I only want you| Daryl Dixon E Violet Sullivan
O Sangue nas Mãos de Quem Fica
O abraço de Rick e Carl foi um choque de realidade no meio do delírio térmico da pedreira. Não era apenas o reencontro de um pai e um filho; era o colapso de uma barreira que todos ali haviam erguido para não enlouquecer. Lori tremia, as mãos agarradas à camisa de Rick como se, caso o soltasse, ele pudesse evaporar sob o sol implacável que ainda castigava o horizonte.
Shane observava a cena a poucos metros de distância, a espingarda pendurada no ombro. Sua expressão era uma máscara de pedra, mas seus olhos traíam um turbilhão. Ele havia dito a Lori que Rick estava morto. Ele havia acreditado nisso — ou precisava acreditar para justificar a própria sobrevivência e a posição que assumira. Agora, o "fantasma" estava ali, sólido, suado e vivo.
— Como você nos achou? — perguntou Shane, a voz saindo mais áspera do que ele pretendia.
Rick se afastou levemente do abraço de Carl, limpando a fuligem do rosto com as costas da mão. Ele olhou para Shane, e por um breve segundo, o mundo de antes — o mundo das patrulhas, dos cafés na delegacia e da irmandade — brilhou nos olhos de ambos.
— Eu segui o rastro de vocês desde King County. Encontrei um cara em Atlanta... ele me ajudou a sair de lá. O resto foi instinto e um pouco de sorte. — Rick olhou ao redor, vendo os rostos cansados e assustados do grupo. — Vocês estão bem? Estão seguros aqui?
— Seguro é uma palavra forte, xerife — interrompeu Dale, descendo do teto do trailer com a agilidade que seus anos permitiam. — Mas estamos vivos. E agora, com você, um pouco mais esperançosos.
Enquanto o grupo se aglomerava ao redor de Rick, bombardeando-o com perguntas e exclamações de alívio, a atmosfera na mata que circundava a pedreira era drasticamente diferente.
Daryl Dixon estava agachado entre as samambaias secas, o corpo tenso como uma mola. Ele conseguia ouvir o burburinho das vozes, o choro contido de Lori e a risada nervosa de Carl. Para ele, aquilo soava como um sino de jantar para qualquer coisa que estivesse vagando pelas redondezas.
— Olha só pra eles — sussurrou Merle, atrás de um tronco caído, observando o acampamento através da mira de seu rifle. — Parece uma reunião de condomínio. Estão fazendo barulho demais. Estão pedindo pra serem devorados.
— Cala a boca, Merle — retrucou Daryl, sem desviar os olhos do grupo. — A gente precisa decidir se entra ou se contorna. Eles têm suprimentos. Vi caixas de conserva perto daquele trailer.
Merle soltou um risado baixo, um som que lembrava o de ossos se quebrando.
— Entrar? Com o xerife lá embaixo? Você viu a farda, maninho. Aquele ali é o tipo de cara que vai querer colocar ordem no galinheiro. E você sabe o que eu acho de ordens.
— Eu sei o que você acha de passar fome também — disse Daryl, virando-se para o irmão. O suor brilhava em seu pescoço, misturado à sujeira de dias de fuga. — O calor tá matando os bichos, mas tá matando a gente também. A água deles vem da pedreira, tá limpa. Se a gente ficar aqui fora, vamos secar até virar couro.
Merle considerou as palavras do irmão por um momento, mascando um pedaço de fumo seco. O mundo de agosto de 2010 não perdoava orgulhos desnecessários.
— Tá bom. Vamos descer. Mas se aquele engomadinho tentar me revistar, eu arranco os dedos dele.
Lá embaixo, Rick estava terminando de contar sobre o hospital e a desolação de Atlanta. O silêncio que se seguiu foi pesado. A confirmação de que a grande cidade era um túmulo de concreto tirou o último resquício de esperança de alguns ali.
— Então não há exército? — perguntou Andrea, abraçando a irmã, Amy. — Ninguém vindo para nos resgatar?
— Eu não vi ninguém vivo que não estivesse fugindo — respondeu Rick, a voz baixa. — O centro de comando em Atlanta foi bombardeado. O que restou são eles. Milhares deles.
— A gente tem que reforçar o perímetro — disse Shane, tentando retomar o controle da situação. — Rick, fico feliz que esteja aqui, de verdade. Mas a realidade é que esse lugar é um alvo. O barulho da sua moto pode ter trazido indesejados.
— Eu desliguei o motor antes de chegar — defendeu-se Rick.
— Não importa. O som viaja nesse calor. O ar tá parado.
Antes que Rick pudesse responder, um estalo de galhos secos veio da encosta leste. Shane e Rick sacaram suas armas simultaneamente, apontando para a folhagem densa. O grupo recuou, Lori puxando Carl para trás do trailer.
— Apareçam! — gritou Shane. — Agora!
Daryl saiu primeiro, com a besta erguida, a seta apontada diretamente para o peito de Shane. Merle veio logo atrás, com o rifle em bandoleira, mas a mão descansando ostensivamente no cabo de uma faca de caça.
— Abaixem os canhões, senhoras — disse Merle, com um sorriso sarcástico. — A gente só veio pro churrasco.
Rick manteve a arma erguida, seus olhos alternando entre os dois irmãos. Ele reconheceu o tipo imediatamente: homens criados no mato, endurecidos por uma vida de marginalidade e sobrevivência muito antes dos mortos começarem a andar.
— Quem são vocês? — perguntou Rick.
— Eu sou o Daryl. Esse é o meu irmão, Merle — respondeu o mais novo, a voz rouca. Seus olhos eram pequenos e analíticos. Ele não olhava para as armas, mas para as brechas na postura de Rick e Shane. — A gente tava seguindo o rastro da moto. Vimos o acampamento.
— Eles estão armados, Rick — alertou Shane, sem baixar a espingarda. — Não precisamos de mais bocas pra alimentar, muito menos bocas que carregam rifles.
Merle deu um passo à frente, e o clique do cão da arma de Shane ecoou no silêncio tenso.
— Escuta aqui, xerife de shopping — disse Merle, a voz subindo de tom. — A gente caçou mais carne nos últimos três dias do que esse bando de desajustados viu no último mês. Se você quer sobreviver a agosto, vai precisar de gente que saiba sangrar um animal sem vomitar nas botas.
Rick olhou para Daryl. Havia algo na postura do homem mais novo que era diferente da agressividade pura de Merle. Era uma necessidade básica de pertencer a algo, escondida sob camadas de desconfiança.
— Abaixe a besta, Daryl — disse Rick, baixando lentamente o seu Colt Python. — Shane, abaixe a arma.
— Rick, você enlouqueceu? — Shane protestou, mas acabou cedendo sob o olhar firme do amigo.
— O mundo acabou — disse Rick, voltando-se para os irmãos Dixon. — Se a gente começar a atirar uns nos outros agora, os mortos nem vão precisar ter o trabalho de nos pegar. Se vocês têm comida e sabem caçar, podem ficar. Mas aqui existem regras.
Merle soltou uma gargalhada genuína, embora cruel.
— Regras? Em agosto de 2010? O calendário parou, xerife. A única regra agora é não ser comido.
— A regra é que todos contribuem — continuou Rick, ignorando a provocação. — E ninguém aponta armas para ninguém dentro deste perímetro. Estamos entendidos?
Daryl abaixou a besta lentamente, prendendo-a no suporte.
— Por mim, tanto faz. Só quero um lugar que não cheire a carniça e um pouco de água que não tenha gosto de ferrugem.
A tensão não desapareceu, mas transformou-se em uma desconfiança vigilante. Enquanto os Dixon se acomodavam em um canto afastado, perto das árvores, o grupo original começou a se dispersar, voltando às suas tarefas, embora os olhares fossem constantemente desviados para os novos integrantes e para o xerife ressuscitado.
A noite começou a cair sobre a Geórgia. O céu, que passara o dia em um azul pálido e doentio, tornou-se um manto de veludo negro, salpicado por estrelas que pareciam brilhantes demais para um mundo tão sombrio. Sem a poluição luminosa das cidades, a Via Láctea rasgava o firmamento como uma ferida aberta.
Rick sentou-se em um caixote perto da fogueira improvisada. O calor da chama era quase insuportável dada a temperatura ambiente, mas era necessário para cozinhar o pouco que tinham. Lori sentou-se ao lado dele, encostando a cabeça em seu ombro.
— Parece um sonho — sussurrou ela. — Um sonho ruim do qual eu finalmente acordei porque você apareceu.
Rick passou o braço pelos ombros dela, sentindo a fragilidade de seu corpo.
— Não é um sonho, Lori. É o que sobrou. E a gente vai ter que aprender a viver nisso.
— Shane cuidou da gente — disse ela, e Rick sentiu uma leve hesitação na voz da esposa. — Ele fez o que pôde. Ele realmente achou que você...
— Eu sei — cortou Rick. — Eu não o culpo. Eu também achei que tinha morrido naquele quarto de hospital.
Do outro lado do acampamento, Shane observava os dois, as mãos fechadas em punhos dentro dos bolsos. Ele sentia uma mistura corrosiva de alívio e ressentimento. Ele amava Rick como a um irmão, mas nos últimos dias, ele tinha provado o gosto de ser o líder, o protetor... o homem de Lori. E agora, com a volta do xerife, ele era novamente apenas o parceiro, a sombra.
Daryl, observando tudo das sombras, limpava uma de suas setas com um pedaço de pano velho. Merle já tinha adormecido, ou pelo menos fingia, com o chapéu sobre os olhos.
— Eles não vão durar — murmurou Merle, sem tirar o chapéu do rosto.
— Quem? — perguntou Daryl.
— O xerife e o parceiro. Tem muita eletricidade entre aqueles dois. E não é do tipo que acende lâmpada. É do tipo que causa incêndio. E nesse calor, maninho, tudo queima rápido demais.
Daryl não respondeu. Ele olhou para a floresta. O silêncio da noite foi quebrado por um som que ele já conhecia bem: o arrastar de pés sobre folhas secas e um gemido baixo, gutural, que parecia vir do próprio estômago da terra.
Ele se levantou, pegando a besta.
— Onde você vai? — perguntou Shane, que estava de guarda perto da trilha.
— Tem um deles vindo pela encosta sul — disse Daryl, sem parar. — Se vocês continuarem com essa fogueira brilhando como um farol, vão ter companhia pro jantar.
Shane seguiu Daryl, e Rick, percebendo o movimento, levantou-se também. Os três homens se encontraram na borda do acampamento, onde a luz da fogueira morria e a escuridão total começava.
Lá, entre dois pinheiros, uma figura cambaleante surgiu. Era um homem, ou o que restara de um. Suas roupas estavam em frangalhos e metade de sua mandíbula pendia, revelando dentes enegrecidos e gengivas podres. Ele se movia com uma determinação cega, atraído pelo calor e pelo cheiro de vida.
Rick ergueu o Colt, mas Daryl colocou a mão sobre o cano da arma.
— Não gasta bala — sussurrou Daryl. — E não faz barulho.
Com um movimento fluido e quase silencioso, Daryl disparou a besta. A seta atravessou o crânio da criatura com um som seco de impacto. O corpo desabou no chão como um saco de carne velha.
Daryl caminhou até o cadáver, recuperou sua seta com um puxão vigoroso e limpou o sangue negro na grama.
— Agosto de 2010 — disse ele, olhando para Rick e Shane. — O mês em que o mundo aprendeu que o silêncio é a única coisa que te mantém vivo.
Rick olhou para o corpo no chão e depois para Daryl. Ele percebeu que a autoridade da farda e do distintivo não significava nada para aquele homem, nem para aquele novo mundo. A única autoridade era a competência na arte de matar o que já estava morto.
— Precisamos de turnos de guarda mais rigorosos — disse Rick, assumindo o comando naturalmente. — Shane, você e o Dale cobrem a frente. Eu e o Daryl cuidamos dos flancos.
Shane abriu a boca para protestar contra a inclusão de Daryl, mas a lógica da situação era inegável. Eles precisavam de rastreadores. Precisavam de homens que não tivessem medo de sujar as mãos.
— Tudo bem — concordou Shane, embora o tom fosse gélido. — Mas eu fico de olho no irmão dele. Se o Merle der um passo em falso, eu mesmo o coloco pra fora.
Daryl deu de ombros, voltando para sua área.
— Tenta a sorte, oficial. Mas lembre-se: o Merle morde mais forte que essas coisas aí.
A noite prosseguiu, longa e sufocante. Rick ficou sentado na borda da pedreira, observando o horizonte onde Atlanta deveria brilhar, mas onde agora havia apenas um vazio absoluto. Ele pensou em como a vida era frágil. Algumas semanas atrás, sua maior preocupação era o divórcio iminente e as notas de Carl. Agora, sua maior preocupação era se o vento mudaria de direção e traria o cheiro do acampamento para uma horda faminta.
Lori se aproximou silenciosamente e sentou-se ao lado dele.
— Você está pensando no que o Merle disse? Sobre as regras?
— Estou pensando que ele tem razão em uma coisa — disse Rick, olhando para as próprias mãos. — O mundo que conhecíamos não vai voltar. As regras de agosto de 2010 não são as mesmas de julho.
— E quais são as novas regras, Rick?
Rick olhou para a escuridão, onde Daryl Dixon vigiava como um predador silencioso.
— Sobreviver a qualquer custo — respondeu ele. — E tentar não perder a alma no processo. Mas, olhando para aquele corpo ali atrás... acho que a alma é a primeira coisa que a gente deixa pra trás quando o calor aperta.
O resto da noite passou sob o signo do medo e da exaustão. O verão da Geórgia não dava trégua, e mesmo nas horas mais escuras, a umidade pesava como um cobertor molhado. No acampamento da pedreira, um grupo de estranhos e amigos tentava dormir, sem saber que o sol que nasceria em poucas horas traria novos desafios, novos conflitos e a certeza de que, naquele novo mundo, o sangue nas mãos de quem fica é o único preço aceitável pela vida.
Daryl Dixon, encostado em uma árvore, observava Rick Grimes. Ele via a força no xerife, mas também via a rachadura. O mundo tinha acabado em agosto, e até o final daquele verão, Daryl sabia que apenas os que aceitassem a própria brutalidade permaneceriam de pé.
— Bem-vindo ao inferno, xerife — murmurou Daryl para si mesmo, enquanto a primeira luz cinzenta do amanhecer começava a lutar contra a escuridão no horizonte. — Espero que você goste de calor.