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Vassouras, Vingança e Voleios
O vento cortante de novembro batia contra o meu rosto, fazendo os meus olhos arderem e o meu cabelo ruivo chicotear por baixo do capacete de proteção. Eu estava a uns vinte metros de altura, segurando o cabo da minha vassoura com uma mão e o bastão de batedora com a outra. Lá embaixo, o campo de Quadribol era um borrão de verde, prata, vermelho e ouro.
— Fields! Foca-te! — a voz do capitão da Slytherin ecoou no meio do vendaval.
— Eu estou focada! — gritei de volta, embora soubesse que era mentira.
O problema de ser batedora é que o teu trabalho é, essencialmente, causar o caos. E eu adoro o caos. Mas o problema de jogar contra a Gryffindor é que o caos tem um nome, um apelido e um sorriso que me faz querer atirar um balaço diretamente contra a sua cabeça perfeita — ou talvez apenas desviar o olhar por tempo demais.
James Sterling estava magnífico no seu uniforme escarlate. Ele voava como se tivesse nascido preso a uma vassoura, desviando-se dos nossos jogadores com uma agilidade irritante. Ele era um dos artilheiros mais rápidos que a Gryffindor já teve, o que tornava a minha vida um inferno.
— Cuidado, Carol! — Noah gritou da sua posição nas balizas. Como guardião, ele tinha a visão panorâmica do desastre eminente.
Virei-me bem a tempo de ver um balaço vindo na minha direção. Com um movimento puramente impulsivo — o tipo de coisa que o meu irmão Louis diria que me falta "estratégia" — balancei o bastão com toda a minha força. O impacto vibrou pelos meus braços, um som seco e satisfatório. O balaço mudou de trajetória, zunindo pelo ar.
Infelizmente, ele não foi na direção que eu planeei. Ele foi diretamente para onde o James estava a tentar marcar um golo.
James teve de fazer um mergulho acrobático para não ser atingido, perdendo a posse da goles no processo. Ele estabilizou a vassoura, limpou o suor da testa e olhou para cima, procurando a culpada. Quando os seus olhos azuis encontraram os meus, ele abriu aquele sorriso convencido.
— Isso foi uma tentativa de me matar ou um convite para sair, Fields? — ele gritou, a voz carregada de diversão, apesar do jogo intenso.
— Foi uma tentativa de te calar a boca! — respondi, manobrando a minha vassoura para mais perto dele. — Concentra-te no jogo, Sterling!
— Difícil fazer isso com uma batedora ruiva a tentar arrancar-me a cabeça! — Ele piscou o olho e mergulhou novamente em direção à goles que a Emma tinha acabado de recuperar.
A Emma era uma força da natureza. Ela e o James jogavam como se partilhassem o mesmo cérebro. Eles passavam a goles um para o outro sem sequer olharem, uma dança coreografada de vermelho e ouro que estava a deixar a nossa defesa maluca.
— Noah! À tua esquerda! — avisei, vendo a Emma preparar-se para o lançamento.
Noah esticou-se todo, as suas pernas longas quase saindo da vassoura, e conseguiu desviar a goles com a ponta dos dedos. A bancada da Slytherin explodiu em aplausos verdes.
— Boa, Bennett! — gritei, sentindo uma onda de orgulho pelo meu melhor amigo.
O jogo continuou por mais de uma hora. O frio já estava a infiltrar-se nos meus ossos, mas a adrenalina mantinha-me alerta. Eu estava a fazer o meu melhor, protegendo os nossos artilheiros e tentando, sem muito sucesso, sabotar o James. O problema é que ele era demasiado bom. E ele sabia disso.
Num momento de pausa, enquanto o apanhador da Gryffindor circulava o campo à procura da Snitch, James pairou ao meu lado.
— Estás cansada, Carol? — ele perguntou, a respiração ofegante, mas os olhos brilhando de excitação. — Se quiseres, eu posso pedir ao árbitro uma pausa para o teu chá.
— Eu não bebo chá, Sterling. Eu bebo as lágrimas dos Gryffindors derrotados — respondi, ajustando as luvas. — E tu estás muito confiante para quem só está com dez pontos de vantagem.
— Vais ver a vantagem aumentar agora — ele disse, inclinando-se para a frente na vassoura. — E depois do jogo, o vencedor escolhe a primeira música do setlist de sábado. Aceitas?
— Estás a apostar o setlist da H6 num jogo de Quadribol? — Arqueei uma sobrancelha. — Isso é muito arriscado, James. Tu sabes que eu quero tocar *Arctic Monkeys* e tu queres aquelas baladas melosas de feiticeiro.
— É um risco que estou disposto a correr. Aceitas?
— Aceito — respondi, com um sorriso predatório. — Prepara-te para cantar *Do I Wanna Know?* até os teus pulmões pedirem clemência.
Ele soltou uma gargalhada e disparou. Eu segui-o visualmente, esperando a oportunidade. Ela veio dois minutos depois. Um balaço subiu das profundezas do campo, ganhando velocidade. Eu posicionei-me, calculando o ângulo. Louis, que estava nas bancadas a observar com a sua calma habitual, provavelmente estaria a analisar a minha parábola, mas eu só agi por instinto.
Girei a vassoura num parafuso e bati no balaço com uma técnica que o Professor Flitwick elogiaria se fosse um feitiço. A bola de ferro cortou o ar como um projétil, passando a milímetros do braço do James, forçando-o a largar a goles para não ser atingido.
— Minha! — gritou um dos nossos artilheiros, apanhando a bola no ar.
— Essa foi por pouco, Fields! — James gritou, parecendo genuinamente impressionado.
— Eu disse para te preparares! — exclamei, sentindo-me a rainha do mundo.
Mas o Quadribol é um desporto cruel. Enquanto eu celebrava o meu golpe de mestre, um brilho dourado passou perto da orelha do Noah. O apanhador da Gryffindor mergulhou. O nosso apanhador tentou segui-lo, mas a vassoura dele era mais lenta.
Em segundos, o apito soou.
— A Gryffindor apanhou a Snitch! O jogo terminou! — a voz do comentador ecoou pelo estádio.
Senti os meus ombros caírem. Perdemos. Por pouco, mas perdemos.
Aterrei na relva húmida, com as pernas a tremerem um pouco pelo esforço. O Noah veio ter comigo, tirando o capacete e revelando o cabelo preto ainda mais bagunçado.
— Jogaste bem, Carol. Aquele último balaço foi épico.
— Não foi o suficiente para ganhar, Noah — suspirei, limpando uma mancha de lama da bochecha. — E agora o James vai torturar-nos com as escolhas musicais dele.
— Ele não é tão mau assim — Noah deu de ombros, rindo. — Mas prepara-te para os próximos três dias de "eu avisei".
James e Emma aproximaram-se de nós, radiantes. Emma abraçou a Sophie, que tinha descido das bancadas para nos dar os parabéns (ela era a única pessoa em Hogwarts que conseguia torcer por três casas ao mesmo tempo sem se sentir culpada).
— Que jogo! — Emma exclamou. — Carol, quase me acertaste com aquele balaço no segundo tempo.
— Quase não conta, Em — respondi, tentando manter o meu tom sarcástico, apesar da exaustão.
James parou à minha frente. Ele ainda estava ofegante, o cabelo loiro colado à testa, e cheirava a ar livre e vitória.
— Então, Fields... — ele começou, cruzando os braços sobre o peito. — Sobre aquela aposta...
— Eu sei, eu sei — interrompi, revirando os olhos. — Podes escolher a música. Mas se for algo demasiado piroso, eu vou desafinar de propósito.
— Oh, eu não vou escolher uma balada — ele disse, dando um passo para mais perto, baixando o tom de voz para que só eu ouvisse. — Eu vou escolher aquela que tu escreveste no teu caderno.
O meu coração parou por um segundo. Senti o sangue subir-me às bochechas mais rápido do que qualquer balaço.
— O quê? Tu... tu mexeste nas minhas coisas? Sterling, eu vou matar-te!
— Eu não mexi em nada! — ele defendeu-se, rindo e levantando as mãos. — Tu deixaste o caderno aberto na Sala Precisa ontem. Eu só li o título e as duas primeiras linhas antes da Sophie o fechar e me dar um sermão sobre privacidade.
— Tu és um idiota invasivo — murmurei, mas sem a raiva que eu deveria estar a sentir.
— Talvez — ele admitiu, o olhar suavizando-se. — Mas as linhas eram boas, Carol. "Acordes imperfeitos"? É sobre nós, não é?
Fiquei em silêncio, a procurar desesperadamente uma resposta sarcástica que não vinha. O Noah e a Emma estavam a fingir que não ouviam, mas eu sabia que estavam a prestar atenção a cada palavra.
— É sobre a banda, James — menti, sem muita convicção.
— Claro que é — ele sorriu, e desta vez não foi o sorriso convencido de jogador. Foi aquele sorriso que ele só me dava quando estávamos sozinhos ou quando a música estava perfeita. — Mas, como eu ganhei, a minha escolha de música para o setlist é: tu vais terminar essa letra e nós vamos tocá-la juntos. No piano e nas guitarras.
Olhei para ele, surpreendida. Eu esperava que ele me obrigasse a cantar algo ridículo ou que passasse o resto da tarde a gabar-se do golo que marcou. Mas ele queria a minha música.
— Isso é... — comecei, mas a voz falhou.
— É uma ordem do vencedor — ele completou, piscando o olho. — Agora, vamos para o Grande Salão. Estou a morrer de fome e o Noah parece que vai comer a própria vassoura se não chegarmos à mesa em cinco minutos.
— Ei! Eu ouvi isso! — Noah protestou.
Caminhámos juntos em direção ao castelo. O sol estava a pôr-se, pintando o céu de tons de laranja e roxo que combinavam estranhamente bem com as nossas cores misturadas. Louis juntou-se a nós no caminho, comentando de forma seca sobre a falta de defesa da Slytherin no terceiro quarto, o que iniciou uma discussão técnica entre ele e o James que durou até às portas do castelo.
Eu fiquei um pouco para trás com a Sophie.
— Ele gosta mesmo de ti, sabes? — ela sussurrou, passando o braço pelo meu.
— Ele gosta de ganhar, Soph. É um Gryffindor — respondi, mas o meu olhar estava fixo nas costas do James, que gesticulava animadamente enquanto falava com o meu irmão.
— Ele podia ter escolhido qualquer música para te irritar — Sophie continuou, com aquela sabedoria calma de Hufflepuff. — Mas ele escolheu a tua. Ele quer ouvir o que tu tens para dizer, Carol.
Apertei a alça da minha mochila, sentindo o peso do caderno lá dentro. Hogwarts era um lugar estranho. Num momento, estamos a tentar derrubar alguém de uma vassoura a cinquenta quilómetros por hora, e no momento seguinte, essa mesma pessoa está a desafiar-nos a sermos a melhor versão de nós mesmos.
Entrámos no Grande Salão, que já estava iluminado por milhares de velas flutuantes. O cheiro de carne assada e torta de rim preenchia o ar. Sentámo-nos todos na mesa da Slytherin — o que sempre causava alguns olhares tortos dos mais conservadores, mas a nossa banda já tinha o hábito de ignorar as divisões de casas.
James sentou-se à minha frente, como sempre. Ele serviu-se de uma montanha de batatas e depois, sem dizer nada, colocou uma fatia extra de torta no meu prato.
— Precisas de energia, batedora. Tens uma música para escrever.
— Tu és muito mandão para quem acabou de ganhar por causa de uma Snitch de sorte — retorqui, mas comecei a comer.
— Sorte? Isso foi talento puro, Fields. Mas não te preocupes, eu ensino-te umas manobras de voo qualquer dia destes.
— Eu voo melhor do que tu, Sterling. Só sou mais... desastrada em terra firme.
— Isso é verdade — Noah interveio. — A Carol é a única pessoa que eu conheço que consegue cair de uma escada que nem sequer se moveu.
— Obrigada, Noah. A tua lealdade é inspiradora — disse, atirando-lhe uma uva.
Rimos todos. Naquele momento, rodeada pelos meus amigos, com o calor das velas e o som das conversas ao fundo, a derrota no Quadribol já não parecia importar tanto. O crescimento em Hogwarts não era medido apenas por pontos na taça das casas ou por notas nas aulas de Feitiços. Era medido nestes momentos. Na capacidade de perder um jogo e ganhar uma canção. Na forma como as nossas vidas se entrelaçavam, independentemente das cores que usávamos no peito.
James olhou para mim por cima do copo de suco de abóbora.
— Sábado, Sala Precisa. Às sete?
— Às sete — confirmei. — E James?
— Sim?
— Se a música ficar má, a culpa é tua por me teres pressionado.
Ele riu, aquele som que já se tinha tornado a minha banda sonora favorita.
— A música nunca fica má quando somos nós os dois, Carol. Tu sabes disso.
Eu sabia. E essa era a parte mais assustadora — e maravilhosa — de tudo aquilo. No meio de poções que explodem, vassouras que voam e um gato que rouba gravatas, eu tinha encontrado o meu ritmo. E, pela primeira vez, eu não tinha pressa nenhuma de chegar ao fim da música.