Inexperiente
Pulseiras Perdidas e Balanços na Madrugada
A noite no condomínio de luxo tinha uma aura diferente do dia. As luzes de LED embutidas no chão dos jardins criavam caminhos futuristas, e o silêncio era interrompido apenas pelo zumbido distante dos aparelhos de ar-condicionado e pelo vento soprando entre as torres.
Ivan e Sua haviam acabado de jantar. O apartamento ainda cheirava a tinta fresca e caixas de papelão, um ambiente que estava começando a deixar ambos claustrofóbicos.
— Não aguento mais ver o pai tentando decidir onde colocar aquele quadro feio — resmungou Ivan, pegando um pirulito de uva no pote da cozinha. — Vamos descer?
Sua, que estava sentada no chão do quarto organizando seus livros por cor, apenas suspirou.
— Para onde?
— Para qualquer lugar que não tenha cheiro de mudança. Tem um parquinho ali perto da quadra. A essa hora deve estar vazio.
Sua considerou a proposta. Ela gostava do escuro. Gostava de como o mundo parecia mais lento quando o sol se punha.
— Tá.
Os dois desceram em silêncio. O parquinho era uma área charmosa, com brinquedos de madeira nobre e areia tratada. Como Ivan previra, estava deserto. Eles se acomodaram nos dois balanços de madeira, as correntes rangendo levemente sob o peso deles.
Ivan começou a se balançar com força, jogando a cabeça para trás e observando as estrelas que mal apareciam devido à poluição luminosa da cidade. Sua apenas mantinha os pés tocando a areia, movendo-se minimamente, perdida em seus próprios pensamentos melancólicos.
— Sabe, Sua... — Ivan começou, a voz mais baixa que o normal. — Aquele pessoal da quadra hoje... eles pareciam ser o tipo de gente que não se importa com muita coisa. Acho que a gente vai se dar bem aqui.
— Você vai se dar bem — corrigiu ela. — Você fala com as paredes.
— E você é o tijolo que as paredes tentam convencer a sair do lugar.
Sua ia responder com algum insulto curto, mas foi interrompida por um som de passos rápidos na areia. Uma garotinha de cerca de seis anos, com Maria-chiquinhas e um vestido florido, surgiu do nada, parando bem na frente de Sua.
— Oi! — disse a menina, com a energia de quem tinha acabado de tomar um litro de refrigerante.
Sua piscou, surpresa. Ela não era muito boa com crianças; na verdade, não era muito boa com seres humanos em geral.
— Oi — respondeu, seca.
— Você é nova? Eu nunca te vi aqui. Eu moro no sétimo andar! — A menina não esperou resposta. Ela agarrou a mão pálida de Sua com uma força surpreendente. — Vamos brincar de queimada? Eu preciso de mais uma pessoa!
— Eu não... — Sua tentou protestar, mas a menina já estava puxando-a para fora do balanço.
— Vamos! É ali na quadra! — A garotinha começou a correr, arrastando uma Sua completamente confusa e desajeitada atrás de si.
Ivan, sentado no balanço, começou a rir descontroladamente.
— Boa sorte, maninha! Cuidado para não ser "queimada" pela pirralha!
Ele esperou alguns segundos, mas a curiosidade falou mais alto. Ele se levantou, limpando a areia da calça, e seguiu as duas até a quadra poliesportiva.
Ao chegar lá, a cena era curiosa. A luz dos refletores estava parcialmente apagada, deixando o ambiente em uma penumbra confortável. No centro da quadra, o grupo da tarde ainda estava lá, ou parte dele.
Mizi estava deitada no chão de cimento liso, com a cabeça apoiada confortavelmente nas pernas de Hyuna. Ela mexia no celular, o brilho da tela refletindo em seus olhos dourados. Hyuna, por sua vez, estava sentada com as costas na rede, conversando animadamente com Luka, que estava ao seu lado, parecendo dar uma aula sobre algum tópico obscuro. Um pouco mais afastado, Till treinava manchetes sozinho, o som da bola batendo em seus braços ecoando ritmicamente.
A menininha entrou na quadra como um furacão, ainda puxando Sua.
— Mizi! Mizi! Olha, eu achei uma amiga! — gritou a pequena.
Mizi bloqueou o celular e levantou a cabeça, deixando um sorriso largo escapar ao ver a vizinha de andar.
— E aí, pequena? Onde você sequestrou essa daí? — Mizi perguntou, sentando-se e olhando para Sua com um interesse renovado.
Sua estava parada, parecendo uma estátua de gelo sob o calor dos refletores. Ela sentia o olhar de todos sobre si. Till parou de treinar, a bola rolando para longe. Luka ajustou os óculos, observando a interação.
— Ela vai brincar com a gente! — declarou a menina, puxando Sua para o círculo onde Mizi e Hyuna estavam.
Mizi se levantou, limpando a parte de trás do short. Ela se aproximou de Sua, ficando a poucos centímetros da garota de olhos roxos.
— Oi de novo — disse Mizi, com um tom de voz descontraído e provocador. — A vizinhinha aqui não aceita "não" como resposta, né?
Sua sentiu a garganta secar. Mizi tinha um cheiro doce, algo como chiclete de morango, e sua presença era esmagadora, radiante demais para alguém que preferia as sombras.
— É... eu percebi — Sua murmurou, desviando o olhar para o chão.
Nesse momento, Ivan entrou na quadra. Ele percebeu imediatamente o desconforto da irmã. Sua estava com os ombros tensos e a respiração curta. Para qualquer outra pessoa, ela parecia apenas tímida, mas Ivan sabia que ela estava a um passo de ter uma crise de ansiedade por excesso de estímulo social.
Ele caminhou até eles, com as mãos nos bolsos e um sorriso cínico.
— Opa, desculpa interromper a reunião de condomínio — disse Ivan, parando ao lado de Sua e passando o braço pelos ombros dela, puxando-a para perto. — Mas a minha irmã tem hora para tomar o remédio de... bom, o remédio dela.
Mizi arqueou uma sobrancelha, claramente percebendo que era uma desculpa esfarrapada, mas não se importou.
— Ah, entendi. Uma pena. A gente ia começar o massacre da queimada agora.
Ivan deu um tapinha no ombro de Sua.
— Fica para a próxima, cabelo de algodão-doce. Vamos, Sua.
Ele saiu puxando a irmã para fora da quadra antes que qualquer outra pessoa pudesse falar algo. Mizi apenas deu de ombros, soltando uma risada curta, e voltou a dar atenção à garotinha, que já estava tentando convencer Till a ser o alvo.
Já de volta aos balanços, longe da luz forte da quadra, Ivan soltou Sua.
— Caralho, Sua. Você parecia que ia infartar. Suas mãos estavam tremendo.
Sua respirou fundo, sentindo o ar fresco da noite acalmar seus pulmões.
— Ela fala demais. E é... muito colorida.
Ivan riu, sentando-se novamente no balanço.
— A Mizi? É, ela parece ser um evento astronômico ambulante. Mas você precisa aprender a lidar, ou vai passar os próximos anos trancada naquele quarto.
Eles ficaram ali por mais uns vinte minutos. A menininha eventualmente foi chamada pela mãe e subiu. Luka também se despediu do grupo, alegando que precisava revisar uma matéria de física antes de dormir.
Hyuna e Till começaram a caminhar em direção à saída da quadra, conversando sobre música, com Mizi logo atrás. No entanto, algo no chão chamou a atenção da garota de cabelos rosa.
Perto de onde Sua estava parada minutos antes, havia um objeto brilhante caído na areia que invadira a borda da quadra. Mizi se abaixou e pegou. Era uma pulseira de couro trançado, simples, mas com um fecho de prata bem distinto.
— Ei, gente, vão indo na frente — disse Mizi para os amigos. — Esqueci uma coisa.
— Não demora, Mizi! — gritou Hyuna, já se afastando com Till.
Mizi olhou para a pulseira e depois para a área dos balanços. Ela viu as duas silhuetas sentadas lá no escuro. Ela sabia que a pulseira era da garota baixinha; tinha reparado nela quando a menina estava sendo arrastada pela criança.
Com um sorriso brincalhão nos lábios, Mizi caminhou até o parquinho.
Ivan e Sua viram a figura colorida se aproximar. Sua sentiu o coração acelerar novamente, mas dessa vez não era apenas ansiedade.
— Perdeu isso, não perdeu? — Mizi perguntou, estendendo a mão com a pulseira.
Sua olhou para o próprio pulso e percebeu o vazio. Ela se levantou lentamente e pegou o objeto da mão de Mizi.
— Perdi. Obrigada.
— De nada — respondeu Mizi, cruzando os braços e avaliando os dois. — Eu sou a Mizi, a propósito. Aquele loiro nerd é meu irmão, o Luka. Os outros dois são o Till, que é um projeto de emo revoltado, e a Hyuna, que é a pessoa mais legal desse prédio depois de mim.
Ivan soltou uma risada, achando a autoconfiança dela fascinante.
— Eu sou o Ivan. E essa criatura antissocial é a Sua.
— Prazer, Ivan. Prazer, Sua — disse Mizi, dando um passo à frente, entrando no pouco de luz que chegava ao parquinho. — Vocês parecem ser gente boa, apesar de fugirem de crianças de seis anos como se fossem monstros.
— Ela é assustadora — murmurou Sua, o que fez Mizi gargalhar alto.
— Gostei de você, Sua. Você é direta. Escuta, vocês têm Twitter? Ou X, ou seja lá como chamam aquela desgraça agora?
Ivan pegou o celular imediatamente.
— Tenho. O meu é @Ivan_Night.
Mizi digitou rapidamente no aparelho dela.
— Segui. E o seu, Sua? Não me diga que você ainda usa sinais de fumaça.
Sua hesitou, mas a pressão do olhar dourado de Mizi foi demais.
— @Sua_Purple.
— Perfeito. Agora eu realmente preciso ir, ou a Hyuna vai achar que eu fui sequestrada por um alienígena. Vejo vocês por aí, vizinhos!
Mizi acenou de costas enquanto se afastava, o cabelo rosa balançando ritmicamente.
Ivan olhou para o celular, vendo a notificação de "Mizi seguiu você".
— Viu? Não doeu nada.
— Minha cabeça dói — reclamou Sua, embora estivesse colocando a pulseira de volta no pulso com um cuidado incomum.
Eles subiram para o apartamento pouco depois. O silêncio do elevador parecia diferente agora, menos vazio.
Ao entrar em seu quarto, Mizi se jogou na cama e abriu o grupo de mensagens que tinha com Luka, Till e Hyuna.
*Mizi: "Descobri o nome dos novatos! Ivan e Sua."*
*Hyuna: "E aí? São legais ou vamos ter que expulsar do condomínio?"*
*Mizi: "O Ivan é engraçado, meio provocador. A Sua é... interessante. Ela é super quieta, parece que está sempre processando o sentido da vida, mas é fofa de um jeito estranho. Acho que eles vão encaixar bem no nosso caos."*
*Till: "O cara do cabelo preto? Ele tem cara de quem vai me irritar."*
*Mizi: "Com certeza vai, Till. Por isso mesmo que eu gostei dele. Boa noite, perdedores."*
No quinto andar, Ivan já estava roncando, abraçado a um travesseiro. Sua, no entanto, estava acordada. Ela olhava para a tela do celular, para o perfil de Mizi. A foto de perfil era uma imagem dela fazendo uma careta, com cores vibrantes e um sorriso que parecia iluminar o quarto escuro de Sua.
Ela bloqueou o aparelho e fechou os olhos. Pela primeira vez em semanas, ela não estava pensando no que tinha deixado para trás na antiga cidade, mas sim no que aconteceria na manhã seguinte quando descesse para a quadra.