Infantilismo
O Labirinto do Ciúme e o Silêncio do Gelo
A manhã de segunda-feira sempre trazia de volta o Jeon Jungkook que o mundo conhecia: o empresário de olhar afiado, terno impecável e uma aura de intocabilidade. No entanto, para Nari, aquela transição era sempre dolorosa. Depois de um domingo inteiro de mimos e atenção, ver o "Kookie" se transformar novamente no "Senhor Jeon" era como ver o sol se esconder atrás de uma nuvem de gelo.
— O Kookie já vai? — Nari perguntou, arrastando os pés pelo corredor de mármore, abraçada ao seu coelho de pelúcia encardido.
— Tenho uma reunião às oito, Nari. Já conversamos sobre isso — Jungkook respondeu sem se virar, ajustando o nó da gravata de seda em frente ao espelho. — O motorista passará para te levar à escola de artes às dez. Comporte-se.
— Mas a Nari queria que o Kookie me levasse hoje... — Ela fez um bico, aproximando-se e puxando a manga do paletó dele.
Jungkook soltou um suspiro impaciente e afastou a mão dela com delicadeza, mas com uma firmeza que a fez encolher os ombros.
— Sem birras hoje, Nari. Eu não tenho tempo. Se você for uma boa menina, talvez eu chegue cedo para o jantar.
A palavra "talvez" ecoou na mente de Nari como uma promessa vazia. Assim que a porta da cobertura se fechou com um clique metálico, a tristeza dela se transformou em rebeldia. Ela não queria ser uma "boa menina" se isso significava ficar sozinha com os seguranças e uma professora de artes que cheirava a tinta velha.
Seu celular — que Jungkook havia devolvido sob a condição de que ela não ligasse para "certas pessoas" — vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem de Jimin.
"Nari-chan! O Tio Tae e eu estamos indo tomar milkshake de unicórnio no shopping novo. Quer fugir com a gente? O motorista do seu namorado chato nem vai perceber."
Os olhos de Nari brilharam. Ela sabia que Jungkook ficaria furioso. Ele odiava Jimin porque Jimin a tratava como uma igual em seu mundo de fantasias, e odiava Taehyung porque ele era o único que conseguia fazê-la rir quando Jungkook a fazia chorar.
— A Nari vai sim! — ela sussurrou para si mesma, correndo para trocar o pijama por um vestido rodado.
Ela conseguiu enganar o segurança dizendo que Jungkook havia autorizado que ela fosse para a escola mais cedo com um "amigo da família". Quando o carro de Taehyung parou na esquina, Nari pulou para dentro com um grito de alegria.
— Missão resgate concluída! — Taehyung exclamou, acelerando o carro enquanto Jimin entregava a Nari um pirulito gigante.
— O Kookie vai ficar muito bravo se descobrir — Jimin comentou, rindo. — Ele é como um dragão protegendo um tesouro.
— O Kookie é um bobo — Nari sentenciou, lambendo o doce. — Ele só gosta de papéis e daquela secretária de saia apertada. Hoje a Nari vai ser livre!
A tarde foi um sonho. Eles foram ao fliperama, comeram hambúrgueres e tiraram dezenas de fotos em cabines automáticas com filtros de orelhas de coelho e corações. Nari estava radiante, sentindo-se o centro das atenções, algo que raramente acontecia quando Jungkook estava focado em seus gráficos de lucro.
No entanto, o mundo de fantasia desmoronou às cinco da tarde.
Jungkook havia saído mais cedo da empresa, impulsionado por um sentimento estranho de culpa por ter sido frio pela manhã. Ele queria fazer uma surpresa. Mas, ao chegar em casa, encontrou apenas o silêncio. Ao ligar para a escola de artes, descobriu que Nari nunca havia aparecido.
O pânico inicial transformou-se em uma fúria gélida quando ele abriu o Instagram e viu a postagem de Jimin: uma sequência de fotos de Nari rindo, com o rosto sujo de sorvete, abraçada a Taehyung e Jimin em um banco de shopping. A legenda dizia: "O dia fica melhor quando a princesa escapa do castelo de gelo".
Quando Nari entrou na cobertura, saltitando e carregando sacolas de brinquedos, ela deu de cara com Jungkook sentado no sofá da sala escura. A única luz vinha da cidade através das janelas de vidro.
— Foi divertido? — A voz dele era um sussurro perigoso que cortou o ar.
Nari parou no lugar, o sorriso desaparecendo instantaneamente.
— Kookie... você chegou cedo...
— Eu cheguei em casa para encontrar minha namorada desaparecida. — Ele se levantou lentamente, caminhando até ela. Cada passo parecia ressoar no peito de Nari. — Você mentiu para os seguranças. Você me desobedeceu. E você saiu com as duas pessoas que eu expressamente proibi você de ver sem a minha presença.
— O Tio Tae e o Jimin são meus amigos! — Nari tentou bater o pé, mas sua voz tremeu. — Você nunca tem tempo! A Nari estava triste!
— A Nari está sendo mimada e irresponsável — Jungkook rebateu, parando a poucos centímetros dela. Ele não gritava, o que era muito pior. — Você colocou sua segurança em risco para me afrontar. Você queria me deixar com ciúmes, Nari? Parabéns. Você conseguiu. Mas você não vai gostar das consequências.
— Você vai tirar meus bichinhos? — ela perguntou, os olhos já marejados.
— Não. Eu vou fazer algo que você odeia muito mais. — Ele a olhou de cima a baixo, com uma frieza que ela nunca tinha visto. — Amanhã temos o jantar beneficente com os investidores da fundação. Eu ia te deixar em casa para você não se cansar, mas agora você vai comigo. E você vai aprender como é ser ignorada de verdade.
— O quê? Não! A Nari não gosta desses jantares, as pessoas falam difícil! — ela protestou, agarrando o braço dele.
Jungkook se soltou com um movimento brusco.
— Vá para o seu quarto. Agora. E não quero ouvir um pio sobre Jimin ou Taehyung até o final deste mês.
Nari chorou até dormir, abraçada ao coelho, esperando que, na manhã seguinte, o Kookie "mole" voltasse. Mas ela estava enganada.
Na noite seguinte, o salão do hotel de luxo estava repleto de homens em smokings e mulheres em vestidos de gala que custavam mais do que um carro popular. Nari usava um vestido de veludo azul marinho, escolhido por Jungkook, que a fazia parecer mais velha e séria. Ela se sentia desconfortável; o sapato apertava e o laço em seu cabelo estava muito firme.
— Fique ao meu lado e não fale nada a menos que eu permita — Jungkook instruiu friamente antes de entrarem no salão.
Durante as primeiras duas horas, Nari sentiu o peso do castigo. Jungkook estava impecável, conversando com sócios e amigos de longa data, incluindo Namjoon e Yoongi. Ele sorria para todos, menos para ela. Toda vez que Nari tentava puxar sua mão ou sussurrar que estava com fome, ele simplesmente se afastava ou iniciava uma conversa profunda com alguém ao lado, agindo como se ela fosse um móvel decorativo.
— Kookie... — ela murmurou, puxando a barra do paletó dele enquanto ele conversava com um empresário japonês. — A Nari quer ir ao banheiro.
Jungkook nem sequer olhou para baixo. Ele continuou rindo de uma piada do interlocutor.
— Sim, a expansão para Tóquio é nossa prioridade agora — disse ele em inglês fluente, ignorando completamente o pequeno aperto em seu braço.
Nari sentiu o lábio inferior tremer. Ela olhou ao redor e viu Minji, a secretária, aproximar-se com uma taça de champanhe para Jungkook.
— Os gráficos que o senhor pediu estão no tablet, Senhor Jeon — disse Minji, com um sorriso brilhante.
— Obrigado, Minji. Você é sempre muito eficiente — Jungkook respondeu, dando a ela o tipo de atenção e contato visual que Nari implorava há horas.
Aquilo foi o limite para Nari. O infantilismo dela a tornava extremamente sensível à rejeição, e a indiferença de Jungkook estava doendo mais do que qualquer bronca. Ela se sentou em uma cadeira vazia em um canto da mesa, cruzou os braços e começou a soluçar baixinho, tentando não chamar atenção, mas falhando miseravelmente.
Yoongi, que estava sentado por perto, percebeu e cutucou Jungkook com o cotovelo.
— Ei, Jeon. Acho que sua pequena não está muito bem.
Jungkook olhou de relance para Nari. Seu coração deu um solavanco ao ver os ombros dela subindo e descendo, mas ele endureceu a expressão. Ele precisava que ela entendesse que não podia brincar com as regras dele.
— Ela está apenas fazendo cena, Yoongi. Precisa aprender a se comportar em público — Jungkook respondeu, embora sua voz tivesse perdido um pouco da firmeza.
Nari se levantou, limpando as lágrimas com as costas das mãos, e caminhou em direção à saída do salão. Ela não aguentava mais. Ela queria o Tio Tae, queria o Jimin, queria qualquer pessoa que não a tratasse como se ela fosse invisível.
Jungkook esperou alguns segundos, mas quando viu que ela realmente estava saindo sozinha, o pânico superou o orgulho.
— Com licença, senhores — ele disse apressadamente, deixando a conversa pela metade e seguindo-a.
Ele a alcançou no corredor deserto do hotel, perto dos elevadores.
— Nari! Pare agora! — ele ordenou.
Ela se virou, o rosto vermelho e molhado, a expressão de pura mágoa.
— Por que você me trouxe? — ela gritou, a voz ecoando no corredor luxuoso. — Para a Nari ver você ser legal com todo mundo e mau com ela? Você gosta da moça da saia! Você não gosta da Nari!
— Eu te trouxe para você entender que suas ações têm consequências — ele disse, embora sua postura estivesse relaxando. — Você me desobedeceu, Nari. Você fugiu.
— Eu fugi porque você é um gelo! — Ela soluçou, abraçando-se. — O Tio Tae me dá sorvete. O Jimin me faz rir. O Kookie só me deixa no canto. Eu não quero ser um móvel, Kookie... eu quero ser sua namorada.
Jungkook sentiu a última barreira de sua frieza desmoronar. Ver Nari tão quebrada, tão vulnerável por causa do silêncio dele, o fez sentir-se o pior homem do mundo. Ele caminhou até ela e, desta vez, quando ela tentou se afastar, ele a envolveu em um abraço apertado, prendendo-a contra seu peito.
— Me solta! — ela protestou fracamente, batendo no peito dele. — Vai falar com a moça eficiente!
— Shhh... chega, Nari. Chega — ele sussurrou, enterrando o rosto no pescoço dela, sentindo o cheiro de baunilha que ele tanto amava. — Eu sinto muito. Eu fui longe demais.
Nari parou de lutar e se agarrou ao smoking dele, chorando alto agora, escondendo o rosto em seu ombro.
— Eu morri de ciúmes, Nari — ele confessou, a voz abafada. — Quando vi aquelas fotos, eu senti como se estivesse perdendo você para eles. Eu fico com medo de que, um dia, você perceba que eles são mais divertidos do que eu e decida que não quer mais viver no meu "castelo de gelo".
Nari se afastou um pouco para olhar para ele, os olhos grandes e úmidos.
— Mas a Nari gosta do castelo... porque o Kookie mora nele. Eu só queria que você brincasse comigo também.
Jungkook limpou as lágrimas dela com os polegares, sua expressão agora carregada de uma doçura que ele só reservava para os momentos mais íntimos.
— Eu vou brincar. Eu prometo. Mas você não pode mais fugir, entendeu? Isso me mata de preocupação. Se você quiser sair, você me pede. Se eu não puder ir, nós damos um jeito, mas sem mentiras.
Nari assentiu, soluçando uma última vez.
— E o Tio Tae e o Jimin?
Jungkook suspirou, fazendo uma careta.
— Eles podem vir em casa no próximo sábado. Mas eu vou estar lá. E se o Jimin tentar te dar outro pirulito gigante, eu vou expulsar ele a pontapés.
Nari deu uma risadinha fraca, o que fez o coração de Jungkook finalmente se acalmar.
— O Kookie é muito ciumento. É um gatinho bravo.
— Sou mesmo — ele admitiu, beijando a testa dela. — Agora, vamos embora daqui. Eu odeio esses jantares tanto quanto você. Vamos passar no drive-thru, comprar todos os nuggets que você conseguir comer e assistir aquele desenho dos pôneis que eu finjo que detesto.
— Sério? — Os olhos dela brilharam.
— Sério. Mas só se você prometer que, no próximo jantar, não vai tentar molhar a Minji ou qualquer outra pessoa.
Nari deu um sorriso travesso, escondendo o rosto no peito dele novamente.
— Vou tentar, Kookie... mas não prometo nada se ela chegar perto demais da sua gravata!
Jungkook riu, uma risada leve e genuína, enquanto a carregava no colo em direção ao estacionamento. Ele ainda era o empresário frio, o homem de negócios implacável e o namorado possessivo, mas ali, com Nari em seus braços, ele sabia que o gelo nunca teria chance contra o calor daquele amor bagunçado e inocente. O castelo de gelo podia ser frio para o mundo, mas para Nari, ele sempre seria o lar mais quente de todos.