ingles maluco
Cinzas, Bile e o Som da Rebeldia
O banheiro masculino do bloco leste cheirava a desinfetante barato e urina velha, uma combinação que, em dias normais, já seria suficiente para revirar o estômago de qualquer um. Para Edward Livingstone, no entanto, aquele cheiro era apenas o prelúdio do que estava por vir. Ele chutou a porta da última cabine, mal tendo tempo de trancá-la antes de cair de joelhos diante do vaso sanitário de porcelana rachada.
A primeira onda veio como um soco. Não era apenas o conteúdo do almoço que ele mal conseguira engolir; era algo mais denso, mais escuro. Edward sentiu a garganta queimar enquanto o líquido amargo subia, tingido com o vermelho vivo e metálico do sangue fresco misturado à bile amarelada. Ele tossiu, um som seco que parecia rasgar seus pulmões, e mais uma golfada de sangue manchou a água do vaso.
Ele se apoiou nas paredes frias da cabine, as pontas dos dedos brancas de tanta força. O tumor em seu estômago era um inquilino ganancioso, uma massa silenciosa que devorava suas energias e transformava cada refeição em um campo de batalha. Edward fechou os olhos, respirando fundo, tentando ignorar a pontada aguda que irradiava de suas entranhas.
— Só mais um pouco — sussurrou para si mesmo, a voz falhando. — Só mais alguns meses.
Ele deu a descarga, observando o rastro de sua própria decadência sumir pelo cano. Levantou-se com dificuldade, as pernas tremendo como as de um cervo recém-nascido, e caminhou até a pia. O reflexo no espelho manchado não era gentil. Ele estava mais pálido do que o normal, as olheiras profundas parecendo hematomas sob os olhos gélidos. Ele limpou o canto da boca com as costas da mão e jogou água gelada no rosto, tentando despertar o que restava de sua vitalidade.
Edward sabia que sua mãe estava, naquele exato momento, dobrando o turno na lanchonete ou limpando escritórios no centro da cidade. Ela trabalhava até que suas mãos ficassem em carne viva para pagar as contas médicas que se acumulavam na mesa da cozinha como uma sentença de morte em capítulos. Ele não podia falhar. Não podia demonstrar fraqueza. E, acima de tudo, não podia deixar que aquele idiota de jaqueta de couro percebesse que o "Inglês Maluco" estava morrendo por dentro.
Enquanto Edward lutava para manter a consciência no banheiro, Nikki Sixx estava em seu habitat natural: o pátio dos fundos, onde a fumaça de cigarro se misturava às risadas altas e aos planos de dominação mundial. Ele estava sentado no capô de um carro caindo aos pedaços, cercado pelos caras que compartilhavam seu sonho de trocar as salas de aula por palcos iluminados.
— Eu estou falando para vocês, o som tem que ser mais sujo — dizia Nikki, gesticulando com um cigarro aceso entre os dedos. — Não quero aquela coisa limpinha que toca no rádio. Quero algo que faça os pais das garotas quererem trancar as portas.
— E as letras, Nikki? — perguntou um dos rapazes, ajustando os óculos escuros. — Você disse que ia escrever sobre aquela noite na Sunset Strip.
— Já comecei. Mas o foco agora é outro — Nikki deu um sorriso de lado, aquele que indicava que ele tinha uma nova obsessão. — Eu fiz uma aposta. Cinquenta pratas no bolso se eu fizer o novato inglês rir.
— O Livingstone? — Outro integrante da banda soltou uma risada debochada. — Esquece, cara. Aquele cara é um robô. Eu vi ele no corredor hoje, ele parece que acabou de sair de um velório. O próprio dele.
— É aí que você se engana — rebateu Nikki, os olhos brilhando com o desafio. — Todo mundo ri. Até os robôs. Ele só precisa do estímulo certo. O cara desenha como um deus, mas tem um gosto péssimo para modelos. Eu vou quebrar aquele gelo, nem que eu precise contratar um circo inteiro para passar pelo corredor dele.
— Cinquenta dólares é muita grana para perder por causa de um ego ferido, Frank — provocou o baterista, usando o nome proibido apenas para ver a reação de Nikki.
Nikki pulou do capô do carro, os olhos estreitados.
— É Nikki. E eu não vou perder. Eu nunca perco quando o assunto é entretenimento. Aquele loirinho vai estar gargalhando até sexta-feira.
Nikki voltou para dentro da escola antes que o sinal tocasse, sentindo uma energia renovada. Ele gostava de Edward, embora não soubesse explicar o porquê. Talvez fosse a resistência absoluta que o outro oferecia. No mundo de Nikki, as pessoas geralmente orbitavam ao seu redor, atraídas por sua intensidade ou intimidadas por sua postura. Edward Livingstone, no entanto, o olhava como se ele fosse um erro de impressão em um jornal de ontem. Era fascinante.
Ele encontrou Edward saindo do banheiro. O loiro parecia ainda mais pálido, se é que isso era possível, e caminhava com uma rigidez que Nikki interpretou como arrogância britânica.
— E aí, Eddie! — Nikki se aproximou, bloqueando o caminho do outro de forma brincalhona. — Sobreviveu ao intervalo? Ou o chá das cinco foi cancelado por falta de humor?
Edward parou, respirando devagar. A dor em seu estômago ainda era uma brasa ardente, e a voz de Nikki soava como lixa em seus ouvidos.
— Meu nome é Edward. E você está no meu caminho, Ferrana.
— Nikki! — corrigiu ele, com um sorriso largo. — Sabe, eu estava pensando... para um cara que desenha tão bem, você deve ter uma imaginação incrível. O que você acha de desenhar a capa da minha banda? Eu te dou um crédito oficial. "Arte por Edward, o Homem que Nunca Sorriu".
Edward o encarou por um longo momento. Ele sentia o gosto de sangue na base da língua e uma vontade imensa de desabar ali mesmo. Mas o orgulho era a única coisa que o mantinha de pé.
— Eu não desenho lixo — respondeu Edward, a voz fria e cortante. — E sua banda, pelo que ouvi nos corredores, soa como um liquidificador cheio de brita.
Nikki levou a mão ao peito, fingindo estar ofendido.
— Ai! Essa doeu. Mas tudo bem, eu aceito a crítica construtiva. Que tal se eu te levar para um ensaio? Você ouve a "brita" de perto e depois me diz se ainda não quer sorrir.
— Você tem cinco dias restantes para a aposta, Nikki — disse Edward, usando o nome dele pela primeira vez, embora com um tom de escárnio. — Sugiro que pare de falar e comece a ser realmente engraçado. Porque, até agora, você é apenas patético.
Edward passou por ele, o ombro batendo levemente no de Nikki. O baixista ficou parado por um momento, observando o loiro se afastar. Havia algo errado na forma como Edward caminhava — um leve desequilíbrio, uma mão que buscava o apoio das paredes de vez em quando.
— Patético, é? — Nikki murmurou, ajeitando a jaqueta. — Vamos ver quem ri por último, Eddie.
Nikki voltou para a aula, mas sua mente não estava nas equações de álgebra. Ele pensava nos traços precisos de Edward no caderno, na magreza excessiva do rapaz e naquela aura de mistério que parecia esconder algo muito mais profundo do que apenas mau humor. Ele não sabia que, enquanto planejava piadas e situações absurdas para ganhar cinquenta dólares, Edward Livingstone estava contando os dias não para o fim da aposta, mas para o momento em que seu corpo finalmente desistiria de lutar.
Naquela noite, Nikki se reuniu com a banda em uma garagem mal iluminada. O som do baixo distorcido preenchia o ar, vibrando nas janelas.
— Ele é um desafio diferente — explicou Nikki entre um acorde e outro. — Ele não quer ser notado. Ele quer desaparecer.
— E por que você se importa tanto? — perguntou o guitarrista. — É só um cara novo.
Nikki parou de tocar, deixando o silêncio se instalar.
— Porque ninguém devia querer desaparecer nesse colégio de merda sem deixar uma marca. E se a marca dele for um sorriso causado por mim, eu vou garantir que aconteça.
Enquanto isso, em um apartamento pequeno e silencioso do outro lado da cidade, Edward estava deitado no sofá, com uma bolsa de água quente sobre o abdômen. Sua mãe estava na cozinha, contando moedas e notas amassadas sobre a mesa, o cansaço visível em cada linha de seu rosto.
— Como foi a escola, querido? — perguntou ela, sem olhar para trás.
Edward olhou para o teto, sentindo a náusea persistente.
— O mesmo de sempre, mãe. Um idiota chamado Nikki está tentando me fazer rir por causa de uma aposta.
A mulher parou de contar o dinheiro e olhou para o filho com um sorriso triste.
— Talvez você devesse deixar que ele conseguisse, Ed. Um pouco de riso faria bem para você.
— Não posso, mãe — Edward fechou os olhos. — Cinquenta dólares pagam metade dos seus remédios da semana que vem. Eu vou ganhar esse dinheiro. Eu preciso ganhar.
Ele apertou o caderno de desenhos contra o peito. Na última página, escondido de todos, havia um esboço rápido: não era uma modelo magra, nem uma mulher corpuda como Nikki descrevera. Era um rascunho de um par de botas de couro gastas e um baixo elétrico, desenhados com uma precisão que beirava a obsessão. Edward odiava admitir, mas o caos de Nikki Sixx era a única coisa que o fazia se sentir vivo naquele mar de agonia.
Mas ele não sorriria. Ele não podia se dar ao luxo de ser feliz quando cada batida de seu coração era um lembrete do tempo que se esgotava. A aposta continuava, e Nikki Sixx estava prestes a descobrir que algumas barreiras não eram feitas de gelo, mas de vidro blindado, temperado pela dor e pelo sacrifício.