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Inexperiente

Alianças de Vidro e Olhos de Mel

Mizi estava parada na sacada do sétimo andar, o vento da noite bagunçando as pontas azuis de seu cabelo rosa. Lá embaixo, na quadra iluminada por refletores, ela conseguia distinguir as silhuetas familiares de Till, Hyuna e Luka. Eles riam de algo, provavelmente alguma piada ácida de Till ou algum comentário nerd de Luka. O condomínio parecia seguir seu fluxo normal, mas para Mizi, o ar estava pesado.

Ela olhou para a sacada do quinto andar. As luzes do apartamento de Sua estavam acesas, mas não havia sinal de movimento. Ivan não estava na quadra, o que significava que ele provavelmente tinha saído para algum lugar, deixando Sua sozinha.

Mizi sentiu um aperto no peito. A imagem de Sua fugindo da academia, com os olhos marejados e os passos incertos, não saía de sua cabeça. Marty tinha razão: ela tinha sido uma completa idiota. Ela agira por instinto, por desejo, esquecendo-se de que nem todo mundo vivia na mesma intensidade caótica que ela.

— Respira, Mizi. Você não é um monstro, só é... intensa demais — sussurrou para si mesma.

Ela pegou uma sacola de papel sobre a mesa da sala. Dentro, havia uma caixa dos chocolates favoritos de Sua — os meio amargos que ela fingia não gostar, mas que comia sempre que achava que ninguém estava olhando. Mizi conferiu o hálito no reflexo do vidro, ajeitou a jaqueta e desceu.

O elevador pareceu levar uma eternidade para chegar ao quinto andar. Diante da porta 502, ela hesitou. O que diria? "Oi, desculpa por ter sido uma selvagem ontem"? Ela respirou fundo e tocou a campainha.

Quem atendeu foi a mãe de Sua, uma mulher de semblante calmo que sempre tratava Mizi com uma cortesia suave.

— Boa noite, senhora... A Sua está? — Mizi forçou seu melhor sorriso de "garota gente boa".

— Oh, olá, Mizi. Sim, ela está no quarto. Pode entrar, querida. Acho que ela vai gostar da companhia.

Mizi agradeceu com um aceno e caminhou pelo corredor familiar. Ela parou diante da porta de madeira escura e bateu de leve. Não houve resposta imediata, então ela abriu apenas uma fresta.

— Sua? Sou eu.

Sua estava sentada na cama, abraçada aos joelhos, olhando fixamente para a janela. Ao ver Mizi, ela retesou o corpo, mas não disse para ela sair. Mizi entrou e fechou a porta, sentindo o peso do silêncio entre as duas.

— Eu trouxe chocolate — disse Mizi, a voz saindo mais baixa do que o normal. Ela caminhou até a beira da cama e deixou a sacola ali.

Sua continuou em silêncio, os olhos roxos evitando os dourados de Mizi.

— Sua... me desculpa — Mizi começou, sentando-se cautelosamente no colchão. — Eu conversei com um amigo e... eu sou uma songa, tá? Uma idiota completa. Eu não sabia.

Sua finalmente virou o rosto, uma expressão de confusão e mágoa emoldurando suas feições pálidas.

— Não sabia o quê?

— Que você era... — Mizi hesitou, a palavra parecendo pesada — ...virgem. Você era, não era?

O rosto de Sua se tingiu de um escarlate profundo instantaneamente. Ela escondeu o rosto entre os joelhos novamente.

— Por que você está perguntando isso? — a voz de Sua saiu abafada.

— Porque se eu soubesse, eu teria ido devagar — Mizi disse, a voz subitamente embargada. — Eu teria sido gentil. Eu teria esperado você me dizer que estava pronta. Eu achei que você estava na mesma vibe que eu, mas eu fui uma bruta. Eu te machuquei, não foi?

Sua levantou o rosto, surpresa ao ver que os olhos de Mizi estavam brilhando com lágrimas reais.

— Mizi...

— Me desculpa, de verdade — Mizi continuou, as lágrimas começando a cair. — Eu não queria te deixar assustada. Eu não queria que a sua primeira vez com alguém fosse um trauma no escuro de uma academia. Eu gosto muito de você, Sua. Em tão pouco tempo, você virou tudo pra mim, e a ideia de que você me odeia agora ou que eu estraguei tudo... eu não aguento isso.

Mizi se inclinou para frente e abraçou Sua, deixando o peso do próprio corpo derrubar as duas sobre a cama. Ela enterrou o rosto no ombro de Sua, soluçando baixinho, as mãos agarradas à blusa da outra como se sua vida dependesse daquilo.

— Por favor, não me odeia. Eu juro que aprendo a ser normal por você. Eu só não quero te perder.

Sua ficou paralisada por um momento, sentindo o calor de Mizi e a umidade das lágrimas dela em seu ombro. Toda a raiva e a vergonha que sentira nas últimas horas começaram a evaporar. Ela percebeu que Mizi não era mal-intencionada; ela era apenas impulsiva, um furacão que não percebia a própria força. E, acima de tudo, Mizi estava ali, vulnerável, pedindo perdão de um jeito que Sua nunca imaginou ver.

Sua soltou um suspiro longo e relaxou o corpo. Ela levantou uma das mãos e começou a fazer carinho no cabelo rosa de Mizi, sentindo a textura macia dos fios.

— Você é muito burra, Mizi — Sua murmurou, mas o tom era de carinho, não de insulto.

Mizi levantou o rosto, os olhos vermelhos e o nariz fungando.

— Você me perdoa?

— Tá tudo bem — disse Sua, dando um beijinho leve na ponta do nariz de Mizi. — Eu não te odeio. Eu só... fiquei assustada. Foi muita coisa de uma vez. Mas eu também queria, Mizi. Se eu não quisesse, eu teria te empurrado.

Mizi soltou um som que era metade riso e metade soluço, agarrando-se a Sua como se fosse uma criança carente.

— Você é muito boazinha, Sua. Eu não te mereço.

— É, não merece mesmo — Sua brincou, sorrindo pela primeira vez. — Agora come o chocolate comigo e para de chorar. Você fica horrível com o rosto inchado.

— Mentira, eu sou linda de qualquer jeito! — Mizi protestou, já voltando ao seu tom debochado, embora não soltasse Sua nem por um segundo.

***

Dois meses se passaram.

O condomínio de luxo agora era o cenário de uma rotina que todos os amigos já conheciam. Era comum ver Mizi e Sua caminhando de mãos dadas pelo estacionamento, ou trocando beijos rápidos atrás da mesa de pingue-pongue. Elas "estavam ficando", como dizia Hyuna, mas o rótulo oficial ainda não existia.

Mizi, no entanto, estava decidida a mudar isso.

Ela planejou um jantar em um restaurante italiano charmoso, longe das vistas curiosas dos vizinhos. Ela passou a semana nervosa, consultando Luka sobre vinhos e pedindo dicas de "etiqueta" para Ivan, que só sabia rir da cara dela.

No restaurante, Mizi estava impecável em um vestido preto simples, enquanto Sua usava uma blusa de gola alta que a deixava com um ar sofisticado e misterioso. O jantar foi perfeito: massas, risadas e olhares intensos. Mas, toda vez que Mizi sentia a caixinha de veludo no bolso, sua coragem murchava. Ela, a grande Mizi, a garota confiante e provocadora, estava com medo de um "não".

O jantar terminou e elas voltaram para o condomínio. O silêncio da noite era agradável. Quando passaram pelo parquinho, Mizi parou.

— Vamos sentar um pouco? — perguntou, indicando os balanços.

Sua assentiu, sentando-se e deixando o corpo balançar levemente.

— O jantar foi incrível, Mizi. Obrigada.

Mizi parou na frente dela, o coração batendo tão forte que ela achava que Sua podia ouvir.

— Sua... eu ia fazer isso no restaurante, mas eu amarelei. Sou uma pateta, eu sei.

Sua arqueou uma sobrancelha, curiosa.

— Fazer o quê?

Mizi respirou fundo, fechou os olhos por um segundo e enfiou a mão no bolso. Ela estendeu a caixinha aberta. Dentro, dois anéis finos de prata brilhavam sob a luz dos postes. Um tinha uma pequena pedra roxa, da cor exata dos olhos de Sua. O outro, uma pedra dourada, como os olhos de Mizi.

— Eu não quero mais ser só a "vizinha que você fica" — Mizi disse, a voz tremendo levemente. — Eu quero ser sua namorada oficial. De verdade. Você aceita ficar com essa songa aqui pra sempre?

Sua olhou para os anéis e depois para Mizi. Um sorriso lento e genuíno se espalhou por seu rosto, iluminando suas feições melancólicas.

— É claro que eu aceito, Mizi.

Mizi literalmente explodiu. Ela deu um pulo, soltando um grito de alegria que provavelmente acordou metade do primeiro andar. Ela começou a pular em volta do balanço como uma criança que acabou de ganhar o maior doce do mundo.

— ELA DISSE SIM! CHUPA, MUNDO! — gritava Mizi, rindo alto.

Sua começou a rir da performance da namorada.

— Mizi! O anel! Você ainda não colocou em mim!

— Ah, é! — Mizi parou de pular, recuperando a compostura (ou tentando). — Nossa, eu sou muito tonta.

Ela pegou o anel com a pedra dourada e deslizou pelo dedo de Sua.

— Esse é pra você lembrar de mim sempre que olhar — disse Mizi, subitamente doce.

Sua pegou o outro anel, o de pedra roxa, e colocou no dedo de Mizi.

— E esse é pra você lembrar que tem alguém te esperando em casa.

Mizi não aguentou. Ela puxou Sua do balanço pela cintura e a levantou no ar, girando-a antes de selar o pedido com um beijo profundo, cheio de promessas e de uma felicidade que transbordava.

— Eu te amo, Sua — sussurrou Mizi entre os beijos, o rosto colado ao dela.

— Eu também te amo, sua songa — Sua respondeu, rindo e se aninhando no abraço de Mizi.

***

Na manhã seguinte, o sol de terça-feira entrou pela fresta da cortina do quarto de Mizi. Elas tinham acabado dormindo juntas, exaustas de tanta comemoração.

Mizi acordou primeiro. Ela ficou observando Sua dormir, os cabelos pretos espalhados pelo travesseiro, a expressão de paz que ela raramente mostrava ao mundo. Mizi sorriu, sentindo um calor confortável no peito. Ela levantou a mão e admirou o anel de pedra roxa brilhando em seu dedo.

Sua começou a despertar, piscando os olhos devagar. Ao ver Mizi a encarando com aquele olhar de "cachorrinho apaixonado", ela soltou um risinho preguiçoso.

— Bom dia, namorada — disse Sua, a voz rouca de sono.

Mizi se jogou em cima dela, cobrindo seu rosto de beijos estalados.

— Bom dia! Você quer café? Quer que eu busque pão? Quer que eu grite da sacada que a gente tá namorando?

— Eu quero que você fique aqui quietinha comigo por mais cinco minutos — Sua pediu, puxando Mizi para um abraço apertado.

Mizi obedeceu, acomodando-se nos braços de Sua. Ela estava feliz. O condomínio de luxo podia ser grande, moderno e luxuoso, mas para Mizi, o lugar mais bonito de todo aquele prédio era exatamente ali, entre os braços da garota de olhos roxos que, finalmente, era sua.

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