Inesperado
O Silêncio dos Inocentes e o Barulho do Maracanã
A segunda-feira de Gabi começou com o som estridente do despertador e a memória vívida do desastre social da noite de sábado. No consultório, enquanto organizava os brinquedos terapêuticos e os desenhos de seus pequenos pacientes, ela se pegava rindo sozinha. A imagem de Erick Pulgar segurando uma tigela de cerâmica com o nome "Pitbull" gravado em ouro era algo que nem a psicologia mais avançada poderia explicar.
— Ele deve me achar uma completa idiota — murmurou ela, ajeitando um urso de pelúcia na prateleira.
Gabi tentava se focar no trabalho. Atender crianças exigia uma presença de espírito absoluta, e ela amava a forma como os pequenos viam o mundo de maneira literal — exatamente como ela havia feito ao interpretar o apelido de Erick. Talvez por isso ela tivesse se sentido tão à vontade após o choque inicial; ela lidava com a pureza da interpretação todos os dias.
No entanto, o mundo "real" não demorou a bater à porta. Ou melhor, a vibrar no bolso de seu jaleco.
Era uma mensagem de Bárbara.
"Amiga, o Erick não para de perguntar se a psicóloga já abriu a agenda para 'casos perdidos'. Ele quer o seu número. Posso passar?"
Gabi sentiu um frio na barriga que não experimentava desde o exame de ordem em sua especialização. Ela olhou para o celular, depois para a janela que dava para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Erick era atraente, disso não havia dúvida. Ele tinha um magnetismo silencioso, uma postura de quem observava tudo antes de dar um passo. E, surpreendentemente, ele tinha sido um cavalheiro diante de um mico homérico.
"Pode passar, Babi. Mas avisa que eu não atendo cães, só crianças", respondeu ela, tentando manter o tom brincalhão.
Não demorou dez minutos para que uma nova notificação aparecesse. Um número desconhecido com um prefixo estrangeiro, mas uma foto de perfil que ela reconheceu imediatamente: ele, em preto e branco, olhando para o horizonte.
— Olá, Gabi. Aqui é o aniversariante que escapou da coleira.
Ela riu alto, atraindo o olhar curioso de sua secretária.
— Oi, Erick. Fico feliz que tenha sobrevivido ao meu presente. Ele já está em uso? — digitou ela.
— A tigela está no meu balcão. Uso para as chaves da casa. É um bom lembrete de que preciso manter os pés no chão. Ou as quatro patas, como você preferir.
A conversa fluiu com uma facilidade perigosa. Erick não era o tipo de homem que enviava mensagens clichês. Ele era direto, mas mantinha um tom de mistério que a deixava intrigada. Ele contou que teria um treino integral naquela tarde, mas que gostaria de levá-la para jantar durante a semana.
— Eu adoraria, Erick. Mas tenho uma condição — escreveu Gabi.
— Qual?
— O restaurante tem que ser 'pet friendly'. Só por precaução.
A resposta dele foi um emoji de risada e a promessa de que ele escolheria o lugar.
Nos dias que se seguiram, Gabi se viu pesquisando mais sobre quem era, afinal, Erick Pulgar. Ela entrou no Instagram dele e se deparou com fotos de jogos, estádios lotados e uma seriedade impressionante em campo. Ele parecia outra pessoa quando estava com a camisa do Flamengo. O "Pitbull" fazia sentido ali: a garra, a marcação, a intensidade. Mas a imagem que ela guardava era a do homem que sorriu de canto ao ver petiscos orgânicos.
Na quarta-feira, um carro preto e discreto parou na porta do prédio dela. Erick não mandou apenas um motorista; ele estava lá, vestindo uma calça escura e uma camisa de linho que realçava o tom bronzeado de sua pele e as tatuagens que subiam pelo pescoço.
— Você está incrível — disse ele, assim que ela entrou no carro. — E, para sua informação, deixei a coleira em casa.
— Uma pena. Eu estava pronta para te adestrar se você se comportasse mal no restaurante — Gabi rebateu, sentindo o perfume amadeirado dele preencher o espaço.
Erick a levou a um restaurante sofisticado no Joá, com uma vista deslumbrante para o mar. O lugar era reservado, longe dos holofotes e dos paparazzi que costumavam perseguir os jogadores.
— Escolhi aqui porque imaginei que você preferisse silêncio — explicou ele, enquanto o garçom servia o vinho. — Bárbara me disse que você passou muito tempo em lugares isolados fazendo voluntariado. Deve ser um choque voltar para a loucura do Rio.
— É um choque térmico e social — admitiu Gabi. — Às vezes sinto falta da simplicidade de onde eu estava. Lá, ninguém sabia quem era ninguém. As conexões eram baseadas no que você podia fazer pelo outro no momento, não no que você representava na mídia.
Erick assentiu, girando a taça de vinho entre os dedos.
— Eu entendo isso melhor do que você imagina. No futebol, as pessoas amam a camisa, amam o gol, amam o título. Poucos se importam com o homem que acorda cedo com dor nas articulações ou que sente saudades da família no Chile.
— Foi por isso que você não ficou bravo com o presente? — perguntou ela, inclinando-se para frente.
— Foi exatamente por isso. Você me viu como um erro de tradução, como uma situação engraçada. Você não estava tentando me impressionar ou conseguir um ingresso para o camarote. Você foi... real.
O jantar foi uma sucessão de descobertas. Gabi falou sobre a psicologia infantil, sobre como os traumas da infância moldam o adulto, e Erick ouviu com uma atenção quase devota. Ele, por sua vez, contou sobre sua infância em Antofagasta, sobre as dificuldades antes da fama e sobre como a disciplina do esporte o salvou de caminhos mais difíceis.
Havia uma tensão física entre eles, uma eletricidade que aumentava a cada vez que suas mãos se roçavam na mesa ou quando os olhares se cruzavam e demoravam a se desviar. Erick tinha uma beleza rústica, mas seus gestos eram suaves.
— Então, doutora — disse ele, quando a sobremesa chegou —, qual é o diagnóstico para um jogador que não consegue parar de pensar na mulher que o chamou de cachorro?
Gabi sentiu o coração acelerar. Ela deixou a colher de lado e sustentou o olhar dele.
— O diagnóstico é simples, Erick. Você está sofrendo de um caso grave de curiosidade. E, infelizmente para você, eu sou uma especialista em investigar o que as pessoas tentam esconder.
Erick deu um sorriso lento, aquele que Gabi já estava começando a considerar seu favorito.
— Eu não estou escondendo nada. Pelo menos, não de você.
Na hora de ir embora, ele a conduziu até a porta do apartamento dela. O corredor estava silencioso, iluminado por uma luz amarela suave. Gabi se virou para se despedir, mas Erick já estava perto demais.
— Obrigado pela noite, Gabi. De verdade.
— Eu que agradeço, Erick. Foi o melhor 'não aniversário' que eu já tive.
Ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço restante. Sua mão subiu para o rosto dela, o polegar acariciando a linha da mandíbula com uma delicadeza que contrastava com sua fama de jogador implacável.
— Você ainda acha que eu sou um Pitbull? — sussurrou ele, a voz rouca perto do ouvido dela.
— Acho que você é muito mais perigoso do que qualquer animal — respondeu ela, quase sem fôlego.
Erick não esperou por mais palavras. Ele a beijou. Foi um beijo calmo no início, exploratório, com gosto de vinho tinto e antecipação. Mas logo a intensidade mudou. Gabi entrelaçou os dedos nos cabelos curtos da nuca dele, puxando-o para mais perto, enquanto ele a pressionava levemente contra a porta, as mãos firmes em sua cintura.
Ali, naquele momento, não havia Flamengo, não havia psicologia, não havia micos sociais. Havia apenas a química inegável entre dois mundos que nunca deveriam ter se cruzado, mas que agora pareciam perfeitamente alinhados.
Quando se afastaram, ambos estavam um pouco ofegantes. Erick encostou a testa na dela, fechando os olhos por um segundo.
— Eu tenho um jogo importante no sábado — disse ele, ainda mantendo-a por perto. — No Maracanã.
— Eu sei. Eu vi a tabela. Pela primeira vez na vida, eu olhei a tabela do campeonato.
Erick riu, um som baixo e vibrante.
— Eu quero que você vá. Não como convidada da Bárbara, mas como minha convidada. Quero que você veja o Pitbull em ação, para que depois possa voltar a me tratar apenas como o Erick.
Gabi sorriu, sentindo que estava entrando em um terreno desconhecido e emocionante.
— Eu vou. Mas não espere que eu entenda a regra do impedimento logo de cara.
— Não se preocupe — disse ele, dando-lhe um último selinho —. Se você se perder, eu te compro outra tigela para você se sentir em casa.
Gabi entrou no apartamento e encostou as costas na porta, o coração batendo como se tivesse corrido uma maratona. Ela olhou para o celular e viu uma mensagem no grupo das amigas.
Bárbara: "Gabi, o Arrascaeta disse que o Erick chegou no treino hoje sorrindo para as paredes. O que você fez com o meu amigo?"
Gabi sorriu, digitando rapidamente.
"Apenas alguns exercícios de socialização, amiga. O adestramento está progredindo bem."
No sábado, o Maracanã estava um caldeirão. Gabi nunca tinha visto nada parecido. O mar de camisas rubro-negras, os cantos que faziam o concreto vibrar sob seus pés, a energia quase palpável de milhares de pessoas. Ela estava no setor reservado, ao lado de Bárbara e das outras meninas.
— Olha lá! — gritou Bárbara, apontando para o campo quando os jogadores entraram para o aquecimento.
Gabi fixou os olhos no número 5. Erick estava sério, focado. Ele parecia maior em campo, uma presença dominante. Em determinado momento, como se soubesse exatamente onde ela estava, ele olhou em direção ao setor e fez um gesto discreto com a mão, um sinal que só ela entenderia.
— Ele fez isso para você! — Melissa exclamou, dando um empurrãozinho no ombro de Gabi. — O Pitbull está domesticado!
— Ele não está domesticado — corrigiu Gabi, observando Erick correr pelo gramado com uma determinação feroz —. Ele só encontrou alguém que não tem medo da mordida.
O jogo foi tenso, mas Erick foi impecável. Ele desarmava, distribuía o jogo e comandava o meio-campo com uma autoridade que deixava Gabi impressionada. Ela finalmente entendeu o apelido. Ele não desistia de uma bola, ele lutava por cada centímetro de campo.
Ao final da partida, com a vitória do Flamengo garantida, Gabi esperou por ele perto da saída dos vestiários, conforme combinado. Quando Erick apareceu, ainda com o cabelo úmido do banho e a mochila nas costas, ele não parecia o guerreiro que ela vira minutos atrás.
— E então? — perguntou ele, aproximando-se com um brilho de expectativa nos olhos. — O que a psicóloga achou da performance do paciente?
Gabi deu um passo à frente e segurou a alça da mochila dele, puxando-o para um abraço rápido.
— Achei que você é muito bom no que faz, Erick. Mas, para ser sincera...
— O quê? — ele perguntou, curioso.
— Eu ainda prefiro o homem que gosta de petiscos orgânicos.
Erick riu e a abraçou com força, ignorando os olhares curiosos de alguns colegas de equipe que passavam por ali.
— Sorte a minha — disse ele ao pé do ouvido dela —. Porque aquele homem está louco para te levar para casa.
Enquanto caminhavam em direção ao estacionamento, Gabi percebeu que sua volta ao Brasil tinha tomado um rumo que nenhum planejamento clínico poderia prever. Ela tinha vindo para curar crianças, mas acabara encontrando alguém que, entre um latido e outro da fama, só precisava de alguém que o enxergasse de verdade. E, para Erick, o presente de Gabi tinha sido muito mais do que uma tigela ou uma coleira; tinha sido a liberdade de ser, finalmente, apenas ele mesmo.