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I fucking hate you ( i am Crazy for you)

Eclipses de Sangue e Neon

A luz fluorescente do corredor da escola piscava de um jeito irritante, como se estivesse acompanhando o ritmo da dor de cabeça latejante de Sua. Ela estava exausta. O peso da mochila parecia ter triplicado, e a pressão de manter as notas perfeitas para o vestibular estava drenando o pouco de sanidade que lhe restava. Tudo o que ela queria era chegar na biblioteca, se esconder entre as estantes de literatura clássica e esquecer que o resto do mundo existia.

Mas o destino, ou talvez apenas o azar geográfico, tinha outros planos.

— Olha só quem resolveu sair da caverna — a voz de Mizi ecoou pelo corredor vazio, carregada daquele sarcasmo melífluo que fazia os pelos do braço de Sua se arrepiarem. — O que foi, Sua? Os livros russos ficaram deprimidos demais até pra você?

Sua parou, fechando os olhos por um segundo e respirando fundo. Ela não queria aquilo agora. Não hoje.

— Mizi, eu realmente não estou com paciência para o seu showzinho — Sua disse, sem se virar, a voz baixa e tensa. — Vai encher o saco do Ivan ou de qualquer outro idiota que caia no seu papo.

Mizi deu alguns passos à frente, o som de seus tênis desamarrados batendo no chão. Ela parou a poucos centímetros de Sua, exalando aquele perfume doce de chiclete e rebeldia. Ela estava linda, como sempre, com o cabelo rosa e azul caindo desleixadamente pelo rosto, mas seus olhos dourados brilhavam com uma faísca perigosa.

— "Showzinho"? — Mizi riu, uma risada seca. — Eu só estou sendo gentil, Sua. Você parece que vai desmaiar de tanta amargura. Talvez se você parasse de agir como se fosse superior a todo mundo só porque lê uns livros velhos, a sua vida não fosse tão miserável.

Sua virou-se bruscamente, os olhos roxos faiscando.

— Superior? Eu não ajo como se fosse superior, Mizi. Eu ajo como alguém que tem um propósito. Coisa que você, com essa sua atitude de "não ligo pra nada", nunca vai entender. Você é vazia. Você é só uma casca bonita que faz barulho pra esconder que não tem nada por dentro.

O sorriso de Mizi vacilou por um milésimo de segundo, mas ela logo recuperou a máscara.

— Melhor ser uma casca bonita do que um robô sem alma — rebateu Mizi, aproximando-se mais, invadindo o espaço pessoal de Sua. — Você é tão patética, Sua. Fica aí, toda certinha, mas no fundo você morre de inveja de quem tem coragem de viver de verdade.

— Inveja de você? — Sua soltou uma risada amarga, o estresse acumulado de semanas transbordando. — De uma garota que não sabe nem o que vai fazer amanhã? Que vive de migalhas de atenção e sarcasmo? Eu tenho pena de você, Mizi. Pena. Porque quando o ensino médio acabar e essa sua fachada não servir mais pra nada, você vai perceber que não sobrou ninguém.

— Cala a boca — Mizi sibilou, a voz perdendo o tom sedutor e tornando-se puramente agressiva.

— Não calo! — Sua deu um passo à frente, peitando a garota mais alta. — Você é uma covarde. Você ataca todo mundo porque tem medo de que alguém veja o quão medíocre você realmente é. Você é um desperdício de espaço, Mizi. Um erro que essa escola tolera porque você tem uma voz bonitinha.

O ar entre as duas parecia ter sido sugado. Mizi sentiu o sangue subir para a cabeça com uma força avassaladora. O ódio — ou o que ela chamava de ódio para não ter que admitir o amor desesperado que sentia — explodiu em seu peito. Ela viu vermelho.

Mizi ergueu a mão, o punho cerrado, o movimento começando de forma instintiva. Ela ia bater. Ela queria destruir aquela expressão de desdém no rosto de Sua, queria quebrar aquela máscara de perfeição melancólica.

Sua nem piscou. Ela encarou o punho de Mizi com um desafio silencioso, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.

No último segundo, a milímetros do rosto de Sua, Mizi parou. O corpo dela tremia violentamente. A raiva era tanta que ela sentia que ia entrar em combustão espontânea. Em vez de desferir o golpe, Mizi desviou o braço com um movimento brusco e passou a mão pelo próprio cabelo, puxando os fios rosa e azul com tanta força que parecia querer arrancá-los da raiz.

— Que porra! — Mizi gritou, a voz falhando. — Que porra você sabe sobre mim?

Ela deu um passo para trás, tropeçando nos próprios pés, os olhos dourados marejados de pura fúria. Ela cerrou os punhos novamente, mas desta vez contra si mesma. Mizi cravou as unhas longas e bem cuidadas na palma da mão esquerda, apertando com uma força desumana, tentando transferir a dor emocional para o físico.

Sua observava, paralisada. Ela nunca tinha visto Mizi perder o controle daquele jeito. A máscara de sarcasmo tinha caído, revelando algo cru e aterrorizante.

— Mizi... — Sua começou, a voz vacilante.

— Não fala meu nome! — Mizi rosnou.

Mizi continuou apertando a mão, as unhas afundando na pele macia. Ela sentiu a picada aguda, o calor que se seguia à dor. Então, algo quente e viscoso começou a escorrer entre seus dedos. Uma gota de sangue vermelho vivo pingou no chão de linóleo branco do corredor, seguida por outra.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Mizi olhou para a própria mão ensanguentada, a respiração ofegante. Ela soltou o aperto, revelando as marcas profundas de suas unhas em forma de meia-lua, agora rasgadas e sangrando. Sem dizer mais uma palavra, ela deu as costas e saiu correndo pelo corredor, deixando Sua sozinha com as manchas de sangue no chão e um vazio estranho no peito.

***

Longe dali, no telhado da escola, o clima era drasticamente diferente, embora não menos tenso.

Ivan estava sentado na borda do parapeito, balançando as pernas longas e mastigando um pirulito de cereja. Till estava ao lado dele, encostado na mureta, com os fones de ouvido tocando um rock pesado que podia ser ouvido mesmo sem os fones estarem nos ouvidos dele.

— Você vai acabar caindo daí e eu vou ter que explicar pro diretor por que o "aluno prodígio" virou patê no asfalto — Till disse, sem olhar para o lado.

Ivan deu aquele sorriso irritante, os olhos pretos brilhando sob a franja.

— Você ficaria arrasado, Till. Quem mais ia te dar as respostas de matemática em troca de... — Ivan fez uma pausa dramática, inclinando-se para perto do ouvido de Till — ...certos favores manuais?

Till ficou vermelho instantaneamente, a cor subindo até as pontas do cabelo cinza bagunçado.

— Cala a boca, seu arrombado! Alguém pode ouvir.

— Ninguém sobe aqui a essa hora, você sabe disso — Ivan disse, voltando a se sentar corretamente e tirando o pirulito da boca. — O Luka está ocupado demais sendo o namorado perfeito da Hyuna e a Sua... bom, a Sua provavelmente está sendo torturada mentalmente pela Mizi em algum lugar.

Till suspirou, o semblante revoltado suavizando um pouco.

— Elas se odeiam demais, cara. É bizarro. Eu não entendo como a Sua aguenta aquela doida.

— E eu não entendo como a Mizi aguenta a chatice da Sua — Ivan retrucou, embora por dentro soubesse que a história era muito mais complicada. Ele via o jeito que Mizi olhava para Sua quando achava que ninguém estava vendo. Era o mesmo olhar que ele próprio dava para Till quando o outro estava distraído tocando guitarra. — Mas enfim, por que a gente tá falando delas?

Ivan se aproximou, passando o braço pelo pescoço de Till e puxando-o para perto. Till ofereceu resistência por apenas dois segundos antes de ceder, encostando a cabeça no ombro de Ivan.

— Você é um idiota — Till resmungou.

— E você adora esse idiota — Ivan respondeu, antes de selar os lábios nos de Till.

Era um contraste absurdo. Enquanto no corredor abaixo o ódio e a repressão sangravam, no telhado, dois garotos que fingiam se detestar encontravam um momento de paz no meio do caos do ensino médio.

***

Mizi se trancou na última cabine do banheiro feminino do bloco C, o mais afastado. Ela estava sentada no chão, as costas apoiadas na parede fria, a mão ensanguentada repousando sobre o joelho. As lágrimas, que ela se recusava a deixar cair na frente de Sua, agora rolavam livremente, manchando sua pele natural e borrando levemente a maquiagem nos olhos.

— Por que ela tem que ser assim? — Mizi sussurrou para a escuridão da cabine. — Por que eu tenho que ser assim?

Ela fechou os olhos, tentando acalmar o coração acelerado. Mas, no momento em que as pálpebras se fecharam, a imagem de Sua voltou a assombrá-la.

Não era a Sua raivosa do corredor. Era a Sua do seu mundo particular.

Na mente de Mizi, o banheiro desapareceu. Ela estava de volta àquela sala de aula imaginária, banhada por uma luz dourada de fim de tarde. Ela estava sentada na cadeira do professor, e Sua estava em seu colo. Mizi tinha os braços firmemente enlaçados na cintura da garota menor, escondendo o rosto na curva do pescoço dela.

— Você está segura aqui — a voz de Sua dizia no devaneio, uma voz suave, sem qualquer traço de melancolia ou julgamento.

Mizi sentia as mãos de Sua acariciando suas costas, subindo até sua nuca, os dedos brincando com as pontas azuis do seu cabelo. No sonho, Mizi não precisava ser sarcástica. Ela não precisava ser a garota bonita que todos queriam, mas ninguém conhecia. Ela podia apenas ser pequena. Ela podia ser cuidada.

Mizi inclinava a cabeça para cima, encontrando os olhos roxos de Sua, que brilhavam com um afeto profundo. Ela beijava o queixo de Sua, depois as bochechas, e finalmente descia para as coxas pálidas que ficavam expostas pela saia do uniforme. Ela beijava a pele macia com reverência, sentindo o calor de Sua emanar para ela.

— Eu nunca vou te deixar, Mizi — Sua sussurrava, inclinando-se para beijar a testa da garota rosa.

Mizi soltou um soluço baixo na vida real, a fantasia se desfazendo como fumaça. Ela abriu os olhos e viu a realidade: o chão sujo do banheiro, o cheiro de desinfetante barato e o sangue seco em sua mão.

Ela se levantou, limpando o rosto com as costas da mão limpa. Ela precisava se recompor. Ivan estaria procurando por ela, e ela não podia deixar que ele visse aquela fraqueza. Nem ele, seu melhor amigo, sabia o quão fundo era o buraco que Sua tinha cavado em seu coração.

Mizi lavou a mão na pia, observando a água rosada descer pelo ralo. As feridas eram superficiais, mas a marca que Sua deixava nela era permanente.

***

No dia seguinte, a escola parecia a mesma de sempre. Luka e Hyuna caminhavam de mãos dadas pelo pátio, parecendo um casal de capa de revista.

— Hyuna, você já considerou que a nossa frequência de contato físico em público pode ser interpretada como uma ostentação desnecessária de estabilidade emocional para os outros alunos? — Luka perguntou, a voz perfeitamente modulada.

Hyuna riu alto, apertando a bochecha do namorado loiro.

— Luka, meu amor, você é um gênio, mas às vezes é um tonto. A gente tá namorando, não apresentando um tese de doutorado. Relaxa esses ombros.

— Compreendo seu ponto de vista, embora a base empírica para tal relaxamento seja escassa — Luka respondeu, mas acabou sorrindo, permitindo que Hyuna o guiasse até a mesa onde Till e Sua já estavam sentados.

Sua estava mais pálida que o normal. Ela não tinha conseguido dormir direito, a imagem de Mizi sangrando no corredor repetindo-se em sua mente como um filme de terror em loop. Ela sentia uma culpa corrosiva. Tinha ido longe demais? Tinha tocado em alguma ferida que não deveria?

Ela olhou para o lado e viu Mizi entrando no refeitório. Mizi estava acompanhada de Ivan, rindo de algo que ele dizia, o sarcasmo de volta ao rosto como se nada tivesse acontecido. Mas Sua notou o curativo discreto na palma da mão esquerda de Mizi.

Seus olhares se cruzaram por um segundo.

Mizi não desviou o olhar. Ela sustentou o contato, os olhos dourados desafiadores, mas por trás daquela fachada, Sua viu um vislumbre da garota quebrada do banheiro.

Mizi sentou-se na mesa oposta, longe o suficiente para manter a distância, mas perto o suficiente para que a tensão entre elas fosse palpável.

— Ei, Mizi, o que aconteceu com a sua mão? — Ivan perguntou, pegando um donut de chocolate da bandeja.

— Nada demais, Ivan — Mizi respondeu, a voz perfeitamente sedutora e desinteressada. — Só tive um encontro desagradável com uma gata de rua. Ela tinha unhas bem afiadas, mas eu garanto que ela saiu pior do que eu.

Sua apertou o garfo com força, sentindo a indireta queimar em sua pele.

— Gatas de rua são perigosas — comentou Luka, ajustando os óculos enquanto olhava para Mizi. — Elas agem por instinto de sobrevivência quando se sentem encurraladas. É uma resposta biológica fascinante.

— É, fascinante pra caralho, Luka — Mizi disse, lançando um olhar de soslaio para Sua. — Mas algumas gatas só precisam aprender qual é o lugar delas.

Sua levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente.

— Eu perdi o apetite — ela disse, a voz trêmula. — Vejo vocês na aula.

Enquanto Sua se afastava, Mizi sentiu aquela mesma dor no peito. Ela queria correr atrás dela. Queria pedir desculpas. Queria dizer que o "ódio" era a única coisa que a mantinha inteira. Mas, em vez disso, ela apenas pegou uma batata frita da bandeja de Ivan e deu uma mordida, o rosto voltando àquela expressão de tédio absoluto que era sua melhor defesa.

— Você é estranha, Mizi — Ivan murmurou, observando a amiga.

— E você é um chato, Ivan. Come seu doce e me deixa em paz.

Mizi olhou para a porta por onde Sua tinha saído. O ensino médio era um inferno, e elas eram as chamas que se consumiam mutuamente, sem saber que, se uma se apagasse, a outra morreria de frio.

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