I am here
Líquido, Vapor e o Gosto da Rendição
A manhã de sábado surgiu com uma claridade impiedosa, mas Mizi sentia-se como se tivesse sido reiniciada. A febre, que na noite anterior a fizera delirar e agir por puro instinto, havia evaporado, deixando em seu lugar uma disposição elétrica e uma fome que nada tinha a ver com a sopa de legumes de Sua. Ela espreguiçou-se na cama larga, sentindo o corpo leve, e observou Sua dormindo ao seu lado. A garota de cabelos pretos parecia um anjo melancólico, com a respiração calma e os cílios longos repousando sobre as bochechas pálidas.
Mizi sorriu, lembrando-se vagamente da ousadia febril da noite passada. Ela sabia que tinha cruzado uma linha, mas, vendo a forma como Sua a abraçava mesmo durante o sono, percebeu que aquela linha era exatamente onde ambas queriam estar. O dia passou em uma calmaria doméstica deliciosa; elas dividiram o café da manhã entre risadas e provocações, assistiram a filmes antigos e trocaram carícias que faziam o ar do apartamento parecer denso. Mizi estava inquieta, seus olhos dourados seguiam cada movimento de Sua com uma intensidade predatória, mas ela estava esperando o momento certo.
Quando a noite caiu e o vapor do chuveiro começou a escapar por baixo da porta do banheiro, Mizi decidiu que a espera havia acabado.
Sua estava de pé sob a água quente, deixando que o fluxo relaxasse seus ombros. O box estava embaçado, criando um casulo de privacidade e calor. Ela fechou os olhos, saboreando o silêncio, até que o som da porta se abrindo e fechando a fez sobressaltar. Antes que pudesse protestar, a silhueta de Mizi apareceu através do vidro fosco. A porta do box deslizou e a novata entrou, ainda vestida apenas com uma camiseta larga que logo ficou encharcada, colando-se às suas curvas.
— Mizi! O que você está... — O protesto de Sua foi cortado no meio.
Mizi não disse nada. Ela simplesmente avançou, segurando os pulsos de Sua e prensando-os contra os azulejos frios da parede, enquanto a água quente caía sobre as duas. O contraste térmico fez Sua estremecer.
— Você cuidou muito bem de mim ontem, Sua — sussurrou Mizi, a voz rouca voltando, mas desta vez por puro desejo, não por doença. — Agora é a minha vez de retribuir. E eu prometo que não vou ser nada "respeitosa".
— Você é uma idiota, sabia? — Sua tentou manter a voz firme, mas seus olhos traíam a expectativa. — Você acabou de melhorar e já está... ahn!
O xingamento transformou-se em um arquejo profundo quando Mizi, sem qualquer aviso, deslizou a mão livre para baixo e penetrou-a com três dedos de uma vez. O impacto da invasão foi imediato. A cabeça de Sua pendeu para trás, batendo levemente na parede, e seus olhos reviraram enquanto ela tentava processar a sensação de preenchimento súbito.
— O que foi, Sua? — provocou Mizi, movendo os dedos em um gancho implacável, encontrando o ponto que fazia a garota tremer. — Achei que você gostasse do meu jeito "sem noção". Olha só como você está apertada para mim... você estava me esperando, não estava?
— Cala a boca... ah, meu Deus, Mizi... para de falar essas coisas! — Sua bradava, mas suas mãos, agora soltas, não a empurravam. Em vez disso, ela se agarrou aos ombros de Mizi, as unhas cravando-se na pele molhada. — Você é... ahnn... você é tão irritante!
— Irritante, é? — Mizi riu, o som vibrando contra o pescoço de Sua enquanto ela mordia o lóbulo da orelha da garota. — Então por que você está implorando com o corpo? Você quer que eu pare, Sua? Se você pedir, eu paro agora mesmo.
— Não ouse... — Sua gemeu, a voz embargada pelo desejo. — Se você parar, eu mato você.
Mizi obedeceu da melhor forma possível. Ela intensificou o ritmo, os dedos movendo-se com uma agilidade que fazia a água do chuveiro parecer estática. Ela empurrou Sua contra a parede com o próprio corpo, sentindo os seios da garota pressionados contra seu peito. Sua, consumida pela necessidade, envolveu a cintura de Mizi com as pernas, prendendo-se a ela como se sua vida dependesse daquele contato.
— Isso, garota boa — encorajou Mizi, a voz carregada de uma perversidade doce. — Se agarra em mim. Mostra o quanto você me quer.
O prazer subia em ondas, mas Mizi queria mais. Ela sentia a resistência de Sua diminuir, a melancolia habitual sendo substituída por uma luxúria crua. Em um movimento brusco, Mizi adicionou o quarto dedo, expandindo Sua de uma forma que a fez soltar um grito agudo que ecoou pelos azulejos.
— Mizi! Sua desgraçada! — Sua xingava entre soluços de prazer, as unhas agora arranhando as costas de Mizi, deixando marcas vermelhas que ardiam sob a água quente. — Ah, não... ahnn... dói e é bom demais... eu te odeio, eu te odeio tanto!
— Eu sei que odeia — murmurou Mizi, deliciando-se com o conflito da namorada.
Ela retirou os dedos por um breve segundo, apenas para dar um respiro, mas manteve Sua pressionada contra a parede. O vapor do banheiro parecia ter se transformado em eletricidade pura.
— Você está tão linda assim, toda vermelha e brava — disse Mizi, limpando a água dos olhos de Sua. — Sabia que eu sonhei com isso enquanto estava com febre? Sonhei com você choramingando o meu nome enquanto eu te abria assim.
— Você é... perversa — Sua arfou, tentando recuperar o fôlego, mas Mizi não deu trégua.
Com um empuxo decidido, Mizi enfiou os quatro dedos de uma vez, mergulhando fundo. Sua soltou um som que não era mais um xingamento, nem um protesto; era um lamento de puro êxtase. Ela começou a choramingar, a cabeça balançando de um lado para o outro enquanto Mizi encontrava o ângulo perfeito, o ponto exato onde a alma de Sua parecia se conectar com o corpo.
— Isso, Sua... solta tudo — comandou Mizi.
E Sua soltou. Os gemidos começaram a sair em uma sucessão ininterrupta, uma melodia de prazer que subia de tom a cada estocada dos dedos de Mizi.
— Ahnn... Mizi... Mizi, por favor... ah, sim, aí! Ah, meu Deus, ah, ah, ah, ahnnn! — O som era límpido, musical e desesperado, exatamente como Mizi imaginara. — Eu não... eu não aguento... ah, ah, ah! Mizi, por favor, não para, não para nunca!
Mizi estava em transe, assistindo à transformação da garota fria e brava em um ser de puro sentimento sob suas mãos. Ela acelerou, o som da carne batendo contra a carne misturando-se ao ruído da água. Ela não era apenas a novata sarcástica; ela era a dona daquele momento, a arquiteta do prazer de Sua.
— Olha para mim, Sua! — exigiu Mizi.
Sua abriu os olhos, as pupilas tão dilatadas que o preto quase engolia o resto da íris. Ela viu o reflexo do seu próprio desejo nos olhos dourados de Mizi.
— Eu sou... ahnn... eu sou sua... — Sua confessou, as palavras perdendo-se em um novo grito quando Mizi atingiu o ápice da velocidade.
O corpo de Sua retesou-se violentamente. Ela gozou com uma força que a fez perder a força nas pernas, sendo sustentada apenas pelos braços fortes de Mizi. Os gemidos tornaram-se curtos e agudos, seguidos por um suspiro que pareceu durar uma eternidade enquanto as contrações a dominavam. Ela choramingava baixinho, o rosto escondido no ombro de Mizi, o peito subindo e descendo em espasmos.
Mizi permaneceu ali, segurando-a, deixando que a água levasse o suor e o excesso de sensações. Ela beijou a têmpora de Sua, sentindo uma paz imensa.
— Você foi perfeita — sussurrou Mizi.
O banho terminou em silêncio, mas um silêncio confortável, preenchido por toques suaves. Mizi ensaboou o corpo de Sua com uma delicadeza que contrastava com a agressividade de minutos atrás, e Sua aceitou o cuidado, sentindo-se estranhamente leve. Depois de se secarem e vestirem pijamas limpos, elas voltaram para a cama.
O quarto estava fresco, o cheiro de sabonete de morango pairando no ar. Elas se deitaram sob os lençóis, Mizi servindo de travesseiro para Sua, que ainda parecia estar processando o que acontecera.
— Você... você realmente falou aquelas coisas no meu ouvido? — perguntou Sua, o tom de voz voltando à sua habitual timidez brava, embora houvesse um sorriso escondido ali.
— Falei — Mizi riu, puxando a coberta para cima delas. — E falaria de novo. Você fica muito bem quando está... descontrolada.
Sua deu um soco leve no braço de Mizi.
— Você é uma idiota. Mas... obrigada. Por me fazer sentir que eu não preciso ser a "Sua triste" o tempo todo.
Mizi virou-se de lado, olhando seriamente para a garota.
— Você pode ser quem você quiser comigo, Sua. Triste, brava, safada, nerd... eu não vou a lugar nenhum. Eu vim para essa escola para causar caos, mas acho que o único caos que eu realmente quero é o que a gente cria juntas.
Sua sorriu, um sorriso completo que iluminou seu rosto pálido. Ela se inclinou e deu um beijo suave nos lábios de Mizi, um beijo que prometia mais do que apenas desejo; prometia permanência.
— Então acho que você está presa a mim, novata — disse Sua.
— É um sacrifício que eu estou disposta a fazer — respondeu Mizi, fechando os olhos e sentindo o calor de Sua ao seu lado.
Ali, entre lençóis e o resto de um pirulito de cereja esquecido na mesa de cabeceira, o Alien Stage parecia pequeno. Acorn era apenas uma lembrança desbotada, e as sombras da solidão haviam sido expulsas pela luz dourada de Mizi. Elas ficaram juntas, enfrentando o silêncio da noite, sabendo que, a partir daquele sábado, nunca mais haveria uma casa vazia ou um coração solitário. Mizi e Sua tinham encontrado o seu ritmo, e era uma música que elas pretendiam tocar para sempre.