Infantilismo
O Silêncio das Gravatas e o Caos das Cores
A manhã na cobertura de Jeon Jungkook começou de uma forma que desafiava todas as leis da física e da etiqueta corporativa. O despertador, que normalmente tocava às cinco e meia da manhã, havia sido sumariamente jogado sob a cama por Nari ainda durante a madrugada, quando ela se esgueirou para o quarto do namorado, alegando que "os monstros do armário tinham medo do perfume do Kookie".
Jungkook acordou sentindo um peso morto sobre seu peito. Não era o peso de um relatório de fusão ou a pressão de uma queda na bolsa de valores; era o braço de Nari, jogado desajeitadamente sobre seu pescoço, e um pé pequeno que chutava levemente sua canela a cada cinco minutos. Ele suspirou, olhando para o teto. Tinha três reuniões por videoconferência canceladas e aproximadamente quarenta e duas mensagens não lidas de Minji, sua secretária.
— Kookie... — Nari murmurou, ainda de olhos fechados, mas com um sorriso travesso começando a se formar. — A Nari sabe que você está acordado. Eu sinto seu coração batendo rápido.
— É porque você está me esmagando, Nari — Jungkook respondeu, a voz rouca pelo sono, mas sem a dureza habitual. — E já são nove horas. Eu nunca acordo às nove horas.
Nari abriu um dos olhos, brilhando de alegria. Ela se sentou abruptamente sobre ele, os cabelos castanhos bagunçados e o pijama de ursinhos levemente desalinhado.
— Hoje não tem relógio! — Ela decretou, batendo palmas. — Hoje tem panquecas de coelhinho e desenhos animados. O Kookie prometeu!
Jungkook sentiu o celular vibrar no criado-mudo. Instintivamente, sua mão se estendeu para o aparelho. Antes que seus dedos pudessem tocá-lo, Nari deu um bote, pegando o celular primeiro e escondendo-o atrás das costas com uma expressão de choque fingido.
— Não! — Ela fez um bico imenso. — O Kookie disse: sem telefone. Se você pegar, a Nari vai dar o celular para o peixinho dourado nadar com ele.
— Nari, eu só preciso ver se há alguma emergência na empresa — ele tentou argumentar, sentando-se na cama e passando a mão pelo rosto. — Um minuto.
— Emergência é a Nari estar com fome! — Ela se levantou da cama, levando o celular consigo para o corredor. — Vou esconder em um lugar que o Kookie nunca vai achar. Só devolvo quando o sol for dormir!
Jungkook soltou um suspiro pesado, mas uma pequena curva de sorriso apareceu no canto de seus lábios. Ele se levantou, vestindo um robe de seda preta, e a seguiu até a cozinha. O apartamento, geralmente um santuário de minimalismo e silêncio, já estava começando a ser invadido por brinquedos espalhados.
Na cozinha, Nari já estava em cima de um banquinho, tentando alcançar os potes de confeitos coloridos.
— Nari, desça daí. Você vai cair — Jungkook ordenou, aproximando-se e pegando-a pela cintura para colocá-la no chão.
— A Nari quer as estrelinhas de açúcar! — Ela apontou para o armário alto. — Panqueca sem estrela é só pão chato.
— Eu faço as panquecas. Você fica sentada e escolhe o desenho — ele disse, começando a separar os ingredientes.
Ver Jeon Jungkook, o homem que fazia tubarões de Wall Street tremerem, quebrando ovos e tentando desenhar orelhas de coelho com massa de panqueca era uma visão surreal. Ele era preciso, quase cirúrgico, mas Nari não facilitava.
— Mais calda! Mais! — Ela gritava da mesa, balançando as pernas. — E o Kookie tem que usar isso.
Ela tirou de trás das costas uma tiara de orelhas de gato felpudas, um acessório que ela usava para brincar.
— Nem pensar — Jungkook disse, voltando-se para o fogão. — Eu já cancelei meu dia de trabalho, Nari. Não vou usar orelhas de gato.
— Se não usar, a Nari não come. E se a Nari não comer, ela fica triste. E se ela ficar triste, ela liga para o Tio Tae vir buscar ela — ela disse com uma voz doce, mas carregada de uma chantagem emocional que ela sabia que funcionava perfeitamente.
O maxilar de Jungkook travou. O simples menção a Taehyung limpando as lágrimas de Nari ou fazendo-a rir era o suficiente para quebrar qualquer resquício de dignidade corporativa que ele ainda possuísse. Ele se aproximou da mesa, pegou a tiara e a colocou sobre a cabeça, sentindo o ridículo da situação queimar em suas bochechas.
— Satisfeita? — perguntou ele, cruzando os braços.
Nari soltou uma gargalhada cristalina, levantando-se para dar um abraço apertado na cintura dele.
— O Kookie é o gatinho mais lindo do mundo! — Ela exclamou, voltando a se sentar para devorar as panquecas.
O resto da manhã foi uma sucessão de momentos que Jungkook nunca admitiria ter apreciado. Eles assistiram a três horas seguidas de um desenho sobre pôneis mágicos. Jungkook tentou ler um livro de economia em seu tablet, mas Nari o obrigou a segurar uma boneca desdentada enquanto ela fazia um "chá de mentirinha".
Por volta do meio-dia, o interfone tocou. Jungkook se levantou com uma agilidade que denunciava o quanto ele queria uma desculpa para sair daquele sofá coberto de migalhas de biscoito.
— Deve ser algo importante — ele murmurou.
Era o segurança do prédio avisando que a Senhorita Minji estava no saguão com documentos urgentes que precisavam de "assinatura física imediata".
— Mande-a subir — Jungkook disse, esquecendo-se completamente da tiara de gato em sua cabeça.
Nari, que estava concentrada em pintar um livro de colorir, parou imediatamente. Suas orelhas pareceram ficar em pé ao ouvir o nome da secretária.
— A moça feia de novo? — Nari perguntou, fechando o livro com força. — O Kookie disse que hoje era o dia da Nari!
— É rápido, meu amor. Eu só assino e ela vai embora — Jungkook explicou, tentando acalmá-la.
Cinco minutos depois, Minji entrou na sala. Ela estava impecável como sempre, segurando uma pasta de couro. Quando seus olhos pousaram em Jungkook — o grande Jeon Jungkook, de robe de seda e orelhas de gato felpudas —, ela paralisou. Sua boca se abriu levemente, e ela piscou várias vezes, tentando processar a imagem.
— Senhor Jeon... eu... os papéis da exportação... — Ela gaguejou, desviando o olhar para o chão para não rir.
— Apenas me dê a caneta, Minji — Jungkook disse, a voz subitamente gélida, tentando recuperar sua autoridade apesar do acessório ridículo.
Nari se levantou do tapete e caminhou até eles. Ela não ficou apenas observando. Ela se posicionou exatamente ao lado de Jungkook, segurando sua mão com força e lançando um olhar mortal para a secretária.
— O Kookie está ocupado brincando com a Nari — ela declarou, a voz firme e infantil ao mesmo tempo. — Você está atrapalhando o chá das bonecas.
— Sinto muito, Senhorita Kim — Minji respondeu com um sorriso forçado. — É apenas uma assinatura.
Enquanto Jungkook lia o documento rapidamente, Minji tentou ser simpática.
— Você está muito bonita hoje, Nari. Esse vestido de coelhinhos é novo?
Nari não respondeu. Em vez disso, ela viu que uma das mãos de Minji estava perto demais do braço de Jungkook enquanto ela apontava onde assinar. Com um movimento rápido, Nari pegou o copo de suco de uva que estava na mesinha de centro e, com uma "falta de jeito" muito bem calculada, tropeçou.
O líquido roxo voou, atingindo em cheio a saia bege caríssima da secretária e uma ponta dos documentos.
— Oh! — Nari exclamou, cobrindo a boca com as mãos, embora seus olhos brilhassem de satisfação. — A Nari é tão desastrada! Desculpa, moça!
Minji soltou um grito abafado, olhando para a mancha que se espalhava pelo tecido fino. Jungkook fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Ele sabia exatamente o que tinha acontecido.
— Minji, vá até o banheiro de serviço e tente limpar isso. Depois, peça ao motorista para levá-la para casa. Eu assino o restante digitalmente mais tarde — Jungkook ordenou, sem olhar para Nari.
Assim que a secretária saiu apressada, Jungkook se virou para a namorada. Ele tirou a tiara de gato e a colocou sobre a mesa.
— Nari. Olhe para mim.
Ela fez um bico, olhando para os próprios pés.
— Foi um acidente, Kookie... a Nari tropeçou no tapete invisível.
— Não existia tapete invisível nenhum — ele disse, pegando-a pelo queixo com delicadeza para que ela o encarasse. — Você foi malcriada. Eu disse que hoje seria o nosso dia, mas você não pode tratar as pessoas assim só porque está com ciúmes.
— Ela olha para você de um jeito esquisito! — Nari explodiu, as lágrimas começando a surgir. — Ela é grande, ela entende as coisas que você fala, ela usa roupas bonitas de escritório. A Nari só usa pijama e não sabe o que é "fusão de mercado". Eu tive medo do Kookie querer uma namorada grande!
O coração de Jungkook, que ele tanto se orgulhava de ser feito de pedra, amoleceu instantaneamente. Ele a puxou para um abraço, sentindo o corpo pequeno dela tremer contra o dele.
— Nari, escute bem — ele sussurrou perto do ouvido dela. — Eu lido com pessoas "grandes" o dia todo. Elas são chatas, previsíveis e gananciosas. Eu não quero uma secretária como namorada. Eu quero você. Eu quero as suas panquecas queimadas, os seus desenhos na parede e até essa sua teimosia irritante. Você é a única que consegue me fazer usar orelhas de gato. Ninguém mais tem esse poder.
Nari fungou, limpando o nariz na gola do robe dele.
— Promete?
— Prometo. Mas agora, como castigo por ter molhado a Minji, você vai me ajudar a limpar essa sala e depois vai pedir desculpas a ela por telefone.
Nari fez uma careta.
— Tudo bem... mas só se depois a gente puder ligar para o Jimin para eu contar que o Kookie usou orelhas de gato!
O corpo de Jungkook ficou rígido no mesmo instante. O ciúme, aquele monstro verde que ele tentava domar, rugiu novamente.
— Nem pensar — ele disse, a voz voltando ao tom autoritário. — Você não vai ligar para o Jimin. E se eu souber que você contou isso para ele ou para o Taehyung, eu vou...
— Vai o quê? — Nari desafiou, com um sorriso travesso, já sabendo que tinha o controle da situação.
— Eu vou confiscar aquele seu tablet novo por um mês — ele ameaçou, embora soubesse que provavelmente acabaria comprando um segundo para ela se ela chorasse por cinco minutos.
— O Kookie é muito ciumento! — Ela riu, correndo para o quarto para buscar seus materiais de limpeza de brinquedo. — Ciumento e gatinho!
Jungkook ficou parado na sala, olhando para a mancha de suco no tapete e para os documentos arruinados. Ele era um dos homens mais poderosos da Coreia, mas ali, no silêncio daquela tarde de sábado, ele percebeu que sua maior riqueza não estava nas ações da empresa, mas na menina que acabara de voltar correndo, usando um espanador de penas coloridas como se fosse uma varinha mágica.
— Vamos, Kookie! — Ela exclamou, entregando a ele um pano de prato. — O gatinho tem que trabalhar!
Jungkook sorriu de verdade, um sorriso que nunca aparecia nas colunas sociais.
— Tudo bem, Nari. O gatinho vai trabalhar.
Eles passaram o resto da tarde limpando a "bagunça", o que na verdade resultou em mais bagunça, já que Nari decidiu que o sabão fazia bolhas muito bonitas para serem ignoradas. Jungkook acabou encharcado de água e sabão, rindo enquanto perseguia Nari pelo corredor.
No final do dia, exaustos, eles se jogaram no sofá. Nari adormeceu quase instantaneamente, com a cabeça no colo de Jungkook. Ele acariciou os cabelos dela, sentindo uma paz que o mundo corporativo jamais poderia oferecer.
Seu celular, que estava escondido dentro de um vaso de flores (ele finalmente encontrara), vibrou. Era uma mensagem de Taehyung: "Fiquei sabendo que o CEO Jeon está de folga hoje. Se precisar de ajuda para entreter a Nari, estou disponível. Ela mencionou que queria ir ao parque amanhã."
Jungkook sentiu os dedos formigarem. Ele digitou rapidamente: "Ela não vai a lugar nenhum com você, Taehyung. E amanhã ela vai dormir até tarde comigo. Vá arranjar sua própria namorada e pare de tentar roubar a atenção da minha."
Ele enviou a mensagem e desligou o aparelho definitivamente. Olhou para Nari, que ressonava baixinho, e sentiu uma onda de possessividade doce. Ela era dele. Com seu infantilismo, suas birras, seu brilho e sua pureza. E ele, o homem de gelo, estava perfeitamente feliz em derreter um pouco mais a cada dia, contanto que fosse ela a segurar o sol.
Naquela noite, as gravatas de seda de Jungkook permaneceram intocadas no closet. O mundo lá fora continuava girando, frenético e frio, mas dentro daquela cobertura, o tempo havia parado no ritmo de um desenho animado e no aroma de suco de uva e algodão-doce. E para Jeon Jungkook, isso era mais do que suficiente.