Inesperado
O Alinhamento das Estrelas e o Som do Coração
A penumbra do quarto era cortada apenas pelo reflexo prateado do luar que entrava pela janela do apartamento na Barra da Tijuca. O silêncio era profundo, quebrado apenas pela respiração compassada de Erick e pelo som distante das ondas quebrando na praia. Ali, naquele refúgio que construíram juntos, o mundo exterior — com seus estádios lotados, pressões táticas e flashes de paparazzi — parecia não existir.
Gabi sentiu o braço pesado e tatuado de Erick envolver sua cintura, puxando-a para mais perto. O calor do corpo dele era o seu porto seguro. Três anos haviam se passado desde aquela noite no bar, desde o mico da tigela de cerâmica, e a conexão entre eles só havia se aprofundado. Ela agora tinha trinta e um anos, e sua clínica de psicologia infantil era uma referência no Rio. Erick, aos trinta e oito, vivia o crepúsculo glorioso de sua carreira no Flamengo, respeitado como uma lenda viva.
— No que você está pensando? — a voz dele soou rouca, um sussurro rente ao ouvido dela.
— No quanto a vida gosta de pregar peças — Gabi respondeu, virando-se nos braços dele para encará-lo. — Se alguém me dissesse, anos atrás, que eu estaria aqui, com você, eu diria que essa pessoa precisava de terapia.
Erick soltou uma risada baixa, o peito vibrando contra o dela.
— Eu ainda agradeço todos os dias por você não entender nada de futebol. Se você soubesse quem eu era, talvez tivesse agido como todas as outras. Mas você me deu uma coleira, Gabi. Você me viu antes de ver o jogador.
Eles se beijaram com uma lentidão que saboreava cada segundo. Não havia pressa. O desejo entre eles não era mais aquela urgência adolescente dos primeiros meses, mas algo sólido, uma chama que queimava constante. Erick a tocava com uma reverência que sempre fazia Gabi se sentir a mulher mais preciosa do mundo.
— Eu te amo, Erick — ela sussurrou entre os beijos.
— Eu te amo mais do que consigo explicar em palavras — ele respondeu, a intensidade do seu olhar escuro fixo no dela.
Algumas semanas depois daquela noite, o destino decidiu intervir novamente. Gabi começou a sentir um cansaço incomum e uma sensibilidade que seus conhecimentos em psicologia não conseguiam justificar como estresse. Quando o teste caseiro exibiu as duas linhas rosadas, ela ficou paralisada no banheiro por quase uma hora.
Aos trinta e um anos, ela se sentia pronta, mas o frio na barriga era inevitável. Como o "Pitbull" reagiria à ideia de um pequeno herdeiro?
Ela preparou uma surpresa naquela noite. Quando Erick chegou do treino, encontrou a mesa do jantar arrumada, mas no centro, em vez de flores, estava a velha tigela de cerâmica com o nome "Pitbull" gravado em dourado. Dentro dela, não havia chaves ou morangos, mas um par de sapatinhos de lã branca e o teste de gravidez.
Erick parou diante da mesa. O silêncio se prolongou por tanto tempo que Gabi sentiu o coração falhar uma batida. Ele pegou os sapatinhos com as mãos grandes, aquelas mãos que desarmavam atacantes com brutalidade, mas que agora tremiam visivelmente.
— Gabi... — ele começou, a voz falhando completamente. — Isso é... você está...?
— Sim, Erick — ela disse, aproximando-se com os olhos marejados. — Nós vamos ter um bebê.
Ele não disse nada. Apenas a envolveu em um abraço tão apertado que ela quase perdeu o fôlego. Quando ele se afastou, Gabi viu lágrimas escorrendo pelo rosto do homem que raramente chorava.
— Um filho — ele sussurrou, acariciando a barriga dela ainda plana. — Um pequeno Pulgar. Eu vou ser pai, Gabi.
— Você vai ser o melhor pai do mundo — ela afirmou, sorrindo através das lágrimas.
A gravidez foi um período de redescoberta. Erick tornou-se o companheiro mais dedicado que Gabi poderia imaginar. Ele lia livros sobre paternidade, montava o berço com uma precisão cirúrgica e conversava com a barriga de Gabi todas as noites, contando como tinha sido o treino ou prometendo que ensinaria o pequeno a chutar com a perna direita.
Nove meses depois, nasceu Benjamin. Um menino robusto, com os olhos expressivos da mãe e a determinação silenciosa do pai. A chegada de Ben transformou o apartamento em um caos delicioso de fraldas, brinquedos e o som de gargalhadas infantis.
O tempo voou. Benjamin completou dois anos, tornando-se uma criança ativa que corria pelos corredores com uma mini camisa do Flamengo, sempre com uma bola nos pés. Foi então que Erick decidiu que era hora de fechar o ciclo de forma oficial.
Ele não queria um pedido comum. Queria algo que fizesse jus à história deles.
No dia do aniversário de dois anos de Benjamin, após a festa íntima para amigos e familiares, Erick pediu que todos ficassem em silêncio no jardim da casa que haviam comprado recentemente. Ele pegou o filho no colo e caminhou até Gabi.
— Gabi — ele começou, enquanto Benjamin tentava pegar o microfone da mão do pai. — Há cinco anos, você entrou na minha vida achando que eu era um cachorro. Você me deu um presente que me fez rir, mas que, no fundo, me mostrou que eu podia ser humano. Você cuidou de mim, da minha mente e do meu coração. E você me deu o Benjamin.
Erick se ajoelhou, ainda segurando o filho, e tirou uma caixinha de veludo do bolso.
— Eu não quero mais ser apenas o seu namorado ou o pai do seu filho. Eu quero ser seu marido. Quero que a gente oficialize o que nossos corações já sabem há muito tempo. Gabi, você aceita casar comigo?
Gabi estava em prantos. Ao redor, Bárbara, Arrascaeta e as outras amigas aplaudiam e gritavam.
— Sim! Mil vezes sim! — ela exclamou, abraçando os dois homens de sua vida.
O casamento aconteceu seis meses depois, em uma cerimônia elegante ao ar livre, com vista para as montanhas do Rio. Gabi estava deslumbrante em um vestido de renda clássico, e Erick, impecável em um terno escuro, não conseguia parar de sorrir. Benjamin, com dois anos e meio, foi o encarregado de levar as alianças.
Ele entrou tropeçando levemente, concentrado em sua missão, usando um pequeno terno que era a cópia fiel do de Erick. No meio do caminho, o menino parou, olhou para os convidados e soltou um grito animado:
— Papai! Mamãe!
Os convidados riram e se emocionaram. Erick pegou o filho no colo no altar, e foi assim, com o fruto do amor deles entre os dois, que trocaram os votos.
— Eu prometo — disse Erick, segurando a mão de Gabi — nunca esquecer de onde viemos. Prometo que, não importa quantos gols eu faça ou quantas vitórias eu conquiste, minha maior conquista sempre será a família que construímos. E prometo que, se você me der outra coleira, eu vou usar com orgulho, porque ela significa que eu pertenço a você.
Gabi riu entre as lágrimas de felicidade.
— Eu prometo continuar não entendendo nada de impedimento, só para você ter que me explicar mil vezes. Prometo ser seu porto seguro e cuidar de vocês dois com todo o amor que tenho. Eu te amo, meu eterno Pitbull.
A festa que se seguiu foi uma celebração da vida. Jogadores, amigos de longa data e familiares dançaram até o amanhecer. Em um momento da noite, Gabi e Erick se afastaram para observar a cena de longe. Benjamin dormia calmamente no colo de Bárbara em um canto reservado.
— Quem diria, hein? — comentou Gabi, encostando a cabeça no ombro do marido. — Tudo começou com um mal-entendido.
— O melhor mal-entendido da história — Erick respondeu, abraçando-a por trás. — Sabe, Gabi, as pessoas me chamam de Pitbull pela minha agressividade em campo. Mas aqui com você... eu descobri que a maior força de um homem não está no quanto ele consegue lutar contra os outros, mas no quanto ele consegue se entregar para quem ama.
— Você se tornou um filósofo, Pulgar — ela brincou, virando-se para beijá-lo.
— Eu tive uma boa professora — ele rebateu, antes de selar seus lábios nos dela.
O futuro brilhava diante deles. Erick estava prestes a se aposentar dos gramados para assumir um cargo de coordenação na base do clube, onde continuaria o trabalho com a ONG de Gabi. Eles planejavam dar uma irmãzinha para Benjamin em breve e continuar construindo memórias naquela cidade que os uniu.
Enquanto a música tocava ao fundo e as estrelas brilhavam sobre o Rio de Janeiro, Gabi percebeu que a felicidade não era um destino final, mas a jornada que eles escolheram trilhar juntos. Uma jornada que começou com uma tigela de cerâmica e que terminaria em uma eternidade de amor, compreensão e, claro, alguns petiscos de chocolate pelo caminho.
— Vamos voltar para a festa? — perguntou Erick.
— Vamos. Mas antes... — Gabi tirou algo do bolso. Era uma pequena medalha de ouro que ela mandara fazer, idêntica à da coleira do primeiro dia, mas agora com a data do casamento e os nomes dos três gravados. — Para você nunca esquecer quem é o dono do seu coração.
Erick olhou para a medalha, sorriu com aquela doçura que só ela conhecia, e a guardou no bolso, perto do peito.
— Eu nunca vou esquecer, Gabi. Eu nunca vou esquecer.
E, de mãos dadas, o jogador e a psicóloga voltaram para a pista de dança, prontos para viverem todos os capítulos que a vida ainda tinha reservado para eles. O jogo oficial podia estar acabando para o atleta, mas para o homem, o campeonato do amor estava apenas começando, e ele já sabia que, com Gabi ao seu lado, ele já era o grande campeão.