Indesejada e amada
O Equilíbrio Frágil entre a Devoção e o Caos
A atmosfera em Tempest nunca esteve tão carregada. O que antes era uma nação de celebração e progresso constante, agora parecia um hospital de luxo sob um estado de sítio silencioso. Nos corredores do palácio, os passos eram abafados e as conversas não passavam de sussurros. Todos temiam a fragilidade de seu líder, mas, acima de tudo, temiam a fúria que agora habitava o coração de Rimuru.
A decisão de Rimuru de manter a gravidez havia criado uma fenda invisível entre seus subordinados. Embora a lealdade a ele fosse absoluta, a preocupação com sua sobrevivência falava mais alto. Shuna, Benimaru e até Souei compartilhavam o mesmo pensamento sombrio: a vida de Rimuru era o pilar do mundo deles, e sacrificá-la por uma criança que ainda nem havia nascido parecia um preço alto demais.
Rimuru, no entanto, sentia cada pensamento não dito. Sua sensibilidade mágica, amplificada pela gravidez, tornava-o capaz de perceber a hesitação nos olhos de seus amigos.
— Eu já disse que não quero ouvir mais uma palavra sobre "interrupção" — declarou Rimuru naquela manhã, sua voz saindo mais rouca do que o normal enquanto ele tentava se sentar na cama.
Guy Crimson, que estava sentado em uma poltrona próxima, lixando as unhas com uma indiferença fingida que não enganava ninguém, levantou os olhos. Ele estava sem sua armadura pesada, usando apenas roupas de seda que não restringiam seus movimentos, mas sua aura estava tão contida que ele parecia uma sombra de si mesmo.
— Ninguém disse nada, Rimuru — murmurou Guy, aproximando-se para oferecer apoio às costas do Slime. — Mas você precisa admitir que sua aparência não está ajudando a convencê-los do contrário.
Rimuru lançou um olhar mortal para Guy.
— E você? Ainda chama meu filho de "parasita" quando pensa que eu não estou ouvindo?
Guy estancou. Ele realmente tinha usado o termo "mini demônio" em uma conversa particular com Diablo, mas não imaginava que Rimuru tivesse captado.
— Eu chamo de muitas coisas — respondeu Guy, recuperando a compostura e sorrindo de lado. — "Pequeno usurpador" é o meu favorito no momento. Ele está roubando o tempo que você deveria dedicar a mim.
— Você é impossível — Rimuru suspirou, mas não o afastou quando Guy depositou um beijo casto em sua testa.
A porta se abriu e Diablo entrou, trazendo uma bandeja com elixires fumegantes. O demônio primordial de preto mantinha uma expressão de servidão perfeita, mas seus olhos brilhavam com uma melancolia profunda. Para Diablo, Rimuru era seu Deus, sua razão de existir. Ver esse Deus definhar, perdendo o brilho prateado da pele e a vivacidade dos movimentos, era uma tortura refinada.
— Seu tônico matinal, Rimuru-sama — disse Diablo, ajoelhando-se ao lado da cama. — Por favor, beba tudo. Cada gota é essencial para manter a estabilidade do seu núcleo.
Rimuru olhou para o líquido viscoso com nojo.
— Eu sinto falta de tempurá. Sinto falta de saquê. Sinto falta de sair deste quarto sem que alguém tente me carregar como se eu fosse um boneco de porcelana.
— É para o seu bem, mestre — Diablo falou, sua voz falhando levemente. — Se essa... se essa criança requer tanto de sua essência, devemos providenciar o máximo possível.
Diablo compartilhava do sentimento de Guy, embora por razões diferentes. Guy odiava a criança por ciúmes e medo de perder seu parceiro; Diablo odiava a criança por ousar ferir a perfeição que era Rimuru.
— Eu vou sair hoje — anunciou Rimuru, ignorando o tônico por um momento. — Shuna me deu permissão para uma reunião curta. Há questões comerciais com o Reino de Farmenas que só eu posso assinar.
Guy e Diablo trocaram um olhar de puro pânico.
— Absolutamente não — disse Guy, sua voz subindo um oitavo. — Você desmaiou ontem só de tentar caminhar até a varanda. Veldora teve que te segurar antes que você batesse a cabeça no mármore.
— Eu não estou pedindo permissão, Guy — Rimuru retrucou, e subitamente a temperatura no quarto caiu. Uma pressão mágica, embora instável, emanou dele. — Eu sou o Rei de Tempest. Eu ainda sou um Lorde Demônio. Se eu ficar trancado aqui por mais um dia, eu vou enlouquecer.
O humor de Rimuru era como uma tempestade de verão: imprevisível e violento. Em um momento ele estava chorando de frustração, e no seguinte, sua aura brilhava com uma autoridade que fazia até os Primordiais recuarem.
— Tudo bem — cedeu Guy, rangendo os dentes. — Mas eu vou te levar. E se você vacilar um centímetro, nós voltamos para cá e eu selo a porta com magia dimensional.
Com a ajuda de Shuna, que entrou logo depois com uma expressão de resignação, Rimuru se preparou. Ele insistiu em usar algo que o fizesse se sentir ele mesmo, ou pelo menos a nova versão de si mesmo. Shuna trouxe um vestido azul-escuro, de um tecido pesado que caía elegantemente até os joelhos. O corte era justo na cintura, o que agora era necessário para suportar o peso da barriga que começava a se tornar evidente, e o decote quadrado realçava o busto que a forma feminina de Rimuru havia desenvolvido de maneira notável durante a gestação.
Ao se olhar no espelho, Rimuru viu uma mulher poderosa, mas os olhos dourados estavam fundos e a palidez era evidente.
— Você está magnífico, Rimuru — sussurrou Guy, vindo por trás e envolvendo a cintura dele com as mãos grandes, com um cuidado extremo para não pressionar o ventre. — Mas está tão leve... parece que se eu soprar, você desaparece.
— Eu não vou desaparecer, Guy. Eu só estou... compartilhando meu espaço.
A "mini reunião" foi montada em uma sala adjacente ao quarto para minimizar o esforço. Quando Rimuru entrou, apoiado no braço de Guy, o silêncio foi absoluto. Rigurd, Benimaru e Kaijin estavam lá. Todos se levantaram imediatamente, as expressões oscilando entre o alívio de vê-lo de pé e o horror pela sua fragilidade.
— Rimuru-sama... — Rigurd começou, as lágrimas já inundando seus olhos. — É uma honra vê-lo em trajes tão... tão reais.
— Menos, Rigurd — brincou Rimuru, sentando-se na cadeira acolchoada que Shion havia preparado com cerca de cinco travesseiros extras. — Vamos direto ao ponto. Os relatórios de exportação.
A reunião durou apenas vinte minutos, mas para Guy, pareceu uma eternidade. Ele não prestava atenção aos números ou acordos comerciais. Seus olhos estavam fixos no rosto de Rimuru, monitorando cada mudança de cor, cada respiração mais curta. Ele percebeu quando a mão de Rimuru começou a tremer enquanto segurava a caneta.
A "mini demônio", como Guy a chamava mentalmente, parecia não gostar da agitação. Rimuru sentiu um chute forte, um golpe de energia pura que fez seu estômago revirar.
— Uh... — Rimuru soltou um gemido baixo, levando a mão ao ventre.
— Rimuru! — Guy estava ao seu lado em um milésimo de segundo. — Acabou. Todos fora. Agora!
— Guy, eu ainda não assinei o... — Rimuru tentou protestar, mas sua visão começou a escurecer. As bordas da sala ficaram borradas e o som das vozes de Benimaru e Rigurd parecia vir debaixo d'água.
— Shuna! — Guy gritou, ignorando completamente o protocolo.
Antes que Rimuru pudesse atingir o chão, os braços de Guy o envolveram. Mas ele não foi o único. Veldora, que estava "escondido" atrás de uma cortina o tempo todo, surgiu com um movimento rápido.
— O meu irmão de alma não parece nada bem! — Veldora exclamou, sua aura caótica flutuando de preocupação. — Eu disse que ele deveria ter lido mais mangás para descansar a mente!
— Cale a boca, dragão idiota! — Guy rosnou, levantando Rimuru nos braços com uma facilidade que contrastava com o medo em seu rosto.
O nariz de Rimuru começou a sangrar novamente, o líquido carmesim manchando o decote azul do vestido. Ele estava completamente apagado, a cabeça pendendo contra o ombro de Guy.
De volta ao quarto, o caos controlado se instalou. Shuna trabalhava com magias de regeneração, enquanto Diablo limpava o sangue do rosto de seu mestre com uma devoção beirando a loucura.
— Eu avisei — Shuna disse, sua voz tremendo de raiva contida enquanto olhava para Guy e Veldora. — O corpo dele não aguenta o fluxo de mana necessário para manter a consciência e alimentar o núcleo da criança ao mesmo tempo. Cada vez que ele desmaia, o risco de o núcleo se tornar instável aumenta.
Guy estava sentado no pé da cama, as mãos enterradas nos cabelos vermelhos. Ele se sentia impotente. Ele, o ser que podia destruir nações com um estalar de dedos, não podia proteger Rimuru de seu próprio filho.
— Ela é forte demais — murmurou Guy. — A criança. Eu sinto a pulsação dela. É como um pequeno sol negro consumindo tudo ao redor.
— É a linhagem de vocês dois — Diablo disse, sem desviar os olhos de Rimuru. — O sangue de um Primordial e a essência de um Dragão Verdadeiro/Lorde Demônio. Essa criança não é um bebê comum. É uma singularidade.
Horas depois, Rimuru acordou. Ele não gritou desta vez. Ele apenas olhou para o teto, sentindo o vazio da exaustão.
— Eu falhei de novo, não foi? — perguntou ele, a voz não passando de um fio.
Guy se aproximou, sentando-se ao lado dele. Ele pegou a mão de Rimuru e a colocou sobre o ventre do Slime, cobrindo-a com a sua própria.
— Você não falhou — disse Guy, sua voz suave, mas carregada de uma nova determinação. — Mas você é teimoso. E essa coisa dentro de você é ainda mais teimosa.
Rimuru olhou para Guy, surpreso pelo toque dele na barriga.
— Você a sentiu?
— Ela tentou chutar minha mão — admitiu Guy com um sorriso amargo. — Acho que ela já me odeia. Ou talvez ela só queira lutar. De qualquer forma, Rimuru... eu tomei uma decisão.
Rimuru franziu a testa.
— Que decisão?
— Se você não vai desistir dela, eu não vou mais tentar te convencer do contrário. Mas, em troca, você vai aceitar minha energia. Shuna diz que ela te drena porque precisa de combustível. Eu sou um poço sem fundo de mana, Rimuru. Use-me. Deixe que ela me drene, não você.
Rimuru sentiu as lágrimas arderem.
— Guy, isso pode ser perigoso até para você. Se o vínculo se formar, ela pode começar a puxar sua essência permanentemente.
— Que puxe — Guy disse, inclinando-se para beijar os lábios pálidos de Rimuru. — Eu prefiro ser um demônio fraco com você ao meu lado do que o ser mais poderoso do universo em um mundo onde você não existe.
Rimuru soluçou, puxando Guy para um abraço apertado, tanto quanto suas forças permitiam. No canto do quarto, Diablo observava, sua inveja lutando com o reconhecimento de que Guy, por mais detestável que fosse, era o único capaz de sustentar aquele fardo junto com seu mestre.
— Nós vamos conseguir, não vamos? — perguntou Rimuru contra o peito de Guy.
— Vamos — prometeu o Demônio Vermelho, embora seus olhos, voltados para a janela, mostrassem a incerteza que ele jamais confessaria em voz alta. — Mas da próxima vez que você quiser usar um vestido decotado para uma reunião, certifique-se de que seja para uma reunião de dois. No meu quarto. Sem desmaios.
Rimuru soltou uma risada fraca, a primeira em dias. O clima em Tempest ainda era de medo, e a saúde de Rimuru ainda era um campo de batalha, mas, pela primeira vez, Guy Crimson não estava lutando contra a criança. Ele estava protegendo o futuro que Rimuru tanto desejava, mesmo que esse futuro estivesse, literalmente, custando o sangue deles.