Voltar ao resumo

Inexperiente

Bolhas de Sabão e Expectativas Quebradas

A manhã de sábado no condomínio nasceu com aquele sol preguiçoso que entrava pelas frestas das cortinas blackout do quinto andar. Sua abriu os olhos lentamente, sentindo o peso do silêncio do apartamento. Ivan já devia estar acordado; ele tinha essa energia irritante de quem despertava pronto para o mundo. Ela se levantou, vestiu uma calça legging preta e uma regata básica, decidida a cumprir sua cota de exercícios na academia do prédio. Pelo menos lá, com os fones de ouvido, ela poderia fingir que o resto da humanidade não existia.

Ao chegar em frente ao elevador, apertou o botão de descida. O painel digital indicava que a cabine vinha do sétimo andar. Quando as portas de aço escovado se abriram, Sua sentiu um pequeno solavanco no peito.

Mizi estava lá dentro.

Ela usava um conjunto esportivo azul vibrante que contrastava terrivelmente bem com o cabelo rosa. Mizi estava encostada na parede do elevador, mas assim que viu Sua, endireitou a postura e abriu um sorriso que parecia iluminar o espaço confinado.

— Bom dia, vizinha! — exclamou Mizi, com aquela voz melodiosa e cheia de vida.

Sua respirou fundo, tentando manter a expressão neutra, e entrou no elevador. As portas se fecharam, deixando-as sozinhas no pequeno cubículo enquanto os números desciam lentamente.

— Bom dia — respondeu Sua, a voz baixa, quase um sussurro.

— Indo malhar cedo? — Mizi continuou, sem se intimidar com a economia de palavras da outra. — Eu tô saindo para encontrar a Hyuna. A gente vai tomar um café e fazer umas compras. Você devia ir com a gente qualquer dia desses, Sua!

Sua olhou para os próprios pés, sentindo o calor subir pelas bochechas. A espontaneidade de Mizi era desconcertante.

— Talvez — disse Sua, embora soubesse que provavelmente morreria de exaustão social em dez minutos.

— Vou cobrar, hein? — Mizi piscou para ela no reflexo do espelho do elevador. — Você é muito fofa quando está com vergonha.

O elevador parou no térreo. Mizi saiu saltitando, acenando para Sua antes de cruzar a portaria, onde Hyuna já a esperava encostada em um pilar, mexendo no celular. Sua ficou parada por um segundo, observando as duas se afastarem entre risadas, antes de seguir para a academia.

O ambiente da academia era moderno, com cheiro de borracha e produtos de limpeza caros. Ivan estava em uma das esteiras, correndo como se estivesse fugindo de um apocalipse, com o cabelo preto grudado na testa pelo suor. Mais ao fundo, em um dos bancos de musculação, Sua avistou Luka. Ele usava fones de ouvido grandes e lia um livro enquanto fazia repetições lentas e precisas.

Sua não falou com Ivan, e muito menos com Luka. Ela apenas escolheu um transport no canto oposto, colocou seus fones e mergulhou em uma playlist de indie melancólico. Luka também não desviou o olhar do livro; ele parecia estar em sua própria bolha de erudição e disciplina. Ivan, ao notar a irmã, apenas acenou com a mão de longe, sem diminuir o ritmo da corrida.

Cerca de uma hora depois, os irmãos se encontraram na saída da academia. Ivan estava bebendo água como se não visse líquido há dias.

— Aquele loiro ali... o irmão da Mizi — começou Ivan, limpando a boca com as costas da mão enquanto caminhavam para o elevador. — O cara é um robô. Ele nem pisca.

Sua apertou o botão do elevador, o olhar perdido na porta metálica.

— Ele só é focado, Ivan. Diferente de você.

— Focado no quê? Em ser chato? — Ivan riu, mas logo mudou o tom, percebendo que Sua estava aérea demais. — E aí? Encontrou a "algodão-doce" no caminho?

Sua hesitou, mas acabou cedendo.

— Ela estava no elevador. Estava saindo com a Hyuna.

— E...? — Ivan arqueou uma sobrancelha, o tom provocador voltando com força total.

— E nada. Ela só falou que eu sou fofa.

Ivan soltou uma gargalhada alta que ecoou pelo hall.

— Ih, olha só! A geladeira do quinto andar está derretendo!

— Cala a boca, Ivan — Sua retrucou, sentindo o rosto queimar. — Você acha que ela... você acha que ela namora?

Ivan parou de rir por um segundo, surpreso com a pergunta direta. Ele olhou para a irmã, vendo a ponta de curiosidade genuína (e talvez um pouco de medo) nos olhos roxos dela.

— Olha, pelo jeito dela? Ela parece o tipo de pessoa que namora o mundo inteiro ao mesmo tempo. Mas se você quer saber se tem um cara ou uma garota oficial... eu apostaria que não. Ela tem energia de quem é livre demais para se prender fácil. Mas por que a pergunta? Já está planejando o casamento?

— Eu só perguntei — disse Sua, entrando no elevador que acabara de chegar.

Para a surpresa deles, Till já estava dentro da cabine. Ele parecia ter acabado de acordar, com o cabelo cinza mais bagunçado que o normal e uma cara de poucos amigos. Ele morava no quarto andar e provavelmente estava voltando da padaria, a julgar pelo saco de pão na mão.

Ivan, sentindo o cheiro de oportunidade no ar, abriu um sorriso largo.

— E aí, revoltado? Acordou agora ou o mundo ainda não está pronto para o seu mau humor? — Ivan disse, encostando-se na parede do elevador de forma desleixada.

Till revirou os olhos verdes, soltando um suspiro pesado.

— Vai se ferrar, Ivan. São dez da manhã de um sábado.

— E você está uma gracinha com esse cabelo de ninho de passarinho — Ivan continuou, aproximando-se um pouco mais do espaço pessoal de Till. — Sabia que o cinza combina com o seu tom de pele "estou-morrendo-por-dentro"?

— Você não tem mais o que fazer não? — Till retrucou, mas havia menos raiva e mais resignação na voz dele. Ele já estava se acostumando com as provocações gratuitas do vizinho novo.

— Tenho, mas irritar você é muito mais produtivo — Ivan piscou.

O elevador parou no quarto andar. Till saiu sem olhar para trás, murmurando um palavrão baixo, mas Ivan ainda gritou um "Tchau, lindeza!" antes das portas se fecharem.

— Você é impossível — disse Sua, balançando a cabeça.

— Eu sou um raio de sol na vida daquele emo, ela só não sabe ainda — Ivan respondeu, convencido.

Enquanto isso, em uma sorveteria charmosa a poucas quadras do condomínio, Mizi e Hyuna compartilhavam uma taça gigante de sundae. Mizi estava ocupada tirando fotos do sorvete e de Hyuna, que tentava se esconder atrás de um guardanapo.

— Para com isso, Mizi! Eu tô horrível — reclamou Hyuna, embora estivesse rindo.

— Você está maravilhosa! — Mizi postou a foto no Twitter com a legenda: *"Sorvete e fofocas com a melhor vizinha que o mundo já viu! 🍦💖"*

— E aí? — Hyuna perguntou, mudando de assunto enquanto pegava uma colherada de chocolate. — Como está a missão de "adotar" os novos vizinhos?

— O Ivan é uma figura — Mizi comentou, guardando o celular. — Mas a Sua... Hyuna, ela é tão misteriosa. Parece que ela tem um universo inteiro guardado dentro daquela cabeça e não deixa ninguém entrar. Eu quero muito ser amiga dela.

Hyuna deu um sorriso de lado, um pouco mais contido.

— Ela é difícil. Mas você consegue. E o irmão dela? O Ivan? Ele parece ter gostado do Till.

— Todo mundo gosta de irritar o Till — Mizi riu. — Mas e você, Hyuna? E o meu irmão?

Hyuna quase engasgou com o sorvete. O rosto dela ficou subitamente interessado na calda de caramelo no fundo da taça.

— O Luka? O que tem ele?

— Ah, não se faça de boba. Eu vejo como vocês se olham. Vocês dois são dois idiotas. Ele é todo formal e você é toda solta, mas quando vocês estão juntos, parece que o mundo faz sentido. Por que você não chama ele para sair logo?

— Porque ele é o seu irmão e ele é... bem, ele é o Luka — Hyuna suspirou. — Ele provavelmente prefere os livros dele a mim.

— Você ficaria surpresa — Mizi murmurou, com um olhar cúmplice.

De volta ao condomínio, Ivan estava jogado no sofá quando viu a notificação da postagem de Mizi. Ele abriu a foto, viu Mizi e Hyuna sorridentes e não resistiu em comentar: *"Enquanto umas tomam sorvete, outros sofrem na esteira. A injustiça desse condomínio é real."*

Ele virou o celular para Sua, que estava sentada na mesa da sala tentando ler.

— Olha aqui. A sua paixão está comendo açúcar.

Sua olhou para a tela. Mizi estava radiante na foto. O brilho nos olhos dela parecia saltar do visor do celular. Sua sentiu uma pontada de algo que não soube identificar. Talvez fosse inveja da liberdade de Mizi, ou talvez fosse apenas a vontade de estar naquela sorveteria também.

A tarde passou lenta. Por volta das sete da noite, a campainha do apartamento 502 tocou. Ivan foi abrir, esperando que fosse alguma entrega de comida que ele tinha esquecido, mas deu de cara com Hyuna. Ela usava uma jaqueta jeans e tinha uma bola de vôlei debaixo do braço.

— E aí, dupla dinâmica? — Hyuna disse, com seu carisma habitual. — A gente vai descer para a quadra agora. Querem vir?

Ivan olhou para trás, para Sua, que já estava de pé, ouvindo a conversa.

— Vôlei? — Ivan perguntou. — Eu topo. E a Sua também.

— Eu não disse que... — Sua começou, mas Ivan já estava pegando os casacos deles.

Quando chegaram à quadra, o grupo já estava reunido sob os refletores. Luka estava encostado na mureta, conversando com Till, que parecia mais calmo do que no elevador. Hyuna se juntou a eles, e logo todos formaram um círculo no centro da quadra.

— Vamos só manter a bola no alto — sugeriu Luka. — Sem times, só manchete e levantamento.

Eles começaram. A bola ia de um lado para o outro. Luka tinha movimentos precisos; Hyuna era rápida e técnica; Till batia na bola com uma força desnecessária, descontando alguma frustração; Ivan fazia piadas a cada toque, tentando desconcentrar os outros.

Sua participava, mas seus olhos vasculhavam constantemente os arredores. Ela esperava ver um vulto rosa surgir a qualquer momento. Cinco minutos se passaram. Dez. Quinze.

— Ei — Ivan perguntou, enquanto recebia uma bola de Luka —, onde está a algodão-doce?

Luka ajeitou os óculos após um levantamento.

— A Mizi? Ela apagou assim que chegou da rua. Estava morta de cansaço. Provavelmente só acorda amanhã.

Sua sentiu um peso no estômago. A decepção foi instantânea e cortante. Ela tinha descido apenas porque esperava ver Mizi. A ideia de passar a noite ali, socializando com os outros sem a presença vibrante da garota de cabelos rosa, pareceu subitamente exaustiva.

Ela jogou mais duas vezes, mas seu coração não estava mais ali.

— Gente, eu... eu esqueci que tenho que terminar um capítulo para o cursinho — Sua mentiu, a voz saindo mais seca do que o pretendido. — Vou subir.

— Já? — Hyuna perguntou, surpresa. — A gente acabou de começar.

— É, eu preciso ir. Tchau.

Sua saiu da quadra sem olhar para trás. Ivan suspirou, sabendo exatamente o que tinha acontecido, mas decidiu ficar e continuar a provocação com Till.

No apartamento, Sua se trancou no quarto. Ela se sentia idiota. Por que tinha criado tanta expectativa? Ela pegou o celular e, em um momento de vulnerabilidade melancólica, postou nos seus "close friends" (onde só tinha Ivan e alguns conhecidos antigos) uma imagem de um céu nublado com uma figurinha de um coração remendado e a frase: *"Às vezes a gente espera demais de quem nem sabe que a gente existe."*

Cerca de quarenta minutos depois, a energia na quadra acabou e todos subiram para seus respectivos lares. Ivan chegou ao apartamento, tomou um banho e, antes de dormir, resolveu stalkear Till no Twitter. Ele descobriu que o garoto postava letras de músicas obscuras e fotos de guitarras, o que só o deixou mais interessado em continuar a perturbá-lo.

No sétimo andar, Mizi acordou de sobressalto no meio da madrugada. O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz da lua que passava pela janela. Ela tateou a cama em busca do celular para ver a hora.

Ao abrir o Twitter, viu a notificação de um novo post de Sua. Ela clicou, ainda meio sonolenta, com os olhos ardendo pela luz da tela. Ela viu a imagem do céu nublado e a frase triste.

Mizi, em seu estado de semi-consciência, não processou a profundidade da melancolia ou o motivo. Ela apenas achou que Sua estava tendo uma noite ruim.

— Ah, tadinha... — Mizi sussurrou para si mesma.

Ela digitou um comentário rápido, sem pensar muito, algo que soou totalmente aleatório e "songa-monga" devido ao sono: *"Céus nublados são bons para dormir! Amanhã o sol volta e a gente toma sorvete de novo! 🌸✨"*

Mizi bloqueou o celular e caiu no sono novamente segundos depois, com um sorriso inconsciente no rosto.

Do outro lado do prédio, no quinto andar, Sua já estava mergulhada em um sono profundo e sem sonhos. Ela nem viu a notificação. A pulseira de couro trançado, que Mizi tinha devolvido na noite anterior, brilhava solitária em cima da mesa de cabeceira, esperando pelo dia em que as expectativas de Sua não seriam apenas quebradas, mas transformadas em algo novo.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.