I love you more than i love me
O Gelo na Alma e o Sangue nas Mãos
O sinal da última aula tocou como uma sinfonia de libertação para centenas de alunos, mas para Sua, soou como o início de uma promessa. Ela guardou seus materiais com uma lentidão meticulosa, o coração martelando contra as costelas. "Me encontra aqui depois da última aula?", a voz de Mizi ainda ecoava, quente e vibrante, em sua mente.
Sua caminhou até o banco atrás do ginásio. O sol da tarde começava a baixar, tingindo o céu de um laranja melancólico que combinava com seu estado de espírito habitual, mas hoje havia uma centelha de esperança. Ela abriu seu livro de poesias, mas não leu uma linha sequer. Seus olhos roxos escaneavam o pátio a cada cinco segundos.
Dez minutos se passaram. Vinte. Quarenta.
O fluxo de alunos diminuiu até que apenas o silêncio e o vento restassem. Sua sentiu o frio começar a subir pelas pernas. A euforia da manhã foi sendo lentamente substituída por aquele peso familiar no estômago. Ela era patética, pensou. Como pôde acreditar que a garota mais desejada do colégio, a Mizi que exalava confiança e sarcasmo, realmente apareceria para um encontro com a "menina gótica" da sala?
— Ela esqueceu — sussurrou Sua para o vazio, a voz embargada. — É claro que ela esqueceu.
Ela se levantou, limpando uma lágrima solitária que teimava em cair. O sonho da manhã parecia agora uma piada cruel do seu subconsciente.
Enquanto isso, a quilômetros dali, a realidade de Mizi era bem menos poética. Ela não tinha esquecido por maldade; Mizi vivia no agora, em impulsos e adrenalina. Ao chegar em casa, o tédio a atingiu como um soco. Ivan tinha ido para um curso de culinária (ele nunca admitiria, mas era obcecado por doces finos) e ela precisava queimar energia.
— Ei, tá a fim de um racha na praça? — Mizi perguntou ao telefone, a voz animada.
— Agora? — o colega do outro lado hesitou. — Posso levar um primo meu que tá visitando? O cara é meio pilhado, mas joga bem.
— Traz até o papagaio, só não me deixa aqui morrendo de tédio — respondeu ela, já calçando os tênis.
Na praça, o jogo estava tenso. Mizi corria com a agilidade de um felino, os cabelos rosados balançando desordenadamente. O primo do colega, um cara alto e de cara fechada, não estava gostando de levar dribles de uma garota que passava o tempo todo fazendo piadinhas sarcásticas.
Em um lance rápido, Mizi tentou recuperar a bola e acabou atingindo o tornozelo do garoto com força. Ele foi ao chão com um baque surdo.
— Opa! Mal aí, bonitão, não sabia que você era feito de vidro — Mizi debochou, parando com a mão na cintura, o olhar sedutor carregado de ironia.
O garoto não riu. Ele se levantou com uma fúria súbita, os olhos injetados. Antes que Mizi pudesse reagir, ele avançou. Em um movimento bruto, ele a segurou por trás, passando o braço pelo pescoço dela em um enforcamento apertado. Ambos caíram no asfalto da praça.
Mizi sentiu o impacto. Sua mão direita bateu com força no chão áspero, ralando a palma e os dedos instantaneamente. O ar começou a faltar. O colega gritava ao fundo, em choque, sem saber como reagir àquela explosão de violência.
— Você... tá... louco? — Mizi conseguiu ganir.
Ela não era de se entregar. Com um movimento brusco, ela desferiu uma cotovelada certeira na cintura do agressor. O impacto fez o garoto afrouxar o aperto por um segundo, o suficiente para Mizi girar o corpo com uma força que ninguém esperaria de alguém com a aparência dela.
Em um piscar de olhos, ela estava por cima dele, montada em seu peito. A adrenalina corria por suas veias como fogo. Ela desferiu dois socos rápidos, um pegando de raspão na mandíbula dele e outro no ombro, antes de parar abruptamente, a mão ralada latejando com a dor do impacto.
O silêncio caiu sobre a praça. Mizi respirava arfante, o cabelo caindo sobre o rosto, os olhos dourados brilhando com uma intensidade selvagem. O garoto olhou para ela, depois para o primo, e então, de forma inesperada, soltou uma gargalhada curta.
— Cacete... você bate forte — disse ele, limpando o canto da boca.
Mizi relaxou os ombros e saiu de cima dele, sentando-se no asfalto e olhando para a própria mão, que agora sangrava e estava coberta de sujeira.
— E você é um animal — ela rebateu, começando a rir também, uma risada nervosa e carregada de adrenalina. — Quem enforca alguém por causa de um drible, porra?
— Foi mal, eu perco a linha fácil — o garoto se levantou e estendeu a mão para ela. — Trégua?
— Trégua — Mizi aceitou a ajuda, ignorando a dor aguda na palma da mão. — Mas você me deve um curativo e uma cerveja.
O colega, que ainda estava parado como uma estátua, finalmente soltou o ar.
— Vocês dois são doentes, na moral.
Foi só quando chegou em casa, tarde da noite, enquanto enfaixava a mão com gaze e colocava band-aids coloridos nos dedos, que o flash da memória a atingiu.
— A Sua... — Mizi paralisou com o rolo de gaze na mão. — Puta que pariu, eu dei um bolo nela.
Ela olhou para o celular. Estava descarregado. Quando finalmente conseguiu ligá-lo, viu que já passava das onze da noite. Ela sentiu uma pontada de culpa que não era comum em sua rotina. Sua não era como as outras pessoas que Mizi ignorava; havia algo naquela garota melancólica que a atraía de um jeito perigoso.
Na manhã seguinte, o clima na escola parecia mais pesado para Sua. Ela não tinha dormido. Passara a noite relendo poemas sobre abandono e solidão, sentindo-se uma idiota por ter acreditado em Mizi.
Quando entrou na sala, evitou olhar para o fundo. Sentou-se entre Hyuna e Till, mantendo a cabeça baixa.
— Bom dia, Sua — Luka disse, ajustando os óculos. — Você parece estar com um déficit de ferro. Sua palidez atingiu níveis preocupantes hoje.
— Deixa ela, Luka — Hyuna interveio, percebendo a aura de tristeza da amiga. — O que houve, Sua? Aconteceu alguma coisa ontem?
— Nada — Sua respondeu, a voz quase um sussurro. — Só... a realidade batendo na porta.
— A realidade é uma merda, eu sempre digo isso — Till resmungou, chutando o pé da mesa. — Olhem só quem chegou fazendo cena.
Sua não queria olhar, mas foi inevitável. Mizi entrou na sala acompanhada de Ivan. Ela não estava com o sorriso radiante de sempre; parecia um pouco cansada, mas ainda assim, terrivelmente bonita. O que chamou a atenção de todos, porém, foi sua mão direita, completamente enfaixada até o pulso, com pequenos curativos nos dedos que escapavam da gaze.
— O que foi isso, Mizi? — Ivan perguntou alto o suficiente para a sala toda ouvir, embora ele já soubesse da história. — Brigou com um urso?
— Um urso não, um idiota na praça — Mizi respondeu, sentando-se pesadamente na cadeira. — Mas o outro cara ficou pior, pode ter certeza.
Sua sentiu o coração apertar. Ela estava machucada? Foi por isso que não apareceu? Uma parte dela queria correr até lá e perguntar o que tinha acontecido, cuidar daqueles dedos, mas a parte que fora deixada esperando no frio a segurou no lugar.
Mizi olhou em direção ao meio da sala. Seus olhos dourados procuraram os de Sua, mas a garota de cabelos pretos rapidamente voltou sua atenção para o livro, as mãos tremendo levemente sobre as páginas.
— Ei — Ivan sussurrou para Mizi —, a sua "intensa" está ignorando você. Acho que o bolo de ontem não caiu bem.
— Eu sei, eu sou uma idiota — Mizi resmungou, apoiando o queixo na mão esquerda. — Ela tá com aquela cara de "pretty when i cry" de novo, e a culpa é minha. Porra.
Durante a primeira aula, o silêncio entre as duas fileiras era quase palpável. Till lançava olhares mortais para Ivan, que retribuía com sorrisos cínicos enquanto comia uma bala de caramelo. Luka tentava prestar atenção na aula de física, mas o clima estranho o distraía.
No meio da explicação sobre vetores, Sua sentiu algo tocar seu pé. Ela olhou para baixo e viu um aviãozinho de papel. Com o coração na boca, ela o pegou e abriu por baixo da mesa.
"Eu sou uma completa babaca. Me envolvi numa briga idiota e meu celular morreu. Por favor, não me odeia. Posso te compensar hoje? Sem brigas, sem esquecimentos. Só eu e você. — Mizi."
Sua apertou o papel. A raiva e a tristeza lutavam dentro dela contra a vontade desesperada de perdoar. Ela olhou para trás. Mizi a observava com uma expressão que não era sarcástica, nem sedutora. Era... vulnerável. Ela levantou a mão enfaixada, fazendo um gesto de "me desculpa".
Hyuna, que observava tudo de soslaio, inclinou-se para Sua.
— Se você não for, eu vou por você — sussurrou a morena, rindo baixo. — Mas sério, Sua, ela parece estar se esforçando. E olha aquela mão, a garota é um desastre ambulante.
Sua suspirou. Ela não tinha defesas contra Mizi. Nunca teve.
No intervalo, Sua não foi para a biblioteca. Ela caminhou lentamente até o pátio, onde Mizi estava encostada em uma árvore, longe de Ivan e dos outros. Quando viu Sua se aproximar, Mizi endireitou a postura, um sorriso tímido surgindo em seu rosto.
— Você veio — disse Mizi, a voz sedutora um pouco mais baixa que o normal.
— Você está machucada — Sua disse, ignorando o comentário dela e apontando para a mão enfaixada.
— Não é nada. O asfalto da praça é que é duro demais — Mizi deu de ombros, mas fez uma careta quando tentou fechar a mão.
Sua, sem pensar, deu um passo à frente e segurou a mão enfaixada de Mizi com delicadeza. A pele de Sua era fria, mas o toque foi como um choque elétrico para Mizi.
— Você não deveria ser tão imprudente — Sua murmurou, os olhos roxos fixos nos curativos. — Eu esperei por você.
— Eu sei. E eu me senti um lixo por isso — Mizi se aproximou, usando a mão boa para afastar uma mecha do cabelo preto de Sua. — Eu não sou o tipo de pessoa que pede desculpas, Sua. Mas para você... eu peço. Mil vezes, se precisar.
Mizi se inclinou, ficando a poucos centímetros do rosto de Sua. O perfume de morango estava lá, misturado com o cheiro de antisséptico da gaze.
— Você ainda quer dividir aquele lanche? — Mizi perguntou, o olhar dourado descendo para os lábios de Sua.
— O intervalo já está acabando — Sua respondeu, mas não se afastou.
— Então vamos matar a próxima aula — Mizi sugeriu com um brilho rebelde nos olhos. — O Luka vai ter um infarto se souber, o Till vai querer quebrar algo e o Ivan vai ficar com inveja. O que você acha?
Sua olhou para a escola, para a rotina cinza e para a melancolia que a perseguia. Depois olhou para Mizi, a explosão de cores e caos que parecia querer resgatá-la.
— Eu acho que poesia é melhor do que física — Sua disse, um pequeno e raro sorriso surgindo em seus lábios.
Mizi riu, uma risada gostosa e vitoriosa. Ela segurou a mão de Sua — a mão boa — e começou a puxá-la em direção ao portão lateral.
— Então vamos, poetisa. Temos muito tempo perdido para recuperar.
Enquanto atravessavam o pátio, Ivan as viu de longe e levantou o pirulito em um brinde silencioso. Hyuna deu uma piscadela para Sua, enquanto Luka apenas suspirava, anotando a ausência delas em seu relatório mental. Till, por outro lado, chutou uma lixeira.
— Aquela garota rosa é má influência — resmungou o cinzento.
— Ou talvez — Hyuna disse, observando as duas desaparecerem pelo portão — ela seja exatamente o que a Sua precisa para parar de chorar.
Naquele dia, Sua descobriu que, embora os sonhos fossem bonitos, a realidade, com suas mãos enfaixadas e desculpas sinceras, podia ser muito mais intensa. E Mizi, entre um palavrão e um olhar sedutor, começou a entender que talvez houvesse algo mais interessante do que ser o centro das atenções de toda a escola: ser o centro do mundo de uma garota de olhos roxos.