Horror
O Labirinto de Vidro e a Traição do Sangue
O esconderijo na mata era uma construção de luxo camuflada pela vegetação densa, um bunker de concreto e vidro que cheirava a mofo e isolamento. Clara despertou com o som da chuva batendo contra as janelas reforçadas. Ela estava deitada em uma cama larga, coberta por lençóis de fios egípcios que pareciam mortalhas sobre seu corpo exausto. A tontura ainda persistia, mas agora vinha acompanhada de uma clareza cortante.
Ela levou a mão ao ventre. O segredo pulsava ali, silencioso.
A porta se abriu e Jerônimo entrou. Ele havia trocado a roupa suja de terra por uma camisa limpa, mas seus olhos estavam vermelhos, carregados de uma exaustão que beirava o delírio. Ele se aproximou e sentou-se na beira da cama, observando-a com uma devoção que fazia a pele de Clara arrepiar.
— Você me assustou, minha rainha — disse ele, a voz rouca. — O médico disse que foi apenas uma queda de pressão por causa do estresse. Mas eu chamei um especialista de confiança. Ele virá amanhã para fazer exames completos.
Clara sentiu o coração falhar uma batida. Se um médico de Jerônimo a examinasse, a gravidez seria descoberta em minutos. E então, ela nunca mais veria a luz do sol sem que ele estivesse por perto.
— Eu estou bem, Jerônimo — mentiu ela, sentando-se devagar. — Foi só o susto. A confusão na fazenda... eu achei que fôssemos morrer.
— Ninguém vai encostar em você. Nunca — ele prometeu, pegando a mão dela e beijando as pontas dos dedos. — A polícia perdeu nosso rastro na mata. Estamos seguros aqui. Só nós dois. Como deveria ter sido desde o começo.
Clara olhou para ele, tentando encontrar o fazendeiro gentil de três anos atrás, mas só conseguia ver o homem que ordenava execuções. No entanto, ela precisava ganhar tempo. Ela precisava que ele baixasse a guarda.
— Senti sua falta — sussurrou ela, uma mentira que lhe queimou a garganta. — Mesmo com tudo o que eu vi... eu não consigo esquecer quem você era para mim.
Os olhos de Jerônimo brilharam com uma esperança desesperada. Ele a puxou para um abraço, apertando-a contra o peito.
— Eu ainda sou esse homem, Clara. Tudo o que eu fiz foi para construir um mundo onde você pudesse ser feliz. Me perdoe por te assustar. Me perdoe por te trancar. Eu só não posso te perder.
Ele a beijou com uma fome represada, um misto de alívio e posse. Clara correspondeu, forçando cada fibra de seu ser a não recuar. Ela sentia o peso da arma dele no coldre descartado sobre a poltrona, o cheiro de pólvora e perfume caro. Naquela noite, sob o som da tempestade, eles se entregaram um ao outro. Para Jerônimo, era uma reconciliação, o selo de que ela ainda lhe pertencia. Para Clara, era uma despedida fúnebre, o último sacrifício que ela faria para garantir sua sobrevivência.
Na manhã seguinte, o sol filtrado pelas árvores iluminava o quarto quando Jerônimo saiu para atender uma chamada via satélite. Clara ficou sozinha, sentindo o peso do próprio corpo e a náusea persistente. Foi então que a porta se abriu silenciosamente.
Dona Volúsia entrou. Ela não usava as joias habituais; vestia um conjunto de viagem escuro e carregava uma bolsa de couro pequena. Seus olhos, sempre carregados de desprezo, tinham agora uma urgência fria.
— Levante-se — ordenou a velha, a voz baixa para não ecoar pelo corredor.
— O que a senhora quer agora? — perguntou Clara, cobrindo-se com o lençol. — Veio me humilhar de novo?
— Guarde seu sentimentalismo para quem se importa, Clara. Eu vi o resultado dos exames de sangue que o médico enviou para o tablet do Jerônimo. Ele ainda não viu porque está ocupado demais tentando não ser preso, mas ele verá em breve.
Clara sentiu o sangue fugir do rosto.
— A senhora sabe...
— Eu sei que você finalmente conseguiu o que queria — disse Volúsia, aproximando-se da cama com passos de serpente. — Você está grávida. E se o meu filho descobrir isso, você nunca mais sairá do lado dele. Ele vai te transformar em uma prisioneira perpétua, uma incubadora para o herdeiro desse império de sangue. E eu não vou permitir que você crie o meu neto.
— A senhora quer me matar? — Clara perguntou, a voz trêmula.
— Eu quero que você suma — rebateu Volúsia, os olhos brilhando com um ódio pragmático. — Jerônimo está cego por você. Ele está cometendo erros, arriscando nossa segurança por causa de uma mulher gorda e insignificante que ele cismou em amar. Se você ficar, ele vai cair. Se você for embora, ele sofrerá por um tempo, mas voltará a ser o homem implacável que eu criei.
Volúsia jogou um envelope pardo sobre a cama.
— Aí tem dinheiro, documentos falsos que eu mandei preparar há meses — caso eu precisasse me livrar de você de outra forma — e a chave de um carro que está escondido no final da trilha norte.
Clara olhou para o envelope, atônita.
— A senhora está me ajudando a fugir?
— Não se engane, eu te odeio — disse a velha, com uma franqueza brutal. — Mas odeio ainda mais ver o meu filho se destruindo por sua causa. Vá embora. Suma deste país. Se você algum dia tentar entrar em contato com ele, ou se eu descobrir que você contou a alguém sobre nós, eu mesma caçarei você e essa criança.
Clara levantou-se rapidamente, o coração martelando. Ela não tinha tempo para questionar os motivos da sogra. Era sua única chance.
— Por que agora? — perguntou Clara, enquanto vestia apressadamente um par de calças e um casaco escuro.
— Porque o Jerônimo vai ver o exame em questão de minutos — disse Volúsia, olhando para o relógio de ouro no pulso. — Ele vai subir aqui e te amarrar a essa cama se for preciso. Vá pela porta dos fundos, pela cozinha. Os seguranças estão trocando o turno.
Clara pegou o envelope. Ela olhou para a sogra uma última vez. A mulher que a humilhara por três anos era, ironicamente, sua única salvadora.
— Eu nunca vou voltar — prometeu Clara.
— Eu sei que não vai — disse Volúsia, com um sorriso gélido. — Você é fraca demais para este mundo, Clara. Tente ser menos fraca para o seu filho.
Clara saiu pelo corredor, movendo-se com uma agilidade que o medo lhe proporcionava. Ela passou pela cozinha, onde o cheiro de café fresco lhe trouxe uma última lembrança da vida que acreditava ter. Ao sair pela porta dos fundos, o ar úmido da mata a atingiu. Ela correu.
Seus pés afundavam na lama, os galhos arranhavam seus braços, mas ela não parava. O envelope estava pressionado contra o peito. Ela pensava em Verônica, na delegada que vira algo nela. Talvez, se ela conseguisse chegar à cidade, pudesse encontrá-la. Talvez pudesse entregar tudo o que sabia em troca de proteção.
Enquanto isso, no bunker, Jerônimo encerrava a ligação. Ele estava tenso. A pressão policial estava aumentando e ele precisava mover Clara para mais longe, talvez para o Paraguai. Ele pegou o tablet sobre a mesa do escritório para verificar as atualizações do médico.
Ao abrir o arquivo, seus olhos percorreram os dados técnicos até pararem em uma linha específica: *Beta HCG: Positivo. Tempo gestacional estimado: 6 semanas.*
O mundo de Jerônimo parou. Um sorriso lento e vitorioso começou a surgir em seus lábios. Um filho. Ele tinha um filho. O vínculo definitivo. A prova de que Deus, ou o destino, aprovava suas escolhas.
— Clara! — ele gritou, subindo as escadas de dois em dois, o coração transbordando de uma alegria maníaca. — Clara, meu amor!
Ele escancarou a porta do quarto, esperando encontrá-la ainda na cama, vulnerável e doce após a noite que passaram juntos.
O quarto estava vazio.
A janela estava aberta, deixando a chuva entrar e molhar o tapete caro. Jerônimo sentiu um frio glacial percorrer sua espinha. Ele correu até o armário; as roupas dela de ontem não estavam lá.
— Clara? — ele chamou, a voz agora carregada de um pânico crescente.
Ele desceu as escadas como um furacão, encontrando sua mãe sentada calmamente na sala, tomando uma xícara de chá.
— Onde ela está, mãe? Onde está a Clara?
Volúsia tomou um gole lento antes de responder.
— Ela se foi, Jerônimo. Eu a vi saindo pela mata. Ela disse que não aguentava mais viver com um monstro. Que preferia morrer a ter um filho seu.
Jerônimo sentiu como se tivesse levado um tiro no peito.
— Você está mentindo! Ela me ama! Nós... ontem à noite...
— Ontem à noite ela apenas garantiu que você baixasse a guarda — disse a velha, com uma crueldade calculada. — Ela sabia do exame, Jerônimo. Ela sabia do bebê e a primeira reação dela foi fugir de você. Ela te odeia.
Jerônimo soltou um rugido de dor e fúria, socando a parede de concreto com tanta força que seus nós dos dedos sangraram.
— Tragam os cães! — ele gritou para os homens que entravam na sala, atraídos pelo barulho. — Cerquem a mata! Eu quero ela de volta! Agora! Se algum de vocês encostar nela de forma errada, eu mato a família de cada um!
— Jerônimo, pare com essa loucura! — gritou Volúsia, levantando-se. — A polícia está a quilômetros daqui! Se você começar uma caçada agora, vai entregar nossa posição! Deixe-a ir!
Jerônimo virou-se para a mãe, os olhos injetados de sangue, a sanidade pendendo por um fio.
— Ela está com o meu filho, mãe. Ela carrega o meu herdeiro. Eu vou buscá-la. E quando eu a trouxer de volta, ela nunca mais verá a luz do dia sem a minha permissão.
Ele saiu em disparada para a chuva, empunhando a arma, o homem que Clara temia finalmente assumindo o controle total.
Na trilha, Clara alcançou o carro — um sedã preto comum, escondido sob uma lona. Ela entrou, as mãos tremendo tanto que mal conseguia colocar a chave na ignição. O motor rugiu. Ela acelerou, as rodas derrapando na lama antes de encontrarem tração.
Pelo espelho retrovisor, ela viu os vultos dos homens de Jerônimo saindo da mata, seguidos pelo próprio marido. Ele estava parado no meio da estrada, a chuva encharcando sua camisa, a arma apontada para o alto. Ele não atirou. Ele apenas ficou lá, uma silhueta de poder e desespero diminuindo à medida que ela ganhava velocidade.
Clara chorava, um choro de libertação e terror. Ela acariciou a barriga enquanto o carro ganhava a estrada principal.
— Nós vamos ficar bem — sussurrou ela para o pequeno ser que ainda não passava de uma promessa. — Eu vou nos tirar daqui.
Ela sabia que a caçada estava apenas começando. Jerônimo nunca desistiria. Ele atravessaria o inferno para recuperar o que considerava dele. Mas Clara, a gordinha tímida que todos subestimavam, acabara de provar que até a mais mansa das criaturas se torna feroz quando precisa proteger seu ninho.
Ela dirigiu em direção ao horizonte cinzento, onde a figura de Verônica e a promessa de justiça eram sua única bússola. A farsa terminara. O ouro fora lavado pelo sangue e pela chuva, e o que restava era uma mulher que não tinha mais nada a perder, exceto o futuro que carregava dentro de si.