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Imortal love

O Peso da Luz e a Doçura da Sombra

O Setor 45 havia mudado drasticamente nos últimos meses. O ar de opressão absoluta que antes sufocava os corredores agora parecia intercalado por uma estranha sensação de expectativa. A guerra contra o Restabelecimento estava em um ponto de inflexão, e Aaron Warner, outrora o vilão temido por todos, era agora uma peça central na rebelião liderada por Juliette Ferrars. Mas, para Clara, o mundo não girava em torno de táticas militares ou da queda de tiranos. Seu mundo, agora com três meses de vida, pesava quase sete quilos e tinha o cheiro mais doce que ela já sentira: lavanda e leite.

Clara caminhava lentamente pela ala residencial reservada aos oficiais de alto escalão. Em seus braços, envolto em uma manta de algodão azul-claro, estava Leo. O bebê era uma cópia quase perfeita de Aaron, exceto pelas bochechas. Leo herdara as curvas de Clara; ele era um bebê robusto, uma verdadeira bolinha de doçura com pernas dobradas e punhos gordinhos que viviam agarrando o que estivesse ao alcance.

Ela parou diante de uma das portas de metal reforçado. Ali, no final do corredor, ficavam os aposentos de Juliette. Clara sabia que precisava daquela conversa. Desde que Leo nascera, o papel de Warner na vida de Juliette se tornara um tópico de sussurros constantes na base. Warner passava todas as noites com Clara e o bebê, mas passava os dias treinando Juliette, sendo o mentor dela, o pilar que a sustentava em sua jornada para se tornar a salvadora do mundo.

Clara respirou fundo, ajeitando Leo no colo. O bebê soltou um pequeno resmungo preguiçoso, afundando o rosto contra o peito da mãe. Ela bateu na porta.

— Entre — a voz de Juliette soou do outro lado, suave, mas carregada de uma fadiga que Clara reconhecia bem.

Ao entrar, Clara encontrou Juliette sentada perto da janela, observando o horizonte cinzento. A garota de pele pálida e olhos grandes se virou, e sua expressão mudou instantaneamente de melancolia para surpresa quando viu Clara. E, principalmente, quando viu o que ela carregava.

— Clara — disse Juliette, levantando-se devagar. — Eu... eu não esperava você aqui.

— Sinto muito por vir sem avisar — Clara respondeu, mantendo a voz baixa para não despertar Leo. — Mas achei que estava na hora de conversarmos. Fora dos relatórios de logística e dos treinamentos de campo.

Juliette aproximou-se, os olhos fixos no pequeno embrulho nos braços de Clara. Ela parecia fascinada, como se estivesse vendo uma criatura mística.

— Ele é... ele é lindo — sussurrou Juliette. — Posso?

Clara assentiu, aproximando-se para que a outra garota pudesse ver o rosto do bebê. Leo escolheu aquele momento para abrir os olhos. Eram verdes, de um tom tão idêntico aos de Aaron que Juliette soltou um suspiro audível, como se tivesse levado um golpe no peito.

— Ele tem os olhos dele — disse Juliette, e havia uma nota de tristeza profunda em sua voz que Clara captou imediatamente.

— Sim — disse Clara, observando Juliette com atenção. — E a fome dele também. Ele é um pequeno glutão. Veja essas pernas.

Clara puxou levemente a manta, revelando as coxas rechonchudas de Leo. Juliette soltou uma risada curta e genuína, estendendo um dedo trêmulo para tocar, com extrema cautela, a mãozinha gordinha do bebê. Leo agarrou o dedo dela com uma força surpreendente, e Juliette ficou estática, o fôlego preso na garganta.

— Ele não tem medo — comentou Juliette, os olhos brilhando com lágrimas que ela se recusava a deixar cair. — Ele me toca como se eu fosse... normal.

— Para ele, você é apenas mais uma pessoa no mundo que ele vai crescer para conhecer — Clara disse suavemente. — Ele não sabe nada sobre toques letais ou guerras. Ele só sabe que sua mão é quente.

As duas ficaram em silêncio por um momento, unidas pela presença daquela vida tão nova e frágil em meio a tanto caos. Mas Clara não tinha vindo apenas para mostrar o filho. Ela sentia a eletricidade no ar, a forma como Juliette falava de Aaron nos últimos tempos, a forma como o nome dele saía de seus lábios como uma prece desesperada.

— Você o ama, não é? — perguntou Clara, direta mas sem malícia.

Juliette congelou. Ela não retirou o dedo do aperto de Leo, mas seu rosto empalideceu ainda mais. Ela olhou para Clara, e a vulnerabilidade em seu olhar confirmou tudo o que Clara suspeitava.

— Eu... eu não queria — confessou Juliette em um sussurro quebrado. — Eu juro, Clara. Eu tentei lutar contra isso. Ele foi meu torturador, meu carcereiro... e depois ele se tornou o único que me entendia. O único que não tinha medo de mim.

— Eu sei — Clara disse, sentindo uma pontada de compadecimento. — Aaron tem esse efeito. Ele é intenso. Ele faz você sentir que é a única pessoa que importa no universo quando ele olha para você.

— Mas ele não olha para mim assim — Juliette disse, e uma lágrima finalmente escorreu. — Ele me olha como se eu fosse uma arma que ele precisa polir. Ele me olha com respeito, com uma lealdade que eu nunca vi em ninguém. Mas quando ele fala de você... quando ele menciona que precisa voltar para os aposentos porque o "pequeno" está esperando... o rosto dele muda. Ele se torna humano.

Clara sentiu um aperto no coração. Ela sempre soube da conexão entre Aaron e Juliette, uma ligação forjada em trauma e poder. Mas ver a dor de Juliette a fez perceber que, de certa forma, as duas estavam presas em lados opostos de uma mesma moeda.

— Eu tive medo de você por muito tempo, Juliette — admitiu Clara. — Eu olhava para você através daqueles vidros no centro de treinamento e via uma deusa. Alguém que podia dar ao Aaron tudo o que eu não podia. Poder, propósito, uma mudança no destino do mundo. Eu me sentia pequena ao seu lado.

— E eu me sinto um monstro ao seu — rebateu Juliette, olhando para a forma como Clara segurava Leo. — Você deu a ele o que eu nunca poderei dar. Uma família. Uma vida normal. Você o salvou da escuridão de um jeito que eu nunca conseguiria, porque eu mesma estou mergulhada nela.

Clara balançou Leo levemente quando ele começou a se mexer, inquieto.

— Aaron não é um homem fácil — disse Clara. — Ele ainda comete erros. Ele ainda é possessivo e, às vezes, frio demais. Mas ele escolheu estar aqui. Ele escolheu lutar por esse bebê e por mim.

— Ele me disse uma vez — Juliette continuou, sua voz distante — que eu era o sol, e que o sol queimava. Ele me disse que precisava da sombra para sobreviver. Eu nunca entendi o que ele queria dizer até ver você com o bebê hoje. Você não é a sombra dele, Clara. Você é o solo. Você é onde ele planta as raízes para não ser levado pela tempestade que eu sou.

Clara sentiu uma lágrima solitária escorrer por seu rosto. Ela se aproximou mais de Juliette, colocando uma mão gentil no ombro da garota.

— Ele se importa com você, Juliette. De um jeito que ele não consegue explicar. Mas o amor que ele sente por você é o amor de alguém que encontrou um espelho. O que ele sente por nós... — ela olhou para Leo — ...é o amor de alguém que encontrou uma casa.

Juliette soltou o dedo da mão de Leo e recuou um passo, limpando o rosto. Ela pareceu recuperar um pouco de sua força, embora a tristeza ainda estivesse presente em seus olhos.

— Obrigada por vir aqui — disse Juliette. — Eu precisava ver isso. Precisava entender que o que ele sente por mim não é o que ele sente por você. E que está tudo bem.

— Você vai ficar bem? — perguntou Clara.

— Eu tenho uma guerra para vencer, não tenho? — Juliette deu um sorriso triste. — Aaron vai me ajudar a vencê-la. E depois... depois eu espero que ele possa voltar para casa. Para você e para esse gordinho lindo.

Nesse momento, a porta se abriu com uma energia que só pertencia a uma pessoa. Aaron Warner entrou no quarto, ainda usando seu uniforme negro de combate, o rosto levemente sujo de fuligem de um treinamento recente. Ele parou abruptamente ao ver a cena: Clara, o bebê e Juliette, todas juntas em um espaço tão pequeno.

Seu olhar voou imediatamente para Clara e Leo. O gelo em seus olhos verdes derreteu instantaneamente, substituído por uma preocupação quase cômica.

— Clara? O que aconteceu? Algo errado com o Leo? — Ele atravessou o quarto em três passos largos, ignorando totalmente a presença de Juliette por um momento.

— Ele está bem, Aaron — Clara sorriu, estendendo o bebê para ele. — Só viemos fazer uma visita.

Warner pegou o filho nos braços com uma habilidade que ele praticara exaustivamente nos últimos meses. Ele segurou o bebê contra o ombro, uma das mãos grandes cobrindo quase todas as costas de Leo. O contraste entre o guerreiro letal e o bebê rechonchudo era quase surreal. Leo, reconhecendo o cheiro do pai, soltou um som de satisfação e agarrou um dos fios loiros do cabelo de Warner.

— Ai — resmungou Warner, mas não fez menção de se soltar. Ele olhou para o filho com uma adoração tão pura que Juliette desviou o olhar, incapaz de suportar a visão.

Warner então olhou para Juliette, sua postura voltando a ser profissional, mas mantendo o bebê firme contra o peito.

— Terminamos por hoje, Juliette. Você precisa descansar. O ataque ao Setor 30 é amanhã.

— Eu sei, Warner — disse Juliette, sua voz agora firme. — Vá. Leve sua família para jantar. Eu estarei pronta amanhã.

Warner assentiu, uma breve expressão de reconhecimento cruzando seu rosto. Ele colocou o braço livre ao redor da cintura de Clara, puxando-a para perto.

— Vamos? — perguntou ele, a voz suave. — Ele parece estar ficando com fome novamente.

— Ele está sempre com fome — Clara riu, encostando a cabeça no ombro dele.

Enquanto caminhavam pelo corredor, Clara olhou para trás uma última vez. Juliette ainda estava na janela, uma silhueta solitária contra o cinza. Clara sentiu uma pontada de tristeza, mas também uma clareza renovada. Ela não precisava mais competir com o "sol". Ela tinha o que era real.

— O que vocês estavam conversando? — perguntou Aaron, enquanto entravam no elevador.

— Coisas de mulheres — respondeu Clara, observando Leo tentar morder a gola do uniforme do pai. — E sobre como o seu filho é a cara do pai, mas tem o bom senso da mãe.

Warner soltou uma risada rara, beijando o topo da cabeça de Clara.

— Se ele tiver metade da sua força, Clara, ele será o homem mais poderoso deste mundo.

— Ele já é — Clara disse, apertando a mão de Aaron. — Ele fez o grande e terrível Aaron Warner aprender a trocar fraldas e a cantar canções de ninar. Isso é mais poder do que Juliette jamais terá.

Warner sorriu, um sorriso que não era para as câmeras ou para os soldados, mas apenas para ela.

— Você tem razão — admitiu ele. — Como sempre.

Eles chegaram aos seus aposentos, um lugar que agora tinha brinquedos espalhados pelo chão e o som constante de uma vida que florescia apesar de tudo. Warner colocou Leo no berço por um momento, apenas para poder abraçar Clara adequadamente.

— Eu te amo — ele sussurrou contra o cabelo dela. — Obrigado por não desistir de mim quando eu estava perdido na luz dela.

— Eu nunca desistiria — Clara respondeu, segurando-o com força. — Alguém tinha que garantir que você tivesse um lugar para onde voltar quando a luz se apagasse.

Lá fora, o mundo continuava em guerra. Mas ali, naquele quarto pequeno e cheio de calor, Aaron Warner não era um Comandante, nem um herdeiro, nem um soldado. Ele era apenas um pai e um homem apaixonado. E Clara, com suas curvas e seu coração imenso, era a rainha de um império que nenhuma arma do Restabelecimento poderia jamais destruir.

Leo soltou um grito alegre do berço, chutando o ar com suas pernas gordinhas. Aaron e Clara se entreolharam e riram, mergulhando na rotina doce e caótica da vida que haviam construído juntos. A sombra, afinal, não era um lugar de escuridão; era o único lugar onde o amor podia realmente crescer sem ser queimado.