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Horror

A Prisão de Vidro e o Fruto do Silêncio

O silêncio do quarto era absoluto, mas o barulho dentro da cabeça de Clara era ensurdecedor. Ela estava sentada no divã de veludo bordado, com os olhos fixos na porta de carvalho maciço que, pela primeira vez em três anos, estava trancada pelo lado de fora. O clique da fechadura horas antes ainda ecoava em seus ouvidos como o disparo de uma arma.

Ela levou a mão à barriga. O enjoo matinal, que ela tanto desejara sentir como um sinal de esperança, agora parecia uma ironia cruel da natureza. "Um filho", pensou ela, sentindo o gosto metálico do medo na boca. "Um filho de um homem que negocia vidas".

A depressão, aquela velha sombra cinzenta que a acompanhara durante toda a juventude e que parecia ter sido dissipada pelo sol de Jerônimo, voltava agora com uma força avassaladora. Clara sentia como se estivesse afundando em um pântano de areia movediça. O peso de seu próprio corpo parecia triplicado; cada movimento era um esforço hercúleo. Ela não queria comer, não queria se mexer, queria apenas que o mundo desaparecesse.

O som da chave girando a fez sobressaltar-se. A porta se abriu suavemente e Jerônimo entrou. Ele não trazia a expressão furiosa da noite anterior. Pelo contrário, seu rosto estava marcado por uma ternura que, agora, Clara achava aterrorizante. Ele carregava uma bandeja com o café da manhã mais refinado que a fazenda podia oferecer: frutas frescas, mel puro, pães de queijo quentes e o chá de camomila que ela tanto gostava.

— Bom dia, minha rainha — disse ele, a voz suave como seda, como se nada tivesse acontecido.

Clara não respondeu. Ela se encolheu no divã, puxando as pernas para junto do corpo, tentando se tornar invisível.

— Eu trouxe o seu café — continuou ele, colocando a bandeja sobre a mesa lateral. — Você precisa comer, Clara. Está pálida. Não quero que fique doente.

— Por que você me trancou aqui? — a voz dela saiu fraca, quase um sussurro.

Jerônimo suspirou e sentou-se na beira do divã, estendendo a mão para acariciar o rosto dela. Clara estremeceu e desviou o rosto, um gesto que fez os olhos dele escurecerem por um breve momento antes de voltarem àquela calma forçada.

— É para a sua segurança, meu amor. O mundo lá fora está ficando perigoso. Aquela mulher, a Marta... ela não é quem diz ser. Há pessoas querendo destruir o que construímos. Eu só posso te proteger se souber exatamente onde você está.

— Me proteger de quem, Jerônimo? Da verdade? — Ela o olhou nos olhos, e a timidez habitual foi substituída por um desespero cortante. — Eu vi aquelas fotos. Eu ouvi o que você disse para os homens no galpão. Você me transformou em cúmplice de um monstro sem que eu soubesse.

— Não diga isso — ele disse, a voz subindo um tom, mas ainda controlada. — Tudo o que eu fiz, cada decisão difícil, cada gota de sangue... foi para garantir que você nunca tivesse que se preocupar com nada. Para que você tivesse essa casa, essas roupas, esse conforto. Eu fiz tudo por você, Clara! Porque eu te amo mais do que a minha própria vida.

— Se você me amasse, não me trataria como um animal de estimação que você tranca quando ele late — rebateu ela, as lágrimas começando a cair. — Você vai me matar, não vai? Agora que eu sei... agora que eu sou um "elo fraco", como sua mãe diz...

Jerônimo paralisou. Ele segurou os ombros dela com uma intensidade que a fez prender a respiração.

— Nunca — ele declarou, cada palavra pesada como chumbo. — Nunca mais repita isso. Eu morreria antes de deixar um fio de cabelo seu ser tocado. Você é a única coisa pura neste mundo de lama, Clara. Você é minha redenção. Eu vou te manter aqui, protegida de tudo e de todos. Mesmo que você me odeie por um tempo, um dia você vai entender.

Ele se inclinou e beijou a testa dela. O toque, que antes trazia paz, agora parecia a marca de um proprietário sobre sua posse mais valiosa.

— Coma. Eu volto para o almoço.

Quando ele saiu e a porta foi trancada novamente, Clara correu para o banheiro. O estômago revirou e ela vomitou a bile ácida da angústia. Ela lavou o rosto, olhando-se no espelho. Suas bochechas estavam encovadas, os olhos rodeados por olheiras profundas.

— Eu não posso contar — sussurrou para o reflexo. — Se eu contar que estou grávida, eu nunca mais sairei daqui. Eu serei apenas o útero que carrega o herdeiro dele.

Ela sabia que, para Jerônimo, um filho seria a peça final de seu império. Ele a amarraria a ele para sempre através daquela criança. E Clara, mergulhada na volta de sua depressão, sentia que não tinha forças para ser mãe em uma prisão de ouro.

Horas depois, uma batida seca na porta anunciou outra visita. Não era Jerônimo. Era Dona Volúsia. A sogra entrou com um sorriso de triunfo tão evidente que parecia iluminar o quarto de forma sinistra. Ela trazia um copo de suco, que colocou sobre a mesa com um gesto desdenhoso.

— Ora, veja só. A rainha foi destronada — zombou a velha, caminhando pelo quarto e passando o dedo sobre os móveis para verificar se havia poeira. — Eu avisei que esse seu teatrinho de esposa perfeita não duraria. Jerônimo finalmente abriu os olhos.

Clara permaneceu em silêncio, sentada na cama, olhando para o vazio. O desânimo era tão profundo que as ofensas da sogra pareciam vir de uma distância imensa.

— O que foi? O gato comeu sua língua? — Volúsia aproximou-se, inclinando-se sobre Clara. — Você acha que ele vai te manter aqui para sempre? Um homem como meu filho se cansa rápido de brinquedos quebrados. Especialmente brinquedos inúteis que não funcionam.

Ela deu um tapinha condescendente no rosto de Clara.

— Logo ele perceberá que você é um fardo. E quando esse dia chegar, eu mesma farei questão de abrir o portão para você sair... ou para ser descartada onde ninguém te encontre.

— A senhora ficaria muito feliz se ele me matasse, não é? — perguntou Clara, a voz desprovida de emoção.

— O que acontece com você não me interessa, desde que você saia do caminho dele — respondeu Volúsia. — Mas olhe para você... essa apatia, esse corpo pesado... você já está morta por dentro, Clara. Só esqueceu de cair.

A velha saiu do quarto, soltando uma risada seca. Clara sentiu o peso das palavras dela. Era verdade. A depressão a estava consumindo. A ideia de que Jerônimo, em um acesso de fúria ou por pressão da mãe, pudesse decidir que ela era um risco alto demais, não saía de sua mente. Ela imaginava o marido entrando no quarto não com uma bandeja de café, mas com uma arma, o mesmo olhar frio que ele direcionava aos seus capangas.

O medo e a tristeza formavam uma névoa espessa. Clara passou o restante do dia deitada, recusando-se a ver a luz do sol que entrava pelas frestas das cortinas. Ela não atendeu quando Jerônimo chamou seu nome através da porta no almoço. Ela não se moveu quando ele entrou, preocupado, e tentou fazê-la comer um pouco de sopa.

— Clara, por favor — implorava ele, ajoelhado ao lado da cama. — Fale comigo. Brigue comigo, grite, mas não fique assim. Você está me matando aos poucos com esse silêncio.

— Você já me matou, Jerônimo — ela disse, sem olhar para ele. — O homem por quem eu me apaixonei nunca existiu. Você o inventou para me ganhar.

— Ele existe! — ele exclamou, pegando a mão dela e pressionando-a contra o próprio peito. — O homem que te ama é real. O que eu faço lá fora é o que eu sou obrigado a ser para sobreviver. Mas aqui dentro, com você, eu sou apenas o seu marido.

— Você é um criminoso. Um monstro que destrói famílias. Como você pode falar de amor enquanto tranca sua esposa e esconde cadáveres na sua terra?

Jerônimo fechou os olhos, uma lágrima solitária escapando e rolando por seu rosto rústico.

— Eu vou te provar. Eu vou te mostrar que posso ser o homem que você quer. Só me dê tempo. Só não me deixe, Clara. Eu não sei quem eu sou sem você.

Ele ficou ali por horas, segurando a mão dela, mesmo que ela não retribuísse o aperto. Para Jerônimo, Clara era o seu único vínculo com a humanidade. Ele a amava com uma obsessão doentia, uma necessidade de possessão que confundia com proteção. Ele preferia vê-la presa e infeliz ao seu lado do que livre e longe de seu alcance.

À noite, o silêncio da fazenda foi quebrado pelo som de um helicóptero ao longe. Clara sentou-se na cama, o coração disparado. Seria a polícia? Seria a mulher do jantar voltando para buscá-la?

Ela ouviu gritos no andar de baixo, o som de carros arrancando e ordens sendo dadas por Jerônimo. A porta do quarto foi aberta bruscamente. Jerônimo entrou, vestindo uma jaqueta de couro, com uma pistola ostensivamente presa ao cinturão.

— Clara, vista um casaco. Agora!

— O que está acontecendo? — ela perguntou, o terror paralisando seus membros.

— A polícia está na região. Alguém abriu o bico. Temos que ir para a casa de apoio na mata.

— Eu não vou a lugar nenhum com você! — gritou ela, recuando para o canto do quarto. — Deixe que me achem! Deixe que me levem!

Jerônimo avançou e a pegou pelos braços, levantando-a com uma força que ela não pôde combater.

— Você não entende? Se eles te pegarem, vão te usar contra mim! Vão te colocar em uma cela fria para me fazer falar! Eu não vou permitir que ninguém encoste em você!

— Você é quem está me machucando! — ela soluçou, lutando contra o abraço dele.

Nesse momento, Dona Volúsia apareceu na porta, com uma maleta de joias e uma expressão de puro ódio.

— Deixe essa mulher aí, Jerônimo! Ela é um atraso! Se a polícia a levar, ela não sabe de nada que possa nos incriminar de verdade. Deixe que ela apodreça aqui!

— Cale a boca, mãe! — rugiu Jerônimo. — A Clara vem comigo. Se eu tiver que queimar este vale inteiro para mantê-la comigo, eu farei!

Ele envolveu Clara em um cobertor grosso, praticamente carregando-a para fora do quarto. Enquanto desciam as escadas, Clara viu o caos na sala. Documentos sendo queimados na lareira, homens armados correndo de um lado para o outro.

Ela sentiu uma tontura súbita. A pressão baixa, o estresse e a gravidez secreta cobraram seu preço. O mundo começou a escurecer.

— Jerônimo... — ela murmurou, a voz falhando.

— Aguente firme, meu amor. Eu estou aqui. Eu sempre vou estar aqui.

Antes de perder os sentidos, a última imagem que Clara teve foi a do rosto de Jerônimo, distorcido pela agonia e pelo amor possessivo, e o pensamento aterrorizante de que, para ele, ela não era uma pessoa, mas o tesouro mais precioso de seu império de sangue. E tesouros, ela sabia bem, nunca eram libertados; eram enterrados profundamente para que ninguém mais pudesse encontrá-los.

Ela desmaiou nos braços do homem que jurava protegê-la, carregando no ventre o segredo que poderia ser sua única saída ou sua condenação final. Enquanto o carro partia em alta velocidade pela estrada de terra, deixando para trás a sede da fazenda sob o cerco das luzes policiais, Clara mergulhava novamente na escuridão, onde o ouro de seu casamento se misturava irremediavelmente ao sangue das vítimas de seu marido.