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I fucking hate you ( i am Crazy for you)

Eclipses de Sangue e Neon

A sexta-feira na Escola Preparatória Anakt não trazia o alívio habitual de um fim de semana iminente. O ar na sala de aula estava pesado, carregado com uma eletricidade estática que parecia emanar diretamente da última fileira para a primeira. O professor de história falava sobre revoluções e conflitos armados, mas a verdadeira guerra estava acontecendo em silêncio entre duas mesas.

Sua tentava se concentrar em suas anotações, mas o som rítmico da caneta de Mizi batendo contra a madeira da carteira era como uma tortura chinesa. Era deliberado. Era irritante. Era Mizi sendo Mizi.

— Dá para parar com esse barulho? — Sua sibilou, sem se virar. — Algumas pessoas aqui realmente querem aprender algo que preste.

Mizi inclinou-se para frente, um sorriso preguiçoso e perigoso dançando em seus lábios.

— Ah, desculpa, santinha. Esqueci que o mundo gira em torno do seu silêncio monástico. Se está incomodada, por que não enfia os seus fones de ouvido e se afunda na sua playlist de funeral?

— Pelo menos a minha música tem profundidade, ao contrário da sua voz que só serve para falar merda e seduzir garotos idiotas nos corredores — Sua retrucou, virando-se finalmente. Seus olhos roxos estavam injetados de cansaço e irritação.

— O que você disse? — A voz de Mizi baixou de tom, tornando-se perigosamente rouca.

— Você ouviu bem — Sua levantou-se, ignorando o pigarro de advertência do professor. — Você é um vazio existencial, Mizi. Você não tem nada, não é nada, e tenta compensar isso sendo a pessoa mais insuportável desse colégio.

A sala inteira ficou em silêncio. Ivan parou de mastigar seu doce, os olhos pretos arregalados. Till, na outra ponta, tirou os fones de ouvido, sentindo que o desastre era iminente. Luka e Hyuna trocaram olhares preocupados.

Mizi levantou-se tão rápido que sua cadeira tombou para trás com um estrondo metálico. O rosto dela, geralmente pálido e sereno em seu sarcasmo, estava transformado. Seus olhos dourados pareciam realmente expelir chamas, uma fúria crua e incontrolável que fez até o professor recuar um passo.

— Você acha que me conhece? — Mizi gritou, cruzando a distância entre elas em dois passos largos. Ela agarrou o braço de Sua com uma força desproporcional, os dedos cravando-se no uniforme da garota menor. — Você vive nessa sua bolha de melancolia de merda e acha que tem o direito de me julgar?

— Me solta, Mizi! Você está me machucando! — Sua tentou puxar o braço, mas Mizi era mais alta e estava possuída por uma adrenalina cega.

— Você não sabe de nada! — Mizi continuou a gritar, o rosto a centímetros do de Sua. — Você é uma covarde que se esconde atrás de livros porque tem medo de sentir qualquer coisa real! Você me odeia porque eu sou tudo o que você não tem coragem de ser!

— Eu te odeio porque você é um monstro! — Sua gritou de volta, as lágrimas de estresse começando a transbordar.

Mizi pareceu tomar um choque elétrico. Ela olhou para a expressão de pavor e dor no rosto de Sua, olhou para a própria mão apertando o braço da garota, e depois para a sala inteira que a observava como se ela fosse uma aberração. O fogo em seus olhos se apagou instantaneamente, substituído por um vazio aterrorizante.

Sem dizer mais uma palavra, Mizi soltou Sua bruscamente, pegou sua mochila de qualquer jeito e saiu da sala de aula. O som da porta batendo ecoou como um tiro.

O final de semana foi um deserto de informações. Ivan mandou dezenas de mensagens, ligou várias vezes, mas Mizi tinha simplesmente desaparecido do mapa. Nem mesmo as redes sociais, onde ela costumava postar fotos sarcásticas, tiveram qualquer atualização. Para Ivan, que sabia que Mizi escondia muito mais do que demonstrava, aquele silêncio era um sinal de que algo dentro dela havia quebrado de vez.

Na segunda-feira, o clima na escola era de velório. Sua estava sentada em um banco no corredor, o braço ainda com uma leve marca arroxeada que ela escondia sob a manga longa. Ela se sentia péssima. O ódio que sentia por Mizi agora estava misturado com uma culpa sufocante.

Quando Mizi finalmente apareceu, ela parecia uma sombra de si mesma. O cabelo rosa estava mal preso, as olheiras eram profundas e ela não tinha o sorriso irritante no rosto. Ela estava abalada, e uma Mizi abalada era uma bomba relógio de irritabilidade.

Assim que seus olhos dourados encontraram os roxos de Sua no corredor, o mecanismo de defesa de Mizi foi ativado automaticamente.

— O que foi? Veio ver se eu ainda sou um monstro? — Mizi disse, aproximando-se de Sua com passos pesados.

— Mizi, eu só... — Sua começou, mas foi interrompida.

— Só o quê? Vai escrever um poema sobre como eu sou instável? Vai chorar pro seu amiguinho Min-ho? — Mizi provocou, a voz carregada de um veneno defensivo.

— Dá para parar de ser assim por um segundo? — Sua se levantou, a voz subindo de tom. — Eu estava preocupada, sua idiota!

— Preocupada? Conta outra, Sua. Você adoraria que eu sumisse de vez.

A discussão estava prestes a escalar novamente quando um vulto se meteu entre as duas. Era Min-ho, o garoto que vivia atrás de Sua, mas hoje ele não tinha aquela cara de quem pedia desculpas por existir. Ele parecia inflado por uma coragem distorcida.

— Já chega, Mizi! — Min-ho gritou, empurrando Sua para trás dele e prendendo-a contra a parede com o próprio corpo, como se estivesse protegendo-a. — Você não tem vergonha? Todo mundo viu o que você fez na sexta. Você é uma desequilibrada, uma vadia que não sabe conviver em sociedade.

O corredor inteiro parou. Ivan e Till, que vinham logo atrás, estancaram no lugar. Luka e Hyuna observavam de longe, chocados com a agressividade do garoto.

— Sai da frente, garoto. Isso não é com você — Mizi disse, os olhos semicerrados.

— É comigo sim! — Min-ho continuou, a voz ficando cada vez mais nojenta. — A Sua é boa demais para você. Você é só lixo, Mizi. Uma garota que só serve para ser olhada, porque se abrir a boca só sai merda. Por que você não faz um favor a todos e se mata? Ou melhor, por que não vai dar para alguém e vê se assim você relaxa e para de encher o saco de quem presta?

Um murmúrio de choque percorreu os alunos. Aquilo tinha passado de uma briga de escola para algo visceralmente repulsivo. Sua, presa entre a parede e o corpo de Min-ho, sentia-se enjoada. Ela odiava Mizi, mas as palavras de Min-ho eram um insulto à própria decência.

Todos esperavam que Mizi fosse rir, ou talvez concordar e continuar atacando Sua. Afinal, elas se odiavam, certo?

Mizi deu um passo à frente. O rosto dela estava frio como gelo.

— Você terminou? — ela perguntou, a voz num sussurro mortal.

— Eu só estou dizendo a verdade que a Sua tem medo de dizer — Min-ho sorriu, achando que tinha ganhado uma aliada na sua cruzada moralista.

Mizi estendeu a mão, mas não para Sua. Ela agarrou a gola da camisa de Min-ho e o puxou para longe da garota de cabelos pretos com uma força surpreendente.

— Escuta aqui, seu pedaço de bosta — Mizi disse, e o tom de sua voz fez Min-ho empalidecer instantaneamente. — Eu e a Sua nos odiamos. Isso é um fato. Mas você? Você não é nada. Você é um moleque nojento, sem noção, que acha que pode falar assim com uma mulher só porque leu dois livros de cavalheirismo torto.

— Mizi, eu estava te defendendo... — Min-ho gaguejou.

— Me defendendo? — Mizi soltou uma risada curta e sem humor. — Você estava sendo um lixo humano. Ninguém fala assim da Sua. Ninguém fala assim de ninguém perto de mim.

Antes que Min-ho pudesse reagir, Mizi fechou o punho e desferiu um soco certeiro no meio do rosto dele. O som do impacto foi seco e satisfatório. O garoto cambaleou para trás, levando a mão ao nariz que começava a sangrar, e saiu correndo pelo corredor, humilhado sob os olhares de desprezo de todos.

Mizi respirou fundo, as juntas dos dedos latejando. Ela se virou para Sua, que ainda estava encostada na parede, os olhos roxos arregalados em choque absoluto. O silêncio no corredor era total. Ivan estava de boca aberta; Till parecia ter ganhado um novo respeito pela garota rosa.

Mizi olhou para Sua por um longo momento. A raiva tinha ido embora, deixando apenas o cansaço.

— Não ache que isso muda alguma coisa — Mizi disse, a voz voltando ao tom sarcástico habitual, embora faltasse convicção. — Eu só bati nele porque ele é mais irritante que você. O que é um recorde, parabéns.

Ela ajeitou a mochila no ombro e começou a caminhar em direção à sala de aula, passando por Ivan e Till como se nada tivesse acontecido.

— Mizi! — Sua chamou, a voz fraca.

Mizi parou, mas não se virou.

— Obrigada — sussurrou Sua.

Mizi deu um de seus sorrisos de lado, invisível para a outra, e continuou andando.

— Vai se foder, Sua. A gente se vê na aula de física.

***

Mais tarde, durante a aula, o cenário se repetiu, mas com uma nuance diferente. Mizi estava jogada na cadeira, fingindo ignorar a explicação do professor, enquanto Ivan mastigava silenciosamente um chiclete ao seu lado.

— Aquilo foi épico — Ivan sussurrou. — Você defendeu a sua arqui-inimiga. O que o pessoal vai dizer?

— Eu não defendi ninguém, Ivan. Eu só limpei o corredor de um resíduo tóxico — Mizi respondeu, mas seus olhos dourados logo começaram a vagar para a nuca de Sua, algumas fileiras à frente.

A mente de Mizi, como sempre fazia para fugir da realidade dolorosa, começou a criar cenários.

Desta vez, elas não estavam na escola. Estavam em um apartamento pequeno, iluminado apenas pelas luzes de neon da cidade que entravam pela janela. Sua estava sentada na mesa da cozinha, as pernas balançando, lendo um livro em voz alta. Mizi estava sentada na cadeira, entre as pernas de Sua, com os braços firmemente apertados ao redor da cintura da garota.

No devaneio, Mizi enterrava o rosto na barriga de Sua, sentindo o calor do corpo dela através da blusa fina.

— Você é tão barulhenta, Mizi — a Sua imaginária dizia, fechando o livro e passando a mão pelos cabelos rosa. — Mas eu não consigo imaginar o silêncio sem você.

Mizi olhava para cima, encontrando o olhar doce e acolhedor que a Sua real nunca lhe dava. Ela subia as mãos pelas coxas de Sua, beijando a pele pálida com uma ternura que a deixava sem fôlego.

— Eu te amo — Mizi sussurrava no sonho.

— Eu sei — Sua respondia, inclinando-se para beijar os lábios de Mizi. — Eu também te amo, sua idiota sarcástica.

Mizi deitava a cabeça no colo de Sua, sentindo-se finalmente em casa, sem coleiras, sem máscaras, apenas sendo amada por quem ela realmente era.

Um pedaço de papel amassado atingiu a cabeça de Mizi, trazendo-a de volta. Ela olhou para o lado e viu Ivan apontando para o professor, que a encarava com impaciência.

— Senhorita Mizi, se puder honrar a classe com sua atenção por pelo menos cinco minutos, eu ficaria grato — disse o professor.

— Claro, professor. Eu estava apenas... refletindo sobre a gravidade das coisas — Mizi respondeu, lançando um olhar rápido para Sua.

Sua, que tinha visto a cena, rapidamente voltou a olhar para o livro, mas um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu em seus lábios.

No fundo da sala, Ivan sentiu seu celular vibrar.

*Till: Me encontra no almoxarifado depois dessa aula. Preciso de você.*

Ivan sorriu, guardando o aparelho. Ele olhou para Mizi, que desenhava corações quebrados no caderno, e para Sua, que parecia mais leve do que nos últimos meses.

O caos continuava, mas, de alguma forma, as peças do quebra-cabeça da Escola Anakt estavam começando a se encaixar, mesmo que fosse através de socos, gritos e segredos sussurrados no escuro. Mizi sabia que o ódio era apenas a capa de um livro que ela ainda não tinha coragem de ler em voz alta, mas pelo menos hoje, ela tinha garantido que ninguém mais rasgaria as páginas daquela história.

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