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Inesperado

O Silêncio entre as Linhas de Campo

A noite no Rio de Janeiro tinha aquela umidade característica que parecia grudar na pele, mas, para Gabi, o calor que sentia não vinha do clima. O trajeto do Maracanã até o apartamento de Erick foi feito em um silêncio confortável, preenchido apenas pelo som baixo de uma rádio de jazz que ele escolhera. Ele dirigia com uma mão no volante e a outra repousando sobre a coxa dela, um contato constante que servia como um fio terra para a adrenalina que ainda corria nas veias dele após o jogo.

Quando entraram no apartamento dele — um espaço amplo, minimalista, com janelas do chão ao teto que mostravam as luzes da cidade —, a atmosfera mudou. Não havia mais a barulheira da torcida, as brincadeiras das amigas ou as câmeras. Era apenas o espaço pessoal de Erick.

— Aceita uma água? Ou um vinho para relaxar do caos do estádio? — perguntou ele, jogando as chaves na famosa tigela de cerâmica que agora decorava o aparador da entrada.

Gabi sorriu ao ver o objeto ali, cumprindo uma função tão cotidiana.

— Vinho, por favor. Acho que ainda estou tentando processar o que é ver o Maracanã de dentro. É... avassalador.

Erick foi até a cozinha gourmet integrada e abriu uma garrafa de um tinto chileno encorpado. Ele serviu duas taças e entregou uma a ela, seus dedos roçando os dela por um tempo propositalmente longo.

— Para mim, avassalador foi ver você na arquibancada — confessou ele, a voz baixa e vibrante. — Eu joguei centenas de partidas, Gabi. Mas hoje, toda vez que a bola saía ou que o jogo parava, meus olhos buscavam aquele ponto específico onde você estava.

Gabi sentiu o rosto esquentar. Ela deu um gole no vinho, sentindo o sabor amadeirado descer aquecendo o peito.

— Eu não entendo nada de tática, Erick. Mas eu vi como você se transforma. Você parece carregar o peso do time nas costas. É muita pressão para uma pessoa só.

Erick se aproximou, deixando sua taça sobre o balcão de mármore. Ele encurtou a distância entre eles até que Gabi pudesse sentir o calor emanando do corpo dele.

— É por isso que eu gosto de estar com você — disse ele, tirando uma mecha de cabelo do rosto dela. — Com você, eu não preciso carregar nada. Eu posso ser apenas o homem que ganha coleiras de presente.

Gabi soltou uma risada suave, mas o som morreu quando ela encontrou o olhar dele. Havia uma intensidade ali que ia muito além da gratidão ou da amizade recente. Era um desejo cru, temperado por uma curiosidade que ambos vinham alimentando desde aquela noite no bar.

— Você é um homem difícil de decifrar, Erick Pulgar — sussurrou ela, colocando a taça de lado. — Mas eu sou psicóloga. Eu gosto de desafios.

— Então me decifra — desafiou ele.

Erick a puxou pela cintura, colando seus corpos. O beijo começou lento, como se estivessem saboreando a confirmação de que aquilo era real. Tinha o gosto do vinho e a urgência de quem esperou o jogo inteiro por aquele momento de privacidade. A mão de Erick subiu pelas costas de Gabi, puxando-a para mais perto, enquanto ela passava os braços pelo pescoço dele, sentindo os músculos tensos dos ombros começarem a relaxar sob seu toque.

Eles se moveram em direção ao sofá, mas não pararam ali. O desejo era um ímã que os guiava para o quarto, um santuário de tons escuros e luzes indiretas. Erick a colocou delicadamente sobre a cama, posicionando-se sobre ela, mas sustentando o peso nos cotovelos para olhá-la nos olhos.

— Tem certeza? — perguntou ele, a voz rouca, demonstrando um respeito que só fazia Gabi admirá-lo mais. — Eu sei que tudo foi muito rápido. O bar, o presente, o jogo...

Gabi sorriu, acariciando o rosto dele, sentindo a textura da barba por fazer.

— Erick, eu passei três anos em lugares onde a vida acontecia agora ou não acontecia nunca. Eu aprendi a não ignorar o que eu sinto. E agora... eu sinto que quero estar aqui. Com você.

Ele sorriu, um sorriso que não era para as câmeras ou para os colegas, mas apenas para ela.

— Então não vamos perder mais tempo.

As roupas foram deixadas de lado com uma urgência contida. Cada centímetro de pele revelado era uma nova descoberta. Gabi traçou com os dedos as tatuagens de Erick, sentindo as histórias gravadas em sua pele, enquanto ele explorava as curvas dela com uma adoração silenciosa. Quando suas peles finalmente se encontraram sem barreiras, o contraste entre a força dele e a delicadeza dela criou uma harmonia perfeita.

A intimidade entre eles não era apenas física. Havia uma conexão emocional que parecia ter anos, embora se conhecessem há poucos dias. Erick era cuidadoso, atento a cada suspiro dela, a cada reação. Ele a beijava como se estivesse tentando decorar cada traço de sua alma.

— Você é linda — murmurou ele contra a pele do pescoço dela. — Mais do que qualquer estádio lotado sob as luzes.

Gabi arqueou o corpo sob o toque dele, sentindo uma onda de prazer que a fazia esquecer o mundo lá fora. No auge da paixão, o silêncio do quarto era preenchido apenas pelas respirações pesadas e pelo som dos batimentos cardíacos que pareciam bater em um ritmo só.

Mais tarde, quando a tempestade de sensações acalmou e se transformou em uma calmaria doce, eles ficaram abraçados sob os lençóis de fios egípcios. A luz da lua filtrava-se pelas cortinas entreabertas, desenhando sombras argentadas sobre eles.

— Sabe de uma coisa? — Gabi quebrou o silêncio, descansando a cabeça no peito dele, ouvindo o ritmo agora tranquilo do coração de Erick.

— O quê? — ele perguntou, traçando círculos preguiçosos no braço dela.

— Se as minhas amigas modelos souberem que o "Pitbull" do Flamengo é, na verdade, um romântico incurável, sua reputação em campo vai acabar.

Erick soltou uma risada baixa, o peito vibrando contra a bochecha dela.

— É um segredo que eu confio a você, doutora. Elas nunca acreditariam de qualquer maneira. Elas ainda estão presas na ideia da coleira.

— É — disse ela, fechando os olhos, sentindo-se mais em casa do que em qualquer outro lugar nos últimos anos. — Mas elas não viram o jeito que você me olha quando ninguém está filmando.

Erick inclinou-se e beijou o topo da cabeça dela.

— E nem vão ver. Isso é só nosso.

Eles ficaram ali por muito tempo, conversando sobre coisas triviais e planos futuros. Erick contou sobre seu desejo de conhecer os projetos sociais onde ela trabalhou, e Gabi prometeu que o ensinaria a entender um pouco mais sobre a mente das crianças — e que, em troca, ele teria que ter muita paciência para explicar o que era um "volante de contenção".

— É simples — explicou ele, abraçando-a com mais força. — O volante é quem protege o que é importante. Quem impede que o caos chegue ao fundo.

Gabi sorriu na escuridão.

— Então você escolheu a posição certa. Porque aqui, neste quarto, eu me sinto a pessoa mais protegida do mundo.

— E você está — afirmou ele com seriedade.

O sono começou a chegar, pesado e acolhedor. Antes de apagar completamente, Gabi pensou no quanto a vida era irônica. Ela tinha voltado ao Brasil esperando apenas reconstruir sua carreira, mas um erro de interpretação sobre um apelido de futebol a levara aos braços de um homem que era tudo, menos o que o rótulo sugeria.

Erick, por sua vez, olhava para a mulher adormecida em seus braços e sentia uma paz que o futebol nunca lhe dera. Ele sempre fora o guerreiro, o cão de guarda, o homem de gelo. Mas com Gabi, ele descobriu que havia espaço para ser suave.

Naquela noite, o "Pitbull" finalmente descansou. E a psicóloga que não entendia nada de futebol descobriu que, às vezes, o melhor presente que se pode dar a alguém não é uma tigela ou uma coleira, mas a chance de deixar de ser um personagem para ser, simplesmente, humano.

Na manhã seguinte, o sol do Rio entrou sem pedir licença, iluminando o quarto. Erick foi o primeiro a acordar. Ele ficou observando Gabi por alguns minutos, admirando a serenidade em seu rosto. Ele se levantou silenciosamente e foi até a cozinha.

Quando Gabi acordou, o cheiro de café fresco e pão na chapa invadia o quarto. Ela se espreguiçou, sentindo o corpo leve e uma felicidade genuína borbulhando no peito. Ela vestiu uma das camisas de linho de Erick, que ficou enorme nela, e caminhou até a cozinha.

Erick estava de costas, concentrado em preparar algo no fogão.

— Bom dia, aniversariante — disse ela, encostando-se no batente da porta.

Ele se virou, e o sorriso que iluminou seu rosto foi a melhor recepção que ela poderia desejar.

— Bom dia. Dormiu bem?

— Como uma pedra. Ou como alguém que foi muito bem cuidada.

Erick caminhou até ela e a envolveu em um abraço matinal, o cheiro de café se misturando ao perfume dele.

— Preparei o café. E, antes que você pergunte... — Ele apontou para a mesa.

Lá, ao lado das frutas e do suco, estava a tigela de cerâmica. Mas, desta vez, ela não continha chaves. Estava cheia de morangos frescos e uvas.

— Achei que seria um uso mais digno para o seu presente — brincou ele.

Gabi riu, sentindo os olhos marejarem levemente.

— Você é impossível, Erick Pulgar.

— Eu sou apenas um homem tentando manter sua dona feliz — ele piscou, usando a piada interna deles.

Eles tomaram café juntos, rindo e planejando o dia. O Rio de Janeiro lá fora continuava seu ritmo frenético, mas ali dentro, naquele apartamento, o tempo parecia ter uma cadência própria. Um ritmo ditado não pelo cronômetro de um árbitro, mas pelo pulsar de dois corações que, contra todas as probabilidades, tinham encontrado o encaixe perfeito.

A Gabi que saíra do Brasil três anos antes jamais acreditaria que seu retorno seria marcado por um jogador de futebol e um mal-entendido canino. Mas, enquanto olhava para Erick, ela percebeu que às vezes o destino não precisa de lógica, só precisa de uma boa história para contar. E a deles estava apenas começando o primeiro tempo.