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hogwarts dr

Melodias de Vidro e um Pouco de Confusão

A terça-feira amanheceu com aquele tipo de neblina que faz Hogwarts parecer um castelo flutuante num mar de algodão. Eu estava na aula de Feitiços, a minha disciplina favorita, mas pela primeira vez na vida, o Professor Flitwick não tinha a minha atenção total. Eu estava a desenhar pequenas claves de sol nas margens do meu pergaminho, enquanto tentava ignorar o facto de que o James Sterling estava sentado duas filas à frente, a balançar a cadeira de forma ritmada.

— Senhorita Fields? — a voz fina de Flitwick chamou-me de volta à realidade. — Poderia demonstrar o encanto *Glacius* para a turma?

Levantei-me de um salto, tropeçando na minha própria mochila que, por algum motivo, estava aberta no meio do caminho. Alguns alunos da Ravenclaw riram-se, mas eu apenas limpei a poeira das vestes e apontei a varinha para o jarro de água sobre a mesa do professor.

— *Glacius!* — pronunciei com firmeza.

Imediatamente, a água cristalizou-se num bloco de gelo perfeito, brilhando sob as luzes da sala. Flitwick bateu palmas, entusiasmado.

— Excelente execução! Dez pontos para a Slytherin. A fluidez do seu movimento é quase... musical, se me permite dizer.

Sentei-me, sentindo o olhar do James sobre mim. Ele virou-se para trás e sussurrou:

— Musical, não é? O professor mal sabe que estás a compor um hino de guerra para o ensaio de sábado.

— É uma balada, Sterling. Não um hino de guerra — sussurrei de volta, tentando manter a cara séria. — E vira-te para a frente antes que o Flitwick te congele a língua.

***

O resto do dia passou num borrão de História da Magia (onde eu quase bati com a cabeça na mesa de tanto sono) e Transfiguração. Quando o sol começou a baixar, encontrei o Noah e a Sophie perto da cabana do Hagrid. O ar estava gelado, mas o cheiro de terra húmida e lenha queimada era reconfortante.

— Então, Fields — disse o Noah, enquanto atirava pedrinhas para o Lago Negro —, como vai a composição secreta? O James não para de falar sobre isso no dormitório. Ele está a agir como se fosse o produtor musical de uma estrela de rock.

— Ele é um chato — respondi, sentando-me na relva seca ao lado da Sophie. — Ele leu duas linhas do meu caderno e agora acha que tem o direito de ser o meu coautor.

— Ele só está entusiasmado, Carol — a Sophie disse, com aquele seu tom de voz que acalma até um hipogrifo irritado. — Ele admira-te. Mesmo que ele expresse isso através de provocações constantes e competições de Quadribol.

— Ele admira a capacidade que eu tenho de o irritar — corrigi, embora sentisse um calorzinho no peito. — Mas a verdade é que... a música não está pronta. Falta-me o refrão. E eu não consigo escrever sob pressão, especialmente com o Sterling a pairar sobre mim como um dementador à procura de chocolate.

— Tu pensas demais — Noah comentou, levantando-se e limpando as calças. — Tu e o James são iguais. Dois teimosos que acham que têm de controlar tudo. Por que não deixas a música fluir amanhã? Se ficar mau, nós ajudamos. Para isso serve uma banda.

— Para isso e para roubar o lanche um do outro — acrescentei, fazendo-os rir.

***

Sábado chegou mais depressa do que eu gostaria. Às sete horas da noite, eu estava em frente à parede de pedra no sétimo andar. Pensei intensamente: "Preciso de um lugar para terminar uma música. Preciso de paz, silêncio e um piano que não desafine."

A porta de madeira escura apareceu. Entrei e deparei-me com uma sala acolhedora, iluminada por uma lareira que estalava baixinho. Havia tapetes grossos no chão e, no centro, o piano de cauda que a Sophie costuma usar, mas desta vez acompanhado por uma pilha de almofadas e duas guitarras acústicas encostadas à parede.

James já estava lá. Ele estava sentado no chão, com a sua guitarra no colo, dedilhando alguns acordes soltos. Quando me viu, ele parou.

— Chegaste cedo, Fields. Achei que ias procrastinar até às oito.

— Eu não procrastino quando o assunto é música, Sterling — respondi, deixando a minha mochila num canto. — Só procrastino em coisas inúteis, como deveres de Poções ou... bem, em existir antes das dez da manhã.

Ele riu e indicou o lugar ao lado dele.

— Trouxe o caderno?

Tirei o caderno de couro da mala com hesitação. Entregá-lo ao James parecia algo muito mais íntimo do que partilhar um microfone ou voar lado a lado no campo de Quadribol. Aquelas palavras eram os meus pensamentos mais crus, aqueles que o sarcasmo geralmente escondia.

James pegou no caderno com uma delicadeza que eu raramente via nele. Ele leu em silêncio por alguns minutos, o reflexo do fogo da lareira dançando nos seus olhos azuis.

— É bom, Carol — ele disse finalmente, a voz mais baixa e séria. — É sobre sentir-se perdido no meio de tanta gente, não é? Sobre encontrar um ritmo próprio.

— É sobre Hogwarts — admiti, sentando-me ao lado dele. — Sobre como este lugar é gigante e mágico, mas às vezes faz-nos sentir pequenos. Até encontrarmos as pessoas certas.

James olhou para mim, e por um momento o mundo pareceu reduzir-se àquele círculo de luz da lareira.

— Eu sinto o mesmo — ele confessou. — Toda a gente espera que eu seja o "Sterling corajoso", o batedor herói, o líder. Mas às vezes eu só quero tocar um acorde menor e ficar em silêncio.

Ficámos assim por um instante, o silêncio entre nós não sendo desconfortável, mas sim carregado de algo que nenhum de nós tinha coragem de nomear.

— Bem — quebrei o transe, pigarreando —, o vencedor do jogo de Quadribol disse que tínhamos de terminar isto. Qual é a tua ideia para o refrão?

James pegou na guitarra e tocou uma sequência de acordes. Era uma melodia suave, mas com uma tensão que pedia uma resolução.

— Eu pensei em algo que subisse na escala — ele explicou. — Tu fazes a harmonia alta, e eu fico na base. Algo como... "No eco destas paredes, o som não se vai perder".

Peguei na minha guitarra acústica e tentei seguir o ritmo dele. As nossas vozes encontraram-se no meio do caminho. No início, estávamos um pouco desencontrados — eu era demasiado rápida, ele era demasiado intenso.

— Estás a correr, Fields — ele disse, rindo. — Onde é o incêndio?

— Tu é que estás a arrastar o tempo, Sterling! Parece que estamos a tocar num funeral.

— É uma balada, não um jogo de Quadribol! — ele retorquiu, mas havia brilho nos seus olhos.

Tentámos de novo. Desta vez, fechei os olhos e deixei-me levar apenas pelo som da guitarra dele. James começou a cantar as linhas que eu tinha escrito, e eu entrei com a harmonia no refrão que tínhamos acabado de criar.

— *Acordes imperfeitos, palavras que não saem...* — a voz dele era quente e segura.

— *O som do teu riso é o ritmo que me trai* — completei, sentindo a vibração das cordas sob os meus dedos.

Quando terminámos a última nota, a Sala Precisa parecia ressoar com a energia da música. James estava muito perto de mim agora. Eu conseguia sentir o calor que emanava dele, o cheiro de pergaminho antigo e aquele perfume de sândalo que eu já tinha aprendido a associar à segurança.

— Ficou... incrível — sussurrei, ainda sem abrir os olhos totalmente.

— Ficou porque foste tu que escreveste — ele respondeu. Senti a mão dele roçar na minha, a mesma mão que segurava o bastão de batedor com tanta força, agora tocando os meus dedos com uma hesitação quase doce. — Sabes, Carol... às vezes eu acho que a única razão de eu me esforçar tanto nas aulas e no Quadribol é para ver se tu notas.

Abri os olhos de par em par. O James Sterling, o rapaz mais confiante de Hogwarts, estava a admitir uma vulnerabilidade daquelas?

— Tu és um idiota, James — eu disse, mas o meu tom era suave. — Tu sabes que eu noto tudo o que tu fazes. Principalmente quando fazes asneira e eu tenho de te tirar das detenções.

— É — ele riu, aproximando o rosto do meu. — Mas eu prefiro quando notas a minha música.

O momento foi interrompido por um barulho seco na porta. Barny, o meu gato, tinha conseguido de alguma forma entrar na Sala Precisa e trazia na boca, triunfalmente, uma meia de lã vermelha que, com certeza, pertencia a algum Gryffindor azarado.

— Barny! — exclamei, afastando-me do James para pegar no gato. — Como é que entraste aqui?

James soltou um suspiro, mas estava a rir.

— Esse gato tem um timing impecável para arruinar momentos, Fields. Ele é definitivamente teu.

— Ele só está a proteger a minha reputação — brinquei, enquanto o Barny soltava a meia aos pés do James e começava a ronronar como um motor de vassoura. — Ele sabe que Slytherins e Gryffindors devem manter uma distância regulamentar de segurança.

— A regra não se aplica a membros da mesma banda — James levantou-se e estendeu-me a mão para me ajudar a levantar. — E certamente não se aplica a nós.

Agarrei a mão dele e, por um segundo, ele puxou-me um pouco mais para perto do que o necessário.

— O ensaio de amanhã com o grupo todo vai ser uma loucura — ele comentou, ainda segurando a minha mão. — O Noah vai desmaiar quando ouvir que finalmente terminámos a música.

— O Noah vai passar o resto do ano a gozar connosco — corrigi. — Ele já acha que nós somos uma comédia romântica trouxa.

— E nós não somos? — James arqueou uma sobrancelha, o sorriso convencido de volta ao rosto.

— Nós somos um desastre, James. Um desastre com uma boa banda sonora.

Saímos da Sala Precisa juntos, com o Barny a caminhar orgulhosamente à nossa frente. Enquanto descíamos as escadas em direção às masmorras, James não soltou a minha mão até chegarmos à bifurcação dos corredores.

— Boa noite, batedora — ele disse, com um brilho nos olhos.

— Boa noite, Sterling. Tenta não sonhar muito com a minha música, pode ser que fiques maluco.

— Tarde demais para isso, Fields. Tarde demais.

Caminhei em direção ao Salão Comunal da Slytherin com o coração a bater num ritmo que nenhuma metrónomo conseguiria seguir. Entrei na sala comunal e vi o Louis sentado num canto, lendo o mesmo livro de sempre. Ele olhou para mim, depois para o Barny (que ainda levava a meia vermelha na boca), e depois de volta para mim.

— Estiveste com o Sterling — ele afirmou, não perguntou.

— Estivemos a ensaiar, Louis. Apenas isso.

— Claro — o meu irmão deu de ombros, voltando a ler. — E eu sou um elfo doméstico.

Ignorei-o e subi para o meu dormitório. O quarto estava o caos de sempre — pergaminhos por todo o lado, sapatos perdidos e a minha guitarra elétrica encostada à cama. Deitei-me e olhei para o teto, ouvindo o som da chuva que começava a bater nas janelas que davam para o fundo do lago.

Hogwarts era sobre muitas coisas. Era sobre aprender a transformar ratos em taças, sobre evitar as escadas que mudam de lugar e sobre sobreviver às refeições barulhentas do Grande Salão. Mas para mim, Caroline Fields, Hogwarts estava a tornar-se sobre aquele momento na Sala Precisa. Sobre a descoberta de que, às vezes, a magia mais real não precisa de varinhas. Só precisa de dois pares de mãos, algumas cordas de nylon e a coragem de cantar a verdade, mesmo que seja apenas para uma pessoa ouvir.

Fechei os olhos, e a última coisa que ouvi antes de adormecer foi a melodia do James, a misturar-se com o som da água do lago, criando a banda sonora perfeita para o meu próprio caos.