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Baile, Batons e o Brilho Verde do Ciúme
A notícia do "Baile de Inverno das Estrelas Cadentes" espalhou-se por Hogwarts mais rápido do que uma praga de gnomos num jardim desprotegido. Segundo a Professora McGonagall, era uma oportunidade para "estreitar laços entre as casas" e "celebrar a harmonia mágica". Para mim, Caroline Fields, era apenas uma oportunidade para entrar em pânico coletivo com a Sophie e a Emma sobre o que vestir, enquanto tentava ignorar o facto de que o meu quarto parecia ter sido atingido por um feitiço de dispersão de tecidos.
— Eu não vou — declarei, afundando-me no sofá de veludo verde do Salão Comunal da Slytherin. — É uma convenção de pessoas a dançar mal e a beber ponche de abóbora morno. Eu prefiro ficar aqui a limpar as unhas do Barny.
Noah, que estava sentado no chão a tentar consertar uma das suas baquetas com fita adesiva mágica, soltou uma gargalhada seca.
— Tu vais, Fields. Primeiro, porque a banda vai tocar três músicas na abertura. Segundo, porque se tu não fores, a Sophie vai usar aquele olhar de "Hufflepuff desapontada" e tu vais sentir-te a pior pessoa do mundo até ao sétimo ano.
— Golpe baixo, Bennett — resmunguei, atirando-lhe uma almofada. — E tu? Vais com quem? Com a tua bateria?
Noah apanhou a almofada no ar com uma mão só, exibindo aqueles reflexos irritantes de quem passa o dia a bater em coisas.
— Na verdade, eu ia perguntar se a minha Slytherin favorita queria ir comigo. Como amigos, obviamente. Antes que tu comeces a ter um colapso e a achar que eu me apaixonei pelo teu humor seco.
Olhei para ele, surpresa. Noah era o meu porto seguro. Ir com ele significava que eu não teria de lidar com rapazes estranhos a tentar pisar-me os pés ou com a pressão de um encontro real.
— Como amigos — concordei, sentindo um alívio imediato. — Mas se me obrigares a dançar valsa, eu transformo a tua bateria num conjunto de bules de chá.
— Fechado — ele sorriu, estendendo a mão para um "high five" que eu retribuí com força excessiva.
O problema começou dois dias depois, no Grande Salão. Eu estava a tentar discretamente tirar uma mancha de tinta do meu pergaminho quando o James Sterling entrou, mas não estava sozinho. Ao lado dele, rindo de algo que ele dizia, estava a Isobel Vance, uma rapariga da Ravenclaw que parecia ter saído diretamente de um anúncio de poção capilar brilhante. Ela era alta, organizada e, pior de tudo, parecia ser genuinamente simpática.
— Ei, pessoal! — James aproximou-se da nossa mesa, com aquele jeito de quem é o dono do castelo. — Já conhecem a Isobel? Ela vai ser o meu par para o baile.
O silêncio que se seguiu no nosso grupo foi quase ensurdecedor. Emma arregalou os olhos, Sophie deu um sorriso forçado e o Noah olhou imediatamente para mim, com uma expressão que dizia: "Aguenta a onda, Fields".
— Olá, Isobel — eu disse, forçando o meu melhor tom casual, embora sentisse uma pontada estranha no peito, como se tivesse engolido um balaço gelado. — James, não sabia que tinhas tempo para encontros, com tanto treino de Quadribol e... bem, com o teu ego a ocupar tanto espaço.
James deu um sorriso de lado, mas não era o sorriso de sempre. Havia algo de defensivo nele.
— Pois é, Fields. A Isobel é incrível em Aritmancia, ela até prometeu ajudar-me a calcular a trajetória das minhas jogadas. E tu? Vais ficar no dormitório a ler sobre rebeliões de duendes?
— Na verdade — Noah interveio, passando o braço pelos meus ombros de uma forma protetora que eu agradeci internamente —, a Carol vai comigo. Vamos dominar a pista de dança.
James estreitou os olhos. O olhar dele caiu sobre o braço do Noah nos meus ombros e a sua mandíbula contraiu-se por um milésimo de segundo.
— Com o Bennett? — James riu, mas o som foi um pouco forçado. — Boa sorte, Carol. Tenta não tropeçar nos pés dele. Ele é mais coordenado com baquetas do que com pernas.
— Nós vamos ficar bem, Sterling — respondi, voltando a minha atenção para o meu prato, embora a comida tivesse perdido subitamente o sabor. — Diverte-te com os teus cálculos de Aritmancia.
***
A noite do baile chegou com uma tempestade de neve lá fora, tornando o castelo ainda mais aconchegante. No dormitório das raparigas da Slytherin, o caos era absoluto.
— Carol, para de te mexer! — Katie gritou, tentando prender uma mecha do meu cabelo acobreado. — Tu és a Slytherin mais impaciente que eu já conheci.
— É porque isto é uma tortura medieval disfarçada de festa — resmunguei, olhando-me no espelho.
Eu usava um vestido de seda verde-esmeralda, profundo como as águas do lago, que a minha mãe me tinha enviado. Não tinha folhos, nem rendas excessivas; era simples, elegante e, felizmente, permitia-me respirar. O meu cabelo estava ondulado e caía sobre os ombros, e os meus olhos azul-claro pareciam mais brilhantes por causa da cor do tecido.
Quando desci para o Salão Comunal, o Noah estava lá à minha espera. Ele usava vestes de gala pretas e tinha o cabelo minimamente penteado para trás. Ele assobiou quando me viu.
— Fields, tu limpas-te muito bem. Se eu não te conhecesse desde que usavas fraldas, estaria impressionado.
— Cala-te, Bennett. Tu também não estás nada mal para um baterista barulhento.
Caminhámos para o Grande Salão, que tinha sido transformado num paraíso de gelo. Árvores de cristal flutuavam nos cantos e o teto refletia uma noite estrelada e límpida. A banda H6 tocou as primeiras três músicas — uma mistura de rock bruxo e algumas batidas que o Noah tinha inventado. Eu estava na guitarra elétrica, sentindo-me muito mais confortável lá em cima do que no chão.
James estava na voz principal, mas parecia distraído. Ele errou duas entradas e não olhou para mim nem uma vez durante o solo de *Do I Wanna Know?*. Assim que terminámos a nossa parte e os músicos profissionais contratados pela escola assumiram o palco, descemos para nos juntarmos aos convidados.
— Danças? — Noah perguntou, estendendo a mão.
— Vou arrepender-me disto? — perguntei, aceitando.
— Provavelmente.
Estávamos no meio da pista, movendo-nos num ritmo que não era bem uma dança, mas mais um balanço coordenado. Estávamos a rir de uma piada interna sobre o Professor Binns quando vi o James e a Isobel a alguns metros de distância.
James não estava a olhar para a sua acompanhante. Ele estava a olhar fixamente para nós. Ou melhor, para a mão do Noah que estava na minha cintura e para a forma como eu estava a rir com a cabeça encostada no ombro do meu melhor amigo.
— Ele vai explodir — sussurrou Noah no meu ouvido, com um tom de voz divertido.
— Quem? — perguntei, fingindo inocência.
— O teu batedor favorito. Se ele apertar aquele copo de ponche com mais força, o vidro vai estilhaçar-se na mão dele.
Olhei de relance. James estava a tentar ouvir a Isobel, mas os seus olhos azuis estavam gélidos e focados em nós. Quando o Noah me girou na pista, James deu um passo em frente, quase esbarrando num casal de lufa-lufas.
— Vou buscar mais bebida — ouvi o James dizer à Isobel, com uma voz ríspida, antes de se afastar em direção à mesa de refrescos, que ficava convenientemente perto de onde nós estávamos.
— Carol! — a voz dele chamou-me quando passámos por ele. — Bennett.
— Sterling — Noah cumprimentou, com um sorriso largo. — Grande festa, não é? A Carol dança melhor do que eu esperava.
James olhou para mim, e a intensidade no seu olhar fez-me perder o fôlego por um segundo.
— É, ela parece estar a divertir-se muito — disse James, o sarcasmo pingando de cada palavra. — Achei que odiasses este tipo de eventos, Fields. "Convenção de pessoas a dançar mal", não foi o que disseste no ensaio?
— As pessoas mudam de ideias, James — respondi, endireitando a postura. — Especialmente quando estão em boa companhia. A Isobel parece estar a divertir-se... sozinha, ali no canto.
James olhou para trás, para a rapariga da Ravenclaw que agora conversava com uma amiga. Ele parecia subitamente exausto.
— Ela é legal, Carol. Ela não implica comigo a cada cinco segundos.
— Talvez seja por isso que pareces tão entediado — retorqui, sentindo a faísca da nossa habitual rivalidade acender-se.
Noah, percebendo que o clima estava a ficar pesado, deu um passo atrás.
— Sabes que mais? Eu vou ver se a Sophie precisa de ajuda com o ponche. Ela parece estar a tentar impedir o Barny de mergulhar na taça de frutas.
— O Barny está aqui? — perguntei, alarmada.
— Ele entrou escondido na capa da Emma — Noah riu e afastou-se, deixando-me sozinha com o James no meio da multidão.
O silêncio entre nós era tenso, preenchido apenas pela música lenta que agora tocava. James olhou para os próprios pés e depois para mim.
— Tu e o Bennett... vocês parecem muito próximos hoje.
— Nós somos amigos de infância, James. Tu sabes disso.
— Eu sei. Mas a forma como ele te olha... e a forma como tu deixas que ele te toque... — Ele parou, passando a mão pelo cabelo loiro, desarrumando-o. — É irritante.
— Irritante? — Cruzei os braços. — Tu trazes a "Miss Aritmancia Perfeita" para o baile e achas que tens o direito de ficar irritado porque eu vim com o meu melhor amigo?
— Eu só trouxe a Isobel porque... porque achei que tu ias com algum rapaz da Slytherin que eu teria de bater — ele confessou, a voz rouca. — E porque tu não paravas de falar sobre como este baile era estúpido. Achei que não te importavas.
— Eu importo-me! — a minha voz subiu uma oitava, atraindo alguns olhares curiosos. — Eu importo-me porque passámos semanas na Sala Precisa a escrever uma música que é sobre nós, e depois tu ages como se eu fosse apenas a "batedora desastrada" que tu suportas por obrigação.
James deu um passo à frente, invadindo o meu espaço pessoal. O cheiro de sândalo e o calor dele envolveram-me.
— Tu nunca foste uma obrigação, Caroline. Tu és a coisa mais difícil, irritante e incrível da minha vida. E ver-te com o Noah hoje... eu quase perdi a cabeça.
— James... — comecei, mas a minha voz sumiu.
— Eu não quero dançar com a Isobel — ele continuou, ignorando as regras de etiqueta. — Eu quero dançar contigo. Mesmo que tu me pises os pés. Mesmo que a gente comece a discutir sobre o ritmo da música no meio da pista.
Ele estendeu a mão. Eu olhei para ela, depois para ele. O sarcasmo que eu costumava usar como armadura estava a derreter como a decoração de gelo do salão.
— A Isobel vai odiar-te — eu disse, mas já estava a colocar a minha mão na dele.
— Ela vai sobreviver. Ela é da Ravenclaw, vai encontrar uma lógica para isto — ele sorriu, o sorriso de verdade, aquele que fazia o meu estômago dar voltas.
Dançámos. Não era uma dança perfeita. James guiava-me com uma mão firme nas minhas costas, e eu tentava não me perder nos olhos dele. Estávamos muito mais perto do que era considerado "apenas amigos".
— Fields? — ele sussurrou, o rosto a centímetros do meu.
— Sim, Sterling?
— O Noah sabe que eu vou matá-lo se ele te abraçar daquela maneira outra vez, não sabe?
— Tu não vais matar ninguém, James. Tu vais focar-te em não pisar o meu vestido.
Ele riu e encostou a testa na minha por um breve momento.
— Valeu a pena vir a este baile estúpido só para te ver nesse vestido verde.
— Não te habitues — respondi, tentando manter o tom seco, mas falhando miseravelmente ao sorrir. — Amanhã volto às calças sujas de lama e ao cabelo despenteado.
— Eu prefiro essa versão — ele admitiu. — Mas esta... esta é perigosa para o meu coração.
No canto do salão, vi o Noah a piscar-me o olho enquanto dividia um prato de doces com a Sophie e a Emma. O Louis estava por perto, observando-nos com a sua habitual expressão de "eu já sabia disto há três anos".
O baile continuou, mas para mim, o resto do mundo era apenas um borrão de luzes e música distante. Hogwarts podia ser um lugar de grandes perigos e destinos traçados, mas naquela noite, era apenas sobre dois adolescentes teimosos que finalmente tinham parado de lutar contra o que sentiam, pelo menos durante a duração de uma canção.
— James? — chamei, enquanto a música terminava.
— Sim?
— Se tu voltares a trazer uma especialista em Aritmancia para um evento, eu transformo-te num girino.
Ele soltou uma gargalhada alta e genuína.
— Prometo que a única pessoa com quem eu quero calcular trajetórias a partir de agora és tu, Fields. Mesmo que a nossa trajetória seja um caos completo.
— É — eu disse, encostando a cabeça no ombro dele enquanto saíamos da pista. — Um caos. Mas é o nosso caos.
E enquanto caminhávamos para encontrar os outros, com o Barny a correr por entre as pernas dos convidados com uma gravata da Ravenclaw na boca (provavelmente da Isobel, coitada), eu percebi que não precisava de poções de amor ou de grandes gestos heroicos. Eu só precisava disto. De música, de amigos e de um rapaz loiro e impulsivo que, apesar de tudo, sabia exatamente como me fazer sentir em casa.
A vida em Hogwarts estava longe de ser perfeita, mas entre um acorde de guitarra e um olhar de ciúme, eu estava a começar a achar que o final desta música ia ser muito melhor do que eu alguma vez imaginei.