I only want you| Daryl Dixon E Violet Sullivan
O Sussurro da Pólvora e do Suor
O sol de agosto não nascia na Geórgia; ele simplesmente se impunha, transformando o céu de um cinza úmido em um laranja incandescente que parecia queimar as pálpebras de quem ousasse olhar para o leste. Rick Grimes sentiu o calor antes mesmo de abrir os olhos. O suor já colava sua camisa ao peito, e o cheiro de terra seca misturado ao aroma metálico de sangue velho do caminhante morto por Daryl na noite anterior pairava no ar estagnado da pedreira.
Ele se levantou do caixote, sentindo cada articulação protestar. O hospital parecia uma vida inteira atrás, mas as feridas em seu corpo — tanto as físicas quanto as invisíveis — ainda latejavam. Ao olhar para o lado, viu Lori e Carl dormindo abraçados em um colchão fino espalhado no chão. A visão era um milagre e uma maldição; o amor era agora a sua maior vulnerabilidade.
Caminhando até a borda do acampamento, Rick encontrou Shane. O parceiro estava encostado no capô de um dos carros, os olhos vermelhos de exaustão, mas fixos na estrada abaixo.
— Algum movimento? — perguntou Rick, a voz rouca pelo desuso noturno.
— Além dos grilos e do som do mato secando? Nada — respondeu Shane, sem desviar o olhar. — Aquela coisa que o caipira matou foi a única que chegou perto. Mas ele tem razão, Rick. A fogueira... a gente tá pedindo pra ser encontrado.
— Precisamos comer, Shane. E as pessoas precisam de um pouco de luz para não enlouquecerem no escuro.
— O que as pessoas precisam é chegar ao amanhã — rebateu Shane, finalmente virando-se para Rick. — Esse lugar... é uma armadilha de ratos. Só temos uma saída. Se eles subirem em massa, a gente pula no lago ou morre nas pedras.
Rick olhou para o horizonte, onde a névoa de calor já começava a distorcer a visão das árvores distantes.
— Vamos discutir isso com o grupo depois que todos acordarem. Precisamos de um plano, não só de reações.
Longe dali, no limite da vegetação densa, Daryl Dixon já estava ativo há horas. Para ele, a manhã era o melhor momento para caçar; o mundo ainda estava ligeiramente menos barulhento antes que o calor fizesse o ar vibrar. Ele se movia com a fluidez de um animal selvagem, os pés encontrando os pontos silenciosos entre os galhos secos.
Ele parou, agachando-se ao notar algo. Uma marca na casca de uma árvore. Não era natural. Eram três cortes profundos, feitos com uma lâmina larga.
— Merle! — chamou ele em um sussurro potente.
O irmão mais velho surgiu de trás de uma moita de amoras silvestres, limpando os dentes com um palito de madeira.
— Achou alguma coisa, maninho? Ou tá só admirando a paisagem?
— Olha isso aqui. — Daryl apontou para a marca. — Não é de bicho. E não é daqueles podres. Foi gente. E foi recente.
Merle se aproximou, sua expressão zombeteira sumindo por um instante enquanto avaliava a altura e a força dos cortes.
— Talvez algum sobrevivente desesperado. Ou alguém querendo marcar território. O mundo acabou, Daryl, mas o instinto de mijar no poste continua o mesmo.
— O cheiro tá vindo de lá — disse Daryl, apontando para o vale oposto ao da pedreira. — Fumaça. Mas não é de fogueira de acampamento. É cheiro de borracha queimada.
— Vamos dar uma olhada — decidiu Merle, batendo no rifle. — Se tiverem algo que preste, a gente pega antes que o xerife e o grupo de escoteiros dele decidam que é "contra as regras".
No acampamento, a rotina de sobrevivência começava a se arrastar. Andrea e Amy tentavam organizar o que restava dos suprimentos de comida, enquanto Dale verificava o radiador do trailer, murmurando sobre a falta de peças.
— Não podemos ficar sem água — disse Dale, limpando a testa com o chapéu de pescador. — O calor está evaporando o que temos nos galões. Se o nível da pedreira baixar demais ou se a água ficar parada por muito tempo, vamos começar a ficar doentes.
— Eu posso buscar mais na cidade — sugeriu Glenn, saindo de trás do grupo. O jovem coreano tinha um mapa nas mãos e uma determinação que contrastava com seu físico magro. — Conheço os atalhos. Se eu for rápido e usar o carro certo...
— Nem pensar — interrompeu Shane, aproximando-se a passos largos. — Atlanta é um moedor de carne. Você deu sorte da última vez, garoto. Não vamos apostar a sua vida em latas de pêssego.
— Não são só latas de pêssego, Shane — disse Rick, intervindo. — É água. É munição. É a chance de encontrar rádio que funcione. Se ficarmos aqui sentados esperando o sol nos cozinhar, vamos morrer de qualquer jeito.
— Então você concorda com ele? — Shane encarou Rick, o desafio brilhando nos olhos. — Você mal chegou e já quer mandar as pessoas para o matadouro?
— Eu quero que a gente tenha uma chance — respondeu Rick, mantendo a voz calma, mas firme. — Glenn conhece o terreno. Se montarmos uma equipe pequena, silenciosa...
— Eu vou com ele — disse uma voz vinda da mata.
Daryl e Merle saíram da folhagem, Daryl carregando um esquilo morto e Merle com uma expressão de quem sabia algo que os outros não sabiam.
— Você? — Shane soltou uma risada seca. — E por que diabos confiaríamos em você?
— Porque eu sei entrar e sair sem fazer o barulho que vocês, gorilas, fazem — retrucou Daryl, ignorando o insulto. — E porque vi fumaça preta pro lado da estrada 85. Alguém queimou um bloqueio ou um comboio. Pode ter sobrado combustível.
O silêncio caiu sobre o grupo. A palavra "combustível" era quase sagrada. Sem gasolina, o trailer de Dale era apenas uma caixa de metal quente, e os carros eram monumentos à inutilidade.
— Se houver combustível lá, precisamos dele — disse Rick. — Glenn, Daryl e eu vamos.
— Eu vou também — declarou Shane.
— Não — disse Rick, colocando a mão no ombro do amigo. — Se algo der errado, o grupo precisa de você aqui. Você conhece essas pessoas. Eles confiam em você para protegê-los.
Shane hesitou. A lógica era sólida, mas o orgulho o queimava por dentro. Ele odiava a maneira como Rick assumia o controle, como se os meses em que Shane liderara não tivessem passado de um interlúdio temporário.
— Tudo bem — cedeu Shane, entre dentes. — Mas voltem antes do anoitecer. Se a luz sumir e vocês não estiverem aqui, eu fecho o perímetro e ninguém entra.
— Justo — assentiu Rick.
Enquanto se preparavam, Lori puxou Rick para o lado, longe dos ouvidos curiosos.
— Você acabou de voltar, Rick. Carl não para de olhar para você como se você fosse desaparecer a qualquer momento.
— Eu tenho que fazer isso, Lori. Por ele. Para que ele tenha água para beber e um carro que o leve para longe daqui se as coisas piorarem.
— Tome cuidado com aqueles dois — sussurrou ela, indicando os Dixon. — O mais velho é perigoso.
— Eu sei. Mas o mais novo... ele é necessário.
O trio — Rick, Glenn e Daryl — partiu em um sedã prateado que ainda tinha um quarto de tanque. Merle ficou para trás, sentado no topo de uma rocha, observando Shane com um sorriso que prometia problemas.
A viagem até a fumaça que Daryl vira foi feita em silêncio. A paisagem era uma sucessão de campos de milho murchos e casas de fazenda que pareciam estranhamente normais de longe, até que se notava a ausência de vida e as janelas quebradas.
— O mundo acabou em agosto — comentou Glenn, quebrando o gelo. — Eu ia começar a faculdade em setembro. Tinha guardado dinheiro o verão inteiro entregando pizza.
— Pelo menos você não gastou com livros que não servem pra nada agora — disse Daryl, limpando as unhas com a ponta de uma seta.
— E você, Daryl? O que fazia? — perguntou Rick pelo retrovisor.
Daryl olhou pela janela, observando um caminhante solitário tropeçar em uma vala.
— Sobrevivia. O mundo não mudou tanto assim pra mim. Só ficou mais quieto e as pessoas pararam de me olhar como se eu fosse lixo, porque agora todo mundo é lixo.
Rick não respondeu. Ele sentia a verdade amarga naquelas palavras.
Ao chegarem ao local da fumaça, a cena era desoladora. Dois caminhões militares haviam colidido e pegado fogo. O cheiro de borracha e carne queimada era insuportável. Havia corpos carbonizados presos às ferragens, e alguns que, apesar das queimaduras horríveis, ainda se contorciam no chão, movidos pelo vírus implacável.
— Puta merda — murmurou Glenn, cobrindo o nariz com a gola da camisa.
— Fiquem atentos — ordenou Rick, sacando o Colt. — Daryl, veja se há galões de reserva na traseira do primeiro caminhão. Glenn, veja se consegue drenar o tanque do segundo.
Eles se moveram com precisão. Daryl saltou sobre a carcaça de metal, sua besta pronta. Ele encontrou três galões de metal, aparentemente intactos.
— Achei o ouro! — gritou ele.
Mas o grito de Daryl foi respondido por outro som. Um som de metal batendo contra metal. De dentro do baú do segundo caminhão, algo começou a esmurrar a porta.
— Rick! — gritou Glenn, recuando do tanque. — Tem algo lá dentro!
A porta do baú cedeu com um rangido metálico. Não era um ou dois caminhantes. Era uma pequena horda de soldados, ainda usando restos de seus uniformes e coletes táticos, que haviam sido trancados ali quando o caos começou. Eles caíram uns sobre os outros, uma massa de dentes e unhas, famintos por décadas de silêncio.
— Corram para o carro! — gritou Rick, disparando contra o primeiro soldado que se aproximou.
O tiro ecoou pelo vale, um trovão que parecia rasgar o ar quente. Daryl disparou a besta, derrubando um caminhante que quase agarrou o braço de Glenn.
— Pega os galões, Daryl! — Rick disparou novamente, a bala atingindo o capacete de um soldado morto e ricocheteando com um faísca. — Glenn, entra no carro e liga o motor!
A luta foi frenética. O calor de agosto parecia sugar o oxigênio de seus pulmões enquanto eles corriam. Daryl carregava dois galões pesados, os músculos do braço saltando. Rick cobria a retaguarda, cada tiro de sua Python sendo uma sentença de morte definitiva para as criaturas.
Eles conseguiram chegar ao sedã no momento em que os caminhantes cercavam o veículo. Glenn acelerou, os pneus cantando no asfalto quente e esmagando alguns crânios no processo.
Enquanto se afastavam, o silêncio retornou ao carro, quebrado apenas pela respiração pesada dos três homens.
— Aquilo foi... — Glenn começou, mas não conseguiu terminar.
— Foi o novo normal — disse Daryl, limpando o suor da testa. — Mas conseguimos o combustível.
— E perdemos um galão — notou Rick, olhando para trás. — Mas é o suficiente para o trailer.
Quando voltaram à pedreira, o sol estava começando seu mergulho final. A luz era de um vermelho profundo, quase da cor do sangue que manchava as botas de Rick.
Shane os recebeu com um olhar que misturava alívio genuíno e uma ponta de decepção por eles terem retornado bem.
— Conseguiram? — perguntou Shane.
— Sim — respondeu Rick, descendo do carro e entregando as chaves a Dale. — Mas o mundo lá fora está ficando mais apertado, Shane. Aquelas coisas estão começando a se agrupar.
Naquela noite, o acampamento estava um pouco mais silencioso. O sucesso da missão trouxe um breve alívio, mas a realidade do confronto com os soldados mortos pesava sobre Rick. Ele se sentou longe da fogueira, observando as estrelas.
Daryl se aproximou, sentando-se a alguns metros de distância, sem dizer nada. Ele começou a afiar sua faca, o som rítmico do metal na pedra sendo a única música da noite.
— Você atira bem, xerife — disse Daryl, sem olhar para cima. — Mas faz barulho demais.
— Às vezes o barulho é necessário para atrair a atenção para longe de quem importa — respondeu Rick.
Daryl parou de afiar a faca por um segundo.
— É. Talvez. Mas em agosto de 2010, o barulho é o que te mata. E o silêncio... o silêncio é o que te deixa louco.
Rick olhou para o homem ao seu lado. Eles eram opostos em quase tudo — lei e desordem, família e solidão —, mas ali, sob o céu impiedoso da Geórgia, eles eram apenas dois sobreviventes tentando entender por que ainda estavam respirando.
— A gente vai precisar de mais do que combustível e água, Daryl — disse Rick. — Vamos precisar de um lugar de verdade. Esse acampamento não vai durar até o outono.
— Eu sei — disse Daryl, voltando a afiar a faca. — O calor vai passar, e o frio vai vir. E os mortos não sentem frio. Eles só continuam vindo.
Lá do alto da pedreira, Merle observava a conversa, seus olhos brilhando na penumbra. Ele tocou a cicatriz em seu braço e olhou para Shane, que limpava sua arma obsessivamente perto da fogueira.
— O verão tá só começando — sussurrou Merle para o vento. — E o sangue ainda tá muito quente.
O mês de agosto de 2010 continuava sua marcha impiedosa. O fim do mundo não era um evento único, mas um processo lento de erosão da humanidade. E enquanto os sobreviventes da pedreira fechavam os olhos para mais uma noite de pesadelos, eles sabiam que a cada amanhecer, a linha entre os vivos e os mortos ficava um pouco mais tênue, e a temperatura, um pouco mais insuportável.