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I love you more than i love me

O Som do Vidro Quebrando

O dia em que mataram aula foi, para Sua, um fragmento de tempo arrancado de um livro de contos de fadas que ela nunca acreditou que poderia escrever. Elas ficaram sentadas em uma doceria pequena e escondida perto da praça, longe dos olhares curiosos do terceiro ano. Mizi falou sobre como detestava a pressão de ser "perfeita", enquanto devorava um pedaço de torta de limão, e Sua, pela primeira vez, sentiu que suas palavras não precisavam ser guardadas em versos tristes; elas podiam ser ditas em voz alta para alguém que realmente ouvia.

Mas a bolha estourou na manhã seguinte.

O corredor da escola fervilhava. O som não era o habitual burburinho de preguiça matinal, mas um zumbido elétrico, carregado de segredos compartilhados em telas de celulares. Quando Sua atravessou o portão, sentiu os olhares. Não eram para ela, mas passavam por ela como se ela fosse o rastro de algo maior.

— Você viu? — Hyuna surgiu ao seu lado, o semblante menos descolado e mais preocupado que o normal. — Alguém tirou uma foto de vocês ontem saindo pelo portão lateral. E, cara, a internet faz o resto. O Ivan disse que a Mizi simplesmente postou um "e daí?" no grupo da sala quando perguntaram se ela gostava de garotas.

Sua sentiu o chão oscilar. O segredo que Mizi guardava com tanto zelo — e que compartilhara apenas com Ivan — agora era patrimônio público.

— Ela admitiu? — Sua perguntou, a voz falhando.

— Com todas as letras e alguns palavrões — Hyuna suspirou, olhando para o final do corredor. — O problema, Sua... é que a Mizi é a Mizi.

O que Hyuna queria dizer ficou claro em segundos. Mizi apareceu no topo da escada principal. Ela não parecia abalada; pelo contrário, parecia revigorada. O cabelo rosa e azul estava preso em um rabo de cavalo alto, e ela usava a jaqueta do uniforme aberta, revelando uma confiança que beirava a arrogância.

E, como Hyuna previra, o efeito foi imediato. Se antes metade da escola a desejava em segredo, agora a outra metade sentia que tinha uma chance real.

— Mizi! — Uma garota do segundo ano, conhecida por ser uma das modelos do clube de artes, aproximou-se. Ela era alta, com traços delicados e uma aura passiva, quase angelical, que contrastava perfeitamente com a agressividade visual de Mizi. — Eu... eu li o que você postou. Queria saber se você quer ir ao cinema no sábado.

Sua, parada a poucos metros, sentiu o ar congelar em seus pulmões. Ela esperava que Mizi desse um fora sarcástico, que dissesse que estava ocupada, ou que olhasse para ela, Sua, buscando um refúgio.

Mas Mizi era movida a estímulos. Ela olhou para a garota, percorrendo-a com aquele olhar sedutor que fazia qualquer um se sentir a única pessoa no mundo. O canto de seus lábios subiu em um sorriso malicioso.

— Cinema é meio clichê, não acha, boneca? — A voz de Mizi saiu rouca, carregada daquela sensualidade natural que Sua conhecia tão bem dos seus sonhos. — Mas a gente pode pensar em algo mais... interessante.

A garota corou violentamente, e Mizi riu, passando a mão enfaixada (que agora exibia um curativo mais limpo) pelo ombro da novata, guiando-a pelo corredor enquanto conversavam em tons baixos.

Mizi sequer olhou para o lado. Ela não viu Sua.

— Que porra foi essa? — Till apareceu atrás de Sua, a expressão de revolta atingindo novos patamares. — Ela não estava toda "nossa, Sua, você é profunda" ontem? Aquela garota é instável pra caralho.

— Till, cala a boca — Luka interveio, aproximando-se com sua calma acadêmica, embora seus olhos amarelos mostrassem desaprovação. — A Mizi é uma pessoa de impulsos sociais voláteis. Sua, você não deveria levar para o lado pessoal.

— Não levar para o lado pessoal? — Sua finalmente falou, a voz tremendo. — Ela me olhou nos olhos ontem. Ela disse que eu interessava a ela.

— E você interessa — disse Ivan, surgindo das sombras como sempre fazia, com um pirulito de cereja na boca. — Mas a Mizi é como um incêndio, Sua. Ela queima o que está na frente dela. E hoje, o que está na frente dela é a novidade de poder ser quem ela é sem esconder nada. Ela está deslumbrada com a atenção.

— Ela é uma idiota — Sua sentenciou, sentindo as lágrimas arderem.

Ela não esperou o sinal. Deu as costas para os amigos e correu. Correu pelos corredores, ignorando o chamado de Hyuna, ignorando o peso da mochila, até chegar ao banheiro mais afastado. Ela se trancou em uma cabine e desabou.

O choro de Sua não era escandaloso. Era silencioso, melancólico, condizente com a sua vibe "pretty when i cry" que todos comentavam. As lágrimas escorriam pelos seus olhos roxos, manchando as páginas do livro de poesias que ela apertava contra o peito. Ela se sentia descartável. Um entretenimento de um dia para a rainha da escola.

O resto do dia foi um borrão de agonia. Nas aulas, Mizi estava cercada. Bilhetes chegavam à sua mesa de todos os cantos. Garotas que Sua nunca tinha visto falarem com ela agora disputavam sua atenção. E Mizi, com seu vocabulário adolescente chulo e seu charme magnético, retribuía a todos.

Ivan tentou se aproximar de Sua no intervalo, mas ela se esquivou.

— Ei, gótica — ele chamou, a voz menos sarcástica que o habitual. — Ela vai cair na real. Ela só está... sendo a Mizi.

— O problema é exatamente esse, Ivan — Sua respondeu, sem olhar para ele. — Eu me apaixonei pela Mizi que eu achei que existia no silêncio. Mas a Mizi do barulho não tem espaço para mim.

Quando as aulas finalmente terminaram, Sua foi a primeira a sair. Ela não queria ver Mizi saindo com a garota do clube de artes. Não queria ver o sorriso dourado sendo desperdiçado com alguém que não conhecia o peso de sua solidão.

Ao chegar em casa, o silêncio do seu quarto a acolheu como um túmulo. Ela jogou a mochila no chão e se atirou na cama. O cheiro de morango da jaqueta de Mizi — que ela havia pegado emprestada por alguns minutos no dia anterior — ainda parecia impregnado em sua pele, uma tortura sensorial.

Ela chorou até que seus olhos ficassem inchados e sua garganta doesse. O sol se pôs, mergulhando o quarto na penumbra que ela tanto conhecia.

— Por que eu achei que seria diferente? — ela perguntou ao teto. — Eu sou a nota de rodapé. Ela é o título em negrito.

Seu celular vibrou na mesa de cabeceira. Por um segundo, um flash de esperança cruzou seu peito. Poderia ser ela. Poderia ser um pedido de desculpas, uma explicação, qualquer coisa.

Sua pegou o aparelho.

"Grupo: 3º Ano - O CAOS"

Era um vídeo postado por um aluno aleatório. No vídeo, Mizi estava no pátio da escola, cercada por um grupo de pessoas. Ela estava rindo, com o braço em volta da tal garota linda, e dizia para a câmera:

— "Gente, relaxa! Tem Mizi para todo mundo agora. Eu passei tempo demais no armário, agora eu quero é ver o sol!"

Sua desligou o celular e o arremessou contra a parede. O aparelho não quebrou, mas o som do impacto ecoou como o seu próprio coração.

Ela se encolheu em posição fetal, puxando o cobertor até o queixo. A melancolia, que antes era uma névoa suave, agora era um oceano profundo, e Sua estava afogando. Ela não era rebelde como Till, não era racional como Luka, e não era descolada como Hyuna. Ela era apenas Sua. E Sua era pequena demais para o mundo de Mizi.

Horas depois, quando a lua já estava alta, um som suave veio da sua janela.

*Toc. Toc.*

Sua ignorou. Devia ser o vento ou algum galho.

*Toc. Toc. Toc.*

Ela se levantou, limpando o rosto com a manga da blusa, e caminhou até a janela. Ao abrir a cortina, seu coração parou.

Lá embaixo, equilibrada no muro do jardim, estava Mizi. Ela parecia exausta. O rabo de cavalo estava desfeito, e a jaqueta estava jogada no ombro. Ela olhou para cima e, ao ver Sua, não sorriu com sarcasmo. Seus olhos dourados estavam opacos, desprovidos daquela luz predatória que exibira o dia inteiro.

— O que você está fazendo aqui? — Sua perguntou, a voz rouca de tanto chorar.

— Eu sou uma merda, Sua — Mizi disse, a voz subindo pelo ar frio da noite. — Eu sei que você viu. Eu sei o que eu fiz.

— Você estava se divertindo — rebateu Sua, amarga. — Tinha "Mizi para todo mundo".

Mizi baixou a cabeça, chutando uma pedra no muro.

— É, eu falei essa bosta. Eu estava... eu estava com medo, tá legal? Todo mundo descobriu. Eu achei que se eu agisse como se fosse a maior festa do mundo, ninguém ia ver que eu estava apavorada. E aquela garota... ela era fácil. Ela era simples.

— E eu não sou? — Sua perguntou, as lágrimas voltando.

— Não — Mizi olhou para cima, e dessa vez, sua voz era profunda, sedutora mas carregada de uma verdade dolorosa. — Você é difícil, Sua. Você é real. Você me faz querer parar de falar palavrão e começar a ler as porras das poesias que você gosta. E isso me assusta pra caralho.

Sua ficou em silêncio, o vento bagunçando seus cabelos pretos.

— Eu não quero ser um susto para você, Mizi. Eu só queria ser... o suficiente.

— Você é mais do que o suficiente — Mizi escalou o cano da calha com uma agilidade surpreendente, chegando até a altura da janela de Sua. Ela se segurou no parapeito, o rosto a poucos centímetros do de Sua. — Eu passei o dia inteiro cercada de gente, e a única coisa que eu conseguia pensar era em como o seu silêncio é melhor do que o barulho de todas elas juntas.

Mizi estendeu a mão enfaixada e tocou o rosto de Sua, limpando o rastro de uma lágrima.

— Me perdoa por ser uma idiota popular? — Mizi murmurou, o olhar dourado fixo nos olhos roxos de Sua.

Sua olhou para ela, vendo a Mizi que ninguém mais via. A Mizi que se escondia atrás do sarcasmo e da beleza para não ter que lidar com a própria intensidade.

— Eu te odeio um pouco agora — Sua admitiu, a voz falhando.

— Eu também me odeio — Mizi sorriu de canto, aproximando-se mais. — Mas eu gosto de você muito mais do que me odeio.

E ali, sob a luz da lua, Mizi selou a promessa. O beijo não foi como o do sonho; não tinha gosto de algodão-doce. Tinha gosto de realidade, de arrependimento e de uma paixão que, embora caótica e cheia de falhas, era a única coisa que fazia Sua sentir que, talvez, valesse a pena sair da melancolia.

— Se você fizer isso de novo — Sua sussurrou contra os lábios dela —, eu vou escrever um poema tão triste sobre você que a escola inteira vai chorar.

— Porra, Sua — Mizi riu, puxando-a para um abraço apertado —, não faz isso. Eu prefiro enfrentar o Till armado com uma guitarra do que ver você triste por minha causa de novo.

Lá longe, no fundo da sala de aula da vida, a fofoca continuaria. As garotas continuariam correndo atrás de Mizi, e Ivan continuaria rindo de tudo com seu pirulito. Mas naquela noite, no quarto escuro de uma menina melancólica, o sol rosa e azul tinha finalmente encontrado seu lugar de descanso.

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