Horror
Sombras sob o Véu da Hospitalidade
O silêncio na Fazenda Cosme e Damião nunca mais foi o mesmo para Clara. Desde aquela tarde no galpão, cada rangido das tábuas do assoalho e cada sussurro do vento nas plantações de milho pareciam carregar um segredo. Ela tentava manter a rotina, focando-se no jardim e nas orações para o filho que tanto desejava, mas os olhos de Diana — que ela agora sabia se chamar assim, embora a chamasse apenas de sogra — seguiam seus movimentos com uma perspicácia venenosa.
Jerônimo, por outro lado, redobrara os cuidados. Ele a cumulava de presentes: joias de ouro maciço, vestidos de seda que abraçavam suas curvas com delicadeza e promessas de viagens. Ele era o porto seguro, o homem que a beijava com ternura antes de sair para "resolver pendências com os fornecedores". Clara queria acreditar. Ela precisava acreditar que o homem que segurava sua mão com tanta devoção não era o mesmo que comandava sombras na calada da noite.
Certa manhã, a agitação na casa estava diferente. Diana supervisionava as empregadas com um rigor ainda mais ácido que o habitual.
— Lustrem a prataria até que eu consiga ver o reflexo do meu desdém nela! — ordenou Diana, batendo as unhas longas sobre a mesa de mogno. — Teremos convidados importantes para o jantar. Jerônimo quer causar uma boa impressão em uma nova investidora.
Clara, que colhia rosas para o vaso da sala, sentiu um aperto no peito.
— Convidados, Dona Diana? Jerônimo não me comentou nada.
A sogra virou-se lentamente, o olhar percorrendo o corpo de Clara com aquela mistura familiar de nojo e superioridade.
— Ele deve ter esquecido que você precisa de tempo para se... preparar. Tente usar algo que não a faça parecer uma almofada de alfinetes, se é que isso é possível. E, pelo amor de Deus, Clara, mantenha a boca fechada sobre suas "angústias" de maternidade. Ninguém quer ouvir lamentações de uma mulher incompleta durante o jantar.
Clara engoliu o nó na garganta. Ela já não chorava mais na frente de Diana; aprendera que as lágrimas eram o combustível daquela mulher.
— Vou me preparar, com licença.
Horas depois, Jerônimo chegou. Ele parecia tenso, embora o sorriso tenha surgido assim que viu Clara no topo da escada. Ela usava um vestido azul-marinho que realçava seu colo e o tom de sua pele.
— Você está deslumbrante, minha rainha — disse ele, subindo os degraus para beijar sua mão. — Sinto muito pela pressa, mas surgiu uma oportunidade de negócio maravilhosa. Uma mulher de São Paulo, Marta Sayão. Ela está interessada em expandir nossa logística de exportação.
— Marta Sayão? — Clara repetiu o nome, sentindo um estranhamento que não sabia explicar. — Ela vem sozinha?
— Com um assistente, creio eu. É uma mulher de visão, Clara. Se fecharmos esse acordo, teremos recursos para buscar os melhores especialistas do mundo para o nosso problema. Para o nosso filho.
Jerônimo tocou o ventre de Clara com uma suavidade que quase a fez esquecer os homens armados e os pacotes pretos. Ele sabia exatamente qual corda tocar para garantir sua lealdade.
— Vou fazer o meu melhor, Jerônimo. Prometo.
O som de um carro subindo a estradinha de cascalho anunciou a chegada dos convidados. Clara desceu ao lado do marido, tentando controlar o tremor nas mãos. Diana já estava na porta, o rosto transformado em uma máscara de polidez aristocrática.
Quando a porta se abriu, uma mulher elegante entrou. Ela vestia um terno impecável, os cabelos presos em um coque rigoroso e óculos que lhe conferiam um ar intelectual e distante. Atrás dela, um homem mais jovem observava tudo com olhos atentos.
— Seja bem-vinda à nossa casa, Dona Marta — disse Jerônimo, estendendo a mão com o carisma de um verdadeiro senhor de terras. — É uma honra recebê-la.
— O prazer é meu, Sr. Jerônimo — respondeu a mulher, sua voz era firme, mas havia algo nela que parecia... ensaiado. — A fama de sua hospitalidade e de sua produção atravessa fronteiras.
Ela então voltou o olhar para Clara. Por um microssegundo, os olhos daquela mulher pareceram faíscas de eletricidade, como se estivesse escaneando não apenas o rosto de Clara, mas sua alma.
— E esta deve ser a sua esposa — disse a visitante, com um sorriso que não chegava aos olhos.
— Esta é a minha Clara — apresentou Jerônimo, passando o braço pela cintura dela de forma possessiva. — O coração desta fazenda.
— Muito prazer, Dona Marta — murmurou Clara, oferecendo a mão.
— Marta, por favor. Apenas Marta — corrigiu a mulher, apertando a mão de Clara com uma força inesperada.
O jantar foi servido sob uma tensão invisível. Verônica — que ali se apresentava como Marta — mantinha o disfarce com perfeição cirúrgica. Ela falava sobre rotas de transporte, impostos e mercado internacional, enquanto seus olhos, por trás das lentes, captavam cada detalhe: a agressividade passiva de Diana, a dominância de Jerônimo e, principalmente, a fragilidade de Clara.
Verônica não esperava encontrar uma esposa. Nos relatórios sobre o "Rei do Vale", Jerônimo era descrito como um homem implacável, um sucessor de crimes ancestrais. A presença de Clara, uma mulher que parecia emanar uma pureza quase anacrônica naquele ambiente de lobos, era uma variável que Verônica precisava entender.
— A senhora também se envolve nos negócios da família, Clara? — perguntou Verônica, enquanto cortava o filé mignon com precisão.
— Oh, não — Diana interrompeu, antes que Clara pudesse abrir a boca. — Clara dedica-se às coisas... leves. Flores, bordados e seus pequenos dramas pessoais. Jerônimo prefere manter a esposa longe das agruras do trabalho bruto.
Jerônimo sorriu, embora seus olhos tenham brilhado com um aviso para a mãe.
— Eu protejo o que é precioso, Marta. Clara não precisa se preocupar com a poeira do mundo lá fora.
— Entendo — disse Verônica, lançando um olhar de soslaio para o seu "assistente". — Mas às vezes a poeira entra pelas frestas, não é? Mesmo nas casas mais protegidas.
Clara sentiu um arrepio. Aquela frase parecia um eco do que ela mesma sentira nos últimos dias.
— Às vezes — respondeu Clara, ganhando uma coragem repentina — a gente descobre que a poeira sempre esteve lá, só estava escondida sob o tapete.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Jerônimo apertou levemente o guardanapo de linho. Diana arqueou uma sobrancelha, surpresa com a audácia da nora. Verônica, no entanto, sentiu uma pontada de simpatia. Ela reconhecia aquele olhar. Era o olhar de alguém que estava começando a acordar de um pesadelo.
— A senhora é muito perspicaz, Clara — comentou Verônica, suavizando o tom. — É uma qualidade rara.
Após o jantar, Jerônimo e "Marta" retiraram-se para o escritório para discutir detalhes contratuais. Diana, alegando uma enxaqueca súbita — provavelmente causada pela presença de estranhos que ela não podia controlar totalmente — subiu para seus aposentos, deixando Clara sozinha na varanda.
A noite estava abafada. Clara respirava fundo, tentando processar o turbilhão de emoções. Ela sentia que aquela mulher, Marta, não era quem dizia ser. Havia um perigo nela, mas não o mesmo perigo que emanava dos capangas de Jerônimo. Era o perigo da justiça.
— A noite está linda, não está?
Clara deu um pulo. Verônica estava parada à porta da varanda, sozinha.
— Onde está o Jerônimo? — perguntou Clara, recompondo-se.
— Ele foi buscar alguns documentos no cofre. Eu aproveitei para tomar um pouco de ar. O cheiro da terra aqui é... intenso.
Verônica aproximou-se da mureta, ficando ao lado de Clara. Por um momento, as duas mulheres ficaram em silêncio, observando a imensidão escura da fazenda.
— Você parece infeliz, Clara — disse Verônica, direta, abandonando parte do tom profissional de Marta.
Clara sentiu as defesas subirem.
— Eu tenho tudo o que uma mulher poderia querer. Um marido que me ama, uma casa maravilhosa...
— E um segredo que está te corroendo — completou Verônica, virando-se para ela. — Eu vejo o jeito que você olha para ele. Você o ama, mas tem medo dele. E tem razão para ter.
— Você não sabe do que está falando — sussurrou Clara, a voz trêmula. — Você veio aqui para fazer negócios.
— Eu vim aqui para buscar a verdade, Clara. E eu acho que, no fundo, você também quer encontrá-la.
Antes que Clara pudesse responder, o som de passos pesados anunciou a volta de Jerônimo. Verônica instantaneamente mudou sua postura, voltando a ser a investidora fria.
— Aqui estão os mapas de logística, Marta — disse Jerônimo, entregando uma pasta de couro. — Acho que isso resolve nossas dúvidas.
— Perfeito — disse ela, sorrindo para Jerônimo. — Foi um prazer conhecer sua casa. E sua esposa.
Quando os visitantes partiram, o silêncio voltou a reinar, mas era um silêncio carregado de eletricidade. Jerônimo abraçou Clara por trás, enterrando o rosto em seu pescoço.
— O que ela disse a você na varanda? — perguntou ele, e Clara sentiu o frio daquela voz que ela ouvira no galpão.
— Nada demais, amor. Falamos sobre o clima, sobre a beleza da fazenda. Ela disse que eu era... perspicaz.
Jerônimo a virou para frente, segurando seus braços com uma força que quase machucava.
— Ela é uma mulher perigosa, Clara. Negócios assim exigem cuidado. Não quero você conversando com estranhos sem que eu esteja por perto. Entendeu?
— Você está me assustando, Jerônimo.
Ele relaxou a pressão, suavizando a expressão imediatamente, como se trocasse uma máscara.
— Desculpe, minha rainha. É o estresse. Eu só quero te proteger. Tudo o que eu faço é por você. Nunca se esqueça disso.
Ele a conduziu para o quarto, mas Clara não conseguia tirar as palavras de "Marta" da cabeça. "A poeira entra pelas frestas".
Naquela noite, enquanto Jerônimo dormia um sono pesado, Clara levantou-se. Ela foi até o escritório dele, o coração batendo tão forte que parecia que ia saltar pela boca. A porta estava trancada, mas ela sabia onde Diana guardava a chave mestra da casa.
Com as mãos trêmulas, ela abriu a porta. O escritório cheirava a charutos e uísque. Ela começou a vasculhar as gavetas, sem saber exatamente o que procurava. Foi então que, no fundo de uma gaveta falsa na escrivaninha, ela encontrou um fundo falso.
Dentro dele, não havia apenas papéis de terra. Havia fotos. Fotos de mulheres, algumas muito jovens. Havia nomes, datas e valores ao lado. E havia um brasão que ela vira tatuado no braço de um dos homens no galpão.
Clara sentiu o estômago revirar. Aquilo não era gado. Não era milho.
De repente, a luz do escritório se acendeu.
— Eu avisei a ele — disse a voz gélida de Diana na porta. — Eu disse que você acabaria metendo esse seu nariz gordo onde não foi chamada.
Clara virou-se, segurando as fotos contra o peito como se fossem um escudo.
— O que é isso, Dona Diana? O que o Jerônimo faz?
A sogra caminhou até ela, o rosto iluminado apenas pela luz amarelada do abajur, parecendo uma criatura de pesadelo.
— Ele mantém a tradição desta família, sua tola. Ele é um provedor. Ele dá às pessoas o que elas querem, e recebe o que nos é de direito. O que você viu nessas fotos é o que sustenta esse seu conforto. Cada grama de ouro que você usa foi paga com a vida de alguém que não importa.
— Vocês... vocês vendem pessoas? — a voz de Clara sumiu em um sopro.
Diana riu, um som seco e sem vida.
— Nós governamos, Clara. Mas você... você é apenas um erro que Jerônimo insiste em manter. Mas agora, você mesma assinou sua sentença.
— Jerônimo me ama! Ele nunca deixaria a senhora me fazer mal!
— O amor de um homem como Jerônimo é uma gaiola, minha querida. E quando o pássaro começa a bicar as grades, ele corta as asas.
Nesse momento, Jerônimo apareceu atrás da mãe. Ele estava apenas de calças de pijama, o torso forte à mostra, mas seus olhos não tinham rastro de sono. Eles estavam vazios. Mortos.
— Clara — disse ele, e o nome dela soou como uma condenação. — Por que você não ficou na cama?
— Jerônimo, me diz que isso é mentira — implorou ela, deixando as fotos caírem sobre a mesa. — Me diz que você não faz parte disso.
Ele caminhou lentamente até ela. Clara recuou até bater contra a parede. Ele não a abraçou. Ele apenas colocou a mão na parede, ao lado da cabeça dela, cercando-a.
— Eu disse que fazia tudo por nós, não disse? O mundo é cruel, Clara. Para que você pudesse viver nesse conto de fadas, eu tive que me tornar o monstro que fica à espreita na floresta.
— Eu não quero essa vida! Eu não quero um filho nascido desse sangue!
O rosto de Jerônimo se contorceu em uma careta de fúria.
— Você vai querer a vida que eu te der! — rugiu ele, perdendo o controle pela primeira vez. — Você vai ficar nesta casa, vai ser a rainha que eu criei, e vai me dar o herdeiro que eu preciso. Se o seu amor não é suficiente para aceitar quem eu sou, então o seu medo terá que bastar.
Ele se virou para a mãe.
— Tranque-a no quarto. Tirem o telefone, cortem a internet. Ela não sai de lá até que eu decida o que fazer.
— Com prazer, meu filho — disse Diana, um brilho de triunfo nos olhos.
Clara foi arrastada para o andar de cima. Enquanto era empurrada para dentro do quarto que antes era seu refúgio e agora era sua cela, ela viu, pela janela, as luzes de um carro longe na estrada.
Ela pensou na mulher, Marta. Verônica. Ela percebeu que a "investidora" não era a única que buscava a verdade. Agora, Clara a conhecia. E a verdade era mais pesada do que qualquer quilo que ela já tentara perder, mais amarga do que qualquer insulto de Diana.
Sentada no chão, abraçando os próprios joelhos, Clara sentiu um movimento estranho no ventre. Um enjoo que não vinha apenas do medo. Ela tocou a barriga, e uma ironia cruel a atingiu como um tapa. No momento em que sua vida desmoronava e o homem que ela amava se revelava um demônio, o milagre que ela tanto pedira parecia estar finalmente acontecendo.
Ela estava grávida. E o pai era o monstro que acabara de trancá-la na escuridão.
Longe dali, em um hotel de beira de estrada, Verônica tirava os óculos e olhava para as anotações que fizera.
— Tem algo errado naquela fazenda, Nelson — disse ela para o colega. — A esposa. Ela sabe de algo. E se eu não tirar ela de lá logo, o Jerônimo vai acabar com ela.
— Verônica, nosso alvo é o esquema, não a família — alertou Nelson.
— Naquele lugar, Nelson, a família é o esquema. E a Clara... ela é a chave para abrir aquela caixa de pandora.
A guerra estava declarada. E Clara, no centro do tabuleiro, teria que decidir se seria a vítima sacrificada ou a rainha que derrubaria o rei.