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I am here

Círculos de Açúcar e Correntes Invisíveis

O primeiro dia de Mizi na escola nova tinha sido um exercício de invisibilidade seletiva. Ela apareceu, marcou território com seu cabelo neon e respostas ácidas, e depois simplesmente evaporou. Quando o sinal do intervalo tocou, enquanto todos esperavam que a "garota do pirulito" fosse procurar algum lugar para sentar, ela já tinha pulado a janela baixa do corredor lateral e encontrado um refúgio no telhado do ginásio. Mizi gostava de observar o formigueiro humano de cima antes de decidir em qual parte dele valia a pena pisar.

No segundo dia, porém, o destino — ou melhor, Hyuna — tinha outros planos.

Mizi caminhava pelo corredor principal, o habitual pirulito de cereja fazendo um volume na bochecha esquerda, quando uma mão energética pousou em seu ombro.

— Ei, Garota-Algodão-Doce! — A voz de Hyuna era tão vibrante quanto sua personalidade. Ela parou na frente de Mizi, bloqueando o caminho com um sorriso de orelha a orelha. — Você sumiu ontem! Eu ia te chamar para almoçar e, puff, você virou fumaça. Sou a Hyuna, a propósito. Mas você já deve ter deduzido isso pela minha aura de pessoa mais legal da sala.

Mizi tirou o pirulito da boca e arqueou uma sobrancelha, soltando uma risadinha sarcástica.

— Eu não sou muito fã de comitês de boas-vindas, Hyuna — respondeu Mizi, guardando as mãos nos bolsos da saia. — Mas pontos pela persistência.

— Ah, qual é! — Hyuna passou o braço pelo pescoço de Mizi, guiando-a naturalmente pelo corredor. — Você é nova, é estilosa e claramente odeia as mesmas pessoas que eu odeio. Isso é a base de qualquer amizade sólida. Vem, o pessoal tá reunido no pátio. Você vai adorar o Till, ele é um poço de ódio e música alta. E o Ivan... bom, o Ivan é um problema, mas ele tem os melhores doces.

Mizi deu de ombros. Não tinha nada a perder.

— Tá bom, tá bom. Leve-me ao seu covil de desajustados.

Quando chegaram ao pátio, o grupo estava ocupando a mesma mesa de cimento de sempre, sob a sombra de uma árvore antiga. Till estava com a cabeça deitada sobre os braços, os fones de ouvido emitindo um chiado metálico de guitarras distorcidas. Luka lia um livro de sociologia, enquanto Ivan jogava jujubas para o alto e tentava pegá-las com a boca.

Um pouco mais afastada, Sua estava sentada com Acorn.

Mizi sentiu um estalo de curiosidade ao ver a garota de cabelos curtos novamente. Sua estava com os olhos fixos em um caderno de desenhos, mas seus dedos tremiam levemente. Acorn estava com o braço em volta da cintura dela, apertando-a de um jeito que parecia menos um abraço e mais uma trava de segurança.

— Pessoal, olha quem eu resgatei da solidão! — anunciou Hyuna, empurrando Mizi para o banco vago ao lado de Luka.

— Ela não parece o tipo que se sente sozinha — comentou Ivan, capturando uma jujuba azul com precisão. Ele olhou para Mizi com um brilho divertido. — Mais para o tipo que faz os outros se sentirem sozinhos por pura maldade.

— E você parece o tipo que vai ter uma cárie antes do meio-dia — rebateu Mizi, sentando-se e cruzando as pernas.

Till levantou a cabeça, encarando Mizi com seus olhos verdes penetrantes. Ele não disse nada, apenas bufou e voltou a fechar os olhos, mas Mizi notou que ele diminuiu um pouco o volume da música.

— Ignora ele — disse Luka, fechando o livro com elegância. — O Till é alérgico a interações sociais antes das duas da tarde. Prazer oficial, Mizi. Eu sou o Luka.

— Eu sei, o "engomadinho" — Mizi piscou para ele, fazendo-o soltar um suspiro conformado.

Enquanto o grupo conversava e Hyuna gesticulava contando alguma fofoca sobre o diretor, Mizi sentiu um olhar sobre si. Ela virou o rosto levemente e encontrou os olhos de Sua.

Por um breve segundo, o tempo pareceu desacelerar.

Sua não estava apenas olhando; ela estava observando. Havia um brilho de admiração genuína nos olhos escuros da garota pálida, uma faísca de algo que Sua não sentia há muito tempo. Para Sua, Mizi era o oposto de tudo o que ela vivia: Mizi era cor, era barulho, era a liberdade de usar uma gravata frouxa e falar o que desse na telha sem medo de represálias.

Sua sentiu o coração acelerar. "Ela é... linda", pensou, antes de ser bruscamente trazida de volta à realidade por um puxão no ombro.

— O que você está olhando, Sua? — perguntou Acorn, a voz baixa e carregada de um veneno disfarçado de proteção.

— Nada — respondeu Sua rapidamente, baixando a cabeça. — Só estava... distraída.

— Você se distrai demais — disse Acorn, forçando um sorriso para o resto do grupo, mas mantendo a mão firme no braço dela. — Devia prestar mais atenção em mim. Eu trouxe aquele chá que você gosta, lembra?

— Lembro. Obrigada, Acorn.

Mizi estreitou os olhos. Ela viu a manobra. Viu como Acorn sutilmente bloqueava a visão de Sua, como se quisesse ser a única coisa no campo de visão da namorada. Era tóxico, era óbvio e, para Mizi, era absolutamente irritante.

— Ei, garota do livro — chamou Mizi, ignorando solenemente a presença de Acorn.

Sua levantou o olhar, surpresa por ser o centro das atenções.

— É Sua, né? — continuou Mizi, tirando o pirulito da boca e apontando para o caderno dela. — O que você está desenhando aí? Parece mais interessante do que o papo da Hyuna sobre o novo corte de cabelo do professor de história.

— Ei! — protestou Hyuna, rindo.

Sua hesitou, olhando para Acorn como se pedisse permissão silenciosa. Ele apenas manteve o sorriso falso, mas seus olhos diziam outra coisa.

— São só... esboços — disse Sua, a voz pequena, mas melódica. — Nada demais.

— Deixa eu ver — pediu Mizi, estendendo a mão.

— Ah, a Sua é muito tímida com o trabalho dela — interrompeu Acorn, fechando o caderno de Sua antes que Mizi pudesse alcançá-lo. — Além disso, ela prometeu que eu seria o primeiro a ver o desenho finalizado. Não é, querida?

Sua apenas assentiu, as mãos entrelaçadas no colo.

Mizi sentiu um gosto amargo que não vinha do pirulito. Ela deu um sorriso de canto, um daqueles que escondiam uma vontade imensa de chutar a canela de alguém.

— Entendi. O namorado é o segurança particular do caderno. Que fofo.

Ivan soltou uma risada abafada por um punhado de balas. Luka apenas ajustou os óculos, notando a tensão que subitamente pairou sobre a mesa.

— Bom — disse Hyuna, tentando quebrar o gelo —, agora que a Mizi faz parte da gangue oficial, temos que planejar o que fazer depois da aula. Que tal irmos ao fliperama novo?

— Eu topo — disse Till, surpreendendo a todos por realmente participar da conversa. — Eles têm aquela máquina de ritmo nova.

— Eu não posso — disse Sua, a voz quase um sussurro. — Eu tenho que...

— Nós temos um compromisso familiar — completou Acorn por ela, apertando a mão da garota. — Fica para a próxima.

Mizi observou o modo como Sua murchou diante da desculpa pronta. Havia uma tristeza profunda ali, uma melancolia que parecia enraizada na pele pálida da garota. Por um instante, o olhar de Sua encontrou o de Mizi novamente, e desta vez não houve admiração, apenas um pedido silencioso de desculpas e um grito mudo de socorro que Mizi captou no ar.

O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo.

Enquanto o grupo se levantava, Mizi ficou para trás por um segundo, fingindo amarrar o cadarço. Ela viu Acorn caminhar na frente, puxando Sua pelo braço como se ela fosse um acessório.

— Ei, Sua! — Mizi chamou baixinho.

Sua parou e olhou para trás. Acorn já estava alguns passos à frente, conversando com um colega.

Mizi tirou um pirulito novo do bolso — um de morango, vermelho vibrante — e estendeu para a garota.

— Para adoçar o dia. Parece que você está precisando de um pouco de açúcar de verdade, e não desse mel falso que te dão por aí.

Sua arregalou os olhos. Ela pegou o doce com os dedos trêmulos, sentindo o calor da mão de Mizi por um milésimo de segundo.

— Obrigada, Mizi — sussurrou ela, um pequeno e raro sorriso surgindo em seus lábios.

— De nada. A gente se vê na aula.

Mizi passou por ela, dando um esbarrão proposital no ombro de Acorn ao passar, fazendo o garoto cambalear um pouco.

— Ops. Foi mal, "segurança" — disse ela, sem olhar para trás.

Enquanto caminhava para a sala, Mizi sentia os olhos de Sua em suas costas. Ela sabia que tinha acabado de entrar em um jogo perigoso. Acorn era o tipo de cara que não aceitava interferências em sua propriedade, e Sua era uma garota que parecia ter esquecido como era ter vontade própria.

Mas Mizi nunca foi de seguir regras. E, por algum motivo, aquele olhar melancólico de Sua tinha despertado nela algo que ia além do sarcasmo habitual.

Naquela tarde, enquanto o professor de geografia falava sobre placas tectônicas, Sua mantinha o pirulito de morango escondido na palma da mão, como se fosse o tesouro mais precioso do mundo. Ela não o comeu. Apenas sentiu a textura do papel da embalagem, pensando na garota de cabelo rosa que, em apenas dois dias, tinha feito o mundo parecer um pouco menos cinza e um pouco mais barulhento.

Sua olhou para Mizi, que estava quase dormindo na cadeira da frente, e sentiu um calor estranho no peito. Pela primeira vez em muito tempo, ela não estava pensando no que Acorn queria. Ela estava pensando no que *ela* queria.

E o que ela queria era ter a coragem de ser como Mizi.

O capítulo terminou com o sol da tarde batendo na sala de aula, criando sombras longas. Mizi, com seu jeito desleixado; Sua, com seu segredo doce na mão; e Acorn, com sua vigilância constante.

As peças estavam no tabuleiro. E Mizi estava pronta para derrubar o rei.