Imortal love
O Sangue nas Mãos de um Deus Caído
O Setor 45 nunca pareceu tão frio quanto na manhã em que o silêncio foi substituído pelo som de metal rasgando metal.
Clara acordou com o estômago revirado, uma náusea que já se tornara sua companheira constante nas últimas duas semanas. Ela ainda não havia contado a Aaron. Como poderia? Ele estava cada vez mais imerso nos mapas de guerra, nas crises de instabilidade de Juliette e nas exigências brutais de seu pai, Anderson. Aaron Warner era um homem fragmentado, e Clara temia que a notícia de uma gravidez fosse o peso final que o faria desmoronar — ou, pior, que ele visse a criança apenas como mais uma peça estratégica em seu tabuleiro de xadrez.
Ela se sentou na beira da cama, pressionando a mão contra o ventre ainda liso. Ali, naquela pequena curva que ninguém mais notava sob seus uniformes largos, pulsava o segredo mais perigoso do Setor 45.
— Você precisa comer — sussurrou para si mesma, tentando ignorar a tontura.
Ela esperava que Aaron passasse pelo seu dormitório antes do turno, como ele prometera na noite anterior. Mas a promessa, como tantas outras ultimamente, fora quebrada por um chamado de emergência na ala de treinamento de Juliette. Aaron não estava lá para segurar sua mão quando ela se sentiu fraca. Ele não estava lá para notar que o brilho em seus olhos estava dando lugar a uma palidez doentia.
Clara caminhava em direção ao setor administrativo, carregando uma pasta com as últimas requisições de suprimentos médicos. O corredor estava estranhamente vazio. Onde estavam os guardas? Onde estava Marcus Thorne, que geralmente encontrava uma desculpa para cruzar seu caminho e lhe oferecer um sorriso de apoio?
De repente, as luzes piscaram. O sistema de ventilação soltou um suspiro moribundo e parou. O silêncio que se seguiu foi absoluto por apenas três segundos, antes de ser estilhaçado por uma explosão que fez o chão de concreto vibrar sob os pés de Clara.
As sirenes de emergência começaram a uivar, um som estridente que parecia perfurar seus tímpanos.
— Intrusão no Setor Norte! — a voz distorcida pelo sistema de som gritava. — Todos os soldados para os postos de combate! Protocolo de contenção nível 5!
Clara sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela tentou recuar, voltar para a segurança do seu quarto, mas uma nova explosão, muito mais próxima, derrubou parte do teto à sua frente. Poeira e fumaça inundaram o corredor.
— Aaron! — ela gritou, embora soubesse que ele estava a quilômetros de distância dali, na ala de segurança máxima com Juliette.
Ela virou-se para correr na direção oposta, mas parou bruscamente. Um grupo de homens vestidos com uniformes de resistência, cobertos de cinzas e sangue, surgiu da fumaça. Eles não eram soldados do Restabelecimento; eram insurgentes, e seus olhos brilhavam com o fervor de quem não tinha nada a perder.
— Olhem só o que temos aqui — disse um deles, um homem alto com uma cicatriz que atravessava o lábio. — Uma das burocratas do Warner.
— Ela parece importante — comentou outro, erguendo um fuzil. — Talvez sirva de moeda de troca.
— Eu não sou ninguém — Clara disse, a voz trêmula, recuando até que suas costas batessem na parede fria. — Sou apenas uma funcionária da logística. Deixem-me passar.
O homem com a cicatriz soltou uma risada seca e avançou. Antes que Clara pudesse reagir, ele a agarrou pelo braço, puxando-a com uma força que a fez soltar um gemido de dor.
— Warner não tem "apenas funcionários" com esse tipo de tratamento — disse o homem, reparando no tecido fino do uniforme dela, um presente de Aaron. — Você vem com a gente.
— Não! — Clara lutou, chutando e arranhando, o desespero de proteger o que carregava dentro de si dando-lhe uma força inesperada.
Ela conseguiu se soltar por um segundo, empurrando o homem, mas o ódio nos olhos dele se transformou em algo letal. Ele não queria mais uma refém. Ele queria deixar uma marca no homem que comandava aquele lugar.
— Se não serve como refém, serve como mensagem — rosnou ele.
Tudo aconteceu em câmera lenta. Clara viu o brilho da lâmina antes de sentir a dor. O homem desferiu um golpe rápido e cruel com uma faca de combate. Ela tentou se virar, tentando proteger o ventre, mas a lâmina encontrou seu alvo na lateral de seu abdômen, rasgando o tecido e a pele com uma facilidade aterrorizante.
Clara soltou um grito que foi sufocado pelo barulho de tiros vindos do fim do corredor. Marcus Thorne e um esquadrão de soldados apareceram, abrindo fogo contra os invasores.
O homem que a esfaqueou caiu morto antes de conseguir retirar a faca completamente, mas o estrago estava feito. Clara desabou no chão, as mãos voando instintivamente para o ferimento. O calor do sangue empapando seus dedos era a coisa mais assustadora que ela já sentira.
— Clara! — a voz de Marcus soou distante, como se ele estivesse debaixo d'água.
Ele correu até ela, ajoelhando-se no sangue e na poeira, ignorando o tiroteio que ainda ocorria ao redor.
— Aguente firme, Clara! Olhe para mim! — Marcus pressionou as mãos sobre o ferimento dela, o rosto dele transfigurado pelo horror. — Alguém chame um médico! Agora!
— Meu... meu bebê... — Clara sussurrou, a voz falhando enquanto a escuridão começava a morder as bordas de sua visão. — Marcus... o bebê...
Os olhos de Marcus se arregalaram. Ele não sabia. Ninguém sabia. Mas ele entendeu imediatamente o peso daquela tragédia.
— Eu vou tirar você daqui. Eu prometo.
Enquanto isso, no centro de comando, Aaron Warner estava paralisado diante dos monitores. Ele vira o momento da explosão no setor administrativo. Ele vira a fumaça. Mas ele fora impedido de sair por seu pai, que exigia que ele ficasse para proteger "o ativo" — Juliette.
— Aaron, concentre-se — a voz de Anderson era como um chicote. — O setor administrativo é descartável. A garota não é.
Warner sentiu um aperto no peito que nada tinha a ver com a guerra. Era um pressentimento, uma corda invisível sendo puxada até o ponto de ruptura. Ele olhou para Juliette, que estava encolhida em um canto, assustada, e então para a porta.
— Ela não é descartável — sussurrou Aaron.
— O que disse? — Anderson perguntou, estreitando os olhos.
— Ela não é descartável! — Warner gritou, sacando sua arma e apontando-a para os próprios guardas que bloqueavam a saída. — Saiam da minha frente. Agora!
Ele correu. Correu como se sua vida dependesse disso, ignorando os gritos de seu pai e o caos que tomava conta da base. Cada segundo parecia uma eternidade. Ele deveria estar com ela. Ele prometera que ela estaria segura. Ele a deixara sozinha para brincar de carcereiro e mentor de uma garota que nem sequer o amava de volta.
Quando ele finalmente chegou ao corredor administrativo, o cenário era de um massacre. O cheiro de pólvora e ferro era sufocante.
— Clara! — ele chamou, a voz embargada pelo pânico que raramente se permitia sentir.
Ele a viu ao longe. Marcus Thorne a carregava nos braços, correndo em direção à ala médica. O uniforme de Marcus estava coberto de um vermelho que Aaron reconheceria em qualquer lugar. O sangue dela.
— Traga-a aqui! — Warner rugiu, interceptando-os no meio do caminho.
Marcus parou, ofegante. O olhar que ele lançou a Warner não era de respeito, mas de puro desprezo.
— Você não estava lá — disse Marcus, a voz rouca de fúria. — Ela gritou por você, e você não estava lá.
Warner não respondeu. Ele pegou Clara dos braços de Marcus, sentindo o peso dela, a fragilidade de seu corpo que ele sempre jurou proteger. O rosto de Clara estava branco como mármore, os olhos fechados, a respiração curta e superficial.
— Clara, querida, por favor... — Aaron sussurrou, correndo com ela em direção à sala de cirurgia de emergência. — Fique comigo. Eu estou aqui agora. Eu estou aqui.
Ele a colocou sobre a mesa de metal frio, as mãos trêmulas enquanto tentava estancar o sangue. Os médicos da base chegaram logo em seguida, tentando afastá-lo para que pudessem trabalhar.
— Saiam! — Warner gritou para os médicos. — Salvem-na! Se ela morrer, eu juro que este lugar será o túmulo de todos vocês!
— Senhor, precisamos que se afaste — disse o médico-chefe, um homem que já vira Warner cometer atrocidades, mas que nunca o vira tão quebrado. — Ela perdeu muito sangue. O ferimento é profundo, atingiu a cavidade abdominal.
Aaron recuou apenas o suficiente para não atrapalhar, mas seus olhos nunca deixaram o rosto dela. Ele viu quando os médicos rasgaram o uniforme dela e começaram os procedimentos. Ele viu o horror no rosto da enfermeira ao realizar o ultrassom de emergência para verificar hemorragias internas.
— Tem um batimento — a enfermeira sussurrou, surpresa. — Ela está grávida.
O mundo de Aaron Warner parou.
As palavras ecoaram nas paredes de metal como uma sentença de morte. Grávida. Um filho. O filho deles. O futuro que ele nunca se permitiu imaginar estava sendo esfaqueado e sangrado diante de seus olhos por causa de sua própria negligência.
— O batimento está fraco — disse o médico, a voz urgente. — Estamos perdendo os dois. Precisamos entrar agora!
Aaron sentiu os joelhos cederem. Ele se encostou na parede, escorregando até o chão, as mãos cobertas pelo sangue de Clara e de seu filho não nascido. Ele olhou para as próprias palmas, o vermelho brilhando sob as luzes fluorescentes.
Toda a sua arrogância, todo o seu controle, toda a sua obsessão por poder e por Juliette... nada disso importava. Ele trocaria tudo, cada centímetro do Setor 45, cada grama de seu poder, por um segundo de volta no tempo. Se ele estivesse com ela... se ele não a tivesse deixado sozinha para ir atrás de uma miragem de controle...
— Por favor — ele sussurrou para um Deus em quem não acreditava. — Leve a mim. Mas deixe-os.
As horas que se seguiram foram um borrão de dor e desespero. Warner permaneceu no corredor, recusando-se a sair, recusando-se a falar com seu pai ou com qualquer oficial. Marcus Thorne estava sentado a alguns metros de distância, a cabeça entre as mãos, um lembrete vivo do fracasso de Aaron.
— Ela te amava mais do que a própria vida — disse Marcus, sem olhar para ele. — E você a tratou como um segredo conveniente. Se ela sobreviver, Warner... se ela sobreviver, eu espero que ela nunca mais olhe para o seu rosto.
Warner não teve forças para revidar. Ele sabia que Marcus tinha razão.
Finalmente, a porta da sala de cirurgia se abriu. O médico saiu, retirando a máscara, o rosto exausto e manchado de suor. Aaron se levantou num salto, o coração na garganta.
— Como ela está? — a voz de Aaron saiu apenas como um sopro.
O médico hesitou por um momento eterno, olhando para as mãos ensanguentadas de Warner.
— Ela é forte, senhor. Mais forte do que tínhamos direito de esperar. Conseguimos estancar a hemorragia e fechar o ferimento.
— E o... o bebê? — Aaron mal conseguia pronunciar a palavra.
— O batimento estabilizou, por enquanto. É um milagre que a lâmina não tenha atingido o útero por milímetros. Mas ela está em estado crítico. O trauma foi imenso. As próximas quarenta e oito horas dirão se eles realmente sobreviverão.
Aaron sentiu um alívio tão violento que quase o fez vomitar. Ele passou pelo médico sem dizer uma palavra e entrou na sala.
Clara parecia tão pequena naquela cama de hospital, cercada por tubos e monitores. O barulho rítmico do monitor cardíaco era a única música que Aaron queria ouvir pelo resto da vida. Ele caminhou até ela, caindo de joelhos ao lado da cama.
Ele pegou a mão dela, que estava fria e pálida, e a pressionou contra o rosto.
— Me perdoe — ele soluçou, as lágrimas finalmente caindo, lavando o sangue em suas bochechas. — Me perdoe, Clara. Eu fui um tolo. Eu fui um monstro. Eu deixei o brilho de algo falso me cegar para o único sol que realmente importava.
Ele olhou para o ventre dela, coberto por bandagens brancas. Ali, contra todas as probabilidades, uma vida ainda lutava para existir. Um filho dele. Um filho da mulher que ele quase destruiu com sua indiferença.
— Eu nunca mais vou te deixar — ele prometeu, a voz firme apesar do choro. — Eu vou queimar este mundo inteiro até as cinzas antes de permitir que alguém encoste em você de novo. Eu vou ser o homem que você merece, ou morrerei tentando.
Clara não respondeu. Ela permanecia no abismo do coma induzido, lutando sua própria batalha interna. Mas, por um breve momento, Aaron sentiu uma pressão quase imperceptível em seus dedos. Um sinal. Um fio de esperança.
Lá fora, a guerra continuava. O Restabelecimento estava sob ataque, seu pai estava furioso e Juliette estava perdida. Mas naquela sala estéril, Aaron Warner finalmente entendera a verdade. Ele não era um deus, nem um monstro invencível. Ele era apenas um homem que quase perdera tudo o que realmente possuía.
E enquanto ele vigiava o sono de Clara, ele sabia que o Aaron Warner que o mundo conhecia havia morrido naquele corredor. O que restava era algo novo, algo forjado na dor e no arrependimento. E ele não pararia até que Clara acordasse para ver que, desta vez, ele estava lá. E ele nunca mais iria embora.