← Voltar ao resumo

Homem aranha e Deadpool

O Labirinto de Máscaras e o Gosto de Adrenalina

A biblioteca da Empire State University era o único lugar onde o caos da vida de Mozart Stark parecia, momentaneamente, obedecer às leis da física. O silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico de teclados e pelo sussurro constante de páginas viradas. Peter estava sentado à sua frente, escondido atrás de uma pilha de livros sobre propulsão a jato, agindo como se o oxigênio da sala dependesse de sua total imobilidade.

Mozart, por outro lado, girava uma caneta entre os dedos com uma destreza que faria um mestre de artes marciais sentir inveja. Ele observava Peter. Observava o jeito que o garoto mordia o lábio inferior quando estava concentrado, ou como seus ombros subiam cinco centímetros toda vez que alguém passava pela porta.

— Você está fazendo de novo, Parker — Mozart disse, sua voz cortando o ar como uma lâmina de seda.

Peter deu um pulo, derrubando sua lapiseira.

— Fazendo... o quê?

— Tentando desaparecer através de osmose para dentro desse livro de engenharia aeroespacial. — Mozart inclinou-se para frente, apoiando o queixo na mão. — Você está tenso. Mais do que o normal. E o seu "normal" é o nível de estresse de um gato em uma sala cheia de aspiradores de pó.

— Eu só... não dormi bem — Peter mentiu, a voz falhando ligeiramente. — Tive um projeto pessoal que tomou muito tempo.

— Um projeto pessoal, sei. — Mozart sorriu, um sorriso que Peter achava perigosamente atraente e irritante ao mesmo tempo. — Tipo balançar por aí em um pijama de alta tecnologia?

Peter congelou. O tempo pareceu parar. Ele sentiu o sentido aranha formigar levemente na nuca, não como um aviso de perigo iminente, mas como um alerta de "você está prestes a ser descoberto".

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Peter, tentando manter o tom casual.

— Quero dizer que você é um nerd, Peter. — Mozart deu de ombros, recuando. — Provavelmente estava jogando algum RPG online ou construindo um computador do zero. O que mais seria?

Peter soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Mozart riu baixinho, voltando a rabiscar em seu caderno, mas seus pensamentos estavam a quilômetros dali. Como Deadpool, Mozart tinha passado a manhã inteira rastreando a assinatura de sinal de um rastreador que ele havia "plantado" (leia-se: colado com chiclete) no cinto do Homem-Aranha durante a última briga. O sinal tinha levado direto para o campus.

"O Aranha é um estudante", Mozart pensou, sentindo uma excitação caótica borbulhar em seu peito. "E o Parker cheira exatamente como o fluido de teia que o Aranha usa para me calar a boca."

***

A noite em Nova York era uma pintura em tons de neon e sombras. O Homem-Aranha estava agachado no topo de um dos gárgulas do Edifício Chrysler, tentando processar o fato de que Mozart Stark estava flertando com ele — tanto como Peter quanto como Homem-Aranha — de formas que desafiavam a lógica.

— Você parece pensativo, teioso. — A voz veio de trás dele, carregada de um sarcasmo familiar.

Peter não precisou se virar para saber que era o Deadpool. O mercenário estava sentado casualmente no vazio, suspenso por um cabo de aço que ele provavelmente não deveria ter permissão para usar.

— O que você quer, Deadpool? — Peter suspirou, a voz abafada pela máscara. — Eu já disse que não vou te ajudar a roubar o protótipo de sorvete infinito da Stark Industries.

— Primeiro: não é roubo se o meu pai é o dono. É "empréstimo familiar antecipado" — Deadpool saltou para o lado do Aranha, agachando-se na mesma posição. — Segundo: eu vim ver como está o meu herói favorito. Soube que você teve um momento romântico no terraço ontem. Com um certo loiro tingido de preto.

Peter sentiu o sangue subir para o rosto. Sob a máscara, ele estava vermelho como seu traje.

— Como você sabe disso? Você está me seguindo?

— Eu sou um mercenário, baby. Informação é o meu negócio. E entretenimento é o meu prazer. — Deadpool inclinou a cabeça, os olhos brancos da máscara se estreitando. — Mas me diga... o beijo foi bom? Porque o Mozie costuma ser bem exigente.

— Não chame ele assim! — Peter disparou, levantando-se bruscamente. — E não é da sua conta. O Mozart é... ele é apenas um amigo.

— Um amigo que você beija no terraço enquanto usa colante? — Deadpool soltou uma risada escandalosa. — Nossa, a amizade hoje em dia está evoluindo rápido. Eu deveria tentar isso com o Cable, mas ele é muito ranzinza.

— Vai embora, Deadpool. — O Homem-Aranha disparou uma teia, preparando-se para saltar.

— Espere! — Deadpool segurou o pulso do Aranha. Por um segundo, a brincadeira sumiu de sua voz. — Você gosta dele, não gosta? Do Mozart. Não do tipo "ele é um cara legal", mas do tipo "eu morreria por ele e provavelmente deixaria ele me ver sem a máscara".

Peter hesitou. Havia algo na voz de Deadpool que soava estranhamente familiar. Uma cadência, um ritmo que ele conhecia de algum lugar longe das lutas de rua.

— Eu não sei — Peter admitiu, a voz baixa. — Mas ele merece alguém melhor do que um cara que vive escondido atrás de um símbolo.

— Ah, Peter... — Deadpool começou, mas parou imediatamente.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O vento soprava entre os prédios, mas para Peter, o mundo tinha parado.

— Como você me chamou? — A voz do Homem-Aranha saiu como um sussurro perigoso.

Deadpool deu um passo para trás, as mãos levantadas em um gesto defensivo, mas havia um brilho de diversão maníaca em seus olhos.

— Eu disse... "Puxa, que frio", não disse? O sotaque canadense às vezes confunde as coisas.

— Você me chamou de Peter. — O Homem-Aranha avançou, encurralando o mercenário contra a base do gárgula. — Como você sabe o meu nome?

Deadpool inclinou a cabeça, e então, com um movimento lento e deliberado, ele levou as mãos à própria máscara.

— Sabe, Spidey... eu odeio segredos. Especialmente quando eles me impedem de fazer o que eu realmente quero fazer desde que te conheci.

Ele puxou a máscara.

O rosto que surgiu não era o de um mercenário desfigurado (graças ao fator de cura aprimorado pela tecnologia Stark e um toque de sorte genética). Era o rosto de Mozart Stark. O cabelo preto bagunçado pelo vento, os olhos intensos e o mesmo sorriso sarcástico que Peter via todos os dias na faculdade.

Peter recuou, tropeçando nos próprios pés.

— Moz? — A voz de Peter saiu quebrada. — Você... você é o Deadpool?

— Surpresa! — Mozart abriu os braços, fazendo uma reverência dramática. — E antes que você pergunte, sim, eu sou o Deadpool original deste universo. Sim, eu falo com o público. E sim, eu sabia que era você, Peter. O cheiro de fluido de teia e detergente barato é uma marca registrada sua.

Peter arrancou a própria máscara, revelando o rosto em choque, o cabelo grudado na testa pelo suor.

— Você estava brincando comigo esse tempo todo? Na faculdade, no terraço... você sabia?

— Eu suspeitava. — Mozart deu um passo à frente, sua expressão suavizando. — Mas eu precisava ter certeza. E, honestamente? Eu queria ver até onde você iria.

— Você é um idiota! — Peter exclamou, uma mistura de raiva e alívio percorrendo seu corpo. — Eu estava morrendo de medo de você descobrir, de você me odiar, de colocar você em perigo... e você é o cara que corta pessoas com espadas por diversão!

— Ei, eu só corto as pessoas que merecem! — Mozart protestou, mas então ele encurtou a distância entre eles. — E eu nunca te odiaria, Peter. Como eu poderia odiar o cara que é o único motivo pelo qual eu ainda tento ser um herói de vez em quando?

Eles estavam a centímetros de distância. O topo do Edifício Chrysler parecia o centro do universo.

— Então... — Peter começou, sua respiração falhando — toda aquela provocação do Deadpool sobre o Homem-Aranha estar apaixonado pelo Mozart...

— Era eu sendo um gênio do marketing romântico. — Mozart colocou as mãos na cintura de Peter, puxando-o para mais perto. — E agora que as máscaras caíram, eu acho que temos uma pendência técnica para resolver.

— Uma pendência? — Peter perguntou, embora soubesse exatamente do que ele estava falando.

— O beijo no terraço foi bom. Mas o Homem-Aranha estava com a máscara. E o Mozart estava confuso. Agora, é só o Mozart e o Peter. E eu não aceito nada menos que o melhor.

Mozart não esperou por uma resposta. Ele inclinou-se e selou seus lábios nos de Peter.

Foi um beijo que começou com a urgência de meses de segredos acumulados e explodiu em algo muito mais profundo. Não era apenas o encontro de dois estudantes ou de dois heróis; era a colisão de duas vidas duplas que finalmente encontravam um ponto de equilíbrio. Peter passou os braços pelo pescoço de Mozart, puxando-o para mais perto, sentindo a textura do traje de Deadpool sob seus dedos.

Mozart aprofundou o beijo, sua língua explorando a de Peter com uma confiança que fez os joelhos do Aranha fraquejarem. Era perigoso, era duradouro e tinha o gosto de adrenalina e liberdade. O mundo lá embaixo continuava seu caos, mas ali, no topo de Nova York, o tempo tinha finalmente se rendido.

Quando eles finalmente se separaram, ambos estavam arfando, as testas encostadas uma na outra.

— Uau — Peter sussurrou, os olhos ainda fechados. — Definitivamente melhor que o beijo com a máscara.

— Eu te disse. Sou um Stark. Nós fazemos tudo melhor. — Mozart sorriu, acariciando o rosto de Peter. — Mas agora temos um problema sério, Pete.

— Qual?

— Se o meu pai descobrir que eu sou o Deadpool, ele vai me deixar de castigo até eu fazer trinta anos. E se ele descobrir que você é o Homem-Aranha, ele vai te contratar, te dar um aumento e provavelmente te adotar. O que nos tornaria... irmãos? E isso seria muito estranho depois do que acabamos de fazer.

Peter soltou uma gargalhada, a primeira risada verdadeira que ele dava em semanas.

— Acho que podemos manter o segredo do Tony por mais um tempo.

— Concordo. — Mozart colocou a máscara de Deadpool de volta, mas deixou a parte da boca descoberta. — Agora, o que você acha de irmos pegar aquela pizza? Mas desta vez, eu pago. Como Deadpool, eu tenho um fundo de reserva para "emergências românticas".

— Você é inacreditável, Moz.

— Eu sei, baby. Eu sei.

Eles saltaram do prédio juntos, um rastro de teia e um salto acrobático, mergulhando na escuridão da cidade. As máscaras podiam estar de volta, mas pela primeira vez, eles não estavam mais escondidos um do outro. A teia estava completa, e o futuro, embora caótico, nunca pareceu tão brilhante.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.