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Acordes Imperfeitos e Poções Desastrosas
A segunda-feira em Hogwarts deveria ser considerada um crime contra a humanidade, ou pelo menos contra a minha saúde mental. O Salão Comunal da Slytherin estava especialmente gélido naquela manhã, e o brilho esverdeado vindo do Lago Negro, que geralmente eu achava relaxante, parecia apenas zombar da minha falta de sono.
Eu estava no meio do Salão, girando a minha varinha distraidamente entre os dedos, enquanto tentava desesperadamente lembrar onde tinha enfiado o meu pergaminho de Poções. Eu sabia que o tinha terminado — ou quase terminado — depois do ensaio na Sala Precisa, mas o meu quarto era um buraco negro de meias desemparelhadas, palhetas de guitarra e livros de ficção trouxa.
— Fields, se estás à procura da dignidade, ela fugiu durante o ensaio de ontem quando tropeçaste no cabo do amplificador — a voz do Noah ecoou, vinda de trás de um exemplar do *Profeta Diário*.
— Muito engraçado, Bennett — respondi, sem olhar para trás, enquanto enfiava a mão entre as almofadas de um sofá. — Eu perdi o ensaio sobre a bile de tatu. O Snape vai transformar-me em ingredientes para o próximo caldeirão se eu aparecer de mãos vazias.
Noah baixou o jornal, revelando aquele sorriso de quem se divertia imenso com a minha desgraça.
— Procura na mala do Louis. Às vezes o Barny confunde os vossos materiais e decide que o teu pergaminho é uma cama excelente para o dia.
— O Barny não está aqui. Ele provavelmente está a assaltar o dormitório da Hufflepuff em busca de mais cachecóis — suspirei, desistindo do sofá e jogando o cabelo ruivo para trás. — Se eu morrer hoje, diz à minha mãe que eu a amo e que o Louis pode ficar com a minha coleção de discos, mas só se ele prometer não os organizar por ordem alfabética. Isso seria um insulto à arte.
— O Louis já os organizou mentalmente, Carol. Tu conheces o teu irmão — Noah levantou-se, ajeitando a gravata verde com uma perfeição que eu nunca alcançaria. — Vamos, se chegarmos atrasados, o James vai ter tempo de inventar uma nova teoria sobre como ele é o melhor batedor que a Gryffindor já viu, e ninguém merece ouvir isso logo cedo.
Caminhámos em direção às masmorras. O ar estava pesado com o cheiro de humidade e ervas secas. Quando entrámos na sala de Poções, o ambiente já estava carregado. James Sterling estava sentado num dos bancos da frente, balançando as pernas com uma energia que não condizia com as oito da manhã. Ao vê-lo, senti aquela pontada familiar no estômago — aquela que eu dizia a mim mesma ser apenas o efeito do suco de abóbora azedo, mas que o Noah insistia em chamar de "sintomas de negação".
— Olha só quem decidiu aparecer — James exclamou, virando-se para trás enquanto eu e o Noah nos sentávamos na mesa logo atrás dele e da Emma. — Pensei que tinhas sido engolida pelo caos do teu próprio dormitório, Fields.
— Quase fui, Sterling — retorqui, apoiando o queixo na mão. — Mas decidi que a tua cara de tacho era uma motivação melhor para sair da cama.
— A minha cara é um monumento nacional, devias ter mais respeito — James piscou o olho, e por um segundo, o meu cérebro esqueceu-se de como formular uma resposta sarcástica.
— Menos, James — a Emma interveio, dando uma cotovelada no irmão. — Carol, ignorando o ego inflado do meu gémeo, tu tens mel de abelha-pupa? Eu esqueci-me de passar no armário de suprimentos.
— Eu tenho — respondi, começando a vasculhar a minha mochila. — Espera... eu tinha. Acho que o Barny... não, espera.
Comecei a tirar coisas da mochila: um livro de acordes de guitarra, um par de meias (limpas, felizmente), uma palheta de metal, três penas quebradas e, finalmente, um frasco pequeno.
— Aqui — estendi o frasco, mas no processo, acabei por bater o cotovelo num tinteiro vazio que estava na beira da mesa.
O barulho de vidro a bater na madeira fez James rir.
— Tu és um perigo público, Fields. Como é que consegues tocar guitarra sem te eletrocutares ou perderes os dedos?
— Magia, James. Algo que tu, claramente, ainda estás a tentar entender como funciona — respondi, recuperando a minha compostura.
A aula de Poções foi um desastre em câmara lenta. Snape pairava sobre as mesas como um morcego gigante, distribuindo críticas como se fossem doces no Halloween. Eu estava a tentar concentrar-me na Poção de Vigor, mas o James não parava de sussurrar piadas sobre a forma como o nariz do Snape parecia inclinar-se mais para a esquerda quando ele estava irritado.
— Se ele te ouve, James, vais passar o resto do semestre a limpar entranhas de sapo com uma escova de dentes — sussurrei de volta, tentando mexer o meu caldeirão no sentido anti-horário.
— Vale a pena pelo entretenimento — ele respondeu, aproximando-se um pouco mais. — E então, o que achaste daquela melodia nova que a Sophie sugeriu no final do ensaio?
— Acho que precisa de mais distorção — respondi, esquecendo-me por um momento da poção. — Se a Emma fizer o ritmo mais pesado, eu consigo entrar com o solo de forma mais limpa.
— Eu concordo — James sorriu, e aquele sorriso era diferente do habitual. Não era para a turma, não era para o Noah. Era para mim. — Tu tens um ouvido bom, Fields. Para uma Slytherin preguiçosa.
— E tu tens uma sensibilidade musical surpreendente para um Gryffindor que acha que "alto" é sinónimo de "bom" — devolvi.
— Senhor Sterling, Senhorita Fields — a voz fria de Snape cortou o ar entre nós. — Se a vossa conversa sobre... música... é mais importante do que a integridade da vossa Poção de Vigor, talvez prefiram continuar a discussão na detenção.
James endireitou-se imediatamente, fingindo uma seriedade absoluta. Eu foquei-me no meu caldeirão, que agora emitia um fumo roxo suspeito.
— Não, senhor — dissemos em coro.
Snape olhou para o meu caldeirão com um desdém profundo.
— Menos dez pontos para a Slytherin pela incompetência da Senhorita Fields. E menos dez para a Gryffindor pelo falatório do Senhor Sterling.
Quando Snape se afastou, James olhou para mim de soslaio e sussurrou:
— Pelo menos fomos punidos juntos. É poético, não achas?
— É trágico, James. Trágico.
***
Depois das aulas, o grupo encontrou-se no pátio interno. O sol de outono estava morno, e as folhas douradas dançavam pelo chão de pedra. Sophie estava sentada num banco, com um livro de História da Magia no colo, mas parecia mais interessada em observar o movimento. Louis estava encostado a uma coluna, com os braços cruzados, observando o Noah tentar equilibrar a varinha no nariz.
— Onde estão os gémeos destruidores? — perguntei, deixando cair a minha mochila pesada ao lado da Sophie.
— O James teve de ir falar com o capitão de Quadribol e a Emma foi atrás para garantir que ele não se oferecesse para ser o batedor, o apanhador e o goleiro ao mesmo tempo — Sophie riu, fechando o livro. — Como correu Poções?
— Perdemos dez pontos cada um — respondi, bufando. — O James não consegue ficar calado por cinco minutos.
— Ele não consegue ficar calado quando está perto de ti, Carol — comentou Noah, deixando a varinha cair e apanhando-a no ar. — É uma reação química. Tipo colocar sódio na água. Explosivo e barulhento.
— Não comeces, Noah — avisei, sentindo o meu rosto aquecer. — Somos apenas amigos. E rivais de banda. E ele é irritante.
— E tu adoras — Louis disse, com aquela voz calma que sempre parecia carregar o peso da verdade absoluta.
Olhei para o meu irmão. Ele não estava a sorrir, mas havia um brilho de diversão nos seus olhos azul-acinzentados.
— Tu devias estar do meu lado, Louis! — exclamei. — Sou tua irmã. A lealdade de sangue e de casa deveria significar alguma coisa.
— Eu sou leal à realidade — ele respondeu, voltando a sua atenção para o horizonte. — E a realidade é que vocês dois passam mais tempo a olhar um para o outro do que para as vossas partituras.
Antes que eu pudesse elaborar uma defesa digna de um tribunal bruxo, James e Emma apareceram, correndo pelo corredor. James parecia radiante.
— Boas notícias, pessoal! — ele gritou, saltando por cima de um pequeno arbusto. — Consegui autorização do Filch — não perguntem como — para usarmos o Salão de Troféus para um ensaio acústico amanhã à noite. A acústica lá é incrível!
— Tu subornaste o Filch, não foi? — Sophie perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Eu apenas... ajudei-o a organizar algumas fichas de punições antigas. E talvez tenha prometido que a banda não ia fazer barulho depois do toque de recolher — James deu de ombros, sentando-se no chão à nossa frente. — Mas o ponto é: vamos tocar. Só nós.
— Um ensaio acústico parece ótimo — disse Emma, sentando-se ao lado do irmão. — Podemos trabalhar nas harmonias vocais da Carol e do James. Estão um bocado... instáveis.
— Instáveis? — James olhou para a irmã, indignado. — Nós somos perfeitos.
— Vocês são competitivos — corrigiu a Sophie gentilmente. — Às vezes tentam cantar mais alto que o outro em vez de cantarem juntos.
Eu olhei para o James. Ele estava a olhar para mim. Por um momento, o barulho do pátio desapareceu. Eu pensei na forma como a voz dele se encaixava na minha, mesmo quando estávamos a discutir. Era como se a nossa música fosse a única coisa que realmente fazia sentido no meio do caos de Hogwarts.
— Vamos trabalhar nisso amanhã, então — eu disse, quebrando o silêncio. — Mas se o James desafinar, eu vou atirar-lhe com um troféu de "Melhor Comportamento".
— Tu terias de encontrar um primeiro, Fields — ele retorquiu, com aquele sorriso de lado que fazia o meu coração dar um mortal carpado. — E todos sabemos que não existem muitos desses com o meu nome. Ou com o teu.
***
Naquela noite, o dormitório da Slytherin estava silencioso, exceto pelo som do Barny a ronronar aos pés da minha cama. Eu estava deitada, olhando para o teto de pedra, pensando no ensaio acústico.
Eu não era o tipo de rapariga que acreditava em destinos ou grandes profecias. Eu era a Caroline Fields, a rapariga desastrada que preferia guitarras a varinhas e que tinha mais sarcasmo do que bom senso. Mas havia algo em James Sterling que me desafiava. Ele não me via apenas como a "irmã do Louis" ou como a "Slytherin inteligente mas preguiçosa". Ele via-me como eu era. E isso era assustador.
Levantei-me e fui até à minha mala, retirando de lá um pequeno caderno de couro desgastado. Não era um diário — eu era demasiado preguiçosa para escrever todos os dias —, mas era onde eu escrevia letras de músicas que nunca mostrava a ninguém.
Abri numa página em branco e comecei a escrever.
*Acordes imperfeitos, palavras que não saem,* *O som do teu riso é o ritmo que me trai.* *Entre masmorras e torres, o tempo parou,* *E no meio do caos, a música nos encontrou.*
Fechei o caderno rapidamente, sentindo-me ridícula. "Isso é muito... Gryffindor da minha parte", pensei, guardando o caderno no fundo da mala, debaixo de uns pergaminhos de História da Magia que eu provavelmente nunca iria ler.
O Barny abriu um olho verde, olhou para mim com um julgamento silencioso e voltou a dormir.
— Cala-te, Barny — sussurrei para o gato, embora ele não tivesse dito nada. — Tu também não tens moral nenhuma, o teu único talento é roubar acessórios de uniforme.
Deitei-me novamente, fechando os olhos. Amanhã teríamos o ensaio. Amanhã eu teria de encarar o James e fingir que o toque dos nossos ombros não significava nada. Amanhã eu seria a Carol de sempre.
Mas, enquanto o sono me levava, a melodia que o James tinha começado a assobiar no pátio continuava a tocar na minha cabeça. E, pela primeira vez, eu não me importava de estar desafinada. Contanto que fosse com ele.
Hogwarts era um lugar de magia, mas a magia mais poderosa que eu tinha encontrado até agora não estava nas pontas das varinhas ou nos caldeirões borbulhantes. Estava nas cordas de uma guitarra, numa piada sarcástica às oito da manhã e num grupo de amigos que, contra todas as probabilidades, se tinham tornado a minha família.
E se o preço para manter isso fosse aturar o James Sterling e o seu ego gigante... bem, eu acho que podia viver com isso. Afinal, alguém tinha de o manter com os pés no chão. E quem melhor do que uma Slytherin que sabia exatamente onde ele guardava os seus sapos de chocolate?
Adormeci com um sorriso nos lábios, sonhando com notas altas, luzes douradas e um par de olhos azuis que pareciam conhecer todos os meus segredos, mesmo aqueles que eu ainda não tinha coragem de admitir.