Imortal love
O Labirinto de Vidro e a Fragilidade do Vidro
O silêncio da ala médica era interrompido apenas pelo bipe rítmico e insistente dos monitores, um som que Aaron Warner aprendera a detestar e a agradecer simultaneamente. Cada batida era uma prova de que Clara ainda estava ali, de que o coração dela ainda lutava contra a escuridão que tentara tragá-la. Ele não saíra do lado dela por um único segundo. Suas roupas impecáveis agora estavam amassadas, seu cabelo loiro, sempre perfeitamente alinhado, caía sobre a testa, e seus olhos verdes estavam injetados de sangue pela falta de sono.
Ele segurava a mão dela com uma delicadeza que ninguém no Setor 45 acreditaria que ele possuía. Para o mundo, ele era o Comandante Supremo, o homem de gelo, o herdeiro do Restabelecimento. Para Clara, ele era apenas um homem quebrado, implorando por uma redenção que sentia não merecer.
No terceiro dia, os dedos dela finalmente se moveram contra os dele.
— Clara? — O sussurro dele foi rouco, carregado de uma esperança quase dolorosa.
As pálpebras dela tremeram. Clara lutou contra o peso do sedativo, sentindo a mente emergir de um nevoeiro denso e frio. A primeira coisa que sentiu foi a dor — uma pontada aguda e persistente em seu abdômen. A segunda coisa foi o calor da mão de Aaron.
Quando ela finalmente abriu os olhos, a luz fluorescente a cegou por um instante. Ela piscou, focando no rosto dele. Ele parecia mais velho, mais cansado do que ela jamais vira.
— Aaron... — A voz dela era apenas um sopro, seca e áspera.
Ele se inclinou, levando a mão dela aos lábios, beijando seus nós dos dedos com desespero.
— Eu estou aqui, querida. Eu estou aqui. Não tente falar muito. Você está segura.
A memória do ataque voltou como uma avalanche: a explosão, o frio do corredor, o brilho da faca e a dor excruciante. Instintivamente, a mão livre de Clara se moveu para o ventre, mas encontrou apenas as bandagens grossas e os tubos. Seus olhos se arregalaram em puro pânico, e o monitor cardíaco começou a acelerar, o bipe tornando-se um lamento frenético.
— O bebê... — ela ofegou, as lágrimas inundando seus olhos instantaneamente. — Aaron, o bebê... eles... eles tiraram de mim?
Ela não sabia o que ele sabia. Ela não sabia que o segredo que guardara como um tesouro e um fardo fora exposto da maneira mais violenta possível. Naquele momento, o medo de Clara não era apenas pela perda física, mas pela reação do homem à sua frente. Aaron Warner odiava fraqueza. Ele odiava surpresas que não podia controlar. E ele vivia em um mundo onde crianças eram consideradas vulnerabilidades, pesos mortos em uma máquina de guerra.
— Shhh, acalme-se — disse ele, levantando-se para acariciar o rosto dela, tentando desesperadamente acalmar o ritmo do monitor. — Ele está aqui, Clara. Ele ainda está aqui.
Clara parou de lutar contra os lençóis, os olhos fixos nos dele, buscando qualquer sinal de mentira.
— Ele sobreviveu? — Ela soluçou, o corpo tremendo sob o cobertor hospitalar.
— Sim — respondeu Aaron, e sua voz vacilou por um milésimo de segundo. — É um milagre, segundo os médicos. Mas ele está bem. Vocês dois estão bem.
Clara fechou os olhos, deixando as lágrimas escaparem. O alívio foi tão intenso que quase a fez perder os sentidos novamente. Mas logo atrás do alívio, veio o terror gelado. Ela abriu os olhos novamente, estudando a expressão de Aaron. Ele estava sério, quase solene.
— Você sabe — disse ela, não como uma pergunta, mas como uma constatação.
— Eu sei — confirmou ele. — Eles me contaram durante a cirurgia.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Clara sentiu o coração apertar. Ela conhecia a história de Aaron; sabia do trauma que ele carregava em relação ao próprio pai, Anderson. Sabia que Warner via a si mesmo como um monstro, alguém cujas mãos estavam manchadas demais para jamais tocar algo puro.
— Você está bravo? — perguntou ela, a voz trêmula. — Por eu não ter contado? Por... por isso estar acontecendo?
Aaron franziu a testa, a confusão nublando seus olhos verdes por um momento antes que a compreensão o atingisse. Ele soltou a mão dela e se afastou um passo, passando as mãos pelo cabelo.
— Bravo? Clara, eu quase perdi você. Eu quase perdi os dois.
— Eu sei, mas... — Ela engoliu em seco, a insegurança que sempre sentira em relação à sua posição na vida dele vindo à tona. — Eu sei o que você pensa sobre este lugar. Sobre o Restabelecimento. Um bebê não faz parte do plano. Não faz parte da estratégia. Juliette é a estratégia. Eu sou apenas... o seu refúgio. E agora eu trouxe algo que você não pode controlar. Algo que o seu pai vai odiar.
Aaron parou de andar e olhou para ela. Havia uma intensidade em seu olhar que a fez perder o fôlego. Ele caminhou de volta para a cama e se sentou na borda, inclinando-se até que seus rostos estivessem a poucos centímetros de distância.
— Você acha que eu vejo nosso filho como um erro estratégico? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa.
— Eu não sei o que você pensa, Aaron! — exclamou ela, as lágrimas voltando a cair. — Você me escondeu por meses! Você me tratou como uma sombra enquanto perseguia a Juliette pelos corredores! Como eu deveria saber que você iria querer um filho de uma garota como eu? Eu não sou especial, eu não tenho poderes, eu sou apenas a gordinha da logística que você usa para dormir à noite!
As palavras dela o atingiram como um soco físico. Warner recuou, a expressão de dor em seu rosto sendo tão crua que Clara quase se arrependeu de ter falado.
— É isso que você pensa de si mesma? — perguntou ele, a voz falhando. — É isso que você acha que eu sinto por você?
— É o que você me mostra, Aaron! — rebateu ela. — Você me disse que eu era a sombra. Que ela era o sol. Ninguém quer construir uma família na sombra.
Aaron fechou os olhos por um longo momento, respirando fundo. Quando os abriu, a frieza do Comandante havia desaparecido totalmente, restando apenas o homem que Clara amava em segredo.
— Eu fui um idiota — admitiu ele, as palavras saindo com dificuldade. — Eu disse aquelas coisas porque tinha medo. Medo de que, se o meu pai percebesse o quanto você significa para mim, ele a usaria para me destruir. Eu tentei te manter na sombra para te manter viva, Clara. Mas, ao fazer isso, eu quase te matei de outra forma. Eu te fiz sentir pequena, quando você é a única coisa que me mantém inteiro.
Ele estendeu a mão e tocou o ventre dela, sobre as bandagens, com uma reverência que Clara nunca vira.
— Quando o médico me disse que havia um batimento... quando eu percebi que havia uma parte de você e uma parte de mim lutando para sobreviver ali dentro... — Ele engoliu em seco, os olhos brilhando. — Eu senti um terror que nunca conheci. Mas não era medo do meu pai, ou do Restabelecimento, ou da logística. Era o medo de não ser digno de algo tão real.
Clara soluçou, levando a mão à dele, entrelaçando seus dedos sobre seu ventre.
— Você o quer? — sussurrou ela. — Você realmente o quer?
— Mais do que qualquer outra coisa neste mundo miserável — afirmou ele com uma convicção absoluta. — Eu passei a vida inteira sendo o herdeiro de um império de cinzas. Este bebê... ele é a única coisa que eu já fiz que não tem a ver com destruição. Ele é a nossa chance de ter algo que não seja manchado pela guerra.
— O seu pai vai descobrir — disse ela, a preocupação voltando. — Anderson nunca vai permitir que você tenha uma fraqueza dessas.
O rosto de Aaron endureceu, e por um momento, a sombra do monstro que ele podia ser apareceu em seus olhos. Mas desta vez, a fúria não era direcionada a ela.
— Meu pai não vai tocar em vocês — declarou ele. — Eu já tomei providências. A ala médica está sob guarda exclusiva dos meus soldados mais leais. Marcus Thorne está pessoalmente encarregado da segurança do seu corredor.
Clara arqueou as sobrancelhas, surpresa.
— Marcus? Você o odeia.
— Eu o odeio porque ele olha para você como se entendesse o seu valor melhor do que eu — admitiu Aaron, com uma pontada de ciúme que ele não tentou esconder. — Mas eu confio na integridade dele. Ele morreria para proteger você, e neste momento, essa é a única coisa que me importa.
Ele se inclinou e beijou a testa de Clara, um beijo longo e terno.
— Eu vou tirar vocês daqui, Clara. Assim que você puder ser movida. Não para outro setor do Restabelecimento, mas para algum lugar onde o sol não queime e as sombras não sejam necessárias para se esconder.
— E a Juliette? — perguntou ela, a pergunta que sempre pairava entre eles.
Aaron suspirou, afastando uma mecha de cabelo do rosto de Clara.
— Juliette é uma arma que o mundo precisa para ser libertado. Eu vou cumprir meu dever com a resistência, vou ajudá-la a derrubar o meu pai e o sistema que ele criou. Mas ela não é o meu futuro. Você é o meu futuro. Vocês dois são.
Clara olhou para ele, querendo acreditar com todas as suas forças. Ela via a sinceridade nos olhos verdes dele, via a forma como ele olhava para sua barriga como se estivesse diante de um milagre sagrado.
— Eu tive tanto medo, Aaron — confessou ela, a voz embargada. — Eu pensei que você me mandaria embora. Ou que me forçaria a... a não ter o bebê.
— Nunca — disse ele, a voz soando como um juramento. — Eu mataria qualquer um que sugerisse tal coisa. Inclusive a mim mesmo.
Ele se acomodou na cadeira ao lado da cama, recusando-se a soltar a mão dela.
— Descanse agora, Clara. Você precisa de forças para se recuperar. O caminho à nossa frente não será fácil. Meu pai já está fazendo perguntas sobre o porquê de eu estar passando tanto tempo aqui.
— O que você disse a ele? — perguntou ela, sentindo o cansaço começar a vencê-la novamente.
— Eu disse a ele que você é uma peça essencial da logística que não pode ser substituída — respondeu Aaron com um sorriso sombrio. — E, pela primeira vez na minha vida, eu não estava mentindo para ele. Você é a única peça que mantém o meu mundo funcionando.
Clara sorriu, um sorriso fraco, mas genuíno. Ela fechou os olhos, sentindo o calor da mão de Aaron e a promessa de vida que pulsava dentro de si. O medo ainda estava lá, uma sombra no fundo de sua mente, mas pela primeira vez, ela não se sentia sozinha para enfrentá-lo.
Horas depois, enquanto Clara dormia um sono profundo e sem sonhos, Aaron Warner permanecia vigilante. Ele observava o movimento lento do peito dela, a subida e descida rítmica que era a visão mais bonita que ele já contemplara.
Ele pegou seu comunicador e digitou uma mensagem curta para Marcus Thorne, que estava de guarda do lado de fora da porta.
"Aumente a vigilância. Ninguém entra sem a minha autorização expressa. Nem mesmo o meu pai."
Ele guardou o aparelho e voltou sua atenção para Clara. Ele sabia que Anderson não ficaria em silêncio por muito tempo. Ele sabia que a batalha final pelo controle do Setor 45 estava se aproximando, e que Juliette Ferrars seria o estopim dessa explosão. Mas, enquanto olhava para a mulher que amava, Aaron percebeu que não lutaria mais por ideologia ou por poder.
Ele lutaria por um berço. Lutaria por um futuro onde seu filho nunca tivesse que saber o que era o peso de uma arma ou o frio de uma cela de isolamento.
Ele estendeu a mão e tocou levemente o ventre de Clara mais uma vez.
— Você não faz ideia do que nos espera, pequeno — sussurrou ele para o silêncio da sala. — Mas eu prometo a você... o mundo que você vai conhecer será muito melhor do que o que eu recebi.
Naquela noite, no coração do Setor 45, o homem mais temido do Restabelecimento não sonhou com guerra ou conquista. Ele sonhou com o som de uma risada de criança e com o brilho de um sol que, pela primeira vez, não queimava, mas aquecia. E quando Clara acordou novamente no meio da noite, assustada por um pesadelo, ela encontrou Aaron exatamente onde ele prometera estar: segurando sua mão, pronto para enfrentar qualquer monstro que ousasse cruzar o caminho deles.
A sombra e o sol haviam finalmente encontrado um equilíbrio, e no centro desse equilíbrio, uma nova vida começava a florescer, desafiando a própria morte e o império que tentava sufocá-la. Clara não era mais apenas a garota da logística; ela era a rainha de um reino secreto que Aaron Warner estava disposto a proteger com cada gota de seu sangue.