I am here
Máscaras de Vidro e Doces Amargos
O terceiro dia de Mizi na nova escola começou com um céu cinzento, mas o clima dentro da sala de aula era estranhamente elétrico. Entre o som de papéis sendo rasgados e o murmúrio constante sobre o teste de matemática, Mizi mantinha sua rotina: um pirulito de uva na boca e os pés cruzados sobre a barra da cadeira da frente. Seus olhos dourados, no entanto, não estavam nos livros. Eles seguiam cada movimento de Sua.
A garota de cabelos curtos parecia mais pálida do que o normal. Ela mal tocava na caneta, e seus olhos pareciam focados em algum ponto invisível no horizonte. Ao lado dela, Acorn exibia seu habitual sorriso de "namorado perfeito", mas Mizi notou como ele sussurrava coisas no ouvido de Sua que a faziam encolher os ombros, como se estivesse tentando ocupar o menor espaço possível no mundo.
Quando o sinal para o intervalo tocou, o grupo do fundo se levantou como uma unidade. Hyuna já estava planejando onde comprariam o lanche, e Till reclamava de alguma banda nova que tinha "se vendido".
— Vamos, Mizi? — chamou Hyuna, acenando. — O Ivan prometeu dividir o estoque secreto de balas dele hoje.
— Vão na frente — disse Mizi, levantando-se com uma lentidão calculada. — Esqueci meu celular no armário da educação física. Encontro vocês na mesa em dez minutos.
Ivan arqueou uma sobrancelha, mastigando um chiclete de canela. Ele lançou um olhar rápido para o lugar onde Sua e Acorn deveriam estar, notando que eles também já tinham saído, mas em uma direção oposta.
— Não demora, novata — disse Ivan, com um tom que sugeria que ele sabia que o celular era a última coisa na mente dela. — O açúcar não espera por ninguém.
Mizi apenas acenou e esperou que o grupo desaparecesse pelo corredor principal. Assim que ficou sozinha, ela mudou de direção. Seus passos eram silenciosos, amortecidos pelos tênis gastos. Ela não precisou de muito esforço para seguir o rastro de desconforto que Sua deixava para trás.
Ela seguiu para o Bloco C, uma ala da escola que estava em reforma e quase sempre vazia durante o intervalo. O cheiro de poeira e tinta fresca preenchia o ar. Ao virar o corredor que levava aos antigos laboratórios, Mizi parou bruscamente, escondendo-se atrás de uma pilastra larga.
Lá estavam eles.
Acorn tinha Sua encurralada contra uma fileira de armários metálicos. Não era um abraço romântico. Ele segurava os pulsos dela acima da cabeça com uma mão, enquanto a outra apertava sua cintura com uma força que claramente deixaria marcas. Ele a beijava de forma agressiva, ignorando o fato de que Sua estava com o rosto virado, os olhos fechados com força e os lábios apertados.
— Qual é, Sua? — a voz de Acorn ecoou pelo corredor deserto, tingida de uma impaciência cruel. — Por que você está tão travada hoje? É por causa daquela garota nova? Você não para de olhar para ela.
— Não é nada disso, Acorn... — a voz de Sua saiu quebrada, quase um suspiro. — Só me solta, por favor. Alguém pode ver.
— Ninguém vem aqui. E se virem, somos só um casal, não é? — Ele desceu a mão para a saia dela, apertando-a de um jeito possessivo que fez Mizi sentir o estômago revirar.
Mizi não hesitou. Ela não era do tipo que esperava o momento dramático perfeito; ela preferia o caos controlado. Ela saiu de trás da pilastra e caminhou pelo corredor fazendo o máximo de barulho possível com os sapatos, assobiando uma melodia qualquer.
Ao virar o "canto" onde eles estavam, ela fingiu uma surpresa exagerada, tirando o pirulito da boca com um estalo.
— Opa! — Mizi exclamou, parando a dois metros de distância. — Mal aí, pombinhos. Não sabia que o laboratório de química tinha virado motel.
Acorn soltou Sua instantaneamente, recompondo a postura com uma velocidade impressionante. Sua tropeçou para trás, ajeitando a camisa com as mãos trêmulas, o rosto vermelho de pura humilhação.
— Mizi? O que você está fazendo aqui? — perguntou Acorn, forçando o seu melhor sorriso de "bom moço".
— Procurando um lugar quieto, mas parece que vocês chegaram primeiro — Mizi deu de ombros, os olhos dourados fixos em Acorn com um desprezo que ela mal tentava esconder. — O pessoal está esperando vocês na mesa. A Hyuna já está quase tendo um treco porque a Sua não apareceu.
— Já estávamos indo — disse Acorn, passando o braço pelo pescoço de Sua de forma protetora, como se nada tivesse acontecido. — Não é, querida?
Sua não respondeu. Ela apenas manteve a cabeça baixa, os olhos fixos no chão.
— Ótimo. Vamos então — disse Mizi, começando a caminhar.
Acorn, sentindo-se vitorioso por "disfarçar" a situação, apressou o passo para liderar o caminho, deixando Sua um pouco para trás. Mizi aproveitou o espaço e diminuiu o ritmo, ficando lado a lado com a garota de cabelos pretos.
— Sabe — sussurrou Mizi, a voz baixa o suficiente para que apenas Sua ouvisse —, às vezes, contar o que está acontecendo não é tão ruim quanto guardar tudo dentro de um pote que está prestes a explodir.
Sua estancou por um segundo, o coração batendo na garganta. Ela olhou para Mizi, os olhos transbordando confusão e medo.
— Eu não... eu não sei do que você está falando — mentiu Sua, a voz falhando.
— Sabe sim — rebateu Mizi, voltando a colocar o pirulito na boca. — E eu também sei. Não sou cega, Sua. E você não precisa ser um saco de pancadas emocional de ninguém.
Antes que Sua pudesse responder, eles chegaram ao pátio.
— Finalmente! — gritou Hyuna, batendo no banco. — Sua, senta aqui! Onde vocês estavam?
— Só dando uma volta — disse Acorn, sentando-se e puxando Sua para o seu lado, prendendo-a entre ele e a mesa.
O assunto mudou rapidamente para as provas e os boatos da semana. Mizi sentou-se à frente deles, observando como Sua agia com uma naturalidade forçada, respondendo às perguntas de Hyuna com monossílabos, enquanto Acorn mantinha a mão possessiva sobre a coxa dela por baixo da mesa.
De repente, a conversa foi interrompida por um vulto alto que parou ao lado de Mizi. Era Minhyuk, um dos garotos mais populares do time de basquete, conhecido por seu sorriso fácil e ego inflado.
— E aí, novata? — Minhyuk se inclinou sobre a mesa, ignorando o resto do grupo. — Ouvi dizer que você é a sensação do terceiro ano. O que uma garota como você está fazendo com esse bando de esquisitos? A gente vai ter um treino aberto hoje, você devia passar lá para me ver jogar.
Mizi olhou para ele de baixo para cima, o pirulito girando lentamente entre os lábios.
— Treino aberto? — ela repetiu, com um tom de falso interesse.
— É. Posso te mostrar uns lances... e quem sabe a gente faz algo depois.
Mizi soltou uma risada curta e seca.
— Olha, Minhyuk, eu adoraria ver você quicar uma bola e suar como um porco, mas eu tenho um compromisso muito importante: qualquer outra coisa que não envolva você. Agora, sai da frente, você está bloqueando o sol.
Ivan cuspiu o suco de volta no copo de tanto rir, e Till deu um sorriso de canto quase imperceptível. Minhyuk ficou vermelho, balbuciou algo sobre ela ser "metida" e saiu pisando fundo.
— Essa doeu até em mim — comentou Ivan, limpando a boca. — Enfim, mudando de assunto... meus pais vão viajar hoje à noite. Casa liberada. Estava pensando em fazer uma reuniãozinha, só a gente. Nada de Minhyuks ou barulho excessivo. Só música, comida e, claro, meu estoque de doces.
— Eu topo! — Hyuna levantou a mão. — Precisamos de uma noite de folga.
— Eu também — disse Luka, ajustando os óculos. — Posso levar alguns jogos de tabuleiro.
— Sem jogos de tabuleiro, Luka — cortou Till. — Só música.
— A gente vai, né, Sua? — Acorn perguntou, mas não soou como uma pergunta. Era uma afirmação.
Sua apenas assentiu, o olhar perdido.
***
A noite chegou com uma brisa fria. A casa de Ivan era grande, moderna e exalava o cheiro de incenso e chocolate que parecia persegui-lo. O grupo estava espalhado pela sala. Till tinha assumido o controle do som, colocando um rock alternativo em um volume que fazia as janelas vibrarem levemente. Hyuna e Luka discutiam sobre algum filme, enquanto Ivan circulava com uma tigela de balas de goma.
Mizi estava encostada na bancada da cozinha, observando a cena. No sofá, Acorn estava praticamente sentado em cima de Sua. Ele falava no ouvido dela constantemente, gesticulando de forma agressiva enquanto ela apenas mantinha os olhos no copo de refrigerante. Sempre que alguém tentava incluí-la na conversa, Acorn respondia por ela ou mudava o tópico para algo que apenas os dois compartilhavam, isolando-a dentro da própria sala.
Era sufocante de assistir.
Mizi sentiu uma mão no ombro e virou-se para encontrar Ivan. Ele não estava sorrindo agora. Seus olhos pretos estavam sérios, observando a mesma cena que ela.
— Você notou, não notou? — perguntou Ivan, a voz baixa, quase inaudível sob a música.
— Notou o quê? — Mizi testou o terreno.
— O Acorn. Ele está cercando ela como um urubu. Eu sempre achei que eles eram só um casal meloso, mas... tem algo errado. A Sua parece que está em um funeral toda vez que ele a toca.
Mizi suspirou, sentindo um pingo de respeito por Ivan. Ele podia ser um viciado em doces e um idiota sarcástico, mas não era burro.
— Ele é tóxico, Ivan. Eu vi os dois no corredor hoje. Ele a estava forçando. Ele a manipula, isola ela de todo mundo e faz ela acreditar que ninguém mais se importa.
Ivan apertou a tigela de doces com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Aquele desgraçado. A Sua é nossa amiga desde o primeiro ano. A gente deixou isso acontecer debaixo do nosso nariz?
— Ele é bom em esconder — disse Mizi. — Mas a máscara está começando a rachar. E a gente vai ajudar a quebrar o resto.
— O que você tem em mente? — Ivan inclinou-se, o brilho travesso voltando aos olhos, mas agora com um propósito perigoso.
Mizi olhou para o sofá, onde Acorn acabara de tirar o copo da mão de Sua, dizendo algo que a fez baixar os ombros em sinal de derrota.
— O Acorn é movido pelo ego e pelo controle — explicou Mizi. — Se a gente tirar o controle dele na frente de todo mundo, ele vai surtar. Precisamos separar os dois, dar espaço para a Sua respirar e mostrar para ela que ela tem apoio. Mas tem que ser sutil no começo.
— Deixa comigo — disse Ivan. — Eu conheço o ponto fraco dele. O Acorn odeia se sentir por fora. Ele quer ser o centro das atenções tanto quanto quer controlar a Sua.
Ivan caminhou até o centro da sala, batendo palmas para chamar a atenção.
— Certo, bando de desocupados! Chega de papo furado. Vamos jogar "Verdade ou Consequência", versão Ivan. E antes que o Luka reclame, as regras são simples: quem mentir ou amarelar, tem que comer uma das minhas "balas surpresa" — ele mostrou um frasco com balas de cores duvidosas. — E acreditem, algumas têm gosto de meia suja.
O grupo se reuniu em um círculo no tapete da sala. Mizi sentou-se estrategicamente ao lado de onde Sua seria colocada. Ivan, com sua habilidade natural de manipular o ambiente, conseguiu fazer com que Acorn ficasse do lado oposto do círculo, sob o pretexto de "equilibrar as energias".
— Eu começo — disse Ivan, girando uma garrafa de vidro vazia.
A garrafa girou, desacelerando até parar apontando diretamente para... Acorn.
— Ora, ora — Ivan sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Acorn, meu caro. Verdade ou consequência?
— Verdade — respondeu Acorn, confiante, ajeitando o cabelo.
— É verdade que você se sente inseguro quando a Sua conversa com outras pessoas, a ponto de ter que inventar "compromissos familiares" toda vez que a gente convida ela para sair?
O silêncio caiu sobre a sala como uma tonelada de chumbo. Hyuna parou de rir. Till levantou o olhar do celular. Luka franziu a testa.
Acorn forçou uma risada, mas seus olhos brilharam com uma faísca de ódio.
— Do que você está falando, Ivan? Eu só cuido dela. A Sua é sensível, ela se cansa fácil. Eu só faço o que é melhor para ela.
— Sério? — Mizi interveio, a voz calma e cortante. — Porque, de onde eu venho, deixar alguém decidir o que é melhor para você o tempo todo tem outro nome. Chama-se cativeiro.
— Você é nova aqui, Mizi, não sabe de nada — rosnou Acorn, perdendo a compostura. — Sua, diz para eles. Diz que eu te protejo.
Todos os olhos se voltaram para Sua. Ela estava encolhida, as mãos apertando as bordas da saia. O silêncio se arrastou, tenso e doloroso. Ela olhou para Acorn, cujos olhos eram como punhais, e depois para Mizi.
Mizi não estava olhando com pena. Ela estava olhando com expectativa. Como se soubesse que, dentro daquela garota melancólica, havia uma força esperando para ser libertada.
— Eu... — Sua começou, a voz trêmula.
— Ela está cansada, pessoal — interrompeu Acorn, levantando-se e tentando puxar Sua pelo braço. — Acho que a gente já vai.
— Ela não vai a lugar nenhum se não quiser — disse Ivan, levantando-se também. Ele era muito mais alto que Acorn e, naquele momento, parecia muito mais intimidador. — Senta aí, Acorn. O jogo só está começando.
Mizi sentiu a mão de Sua tocar a sua por baixo da mesa, um aperto desesperado. Mizi retribuiu o aperto, sentindo o calor da pele da outra. Era um pacto silencioso.
A noite na casa de Ivan estava longe de acabar. As máscaras estavam caindo, e pela primeira vez em muito tempo, Sua não estava sozinha no escuro. Mizi tinha acendido a luz, e o brilho era rosa, azul e absolutamente impiedoso.