Voltar ao resumo

Indesejada e amada

Lágrimas de Sangue e o Despertar do Herdeiro Primordial

Oitocentos anos poderiam passar num piscar de olhos para um lorde demônio, mas os últimos oito meses haviam envelhecido Guy Crimson de uma forma que o tempo jamais conseguiria. O palácio de Tempest, antes um monumento ao progresso e à alegria, agora assemelhava-se a um mausoléu silencioso, onde o único som permitido era o da respiração pesada de Rimuru.

Rimuru estava irreconhecível. A forma feminina, que antes era uma escolha estética e divertida, tornara-se uma prisão de carne e magia. Sua pele, outrora com o brilho da seda prateada, estava agora pálida como o mármore de um túmulo, marcadas por veias azuladas que pulsavam com uma energia que não era mais dele. O ventre, enorme e pesado, carregava o que Shuna agora chamava abertamente de "A Singularidade".

— Rimuru, por favor, volte para a cama — implorou Guy, sua voz perdendo a habitual arrogância.

Guy estava sentado no chão, observando Rimuru tentar se levantar da poltrona. O demônio primordial estava exausto; ele passava noites inteiras transferindo sua própria essência para Rimuru, servindo como uma bateria viva para que o bebê não consumisse o que restava do núcleo de slime do seu amado.

— Eu só... eu só quero ver o sol, Guy — sussurrou Rimuru. Sua voz estava fraca, e cada palavra parecia exigir um esforço hercúleo. — Este quarto cheira a remédio e medo. Eu não aguento mais.

— O sol está forte hoje, pode te dar tontura — insistiu Guy, levantando-se para ampará-lo.

Rimuru ignorou o aviso. Ele deu três passos trêmulos em direção à sacada. No quarto passo, suas pernas fraquejaram. Se não fosse pela velocidade sobre-humana de Guy, ele teria atingido o chão. O nariz de Rimuru começou a gotejar sangue instantaneamente, manchando o tapete caro.

— Droga, Rimuru! — Guy o pegou nos braços, sentindo o calor febril que emanava do corpo do slime. — Você não consegue andar dez passos! Por que insiste em se torturar?

— Porque se eu parar... se eu me entregar a essa cama... eu sinto que nunca mais vou levantar — Rimuru choramingou, as lágrimas se misturando ao sangue. — Guy, dói. Tudo dói.

Guy o colocou de volta na poltrona perto da janela, mas não o soltou. Ele sentia a aura do bebê, uma força magnética e predatória que parecia reconhecer o pai e exigir mais. Mas algo mudou naquele momento. Rimuru soltou um suspiro de dor aguda e levou as mãos ao peito, apertando o tecido fino do vestido de maternidade.

— O que foi? O bebê chutou? — perguntou Guy, em alerta máximo.

— Não... são meus seios — Rimuru gemeu, o rosto ficando vermelho de dor e constrangimento. — Estão pesados... queimando. Shuna disse que o leite começaria a vir, mas... parece que vai explodir.

Guy observou, hipnotizado e perturbado, enquanto Rimuru tentava massagear os próprios seios por cima da roupa. O leite, carregado com uma densidade mágica absurda, já começava a manchar o tecido. A visão de Rimuru naquela vulnerabilidade extrema, misturada ao aroma doce e potente que emanava dele, despertou algo primitivo no demônio.

Guy sempre fora possessivo, agressivo em seus desejos e obcecado por cada centímetro de Rimuru. Ver o leite que deveria nutrir seu filho — o "pequeno usurpador" — brotando daquele corpo que ele considerava sua propriedade exclusiva, causou um curto-circuito em sua mente milenar.

— Deixe-me ajudar — murmurou Guy, sua voz tornando-se perigosamente gutural.

— Guy, não... você deveria chamar a Shuna... — Rimuru tentou protestar, mas Guy já estava ajoelhado entre suas pernas, afastando o decote do vestido com uma urgência faminta.

— Shuna não vai tocar no que é meu — rosnou Guy.

O demônio não teve delicadeza. Ele envolveu um dos seios de Rimuru com a mão grande, apertando para aliviar a pressão, mas logo sua boca substituiu os dedos. Rimuru soltou um grito que foi metade dor e metade choque. O leite era puro poder destilado, e Guy o bebia como se fosse o elixir da imortalidade.

— Guy... devagar... — Rimuru arqueou as costas, as mãos enterradas nos cabelos vermelhos do amante.

A dor nos seios diminuiu, substituída por uma onda de calor que percorreu seu corpo debilitado. Guy, no entanto, não parou. A possessividade tomou conta. Ele subiu o corpo, pressionando Rimuru contra o encosto da poltrona, ignorando o ventre enorme entre eles. Ele precisava marcar Rimuru, precisava lembrar a si mesmo e àquela criança que Rimuru pertencia a Guy Crimson, e a mais ninguém.

O ato que se seguiu foi desesperado. Guy o possuiu com uma intensidade beirando a agressividade, seus movimentos rudes ditados pelo medo de perdê-lo e pelo desejo de fundir suas almas de uma vez por todas. Rimuru, em seu estado de fragilidade, entregou-se ao caos, encontrando naquele contato bruto uma prova de que ainda estava vivo, de que ainda era desejado além de sua função como receptáculo para um herdeiro.

— Você é meu — sussurrou Guy contra o pescoço de Rimuru, enquanto o clímax os atingia, deixando ambos trêmulos e exaustos. — Só meu. Entendeu, pequeno monstro?

Rimuru não respondeu. Ele estava ofegante, a cabeça pendida para trás, os olhos dourados fixos no céu azul além da sacada. Guy se afastou minimamente, limpando o canto da boca, sua aura finalmente se acalmando. Ele começou a ajeitar as roupas de Rimuru com uma ternura súbita e culposa.

— Desculpe — disse Guy, beijando a testa suada de Rimuru. — Eu perdi o controle.

— Está tudo bem — Rimuru sussurrou, embora sua voz estivesse quase inaudível. — Eu precisava sentir... que ainda sou eu.

Guy o ajudou a se sentar de forma mais confortável, deixando-o de frente para a brisa que vinha da sacada. Por alguns minutos, houve paz. O sol banhava o rosto pálido de Rimuru, e o silêncio de Tempest parecia, pela primeira vez, tranquilo.

Mas a paz era uma ilusão em um corpo que abrigava uma divindade em formação.

De repente, Rimuru ficou estático. Seus olhos se arregalaram e toda a cor que havia retornado ao seu rosto durante o ato com Guy desapareceu instantaneamente, deixando-o com um tom acinzentado aterrador.

— Rimuru? — Guy perguntou, o coração disparando.

Um som de algo se rompendo, como um cristal quebrado, ecoou no silêncio do quarto. Um líquido claro, misturado com fios de ouro e carmesim, começou a escorrer por entre as pernas de Rimuru, encharcando a poltrona e o chão.

— Guy... — Rimuru tentou falar, mas sua voz falhou. Ele levou a mão ao ventre, que subitamente começou a se contrair com uma violência que deformava sua silhueta.

Uma dor inimaginável, algo que nem mesmo a habilidade de Resistência à Dor de um lorde demônio poderia anular, atingiu Rimuru como um raio. O bebê, sentindo que o momento havia chegado, liberou uma descarga de energia mágica tão potente que as janelas da sacada explodiram em mil pedaços.

— A bolsa... estourou — Rimuru conseguiu dizer, sua pele tornando-se translúcida enquanto o bebê começava o processo final de drenagem para nascer.

— SHUNA! DIABLO! — Guy rugiu, sua voz ecoando por toda a cidade de Tempest, carregada de um terror que ele nunca havia sentido em toda a sua existência eterna.

Rimuru tentou agarrar o braço de Guy, mas seus dedos não tinham força. Sua visão escureceu, as cores do mundo se fundindo em um borrão cinzento. A dor era um incêndio que consumia seus nervos, e o peso em seu ventre parecia querer rasgá-lo ao meio.

— Guy... dói demais... eu não... — Rimuru não conseguiu terminar a frase.

Sua cabeça pendeu para o lado. O fluxo de sangue pelo nariz tornou-se constante, e sua aura, antes uma chama vibrante, reduziu-se a uma pequena fagulha prestes a se apagar. Rimuru desmaiou completamente, o corpo entrando em choque profundo enquanto as contrações se tornavam rítmicas e devastadoras.

Guy o pegou antes que ele deslizasse da poltrona, segurando o corpo frio de Rimuru contra o seu. Ele podia sentir o bebê se movendo, uma força imparável querendo sair, alheia ao fato de que estava matando o próprio pai no processo.

A porta do quarto foi arrombada. Shuna, Diablo e milim entraram correndo, seguidos por uma equipe de curandeiros de elite. Shuna parou por um segundo, vendo o sangue e o líquido amniótico mágico no chão, e seu rosto se transformou em uma máscara de determinação severa.

— Lorde Guy, coloque-o na cama agora! — ordenou Shuna, sua voz cortando o pânico do demônio como uma lâmina. — O nascimento começou. Mas o corpo de Lorde Rimuru não está abrindo o canal de parto... a energia do bebê está selando tudo para se proteger.

— O que isso significa? — Guy gritou, deitando Rimuru nos lençóis que rapidamente ficaram vermelhos.

— Significa que se não agirmos agora, o bebê vai explodir de dentro para fora para nascer, e Rimuru-sama será destruído — Diablo respondeu, seus olhos negros brilhando com uma fúria assassina direcionada ao ventre de seu próprio mestre.

Milim começou a chorar, sendo segurada por Shion. O quarto tornou-se um campo de batalha médico. Shuna começou a entoar encantamentos proibidos de alta linhagem, tentando forçar o corpo de Rimuru a cooperar, enquanto Guy mantinha as mãos sobre o peito de Rimuru, bombeando cada gota de sua essência primordial para manter o coração do slime batendo.

— Não morra, Rimuru! — Guy rugiu, as lágrimas caindo sobre o rosto inconsciente do amado. — Eu te proíbo de me deixar! Se você morrer, eu juro que destruirei este mundo e tudo o que você construiu!

Rimuru permanecia em silêncio, perdido em um abismo de dor e inconsciência, enquanto, dentro dele, o herdeiro de dois dos seres mais poderosos da existência lutava para dar seu primeiro grito, alheio ao sacrifício de sangue que estava exigindo. O destino de Tempest, e do próprio mundo, estava agora suspenso por um fio de seda prateada, manchado de carmesim.