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Imortal love

O Jogo de Espelhos e a Vingança do Olhar

Clara caminhava pelos corredores do Setor 45 com uma postura que não condizia com o peso que carregava no peito. Seus passos eram firmes, o som de seus sapatos ecoando contra o metal frio do chão, mas sua mente era um turbilhão. Ela havia passado meses sendo a "sombra" de Aaron Warner, o porto seguro para onde ele corria quando a intensidade de Juliette Ferrars se tornava insuportável. Mas agora, a sombra decidira que também podia ter seu próprio brilho — ou, pelo menos, que poderia refletir a mesma frieza que recebia.

Se Aaron queria usá-la como um objeto de conveniência enquanto idolatrava outra publicamente, Clara mostraria a ele que o controle que ele tanto prezava era uma ilusão frágil. Ela não precisava de poderes cinéticos ou de um toque letal para feri-lo; ela só precisava usar as ferramentas que ele mesmo havia negligenciado.

Ao dobrar a esquina que levava ao refeitório dos soldados de elite, ela o viu. O sargento Marcus Thorne estava encostado na parede, conversando com dois subordinados. Marcus era o oposto de Warner em quase tudo: ele era robusto, com ombros largos e uma risada que costumava preencher o ambiente, embora tivesse se tornado mais contida nos últimos tempos. Mas havia uma coisa que Marcus tinha em comum com o Comandante Supremo: ele era letal. E havia outra coisa que era apenas dele: a forma como seus olhos escuros seguiam Clara sempre que ela entrava em uma sala.

Marcus nunca escondeu o interesse. Ele era respeitoso, quase reverente, mas havia um desejo latente em seu olhar que Clara sempre fingira não notar por lealdade a Aaron. Hoje, porém, ela não desviaria o olhar.

— Sargento Thorne — disse ela, parando a poucos metros dele. Sua voz saiu mais clara e melodiosa do que o normal.

Marcus se empertigou imediatamente, dispensando os outros soldados com um aceno rápido. Um brilho de surpresa e algo parecido com esperança cruzou seu rosto.

— Senhorita Clara. É raro vê-la por aqui a esta hora. Pensei que estivesse ocupada com os relatórios do Comandante.

Clara deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dele. Ela sentiu o cheiro de Marcus — pólvora, suor limpo e algo cítrico. Era um cheiro real, humano, tão diferente do sândalo aristocrático e frio de Warner.

— O Comandante está... ocupado — disse ela, deixando um sorriso pequeno e enigmático brincar em seus lábios. — E eu decidi que precisava de um pouco de ar fresco. Ou, pelo menos, de uma companhia que não fale apenas sobre táticas de guerra e milagres genéticos.

Marcus inclinou a cabeça, os olhos percorrendo o rosto redondo de Clara com uma intensidade que a fez estremecer, mas ela sustentou o olhar.

— Eu sou um soldado, Clara. Táticas de guerra são metade do meu vocabulário. Mas, por você, eu posso aprender um novo idioma.

— É bom saber disso — respondeu ela. Ela estendeu a mão e, com uma audácia que a surpreendeu, ajeitou a gola do uniforme dele. Seus dedos roçaram a pele do pescoço de Marcus, e ela sentiu o pulso dele acelerar sob seu toque. — Você parece tenso, Marcus. O treinamento tem sido tão rigoroso assim?

— O treinamento é o de sempre — disse ele, a voz baixando uma oitava. Ele não se afastou; pelo contrário, inclinou-se ligeiramente para mais perto dela. — O que me deixa tenso é outra coisa. Algo que eu não posso ter, mas que não consigo parar de olhar.

Clara sentiu uma pontada de culpa, mas a imagem de Warner olhando para Juliette através do vidro de segurança a sufocou. Ela não ia dormir com Marcus. Ela nunca cogitou isso; seu coração, por mais ferido que estivesse, ainda pertencia ao homem de olhos verdes. Mas ela ia usar o desejo de Marcus como um espelho para a negligência de Aaron. Ela ia ser vista. Ela ia ser desejada onde Aaron pudesse testemunhar.

— Talvez — sussurrou ela — você devesse parar de olhar de longe e tentar se aproximar.

Nesse exato momento, o som rítmico e autoritário de botas militares ecoou pelo corredor lateral. Clara sabia quem era antes mesmo de vê-lo. O ar parecia ficar mais rarefeito, carregado de eletricidade estática.

Warner apareceu na entrada do corredor, acompanhado por dois guardas. Ele estava falando algo sobre a distribuição de rações, mas sua voz morreu no instante em que seus olhos pousaram na cena à sua frente: Clara, sua Clara, a mulher que ele considerava sua propriedade silenciosa, estava a centímetros de um de seus sargentos mais competentes, com a mão ainda repousada sobre o peito dele.

O rosto de Warner se transformou em uma máscara de fúria contida, tão gélida que poderia congelar o sangue nas veias de qualquer um.

— Sargento Thorne — a voz de Warner chicoteou pelo corredor. — Eu não sabia que o refeitório havia se tornado uma sala de lazer durante o turno de serviço.

Marcus se afastou de Clara e prestou continência, mas havia um desafio novo em sua postura. Ele não baixou a cabeça.

— Senhor. Eu estava apenas auxiliando a senhorita Clara com uma dúvida sobre a logística do setor de munições.

Warner caminhou em direção a eles, cada passo exalando uma promessa de violência. Ele parou ao lado de Clara, mas não a tocou. O ciúme emanava dele como calor de uma fornalha, apesar de sua expressão permanecer impecável.

— A senhorita Clara é perfeitamente capaz de gerenciar a logística sozinha, sargento. Ela não precisa da sua... assistência. Volte para o seu posto. Agora.

Marcus olhou para Clara uma última vez, um olhar que dizia tudo o que ele não podia expressar em palavras, e então assentiu.

— Sim, senhor. Com licença, senhorita Clara.

Quando Marcus se afastou, o silêncio que restou entre Clara e Aaron era cortante. Warner se virou para ela, os olhos verdes brilhando com uma luz perigosa.

— O que foi aquilo? — perguntou ele, a voz tão baixa que era quase um rosnado.

— Aquilo o quê, Aaron? — Clara perguntou, mantendo a voz calma, quase entediada. Ela começou a caminhar em direção ao seu escritório, sabendo que ele a seguiria.

Ele a seguiu, de fato. Assim que entraram na sala dela, ele bateu a porta e a trancou.

— Não brinque comigo, Clara. Você sabe muito bem. O que você estava fazendo com Thorne? Por que ele estava tocando em você? Por que você estava olhando para ele daquele jeito?

Clara se virou, cruzando os braços sobre o peito. Ela sentiu uma satisfação sombria ao ver a perturbação dele.

— Ele não estava me tocando, eu o estava tocando. E Marcus é um homem interessante, Aaron. Ele me vê. Ele fala comigo como se eu fosse uma pessoa, não um relatório ou uma sombra conveniente.

— Ele é um subordinado! — exclamou Warner, dando um passo agressivo em direção a ela. — Ele não tem o direito de olhar para você, muito menos de...

— De quê? De me dar a atenção que você reserva apenas para a sua "arma milagrosa"? — Clara o interrompeu, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Você passa o dia inteiro com os olhos colados em Juliette. Você respira o ar que ela expira. Você a trata como se ela fosse a única mulher viva na face da Terra. E depois você espera que eu fique sentada no meu quarto, esperando pacientemente que você decida que precisa de um pouco de "maciez" para compensar as arestas dela?

Warner parou, a respiração pesada. Ele parecia genuinamente atordoado com o ataque.

— Isso é diferente, Clara. Eu já te expliquei. Juliette é uma necessidade estratégica.

— E Marcus é uma necessidade humana — mentiu ela, sentindo o gosto amargo da palavra, mas sabendo que era o golpe necessário. — Ele me faz sentir viva, Aaron. Ele não me olha como se eu fosse um segredo vergonhoso que ele precisa esconder nos fundos do Setor 45.

Warner avançou e segurou os braços dela, não com força suficiente para machucar, mas com uma possessividade desesperada.

— Você é minha — disse ele, os dentes cerrados. — Você não vai se aproximar dele de novo. Eu posso mandá-lo para as frentes de batalha no Setor 4 em cinco minutos. Eu posso garantir que você nunca mais veja o rosto dele.

— Você pode fazer isso — disse Clara, sustentando o olhar dele com uma frieza que ela aprendeu observando-o. — Você pode matar todos os soldados desta base, Aaron. Mas você não pode me forçar a olhar para você da mesma forma que antes. Se você quer que eu seja sua, você tem que agir como se eu fosse. Caso contrário, eu continuarei encontrando meu valor nos olhos de quem realmente me aprecia.

— Você está me desafiando? — perguntou ele, a voz falhando por um milésimo de segundo.

— Estou te dando o que você me dá — respondeu ela. — Indiferença por indiferença. Obsessão por obsessão. Você quer a Juliette? Vá buscá-la. Mas não espere que eu esteja aqui para limpar as suas feridas quando ela te rejeitar. Marcus se ofereceu para me levar ao observatório hoje à noite. Ele diz que a vista das estrelas é melhor lá de cima.

O aperto de Warner em seus braços se intensificou. A ideia de Clara em um lugar isolado, sob as estrelas, com outro homem, parecia estar rasgando sua sanidade.

— Você não vai — ordenou ele.

— Eu vou — disse ela. — A menos que você tenha algo melhor para me oferecer do que ordens e silêncio.

Warner soltou-a bruscamente, virando-se de costas. Ele caminhou até a parede e deu um soco no metal, o som ecoando como um tiro no pequeno escritório. Ele estava ofegante, a máscara de perfeição completamente despedaçada.

— Eu não consigo... — começou ele, a voz embargada. — Eu não consigo lidar com tudo isso ao mesmo tempo, Clara. O mundo está desmoronando, meu pai está vindo para cá, Juliette é a única chance que temos de...

— Eu não me importo com o mundo agora, Aaron — disse ela, aproximando-se dele, mas sem tocá-lo. — Eu me importo com a forma como você me trata. Você diz que eu sou seu refúgio, mas ninguém quer viver em um refúgio que está sempre trancado e às escuras.

Warner se virou lentamente. Havia lágrimas não derramadas em seus olhos verdes, uma vulnerabilidade que ele só mostrava a ela, e que ele estava começando a perceber que poderia perder.

— Fique comigo esta noite — pediu ele, a voz quase um sussurro. Não era uma ordem. Era um súplica.

— Por quê? — perguntou ela. — Porque você me ama ou porque você não suporta a ideia de outro homem tocando o que você acha que te pertence?

Warner deu um passo à frente e, desta vez, ele a abraçou. Ele escondeu o rosto no pescoço dela, inspirando seu perfume como se fosse oxigênio em um mundo sem ar.

— Porque eu não sei quem eu sou sem você — confessou ele contra a pele dela. — Juliette é o que eu preciso ser. Você é quem eu sou. Por favor, Clara. Não vá ao observatório. Não olhe para ele.

Clara fechou os olhos, sentindo o calor do corpo dele. Ela havia vencido aquela batalha, mas a guerra em seu coração estava longe de terminar. Ela sabia que ele ainda voltaria para Juliette no dia seguinte. Ela sabia que a obsessão dele pela garota do toque letal não desapareceria apenas com um acesso de ciúmes.

Mas, por enquanto, ela sentia o coração de Aaron Warner batendo descompassado contra o seu. Ela sentia o medo dele — o medo real de perdê-la.

— Eu não vou — disse ela, finalmente retribuindo o abraço. — Mas não se esqueça, Aaron. Marcus Thorne continuará no Setor 45. E ele continuará olhando para mim. A pergunta é: você vai me dar motivos para olhar de volta para você?

Warner se afastou o suficiente para olhar nos olhos dela. Ele pegou a mão de Clara e beijou a palma, um gesto de submissão que ele nunca faria diante de ninguém.

— Eu vou construir um mundo onde você não precisará olhar para mais ninguém — prometeu ele.

Clara sorriu, mas era um sorriso triste. Ela sabia que as promessas de Aaron eram como vidro: belas, mas propensas a quebrar sob pressão. No entanto, enquanto ele a puxava para um beijo que tinha gosto de desespero e posse, ela percebeu que havia mudado as regras do jogo.

Ela não seria mais a garota gordinha e invisível que aceitava as migalhas de afeto de um homem poderoso. Ela era a mulher que podia fazer o Comandante Supremo do Setor 45 se ajoelhar por um pouco de sua atenção. E se Marcus Thorne era a ferramenta que ela precisava usar para manter Aaron na linha, ela o faria.

Afinal, no Restabelecimento, a única forma de sobreviver era garantindo que você fosse indispensável. E Clara acabara de provar que sua ausência era a única coisa que Aaron Warner não podia suportar.

Naquela noite, o observatório permaneceu vazio, mas nos corredores do Setor 45, o boato se espalhou: a assistente administrativa do Comandante não era apenas uma funcionária. Ela era o ponto fraco de uma armadura que todos pensavam ser impenetrável. E Clara, deitada nos braços de um Aaron inquieto, observava o teto cinza, sabendo que a sombra agora tinha dentes. E ela não tinha medo de usá-los.