário principal estava lotado com as meninas comemorando a vitória e a treinadora aplicando uma bronca monumental pelo excesso de penalidades, decidi pegar minhas coisas rapidamente e sair pela entrada dos fundos, onde ficava o corredor de carga e descarga do maquinário de gelo. Era um corredor estreito, mal iluminado e quase sempre deserto àquela hora da noite, perfeito para evitar qualquer conversa.
Eu caminhava devagar, com a bolsa pesada de equipamentos pendurada no ombro direito e a compressa de gelo pressionada contra a lateral do meu pescoço dolorido. Meus passos ecoavam no chão de cimento úmido.
A lâmpada amarelada no teto piscou uma vez. Duas vezes.
Uma silhueta emergiu das sombras perto da saída de emergência.
Meu coração errou uma batida. Eu parei no meio do corredor, as mãos congelando instantaneamente dentro dos bolsos da jaqueta.
Ashley ainda estava com a calça térmica do uniforme e uma camiseta regata cinza manchada de suor. Não havia jaqueta cobrindo seus ombros nus, apesar do frio cortante que entrava pelas frestas da porta de metal. Ela tinha uma toalha pequena enrolada na mão direita para estancar o sangue dos nós dos dedos esfolados na briga. O corte no nariz havia deixado uma linha vermelha seca contra a pele pálida.
Ela estava esperando por mim.
— What are you doing here? — perguntei em inglês, a voz saindo mais trêmula do que eu gostaria, dando um passo involuntário para trás. — You should be with the team. Coach is furious with you.
Ashley não respondeu de imediato. Ela deu dois passos lentos e deliberados para a frente, fechando a distância no corredor estreito até parar a menos de meio metro de mim. O cheiro de ferro do sangue e a maresia gélida emanavam dela como uma tempestade particular.
— I don’t care about the team — disse ela, a voz saindo baixa, rouca, carregada de uma gravidade que fez todos os pelos dos meus braços se eriçarem. — I saw her hit you. I saw you fall, Anne. My heart stopped.
— You got yourself suspended! — retruquei, tentando me apegar à razão para não ceder ao pânico que subia pela minha garganta. — You acted like an animal out there! What you said... telling everyone that I’m yours... are you completely crazy?!
Os olhos castanhos de Ashley se fixaram nos meus com uma certeza inabalável, sem a menor sombra de vergonha ou arrependimento. Ela deu mais meio passo, tão perto que seu peito quase encostava no meu casaco grosso.
— I meant every single word — sussurrou ela, inclinando a cabeça de lado, a respiração quente e ofegante quebrando contra a minha bochecha machucada. — Look at me, Anne. Look at what I did for you. I would tear this entire rink apart if anyone tried to lay a hand on you again.
A insistência dela parecia uma parede de concreto desmoronando sobre mim. Eu me sentia presa, sem ar, esmagada por uma obsessão que não fazia o menor sentido na minha cabeça de quatorze anos.
— Stop it, Ashley! Just stop! — disparei, as lágrimas de pura exaustão e desespero ameaçando escapar dos meus olhos enquanto eu tentava empurrá-la com a mão livre. — I don’t want you to protect me! I don’t want you to fight for me! I don't feel anything for you! Nothing!
Ashley não recuou com o empurrão fraco. Em vez disso, ergueu a mão machucada, sem se importar com a dor dos próprios nós dos dedos abertos, e tocou com cuidado a lateral do meu rosto, logo acima de onde a compressa de gelo repousava. O toque era quente, áspero pelo sangue seco, e carregava uma intimidade tão crua que fez o ar sumir dos meus pulmões.
— You're lying to yourself — murmurou ela, descendo a voz para um sussurro quase inaudível, dando mais um passo até me prensar suavemente contra a parede fria de concreto do corredor. Ela inclinou o rosto para a frente, os lábios dela a meros centímetros dos meus, os olhos fixos na minha boca com uma fome desesperada. — You felt it out there today. On the ice, we belong together. You know it. Just stop running, Anne. Just kiss me.
O pavor paralisante durou apenas uma fração de segundo.
A ideia de ser beijada por ela — por uma garota, por alguém que usava a força e a intimidação para me dobrar — disparou a repulsa mais violenta que já havia sentido na vida.
Com toda a força que restava no meu corpo dolorido, levantei a bolsa pesada de equipamentos que segurava no ombro e bati com a lateral acolchoada diretamente contra o peito e o queixo de Ashley.
O impacto inesperado fez a veterana cambalear dois passos para trás no piso de concreto, perdendo o equilíbrio momentâneo e soltando um gemido abafado de dor e choque. A mão dela descolou do meu rosto no mesmo instante.
— Don't you ever come near me again! — gritei em inglês, a voz rasgando o silêncio do corredor abandonado como uma lâmina afiada.
Sem esperar por uma reação, virei as costas e bati com o ombro na barra antipânico da porta de saída de emergência. A folha pesada de metal se abriu com um estrondo violento, e eu mergulhei de cabeça na tempestade de neve que varria a calçada externa.
— Anne! — o berro desesperado de Ashley ecoou atrás de mim, engolido quase instantaneamente pelo rugido do vento cortante de Alberta.
Eu não olhei para trás. Ignorei a dor que queimava no meu pescoço, o ar a vinte e cinco graus abaixo de zero que ardia nos meus pulmões e as lágrimas geladas que congelavam nas minhas bochechas antes de tocarem o queixo. Corri com todas as minhas forças em direção às luzes brilhantes da caminhonete do meu pai, que acabava de estacionar sob a neve acumulada do outro lado da rua.
Bati a porta do passageiro com um baque surdo, trancando a trava no mesmo segundo e puxando a respiração em soluços entrecortados enquanto o aquecedor do carro começava a soprar ar morno contra o meu rosto pálido.
Pelo retrovisor coberto de geada, vi a porta do ginásio se abrir novamente.
Ashley estava lá fora, no meio da nevasca furiosa, sem casaco, enfrentando o vento polar apenas de regata e com o sangue secando nos nós dos dedos. A neve caía impiedosa sobre seus ombros enquanto ela mantinha os olhos cravados no veículo, imóvel, implacável e destruída, recusando-se a aceitar que o gelo que nos separava era espesso demais para que ela jamais conseguisse quebrar.