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Infantilismo

O Reflexo do Medo e o Laço de Cetim

A luz da manhã em Seul parecia filtrar-se de forma diferente através das janelas da cobertura. Após a noite na boate, o ar entre Jungkook e Nari estava saturado de uma nova consciência. O silêncio não era mais carregado de gelo, mas de uma tensão elétrica que Jungkook lutava para dominar. Ele estava sentado à mesa de mármore, o notebook aberto, mas seus olhos não processavam as planilhas. Eles estavam fixos em Nari, que, sentada no tapete da sala, tentava pentear o cabelo de uma de suas bonecas com uma concentração adorável.

— Kookie, a boneca está com o cabelo todo embaraçado — reclamou ela, fazendo um bico que Jungkook sentiu vontade de morder. — Acho que ela também foi na festa e dançou demais.

— Bonecas não dançam, Nari. Elas ficam onde as deixamos — disse ele, a voz soando mais rouca do que pretendia.

— Mas a Nari dançou — ela murmurou, levantando os olhos grandes para ele. — E o Kookie ficou puxando o meu vestido toda hora. A boneca não tem vestido curto, por isso ela está triste.

Jungkook fechou o notebook com um estalo seco. O comentário dela, embora inocente, trouxe de volta a imagem dela sob as luzes neon, o corpo de cetim prateado colado ao seu. Ele se levantou e caminhou até ela, agachando-se para ficar na mesma altura.

— Eu puxei porque você é minha, Nari. E eu não quero que o mundo veja o que pertence apenas a mim.

— Mas a Nari é grande agora? — perguntou ela, largando a boneca e aproximando-se dele. — O Tio Tae disse que eu sou uma estrela. Estrelas brilham para todo mundo ver, não é?

— O Taehyung fala demais — Jungkook sibilou, sentindo a velha pontada de ciúme possessivo. — Estrelas morrem se alguém tentar tocá-las. Você fica aqui, na minha redoma. Aqui você está segura.

Nari inclinou a cabeça, os dedos pequenos traçando o contorno da mandíbula dele. O toque era leve, mas Jungkook sentiu como se estivesse sendo marcado por ferro em brasa.

— O Kookie tem medo que a Nari brilhe para outros? — Ela sorriu, uma expressão que misturava a pureza de seu infantilismo com uma sagacidade feminina que o assustava. — O Jimin-chi disse que você é um dragão guardando um tesouro.

— O Jimin deveria se preocupar com a própria vida antes que eu decida encerrar a carreira dele — Jungkook respondeu, segurando os pulsos dela com uma firmeza que a fez arfar. — Sim, eu sou um dragão. E dragões queimam quem tenta roubar o que é deles.

A atmosfera mudou quando o celular de Jungkook vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem de sua secretária, Minji, informando que havia chegado à recepção com documentos urgentes que precisavam de assinatura física. Jungkook suspirou, a irritação transparecendo em seu rosto.

— Eu preciso atender a Minji. Fique aqui e termine de brincar.

— A moça da saia apertada? — Nari levantou-se rapidamente, o ciúme brilhando em seus olhos. — Eu não quero ela aqui, Kookie! Ela olha para você como se quisesse comer o seu chocolate!

— É trabalho, Nari. Aja como uma adulta, já que você insiste tanto nisso — ele disse, a frieza voltando para mascarar sua própria agitação.

Minji entrou minutos depois, impecável em um conjunto de alfaiataria que acentuava sua postura profissional. Ela trazia uma pasta de couro e um sorriso que, para Nari, parecia um desafio.

— Bom dia, Senhor Jeon. Desculpe interromper seu fim de semana, mas os contratos de Londres precisam ser enviados hoje — disse a secretária, aproximando-se da mesa.

Nari não ficou no tapete. Ela caminhou até Jungkook e sentou-se em seu colo, passando os braços pelo pescoço dele de forma possessiva. Jungkook ficou tenso, mas não a afastou.

— Pode deixar a pasta aqui, Minji — disse ele, tentando manter a voz profissional enquanto Nari distribuía beijos barulhentos em sua bochecha.

— Senhor Jeon, talvez seja melhor... — Minji começou, olhando para Nari com uma mistura de pena e irritação.

— A Nari está ajudando o Kookie! — exclamou a menina, olhando para a secretária com um olhar desafiador. — Você já deu os papéis, agora pode ir embora. O Kookie tem coisas mais importantes para fazer do que olhar para você.

— Nari, comporte-se — Jungkook murmurou, embora sua mão estivesse firmemente espalmada na cintura dela, reforçando a união.

— Só estou sendo eficiente, como o Kookie — ela rebateu, escondendo o rosto no pescoço dele e deixando uma marca de batom proposital no colarinho da camisa branca dele.

Minji limpou a garganta, visivelmente desconfortável.

— Com licença, Senhor Jeon. Estarei no saguão se precisar de mais alguma coisa.

Assim que a porta se fechou, Jungkook soltou um suspiro pesado e virou Nari para encará-lo.

— O que foi isso? Você foi extremamente rude.

— Ela olha para o meu Kookie de um jeito feio! — Nari cruzou os braços, os olhos marejados. — Você gosta que ela olhe? Você quer que ela seja a sua namorada grande?

— Não seja boba — ele disse, a voz amolecendo diante da vulnerabilidade dela. — Ninguém ocupa o seu lugar. Mas você precisa aprender a controlar essas birras.

— Não é birra! É amor! — ela gritou, saindo do colo dele e correndo para o quarto.

Jungkook ficou parado por um momento, sentindo a exaustão do conflito constante entre os dois mundos. Ele amava a pureza dela, mas a possessividade de Nari era um espelho da sua própria, e ver isso refletido de forma tão crua o deixava desconfortável.

Ele a seguiu até o quarto. Nari estava deitada de bruços, soluçando contra o travesseiro. Jungkook sentou-se ao lado dela e começou a acariciar suas costas.

— Nari, olhe para mim.

Ela se virou devagar, o rosto vermelho e os olhos inchados.

— O Kookie vai me trocar? Porque eu sou estragada na cabeça?

Jungkook sentiu o coração apertar. Ele a puxou para um abraço apertado, sentindo o calor do corpo dela contra o seu.

— Nunca mais diga isso. Você não é estragada. Você é a minha paz. Eu sou o gelo, Nari, e você é a única coisa que me impede de congelar completamente. Eu não quero a Minji, nem a Sora, nem ninguém. Eu só quero você.

— Promete? — ela sussurrou, a voz pequena.

— Prometo. Mas você tem que me prometer que vai tentar obedecer mais. O mundo lá fora é cruel, e se você não me ouvir, eu não poderei te proteger.

— Eu prometo — disse ela, abraçando-o com força. — Mas o Kookie também tem que prometer que não vai deixar o Tio Tae chegar perto da Nari se você estiver bravo.

Jungkook riu, uma risada curta e sombria.

— Disso você pode ter certeza. O Taehyung está proibido de entrar aqui por um bom tempo.

A tarde passou em uma calmaria enganosa. Jungkook tentou trabalhar, mas Nari estava em um dia particularmente carente e travesso. Ela escondia suas canetas, sentava-se sobre o teclado do computador e exigia atenção constante. Por volta das cinco da tarde, o telefone de Nari — que Jungkook monitorava de perto — tocou. Era uma chamada de vídeo de Jimin.

Jungkook atendeu antes que ela pudesse pegar o aparelho.

— O que você quer, Jimin? — perguntou ele, a voz gélida.

— Nossa, que recepção — disse Jimin na tela, rindo. Ele parecia estar em um parque, com Taehyung ao fundo tentando equilibrar dois sorvetes. — Eu só queria saber se a Nari quer ir tomar sorvete com a gente. O Taehyung disse que prometeu um de morango gigante para ela.

— Ela não vai a lugar nenhum — Jungkook sentenciou. — Ela está ocupada.

— Kookie! É o Jimin-chi! — Nari apareceu atrás dele, tentando pular para ver a tela. — Eu quero sorvete! O Kookie prometeu sorvete na semana passada e não me deu!

Jungkook sentiu a pressão subir. O fato de Nari lembrar das promessas não cumpridas dele enquanto aceitava as de seus amigos o deixava furioso.

— Você não vai com eles, Nari. Se quiser sorvete, eu peço para entregarem aqui.

— Mas não é a mesma coisa! — ela protestou, começando a chorar de novo. — Eu quero sair! Eu quero ver os patos! Você me deixa trancada nessa casa de vidro o dia todo!

— Eu te deixo aqui para que ninguém te machuque! — ele gritou, perdendo a paciência. — Jimin, desligue essa droga de telefone agora.

— Jeon, você está passando dos limites — disse Jimin, a expressão tornando-se séria. — Ela não é sua prisioneira. Ela é um ser humano.

Jungkook desligou a chamada e jogou o telefone sobre o sofá. Ele se virou para Nari, que o olhava com um misto de medo e ressentimento.

— Você é muito malvado! — ela gritou. — Eu odeio o Kookie de gelo! Eu quero o meu Tio Tae!

O nome de Taehyung foi o estopim. Jungkook a segurou pelos ombros, a força de seus dedos deixando marcas leves na pele clara dela.

— Você quer o Taehyung? Aquele que te ensina coisas que você não deveria saber? Aquele que te olha como se você fosse um prêmio? Pois saiba que ele nunca vai te ter. Você é minha propriedade, Nari. Entenda isso de uma vez por todas!

— Eu não sou um brinquedo! — ela rebateu, tentando se soltar.

— Então aja como uma mulher e entenda que o seu lugar é ao meu lado, sob a minha proteção! — Ele a soltou e apontou para o quarto. — Vá para o seu quarto. Agora. Você está de castigo.

Nari correu, batendo a porta com tanta força que o som ecoou por toda a cobertura. Jungkook ficou sozinho na sala, as mãos tremendo de raiva e uma dor surda no peito. Ele odiava ser o vilão da história dela, mas sua necessidade de controle era uma doença que ele não sabia como curar.

Ele caminhou até o bar e serviu-se de um uísque puro. Enquanto o líquido queimava sua garganta, ele olhava para a cidade lá fora. Ele tinha tudo: dinheiro, poder, influência. Mas sentia que estava perdendo a única coisa que realmente importava por causa de seu próprio medo de não ser o suficiente.

Duas horas se passaram no mais absoluto silêncio. Jungkook, sentindo o peso da culpa, preparou uma bandeja com os doces favoritos de Nari e um copo de leite morno. Ele caminhou até o quarto e abriu a porta silenciosamente.

O quarto estava escuro, iluminado apenas pelas luzes da cidade. Nari estava sentada na janela, observando o movimento lá embaixo. Ela parecia tão pequena, tão solitária, que o coração de Jungkook se partiu.

— Nari... — ele chamou suavemente.

Ela não se moveu.

— Eu trouxe seus doces. E o seu leite.

— O Kookie quer que a Nari seja um bebê de novo? — perguntou ela, sem olhar para ele. — Porque bebês não saem de casa e não têm amigos.

Jungkook colocou a bandeja sobre a mesa de cabeceira e aproximou-se dela. Ele sentou-se no chão, ao lado da janela, e encostou a cabeça na parede.

— Eu não quero que você seja um bebê para sempre, Nari. Eu só tenho medo do que acontece quando você cresce. O mundo é um lugar feio para pessoas com o seu coração. Eu vi o que ele faz com as pessoas. Ele transformou a mim nesse bloco de gelo que você odeia.

Nari finalmente olhou para ele. Seus olhos ainda estavam úmidos, mas a raiva havia desaparecido, substituída por uma profunda tristeza.

— Mas a Nari pode ajudar o Kookie a derreter — ela disse, estendendo a mão para tocar o rosto dele. — Só que o gelo dói quando me aperta muito forte.

Jungkook pegou a mão dela e a beijou, as lágrimas que ele raramente permitia que surgissem agora embaçando sua visão.

— Me perdoe, pequena. Eu vou tentar ser melhor. Eu vou te levar para ver os patos amanhã. Nós dois. Sem o Jimin, sem o Taehyung. Só nós.

— Promete de dedinho? — perguntou ela, estendendo o dedo mindinho.

— Prometo de dedinho — ele respondeu, selando o pacto.

Ele a puxou para o seu colo ali mesmo, no chão, e ficaram observando as estrelas que lutavam para brilhar contra as luzes da cidade. Jungkook sabia que sua possessividade nunca desapareceria completamente, que ele sempre olharia para Taehyung e Jimin como ameaças, e que o ciúme continuaria a ser sua sombra. Mas, naquele momento, com Nari respirando calmamente contra seu peito, ele sentiu que talvez, apenas talvez, o gelo estivesse começando a ceder.

— Kookie? — ela murmurou, já quase dormindo.

— Sim?

— Você é o meu dragão favorito. Mesmo quando solta fogo.

Jungkook sorriu, um sorriso real e caloroso que poucas pessoas no mundo tinham o privilégio de ver.

— E você é o meu tesouro, Nari. O único que eu realmente pretendo guardar para sempre.

Naquela noite, não houve mais discussões, nem castigos, nem ciúmes. Houve apenas o silêncio de dois corações que, apesar de todas as suas falhas e complexidades, encontraram um no outro o único lugar onde podiam ser verdadeiramente eles mesmos. O empresário frio e a menina de algodão-doce continuariam seu baile delicado entre a autoridade e a ternura, sabendo que, no final do dia, o laço de cetim que os unia era mais forte do que qualquer redoma de ferro.