← Voltar ao resumo

I only want you| Daryl Dixon E Violet Sullivan

O Eco do Ferro e da Carne

O sol de agosto não era apenas uma fonte de luz; era uma presença física, um peso que se assentava sobre os ombros de Rick Grimes enquanto ele observava o horizonte da pedreira. O ar, saturado de umidade e do cheiro acre de pinheiros ressecados, parecia recusar-se a entrar em seus pulmões. Rick sentia que o mundo, ou o que restara dele, estava sendo cozido vivo sob o céu da Geórgia.

Ele ajustou o coldre, sentindo o couro suado roçar na coxa. O retorno da missão de busca por combustível trouxera um alívio temporário, mas o clima no acampamento estava longe de ser pacífico. A tensão entre Shane e os irmãos Dixon era um rastilho de pólvora esperando por uma faísca, e o calor era o combustível perfeito.

— Rick, temos um problema com os rádios — disse Dale, aproximando-se com o semblante preocupado. Ele apontou para o topo do trailer, onde as antenas improvisadas pareciam derreter sob o mormaço. — A estática está piorando. Não é só a distância. É como se o próprio ar estivesse bloqueando qualquer sinal.

Rick suspirou, limpando a testa com o antebraço.

— Talvez não tenha mais ninguém transmitindo, Dale. Talvez tenhamos que aceitar que o silêncio é o que nos resta.

— O silêncio é perigoso — rebateu Dale, a voz trêmula. — Ele nos faz esquecer como o mundo era. Ontem, Carl me perguntou se as escolas ainda existiam. O que eu deveria dizer a ele? Que os livros agora servem apenas para acender fogueiras?

Antes que Rick pudesse responder, um grito ecoou da borda da floresta, perto de onde as roupas eram lavadas. Era a voz de Carol.

Rick e Shane correram instantaneamente, as mãos nas armas. Ao chegarem, encontraram Carol encolhida, apontando para a mata fechada. Sophia estava atrás dela, segurando a barra de sua saia.

— Eu vi algo! — exclamou Carol, a voz embargada pelo pânico. — Não era um deles. Era... era um homem. Vivo.

Shane franziu o cenho, examinando os arbustos com a espingarda em riste.

— Tem certeza, Carol? Pode ter sido um animal. Um cervo.

— Cervos não usam máscaras — disse uma voz áspera vinda de trás deles.

Era Daryl. Ele surgiu das sombras das árvores, carregando um coelho esfolado e sua besta inseparável. Ele caminhou até o ponto que Carol indicara e se agachou, examinando o chão com a perícia de quem nasceu para rastrear.

— Ela está certa — murmurou Daryl, tocando uma folha amassada. — Pegadas de botas. Botas pesadas, tipo militar ou de trabalho. O rastro segue para o norte, contornando a pedreira.

— Alguém está nos vigiando? — perguntou Rick, sentindo um calafrio que não tinha nada a ver com a temperatura.

— Alguém está nos avaliando — corrigiu Daryl, levantando-se. — E quem quer que seja, sabe se mover sem ser visto. Quase sem ser visto.

— Precisamos ir atrás dele — declarou Shane, a agressividade habitual aflorando. — Não podemos ter um estranho rondando nossas mulheres e crianças.

— Ir atrás dele na mata fechada com esse sol? — Merle apareceu, encostado em uma árvore próxima, palitando os dentes. — É um convite para uma emboscada, parceiro. Se o cara é inteligente o suficiente para chegar perto sem o caipira aqui notar de primeira, ele é inteligente o suficiente para ter amigos esperando.

Rick olhou para o grupo. O medo nos olhos de Carol, a confusão de Sophia, a postura defensiva de Shane. Ele sabia que a segurança do acampamento era uma ilusão frágil.

— Vamos dobrar a guarda — decidiu Rick. — Shane, você fica no perímetro leste. Daryl, você e eu vamos fazer uma varredura curta, apenas um quilômetro mata adentro. Não vamos nos afastar.

— Por que ele vai com você? — questionou Shane, a voz carregada de ressentimento. — Eu sou seu parceiro, Rick.

Rick olhou nos olhos de Shane, vendo ali algo que começava a se quebrar.

— Você é o melhor atirador que temos para defender o acampamento se algo der errado aqui. O Daryl... ele lê o chão melhor que qualquer um de nós.

Shane não respondeu, mas o modo como apertou a coronha da espingarda disse tudo. Ele se virou e caminhou em direção ao posto de vigia, deixando um rastro de tensão no ar.

Rick e Daryl entraram na floresta. O dossel das árvores oferecia algum alívio do sol direto, mas a umidade ali era sufocante. O cheiro de decomposição, onipresente desde agosto de 2010, parecia mais concentrado entre os troncos úmidos.

— Você acha que são do exército? — perguntou Rick em voz baixa, enquanto seguiam o rastro.

— Duvido — respondeu Daryl, movendo-se sem quebrar um único galho. — Soldados fazem barulho. Eles confiam no número e no calibre. Esse aqui... ele é um lobo solitário. Ou um batedor.

Eles caminharam por dez minutos em silêncio absoluto. Daryl parou bruscamente, erguendo a mão. À frente, em uma pequena clareira, havia os restos de um acampamento improvisado. Não era um grupo; era apenas uma pequena tenda de lona camuflada, quase invisível entre os arbustos.

Rick sinalizou para que se dividissem. Ele deu a volta pela esquerda, o Colt Python pronto, enquanto Daryl circulava pela direita. Ao chegarem à tenda, Rick a abriu com o cano da arma.

Estava vazia.

Mas não estava abandonada. Havia um rádio de pilha, algumas latas de conserva abertas e, o mais perturbador, fotos. Fotos grampeadas em um pedaço de madeira. Eram fotos da pedreira. Fotos de Lori, de Carl, de Shane... e de Rick, tiradas de longe, através de uma lente potente.

— Estamos sendo observados há dias — sussurrou Rick, o estômago revirando.

Daryl pegou um pequeno caderno que estava sobre um caixote. Ele folheou as páginas rapidamente.

— Não são fotos de um assassino — disse Daryl, entregando o caderno a Rick. — São notas. "Grupo de sobreviventes. Aproximadamente 20 pessoas. Armamento leve. Líderes em conflito".

— Ele está nos estudando como se fôssemos espécimes de laboratório — Rick sentiu uma onda de raiva. — Quem faria isso?

— Alguém que está procurando um lugar para ficar. Ou alguém que está procurando um lugar para tomar — respondeu Daryl.

Um ruído de galhos quebrando veio de trás deles. Ambos se viraram instantaneamente. Um homem alto, vestindo uma jaqueta de lona gasta apesar do calor, estava parado na borda da clareira. Ele não apontava uma arma, mas tinha as mãos próximas a um coldre na cintura. Seu rosto estava coberto por uma barba espessa e olhos que pareciam ter visto o fim do mundo e sobrevivido a ele.

— Vocês demoraram para me encontrar — disse o homem, a voz calma, quase desprovida de emoção.

— Quem é você? — exigiu Rick, mantendo a arma no peito do estranho. — E por que está tirando fotos da minha família?

— Meu nome é Morgan — disse o homem, dando um passo cauteloso à frente. — E eu não estou tirando fotos para fazer mal. Estou tentando decidir se vocês são o tipo de pessoas que ainda valem a pena conhecer.

Daryl não baixou a besta.

— E qual foi a conclusão, Morgan? — perguntou Daryl com um tom ameaçador.

Morgan olhou para Rick, ignorando Daryl por um momento.

— Eu vi você chegar naquela motocicleta, xerife. Vi o reencontro. Vi o modo como você olha para aquele menino. Em agosto de 2010, a maioria das pessoas parou de olhar para os outros com amor. Eles só olham com fome ou medo.

Rick baixou ligeiramente a arma, mas não a guardou.

— Você está sozinho?

— Estou. Meu filho... ele não conseguiu. — A voz de Morgan falhou por um milésimo de segundo, uma rachadura na sua fachada de sobrevivente. — Eu sigo grupos. Observo. A maioria se destrói por dentro antes que os mortos cheguem. O seu grupo... vocês têm um problema.

— Que problema? — perguntou Rick.

— O homem de cabeça raspada — Morgan indicou a direção do acampamento. — Ele não olha para você como um parceiro. Ele olha para você como um obstáculo. E em um mundo onde os mortos caminham, um obstáculo é algo que se remove.

Rick sentiu o peso daquelas palavras. Ele sabia que Morgan estava falando de Shane, e a verdade naquelas palavras era algo que ele vinha tentando ignorar desde que acordara no hospital.

— Você vem conosco — disse Rick. — Não pode ficar aqui vigiando a gente como um fantasma.

— Não posso ir com vocês — Morgan balançou a cabeça. — Ainda não. Eu tenho coisas a resolver. Mas aviso: o calor não é a única coisa que vai queimar vocês. O silêncio daquela pedreira vai ser quebrado logo. Há uma horda descendo a rodovia principal. Eles foram atraídos pelo barulho das explosões em Atlanta. Estarão aqui em dois dias, talvez menos.

Daryl deu um passo à frente.

— Como você sabe disso?

— Eu os vi. Milhares. Uma maré de carne podre. Se vocês ficarem na pedreira, serão encurralados contra a água.

Rick olhou para Daryl, e depois de volta para Morgan.

— Venha conosco. Podemos nos ajudar.

— Eu voltarei — prometeu Morgan, recuando para a vegetação. — Quando o sol se puser pela segunda vez a partir de agora, eu estarei na estrada. Se vocês forem inteligentes, estarão lá também.

Em um piscar de olhos, Morgan desapareceu na mata, movendo-se com uma agilidade que desafiava sua aparência cansada.

— A gente deixa ele ir? — perguntou Daryl, a seta ainda pronta.

— Ele não é nosso inimigo — disse Rick, guardando o Colt. — Mas ele nos deu um prazo de validade. Precisamos voltar.

O retorno ao acampamento foi marcado por um silêncio pesado. O calor parecia ter aumentado, se é que isso era possível. Quando chegaram, Shane estava esperando na entrada, os braços cruzados, a mandíbula tensa.

— E então? — perguntou Shane. — Encontraram o "fantasma"?

Rick olhou para Shane, vendo-o agora através dos olhos de Morgan. A desconfiança, a posse, a raiva contida.

— Encontramos um homem — disse Rick, passando por Shane. — Um sobrevivente. E ele nos deu um aviso. Temos dois dias para sair daqui, Shane. Uma horda está vindo.

— Uma horda? — Shane soltou uma risada incrédula. — Você acredita em um estranho qualquer no mato? Rick, esse lugar é alto, é defensável. A gente não vai a lugar nenhum.

— A gente vai se não quiser morrer — interveio Daryl, limpando o suor do pescoço. — O cara sabia do que estava falando. Ele tinha fotos da gente, Shane. Ele nos viu enquanto a gente dormia. Se ele quisesse nos matar, já teria feito.

O grupo começou a se reunir ao redor deles. Lori, Carl, Dale, Andrea. A notícia da horda espalhou-se como um vírus.

— Para onde iríamos? — perguntou Lori, a voz trêmula. — As estradas estão bloqueadas.

— Morgan disse para irmos para a rodovia — respondeu Rick. — Precisamos nos mover para o norte. Longe das cidades grandes.

— Eu digo que ficamos! — gritou Shane, sua voz ecoando nas paredes de pedra da pedreira. — Eu mantive esse grupo vivo enquanto você estava em coma, Rick! Eu tomei as decisões! E eu digo que aqui é o lugar mais seguro.

— Seguro até sermos cercados! — Rick deu um passo à frente, ficando cara a cara com Shane. — Olhe ao redor, Shane! O calor está nos matando, a água está acabando e agora temos milhares de mortos vindo em nossa direção. A liderança não é sobre quem estava aqui primeiro. É sobre quem garante que todos cheguem ao final da semana.

A tensão era quase palpável. Merle, observando de longe, deu um assobio baixo.

— O churrasco vai começar cedo hoje — murmurou Merle para si mesmo.

Shane olhou para Lori, buscando apoio, mas ela desviou o olhar, aproximando-se de Rick. Aquele pequeno gesto foi como um golpe físico em Shane. Ele recuou, os olhos brilhando com uma fúria fria.

— Tudo bem, Rick. Faça do seu jeito. Mas se aquele homem estiver mentindo... se a gente perder pessoas na estrada por causa de um conto de fadas... o sangue vai estar nas suas mãos.

Shane virou as costas e saiu em direção à floresta, precisando de espaço para não explodir.

A noite caiu, mas não trouxe alívio. O calor de agosto de 2010 parecia ter sido armazenado pelas pedras da pedreira, irradiando de volta para os sobreviventes. Rick sentou-se com Carl, tentando explicar por que precisavam partir novamente.

— O papai Morgan disse que o mundo é grande, Carl. A gente só precisa encontrar um pedaço dele que ainda não esteja quebrado.

— O mundo vai voltar ao normal, pai? — perguntou o menino, os olhos refletindo a luz da fogueira.

Rick olhou para as mãos, calejadas e sujas. Ele pensou em Morgan, sozinho na mata. Pensou em Shane, perdendo-se na própria escuridão. Pensou nos milhares de mortos marchando sob o sol escaldante.

— O normal morreu em agosto, filho — disse Rick, beijando o topo da cabeça de Carl. — Mas a gente ainda está aqui. E enquanto estivermos aqui, o mundo ainda tem uma chance.

Daryl, sentado a poucos metros, observava a cena enquanto afiava uma nova seta. Ele olhou para o irmão, que parecia estar tramando algo em silêncio, e depois para Rick. Pela primeira vez desde que o mundo acabara, Daryl sentiu que não estava apenas fugindo. Ele estava seguindo alguém.

O silêncio da noite foi subitamente interrompido por um som distante. Não era o vento. Não era um animal. Era um som rítmico, um arrastar de milhares de pés sobre o asfalto, a quilômetros dali, mas audível no ar parado da madrugada.

A maré estava vindo.

Rick levantou-se, olhando para a escuridão da estrada. Ele sabia que o tempo de discussões havia acabado. O verão da Geórgia estava prestes a se tornar um banho de sangue, e a única pergunta que restava era quem teria a força necessária para atravessar o fogo e chegar ao outono.

— Acordem todos — ordenou Rick, sua voz cortando a noite com uma autoridade inquestionável. — Comecem a carregar os carros. Não temos dois dias. Temos apenas algumas horas.

O acampamento explodiu em uma atividade frenética e silenciosa. O medo, antes uma névoa, agora era um motor. Sob o céu estrelado de agosto, os sobreviventes da pedreira começaram a desmantelar sua frágil segurança, preparando-se para enfrentar o vazio da estrada.

Enquanto Rick ajudava Dale com o trailer, ele sentiu um olhar sobre si. Virou-se e viu Shane parado nas sombras, observando-o. Não havia mais raiva aparente, apenas uma vacuidade assustadora.

— Rick — chamou Shane, a voz baixa.

— Diga.

— Espero que você esteja certo. Porque se você estiver errado, não vai sobrar ninguém para te perdoar.

Rick não respondeu. Ele apenas apertou a mão de Shane, um gesto que parecia mais uma despedida do que um pacto. O mundo havia acabado em agosto de 2010, e naquela noite, Rick Grimes entendeu que a parte mais difícil de sobreviver não era combater os mortos, mas manter vivos os homens que ainda restavam dentro deles.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.