Voltar ao resumo

Inesperado

O Eco das Arquibancadas e o Silêncio do Ninho

A rotina de Gabi no Rio de Janeiro havia se tornado uma coreografia complexa entre a serenidade do seu consultório no Jardim Botânico e a efervescência do universo de Erick. Três meses haviam se passado desde o fatídico episódio da tigela de cerâmica, e o que começou como um mico homérico transformara-se na fundação de algo que nenhum dos dois sabia bem como rotular, mas que ambos protegiam com ferocidade.

Para o mundo exterior, Erick Pulgar era o "Pitbull", o volante de gelo que ditava o ritmo do meio-campo rubro-negro. Para Gabi, ele era o homem que enviava áudios de bom dia com a voz rouca de sono e que, nas noites de domingo, sentava-se no tapete da sala dela para ajudá-la a organizar os prontuários das crianças da ONG, enquanto tentava entender por que ela usava tantas cores diferentes para categorizar as emoções dos pequenos.

Naquela terça-feira, porém, o clima era diferente. O Flamengo se preparava para um clássico decisivo, e a pressão da torcida e da mídia estava no ápice. Gabi sentia a tensão de Erick através das mensagens curtas e do silêncio mais prolongado.

— Você está muito pensativa hoje, Gabi — comentou Bárbara, enquanto as duas almoçavam em um quiosque na Lagoa. — É o jogo de amanhã?

— É o Erick, Babi — admitiu Gabi, mexendo na salada sem muito apetite. — Ele parece estar carregando o mundo nos ombros. Ontem ele mal falou. Eu sei que o futebol é a vida dele, mas me dói ver como esse apelido de "Pitbull" às vezes obriga ele a ser uma máquina, sem direito a cansaço ou dúvida.

— Faz parte do pacote, amiga — disse Bárbara com um suspiro compreensivo. — O meu irmão também passa por isso. Eles são heróis um dia e vilões no outro. Mas o Erick... ele é diferente. Ele guarda tudo para si. Acho que você é a única pessoa que consegue fazer ele desarmar a guarda.

Gabi ficou em silêncio, observando os corredores que passavam pela orla. Ela tomou uma decisão. Naquela noite, ela não esperaria que ele ligasse. Ela iria até ele.

Erick morava em um condomínio de alto padrão na Barra, onde a segurança era tão rígida quanto a marcação que ele fazia em campo. Quando Gabi estacionou e subiu pelo elevador privativo, sentiu um frio na barriga. Ela tinha a chave, um gesto de confiança que ele fizera semanas antes, mas raramente a usava sem aviso.

Ao abrir a porta, encontrou o apartamento na penumbra. O único som era o da televisão ligada no mudo, exibindo lances de jogos passados. Erick estava sentado no sofá, com um tablet na mão, analisando movimentações táticas. Ele nem percebeu a entrada dela até que Gabi parou ao lado do sofá.

— Analisando o inimigo ou apenas se torturando? — perguntou ela suavemente.

Erick deu um salto, os olhos escuros focando nela com surpresa antes de relaxarem instantaneamente.

— Gabi? O que faz aqui? Aconteceu alguma coisa?

— Não — ela sorriu, sentando-se ao lado dele e fechando a capa do tablet com delicadeza. — Eu só achei que o aniversariante mais famoso do Rio precisava de uma pausa de cinco minutos da própria mente.

Erick soltou um suspiro longo, jogando a cabeça para trás no encosto do sofá. As olheiras eram visíveis sob a luz fraca da sala.

— É um jogo difícil, Gabi. A torcida está cobrando, o treinador quer intensidade máxima... Às vezes parece que se eu errar um passe, o mundo desaba.

— O mundo não desaba, Erick. O mundo continua girando, e as crianças da clínica ainda vão achar que você é o cara mais legal do planeta porque sabe equilibrar uma bola no nariz — ela disse, pegando a mão dele e entrelaçando seus dedos. — Você não é apenas o número 5 do Flamengo. Você é o homem que comprou cereal ontem porque sabia que eu ia dormir aqui hoje.

Erick olhou para as mãos entrelaçadas e deu um sorriso de canto, aquele que Gabi tanto amava.

— Você sempre sabe o que dizer, não sabe? É o treinamento de psicóloga ou é um dom natural?

— É um mix de ambos — ela brincou, aproximando-se e encostando a testa na dele. — Agora, chega de tática. Vamos jantar algo que não seja frango com batata-doce e vamos dormir. Você precisa de descanso, não de estatísticas.

— Você manda, doutora — ele murmurou, puxando-a para um beijo calmo e profundo, que parecia drenar toda a tensão acumulada do dia.

O dia do jogo chegou com uma eletricidade palpável no ar. O Maracanã estava lotado, um oceano de vermelho e preto que rugia a cada movimento. Gabi estava no camarote com os familiares, mas seus olhos não saíam de Erick. Ela via a forma como ele se posicionava, a seriedade quase assustadora em seu rosto. Ele era, de fato, o Pitbull. Implacável, preciso, feroz na disputa pela posse de bola.

No segundo tempo, em uma jogada dividida, Erick foi ao chão. O estádio inteiro prendeu a respiração. Gabi levantou-se num salto, as mãos pressionadas contra o vidro do camarote.

— Ele está bem? — perguntou ela, a voz embargada.

— É o Pulgar, Gabi — disse Arrascaeta, que estava sendo poupado naquele jogo e assistia ao lado dela. — Ele é feito de aço. Olha lá.

Erick levantou-se, limpando o gramado do uniforme, e apenas acenou para o banco de reservas. Ele continuou no jogo, mas Gabi percebeu que ele mancava levemente. A preocupação não a deixou até o apito final, que selou a vitória por 1 a 0, com uma assistência magistral dele.

Após o jogo, a euforia tomou conta do estádio, mas Gabi correu para a área interna, onde os familiares costumavam esperar. Quando Erick apareceu, ele estava com uma bolsa de gelo presa ao tornozelo e o rosto sujo de suor e cansaço, mas seus olhos brilharam ao vê-la.

— Ganhamos — disse ele, como se fosse a única coisa que importasse.

— Você está machucado — rebateu ela, aproximando-se e ignorando os fotógrafos que tentavam registrar o momento.

— É só um susto — ele minimizou, puxando-a para um abraço rápido. — Valeu a pena. Vi você lá em cima.

— Você é um teimoso, Erick Pulgar — ela sussurrou contra o peito dele. — Mas foi um passe lindo. Até eu, que não entendo nada, vi que foi especial.

— Foi para você — ele disse, com uma sinceridade que a desarmou.

Nos dias seguintes, Erick precisou de repouso forçado para tratar o tornozelo. O Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo, tornou-se o cenário frequente de Gabi. Ela ia buscá-lo após as sessões de fisioterapia, e a presença da "psicóloga do Pulgar" já era tratada com naturalidade pelos funcionários e jogadores.

— Olha lá, chegou a dona do Pitbull! — brincou Gabigol, passando por eles no estacionamento.

— Não liga para ele — disse Erick, revirando os olhos, enquanto se apoiava em Gabi para caminhar até o carro.

— Eu não ligo — ela riu. — Na verdade, eu acho que eles têm inveja porque você tem uma psicóloga particular à disposição.

Quando chegaram ao apartamento, Gabi ajudou Erick a se acomodar no sofá. Ela trouxe o kit de fisioterapia que ele precisava usar em casa, mas antes de começar, ela se sentou no chão, entre as pernas dele.

— Erick, eu estive pensando sobre o projeto da ONG — ela começou, olhando para ele com seriedade. — O evento da semana passada foi um sucesso, e o interesse das crianças pelo esporte dobrou. Eu queria criar um programa permanente de "Esporte e Mente". Queria que você fosse o embaixador.

Erick parou de mexer no celular e olhou para ela.

— Embaixador? Gabi, eu mal consigo dar uma entrevista sem ficar nervoso.

— Você não precisa dar entrevistas, Erick. Você só precisa ser você. As crianças veem em você alguém que lutou e venceu. Elas não veem o jogador caro, elas veem o menino de Antofagasta que conquistou o mundo. E eu quero que elas entendam que a mente é tão importante quanto o condicionamento físico.

Erick ficou em silêncio por um longo tempo, observando o rosto entusiasmado de Gabi. Ele percebeu que, desde que ela entrara em sua vida, seus horizontes haviam se expandido para além das quatro linhas do gramado.

— Se você estiver ao meu lado, eu faço — disse ele, finalmente. — Eu não sei nada sobre psicologia, mas eu sei o que é se sentir sozinho e pressionado. Se eu puder ajudar um desses meninos a não passar pelo que eu passei... então eu topo.

Gabi sorriu e o beijou, uma mistura de alívio e orgulho transbordando.

— Você é muito mais do que um apelido, sabia?

— Eu estou começando a acreditar nisso — ele admitiu.

Naquela noite, a conversa tomou um rumo mais íntimo. Eles falaram sobre o futuro, sobre a possibilidade de Gabi abrir sua própria clínica e sobre como Erick lidaria com o fim da carreira, daqui a alguns anos. Pela primeira vez, o futuro não parecia uma névoa de incertezas, mas um caminho que eles poderiam trilhar juntos.

— Sabe, Gabi — disse Erick, enquanto eles dividiam uma pizza tarde da noite —, eu nunca contei isso para ninguém, mas quando a Bárbara disse que você vinha para aquele aniversário e que tinha trazido um presente... eu fiquei irritado no começo.

— Irritado? — ela riu, surpresa. — Por quê?

— Porque eu achei que você era mais uma daquelas pessoas que queriam tirar sarro da minha cara ou que estavam lá só pela fama. Eu estava pronto para ser grosso com você.

— E o que mudou? — perguntou ela, curiosa.

— O jeito que você me olhou quando percebeu o erro — ele explicou, a voz ficando mais baixa. — Você não ficou sem graça porque eu era o Pulgar do Flamengo. Você ficou sem graça porque tinha sido genuína e achava que tinha ofendido um desconhecido. Naquele momento, eu soube que você era real. E eu não encontrava algo real há muito tempo.

Gabi sentiu os olhos marejarem. Ela se aconchegou mais a ele, sentindo o calor do seu corpo e a segurança do seu abraço.

— Eu ainda tenho a tigela, sabia? — ela confessou. — A vendedora da Pet Shop me ligou perguntando se o "Pitbull" tinha gostado do presente.

Erick soltou uma gargalhada alta, a primeira do dia.

— E o que você disse?

— Eu disse que ele amou. Mas que ele era um pouco mais alto do que eu imaginava e que preferia morangos a petiscos de frango.

— Você é louca, Gabi — ele disse, beijando o topo da cabeça dela.

— Talvez. Mas parece que é de loucura que você precisa.

As semanas passaram e o projeto na ONG decolou. Erick levava o compromisso a sério, aparecendo sempre que os treinos permitiam. Ele se tornou uma figura constante na vida daquelas crianças, e Gabi percebeu que a terapia delas evoluía muito mais rápido com o incentivo do esporte.

No entanto, a vida de um jogador de elite nunca é calma por muito tempo. Surgiu uma proposta irrecusável de um clube europeu. O burburinho na mídia começou, e o nome de Erick Pulgar estava em todas as manchetes.

Gabi sentiu o impacto. Ela estava começando a se estabilizar no Rio, sua clínica estava prosperando e seu trabalho na ONG era essencial. A ideia de se mudar novamente, de deixar tudo para trás para seguir a carreira de outra pessoa, trouxe fantasmas do passado à tona.

— Você viu as notícias, não viu? — perguntou Erick, uma noite, enquanto eles caminhavam pela praia deserta.

— Vi, Erick. É uma proposta incrível. A Europa é o ápice para qualquer jogador.

Erick parou de caminhar e a fez virar para ele. O vento do mar bagunçava seus cabelos, e o som das ondas era a única trilha sonora.

— Eu não vou — disse ele, de forma simples.

Gabi arregalou os olhos.

— O quê? Erick, você ficou louco? É uma oportunidade única!

— Oportunidade única é o que eu tenho aqui, Gabi — ele disse, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Eu tenho um time que me respeita, uma torcida que me ama e, pela primeira vez na vida, eu tenho uma casa. Uma casa que não é feita de paredes, mas de pessoas. Eu tenho você.

— Mas e a sua carreira? Você sempre disse que queria voltar para a Europa...

— Eu já estive lá, Gabi. Eu sei como é. É frio, é impessoal. Aqui no Rio, com você, com as crianças da ONG, eu me sinto útil de um jeito que o futebol nunca me fez sentir. Eu renovei com o Flamengo por mais três anos hoje à tarde.

Gabi não conseguiu conter as lágrimas. Ela o abraçou com tanta força que ele precisou dar um passo atrás para manter o equilíbrio.

— Você fez isso por mim? — ela soluçou contra o peito dele.

— Eu fiz por nós — ele corrigiu. — Eu quero ver a sua clínica crescer. Quero ver aqueles meninos se formando. E quero estar aqui para te levar para jantar toda vez que você tiver um dia difícil. O Pitbull resolveu ficar no Rio, Gabi. Parece que ele se apegou à dona.

— Eu te amo, Erick — ela disse, olhando para ele com todo o amor que guardara durante aqueles meses.

— Eu também te amo, minha psicóloga favorita.

Eles ficaram ali, abraçados sob o luar do Rio de Janeiro, dois mundos que se chocaram de forma improvável e que agora formavam uma constelação única. O jogador e a psicóloga. O ídolo e a mulher que o via sem a máscara da fama.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, Gabi parou por um segundo e olhou para o horizonte.

— Erick?

— Oi?

— Só para constar... agora que você vai ficar, eu acho que precisamos de um cachorro de verdade. Um pitbull.

Erick parou, olhou para ela com uma expressão de puro terror fingido e depois começou a rir.

— Nem pensar, Gabi! Um "Pitbull" na família já é mais do que suficiente para você dar conta!

— Veremos, Pulgar — ela piscou, correndo em direção ao mar. — Veremos!

E, naquela noite, entre as ondas e o riso, eles souberam que o jogo mais importante de suas vidas já havia sido vencido. E o troféu era, simplesmente, a felicidade de serem, um para o outro, o porto seguro em meio à tempestade.