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Homem aranha e Deadpool

O Paradoxo da Máscara e do Batom

A segunda-feira na Universidade Empire State tinha o peso de uma bigorna caindo sobre a cabeça de um personagem de desenho animado. Para Peter Parker, a analogia era dolorosamente literal. Ele sentia cada músculo de suas costas protestar contra o esforço de ter patrulhado até as três da manhã, mas o cansaço físico não era nada comparado à ginástica mental necessária para encarar Mozart Stark.

O laboratório de física avançada estava impregnado com o cheiro de ozônio e café queimado. Mozart estava debruçado sobre um osciloscópio, o cabelo preto preso em um coque tão precário que alguns fios teimavam em cair sobre seus olhos. Ele usava um jaleco branco aberto por cima de uma camiseta de seda preta, parecendo mais um modelo de passarela gótica do que um estudante de ciências.

— Você está atrasado três minutos, Parker — Mozart disse, sem desviar os olhos da tela. — O que é um crime contra a termodinâmica, considerando que o tempo é a única variável que não podemos subornar.

Peter soltou um suspiro, largando a mochila na bancada ao lado.

— O metrô parou entre as estações. Problemas técnicos.

Mozart finalmente se virou, um sorriso de lado brincando em seus lábios.

— Problemas técnicos ou um certo aracnídeo resolveu prender um assaltante de bancos no meio do caminho? Eu vi no Twitter. Ele deu um nó em três caras perto da Oitava Avenida.

Peter sentiu o rosto esquentar. Ele odiava o quanto Mozart acompanhava as atividades do Homem-Aranha.

— Eu não fico checando o Twitter, Moz. Eu estava... lendo.

— Claro que estava. Você é o epítome da virtude acadêmica — Mozart se aproximou, invadindo o espaço pessoal de Peter com aquela confiança que só alguém criado em uma torre de vidro poderia ter. — Mas me diga, o que você acha dele? Do Aranha. Acha que ele é tão nobre quanto parece ou é só um exibido com complexo de herói?

— Eu acho que ele faz o melhor que pode — Peter respondeu, tentando manter a voz estável enquanto ajustava o foco de um microscópio que nem estava usando. — Por que o interesse repentino?

— Ah, curiosidade científica. E pessoal. Ontem ele parecia... distraído. Como se estivesse tentando resolver um problema de cálculo na cabeça enquanto lutava.

Mozart deu um passo à frente, os olhos fixos nos de Peter. Por um segundo, o silêncio no laboratório ficou denso. Peter podia sentir o cheiro de Mozart — sândalo e algo metálico, como solda fria. Era o mesmo cheiro que ele sentira no terraço da Stark Industries quando, sob a máscara, ele se permitiu ser imprudente.

— Talvez ele estivesse apenas cansado — Peter murmurou.

— Ou talvez ele estivesse pensando em alguém — Mozart rebateu, a voz baixando para um tom quase confidencial. — Você sabia que ele beija bem, Peter?

Peter quase derrubou o microscópio.

— O quê? Como eu saberia disso?

Mozart riu, uma risada curta e genuína, e voltou para sua bancada.

— Só jogando conversa fora. Vamos trabalhar, Parker. Esses polímeros não vão se sintetizar sozinhos.

***

Enquanto o lado "Mozart Stark" da vida de Mozart estava ocupado provocando Peter Parker com verdades disfarçadas de piadas, o seu lado "Deadpool" estava faminto por algo menos acadêmico.

Duas horas depois, Mozart estava em um beco sujo no Queens, trocando o jaleco por elastano vermelho e preto. Ele ajustou as katanas nas costas e verificou o carregador de sua pistola personalizada.

— Certo, vozes na minha cabeça, qual é o cardápio de hoje? — Mozart perguntou, ajustando a máscara. — Temos ninjas da Mão? Não, muito repetitivo. Mafiosos russos? Um pouco datado. Que tal... oh, olha só!

Do outro lado da rua, um grupo de mercenários da I.M.A. estava tentando carregar um gerador de pulso eletromagnético para dentro de um furgão descaracterizado.

Deadpool saltou do topo de uma caçamba de lixo, aterrissando no meio do grupo com uma pirueta desnecessariamente dramática.

— Olá, rapazes em uniformes de apicultores futuristas! — ele exclamou, sacando as espadas. — Vocês sabem que amarelo não é a cor da estação, certo? É muito "verão 2014".

— É o Deadpool! — gritou um dos soldados, levantando um rifle de energia. — Fogo!

— Ah, "é o Deadpool", "fogo", blá blá blá — Deadpool zombou, esquivando-se de um tiro de plasma com um movimento fluido. — Ninguém mais diz "olá, como vai sua saúde mental?" ou "Mozart, seu cabelo está incrível hoje".

Ele chutou o rifle da mão de um soldado e usou o cabo da katana para nocauteá-lo. Enquanto lutava, sua mente trabalhava em dois níveis. Em um, ele era uma máquina de combate caótica, distribuindo socos e piadas infames. No outro, ele estava analisando a reação de Peter Parker no laboratório.

— Ele gaguejou — Deadpool disse para si mesmo, enquanto cortava o pneu do furgão. — Ele definitivamente gaguejou quando eu mencionei o beijo. O que significa que ou ele é o Aranha, ou ele é muito, muito ciumento.

— Falando sozinho de novo, Wade?

O coração de Mozart deu um salto — o tipo de salto que ele só sentia quando Tony Stark entrava no laboratório ou quando o Homem-Aranha aparecia. Ele olhou para cima e viu a silhueta familiar agachada em um poste de luz.

— Spidey! Meu aracnídeo favorito, meu crush não correspondido, meu herói de colante! — Deadpool guardou as espadas e abriu os braços. — Você veio me ajudar a reciclar esses vilões?

O Homem-Aranha saltou, disparando uma teia que prendeu os dois últimos soldados da I.M.A. contra a parede. Ele pousou com a graciosidade de um gato, mas seus ombros estavam tensos.

— Eu vim impedir que você transforme esse beco em um necrotério, Deadpool. Quantas vezes eu tenho que dizer? Sem mortes.

— Ah, você é tão certinho. É por isso que eu te amo — Deadpool se aproximou, inclinando a cabeça. — Mas ouvi dizer que você anda ficando menos certinho ultimamente. Soube que você andou visitando o terraço da Stark.

O Homem-Aranha congelou por um milésimo de segundo.

— O que você sabe sobre isso?

— Eu sei de tudo, teioso. Eu tenho olhos em todos os lugares. Até nos lugares onde você tira a máscara para beijar playboys bilionários — Deadpool deu um passo à frente, seu tom de voz mudando de brincalhão para algo mais afiado. — O que foi? O Stark é mais o seu tipo do que um mercenário regenerado com senso de humor duvidoso?

— O Mozart não tem nada a ver com isso — o Homem-Aranha retrucou, a voz saindo mais firme do que Peter se sentia por dentro. — E você deveria se preocupar com a sua própria vida, não com a minha.

— Mas a sua vida é tão mais interessante! — Deadpool saltou para cima do furgão, sentando-se na borda com as pernas balançando. — Diga-me uma coisa, Aranha. Se o Mozart Stark descobrisse que o herói dele é, na verdade, um garoto que provavelmente tem medo de pedir molho extra no McDonald's... o que você acha que ele faria?

O Homem-Aranha disparou uma teia, puxando Deadpool do furgão. O mercenário caiu de pé, rindo.

— Você está muito tenso hoje. Precisa de um abraço? Ou de outro beijo? Se você quiser, eu posso colocar uma peruca loira e fingir que sou o Mozart.

— Você é insuportável! — o Homem-Aranha exclamou, lançando uma teia para o alto e se impulsionando para longe.

— Isso foi um "talvez"?! — Deadpool gritou para o céu, acenando enquanto o herói desaparecia entre os prédios.

Mozart suspirou sob a máscara. Ele adorava irritar o Aranha, mas havia uma pontada de algo real ali. Ele queria contar. Queria tirar a máscara e dizer: "Ei, Peter, sou eu. O cara que te ajuda com física e que você beijou ontem". Mas o medo da rejeição — ou pior, do tédio de Peter — o mantinha calado.

***

A noite caiu sobre Nova York com uma chuva fina e gelada. Peter, agora apenas Peter, estava sentado em seu quarto no dormitório, tentando se concentrar em um ensaio sobre mecânica quântica. Ned estava roncando na cama ao lado, e MJ tinha enviado uma mensagem perguntando se ele queria ir ao café, a qual ele ignorou covardemente.

Seu telefone vibrou. Uma mensagem de Mozart.

"O terraço está com uma vista incrível hoje. E eu tenho pizza de pepperoni que não tem gosto de papelão. Vem?"

Peter olhou para a mensagem por cinco minutos. Ele deveria dizer não. Ele deveria estudar. Ele deveria parar de complicar sua vida.

Dez minutos depois, ele estava subindo as escadas de emergência da Stark Industries, não como Homem-Aranha, mas como Peter Parker.

Mozart estava sentado na borda do parapeito, as pernas balançando sobre o abismo de oitenta andares. Ele não parecia nem um pouco preocupado com a altura. Ele usava um moletom cinza largo e fones de ouvido em volta do pescoço. Ao lado dele, uma caixa de pizza aberta exalava um aroma celestial.

— Você veio — Mozart disse, sem se virar. — Eu estava começando a achar que você tinha se perdido no caminho do banheiro.

Peter sentou-se ao lado dele, mantendo uma distância segura da borda.

— Eu estava estudando, Moz. Alguns de nós não nasceram gênios com herança bilionária.

— Pobre Peter. Tão diligente — Mozart pegou uma fatia de pizza e a estendeu para ele. — Coma. Você parece que não se alimenta de nada além de ansiedade há três dias.

Eles comeram em silêncio por um tempo, observando o tráfego de luzes lá embaixo. Era um momento de paz que Peter raramente encontrava. Com Mozart, as coisas eram intensas, mas também estranhamente simples.

— Sabe, Parker — Mozart começou, sua voz suave, quase perdida no vento —, as pessoas acham que ter tudo é fácil. Mas a parte difícil é saber quem você é quando tira todas as coisas caras.

Peter olhou para ele, surpreso pela vulnerabilidade súbita.

— E quem é você, Mozart?

Mozart deu um sorriso enigmático.

— Depende do dia. E da máscara que eu decido usar.

Peter sentiu um frio na espinha. Será que Mozart sabia? Não, era apenas a filosofia típica de um Stark.

— Todo mundo usa máscaras — Peter disse, a voz baixa. — Às vezes é para proteger os outros. Às vezes é para nos proteger.

Mozart virou-se para ele, os olhos escuros brilhando sob a luz da lua.

— E do que você está se protegendo, Peter?

A distância entre eles encolheu. Peter podia sentir o calor vindo de Mozart. Ele se lembrou da noite anterior, da textura da máscara entre seus lábios e os de Mozart. O desejo de repetir aquilo, desta vez como ele mesmo, era quase insuportável.

Mozart estendeu a mão e tocou o rosto de Peter, o polegar acariciando sua bochecha.

— Você tem um segredo, Peter Parker — Mozart sussurrou. — Eu consigo ver nos seus olhos. É um segredo pesado.

— Eu... eu não sei do que você está falando — Peter gaguejou, mas não se afastou.

— Sabe sim. Mas está tudo bem. Eu também tenho os meus.

Mozart inclinou-se para frente. Peter fechou os olhos, o coração martelando como um tambor de guerra. Mas, em vez de um beijo, Mozart apenas encostou a testa na dele.

— O Homem-Aranha me disse que você era especial — Mozart mentiu, ou talvez não fosse uma mentira total, considerando que ele era o Deadpool e tinha falado consigo mesmo.

Peter abriu os olhos, confuso.

— O Homem-Aranha falou de mim?

— Ele disse que você era a melhor coisa da vida dele, mesmo que você não soubesse disso.

Peter sentiu uma lágrima teimosa escapar. A ironia era cruel. Mozart estava apaixonado pelo Homem-Aranha, e o Homem-Aranha era ele, mas Mozart não sabia. E ele estava apaixonado por Mozart, mas Mozart achava que o Homem-Aranha era outra pessoa.

— Ele é um idiota — Peter conseguiu dizer, com um sorriso triste.

— Um idiota adorável — Mozart corrigiu, afastando-se e pegando outra fatia de pizza. — Agora, termine de comer. Amanhã temos prova de astrofísica e eu não vou deixar você tirar uma nota menor que a minha só porque está tendo uma crise existencial.

***

Enquanto Peter descia do terraço, sentindo-se mais confuso do que nunca, Mozart Stark ficou para trás, observando-o partir.

Ele pegou o celular e discou um número criptografado.

— Wanda? — ele disse quando a ligação foi atendida. — Sim, sou eu. Escuta, você ainda tem aquele contato em Kamar-Taj? Preciso de um favor. Quero saber se é possível duas pessoas serem a mesma pessoa em duas linhas temporais diferentes... ou se o meu vizinho de quarto é apenas um herói mascarado muito ruim em esconder a identidade.

Ele desligou o telefone e olhou para o traje de Deadpool guardado em sua mochila tecnológica.

— Isso vai ser um desastre — Mozart disse para o vazio, um sorriso maníaco crescendo em seu rosto. — E eu mal posso esperar.

Ele saltou do parapeito, não como Mozart, não como Deadpool, mas como um borrão de adrenalina e segredos, desaparecendo na noite de Nova York enquanto a teia do destino continuava a se entrelaçar, alheia ao fato de que, em algum momento, todos os fios teriam que se romper.

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