ingles maluco
Guerra de Nervos e Acordes de Garagem
O terceiro dia da aposta amanheceu com uma neblina densa sobre Los Angeles, o tipo de clima que Edward Livingstone considerava apropriado para o seu estado de espírito, mas que Nikki Sixx via como um cenário de filme de terror de baixo orçamento que precisava urgentemente de uma trilha sonora de heavy metal.
Nikki chegou à escola com um plano. Ele não ia apenas contar piadas; ele ia ser o evento. Ele passou a manhã inteira com um nariz de palhaço escondido no bolso da jaqueta, esperando o momento certo, mas toda vez que cruzava com Edward no corredor, o loiro parecia estar em uma missão urgente para lugar nenhum, com os olhos fixos no chão e a pele cada vez mais translúcida.
— Ele está me ignorando, cara — reclamou Nikki para Tommy, enquanto tentava equilibrar uma bandeja de comida plástica no refeitório. — Eu fiz uma mímica de um atropelamento na frente do armário dele e o cara nem piscou. Ele só desviou de mim como se eu fosse um hidrante.
— Talvez ele seja cego, Nikki — sugeriu Tommy, mastigando um hambúrguer que parecia borracha. — Ou talvez você não seja tão engraçado quanto pensa. Cinquenta pratas, hein? Eu já estou sentindo o cheiro do prejuízo.
— Cala a boca. Eu tenho cartas na manga.
Na aula de história, Nikki decidiu mudar de tática. Em vez de palhaçadas, ele tentou a proximidade. Ele se sentou atrás de Edward e passou a aula inteira sussurrando comentários absurdos sobre as perucas dos pais fundadores dos Estados Unidos.
— Olha para o George Washington, Eddie — sussurrou Nikki, inclinando-se para a frente. — Você não acha que ele parece um poodle que tomou um choque elétrico? Imagina ele tentando tocar um baixo com esse babado no pescoço. Ele ia tropeçar na própria dignidade.
Edward não se moveu. Sua mão, no entanto, apertava a caneta com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ele sentia a náusea subindo novamente, uma onda quente e ácida que o fazia querer gritar, mas ele apenas respirou fundo, contando até dez em silêncio.
— Sabe o que falta nessa constituição? — continuou Nikki, incansável. — Uma cláusula que proíba calças beges. E outra que obrigue todo mundo a ouvir New York Dolls pelo menos uma vez por dia. O que você acha, Inglês Maluco? Se você fosse o rei, qual seria a primeira lei?
Edward finalmente virou a cabeça, mas não havia um sorriso. Havia uma exaustão tão profunda que, por um segundo, Nikki parou de falar.
— Minha primeira lei seria o banimento de idiotas barulhentos em um raio de cinco quilômetros da minha pessoa — respondeu Edward, a voz rouca. — Você não cansa, Ferrana? O mundo está desmoronando e você está preocupado com o cabelo de um homem morto há duzentos anos.
— O mundo sempre está desmoronando, Eddie. Por isso a gente precisa rir — Nikki deu de ombros, recuperando o ritmo. — Se a gente levar tudo a sério, a gente vira pedra. E eu prefiro ser purpurina a ser pedra.
— Você é um desperdício de oxigênio — sentenciou o loiro, voltando-se para o livro.
Nikki sorriu. Pelo menos ele tinha conseguido uma resposta.
Na saída da escola, Nikki não desistiu. Ele seguiu Edward até o ponto de ônibus, mantendo uma distância segura, mas visível. Edward parecia mais instável do que o normal; ele parou duas vezes para se apoiar em postes de luz, fechando os olhos como se estivesse tentando não desmaiar. Nikki franziu a testa, a preocupação começando a nublar sua determinação de ganhar a aposta.
— Ei, Eddie! — gritou Nikki, correndo para alcançá-lo. — Você está bem? Parece que viu um fantasma. Ou que é um.
Edward se virou bruscamente, o rosto retorcido de irritação.
— Me deixa em paz! — explodiu ele. — Você não entende? Eu não quero suas piadas, eu não quero sua amizade e eu certamente não quero sua piedade. Só me deixa chegar em casa.
— Eu não estou com piedade, cara. Eu só... — Nikki parou. Ele viu uma gota de suor frio escorrer pela têmpora de Edward, apesar do clima fresco. — Olha, eu te dou uma carona. O carro do meu amigo está logo ali. É melhor do que esperar esse ônibus que nunca vem.
— Eu não vou entrar em nenhum carro com você.
— Qual é, é um Chevy capenga, mas chega lá. Sem piadas, eu juro. Trégua de uma hora. Aposta suspensa até amanhã.
Edward hesitou. Suas pernas pareciam feitas de gelatina e a dor em seu estômago estava se transformando em espasmos que ele mal conseguia esconder. A perspectiva de caminhar mais três quarteirões parecia uma sentença de morte.
— Sem piadas? — perguntou Edward, a voz enfraquecida.
— Palavra de Nikki Sixx. E essa palavra vale... bom, vale alguma coisa.
Dez minutos depois, eles estavam no banco de trás do carro de um dos amigos de Nikki, que dirigia enquanto o rádio cuspia uma música alta e distorcida. Edward estava encolhido contra a porta, olhando fixamente para a janela.
— Que música é essa? — perguntou Edward, depois de um tempo, a voz quase sumindo sob o barulho das guitarras.
— É uma demo nossa — disse Nikki, o orgulho brilhando nos olhos. — "Toast of the Town". O que você acha? Seja sincero, mas se disser que é lixo, eu te jogo para fora do carro em movimento.
Edward escutou com atenção. A produção era precária, a bateria estava alta demais e o vocal era cru, mas havia uma energia ali. Uma raiva canalizada que ele reconhecia. Era o som de pessoas que não tinham nada a perder e queriam que o mundo soubesse disso.
— É... barulhento — admitiu Edward. — Mas o baixo... o baixo tem uma linha interessante. Ele não segue apenas a guitarra. Ele cria um caminho próprio.
Nikki abriu um sorriso radiante, o tipo de sorriso que ele não usava para a aposta, mas que era puramente genuíno.
— Viu só! Eu sabia que você tinha ouvido para a coisa. Eu que escrevi essa linha. Eu queria que soasse como um coração batendo rápido demais, sabe? Como se estivesse prestes a explodir.
Edward olhou para Nikki. Pela primeira vez, ele não viu apenas o palhaço da escola ou o rebelde sem causa. Ele viu alguém que, assim como ele, estava tentando desesperadamente sentir algo em um mundo que parecia vazio. A diferença era que Nikki buscava o som, enquanto Edward buscava o silêncio.
— Meu coração bate assim às vezes — sussurrou Edward, tão baixo que Nikki quase não ouviu. — Mas não é por causa da música.
— É pelo quê, então? — perguntou Nikki, inclinando-se para ele.
Edward desviou o olhar.
— Pelo medo de que o silêncio chegue antes de eu terminar meus desenhos.
O carro parou em frente a um prédio de apartamentos modesto e um tanto descuidado. Edward abriu a porta com esforço.
— Obrigado pela carona, Ferrana.
— Nikki! — gritou ele enquanto o loiro saía. — E não esqueça: amanhã eu vou te contar a piada do esquilo e do baterista. Você vai rir tanto que vai me dar os cinquenta dólares com um bônus!
Edward não respondeu, mas enquanto subia as escadas, ele sentiu um leve tremor nos lábios. Não era um sorriso, não ainda. Mas era o início de um degelo que ele não podia permitir.
Naquela noite, a dor foi pior. Edward passou horas no chão do banheiro, tossindo até que sua visão ficasse turva. Sua mãe o encontrou lá, exausto e pálido como um cadáver.
— Ed, querido, nós precisamos ir ao hospital — disse ela, as lágrimas escorrendo pelo rosto cansado.
— Não, mãe. Não temos dinheiro para outra internação — ele ofegou, limpando o sangue do queixo. — Eu vou ganhar aquela aposta. Cinquenta dólares. Vai ajudar.
— Esqueça o dinheiro, meu filho!
— Eu não posso esquecer — Edward olhou para ela com uma determinação feroz. — É a única coisa que eu posso fazer por você agora. Deixe-me ganhar isso. Por favor.
No dia seguinte, Edward não apareceu na escola. Nikki passou o dia inquieto, girando o nariz de palhaço entre os dedos e ignorando as piadas de Tommy. Ele foi até o armário de Edward, mas o metal frio não lhe deu respostas. A sensação de que algo estava terrivelmente errado crescia em seu peito como uma nota de baixo desafinada.
Ele conseguiu o endereço de Edward com uma secretária da escola que tinha uma queda por rapazes de jaqueta de couro e, logo após o sinal, ele estava lá, batendo na porta do apartamento 4B.
Quem atendeu foi uma mulher pequena, com olhos que carregavam o peso de mil anos de tristeza.
— Você deve ser o Nikki — disse ela, forçando um sorriso que não chegava aos olhos. — O Ed me falou de você.
— Ele está aí? — perguntou Nikki, perdendo toda a sua postura de rockstar. — Ele não foi para a escola e eu... eu tinha uma piada nova para contar.
A mulher suspirou e abriu a porta, convidando-o a entrar. O apartamento era limpo, mas cheirava a remédios e desinfetante. No sofá, Edward estava deitado, coberto por uma manta pesada, apesar do calor da tarde. Ele parecia menor do que nunca, um esboço de si mesmo.
— O que você está fazendo aqui, Ferrana? — a voz de Edward era apenas um fio. — Veio cobrar a aposta adiantado?
Nikki se aproximou lentamente, sentando-se em uma cadeira de madeira perto do sofá. Ele olhou para os frascos de remédios na mesa de centro, para o balde ao lado do sofá e para a palidez mortal no rosto do amigo. Sim, em algum momento dos últimos três dias, Edward Livingstone tinha se tornado seu amigo.
— Eu vim ver por que o meu público sumiu — disse Nikki, tentando manter o tom leve, mas sua voz falhou. — E para dizer que você é um trapaceiro. Fugir da escola para não rir das minhas piadas é golpe baixo.
Edward soltou um suspiro que parecia um chiado.
— Eu não estou fugindo. Eu só... estou um pouco ocupado tentando não morrer hoje.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Nikki sentiu um nó na garganta que nenhuma bebida ou cigarro conseguiria dissolver. Ele olhou para o caderno de desenhos de Edward, que estava aberto no chão.
— Você desenhou o meu baixo — comentou Nikki, pegando o caderno. — Ficou incrível, Eddie. Mas você esqueceu de desenhar a coisa mais importante.
— O quê? — perguntou o loiro, fechando os olhos.
— O dono dele. Eu sou muito mais bonito do que esse instrumento.
Edward soltou uma lufada de ar pelo nariz, algo que quase lembrava uma risada contida.
— Você é um egocêntrico insuportável.
— E você é um teimoso. Olha só, eu trouxe uma coisa — Nikki tirou o nariz de palhaço do bolso e o colocou. Depois, pegou um par de óculos gigantes com luzes piscantes que ele tinha roubado de uma loja de festas. — Eu ia usar isso no refeitório, mas acho que a plateia privada merece a estreia.
Nikki começou a fazer uma dança ridícula no meio da sala, tropeçando nos próprios pés e contando a piada mais idiota que conhecia sobre um pinguim que entra em um bar. Ele fazia vozes diferentes, gesticulava de forma frenética e, por um momento, esqueceu que estava em um apartamento triste com um garoto moribundo. Ele era apenas Nikki Sixx, o artista, tentando arrancar uma faísca de vida do vazio.
Edward observava, e algo em seu peito começou a vibrar. Não era a dor do tumor, nem a náusea. Era algo mais leve. Ele viu Nikki tropeçar de verdade em um tapete e cair de bunda no chão, os óculos piscantes voando para longe, mas o nariz de palhaço permanecendo firme no lugar.
Nikki olhou para cima, com uma expressão de surpresa genuína, e foi então que aconteceu.
Um som baixo começou a sair da garganta de Edward. Primeiro, foi como um soluço. Depois, transformou-se em uma risada curta, seca, mas inegável. Edward Livingstone estava rindo. Ele riu até que as lágrimas (dessa vez de alegria, não de dor) escorressem por seu rosto. Ele riu da audácia de Nikki, da absurdidade da situação e da ironia de encontrar alguém tão cheio de vida quando a sua estava se apagando.
Nikki ficou paralisado no chão, um sorriso lento surgindo em seu rosto.
— Eu ganhei — sussurrou Nikki.
— Você... você é um idiota completo — disse Edward, recuperando o fôlego, ainda com um sorriso fraco nos lábios. — Um idiota com um nariz de borracha.
— Mas eu te fiz rir — Nikki se levantou, tirando o nariz e sentando-se novamente ao lado dele. — Agora você me deve cinquenta pratas.
Edward olhou para a mãe, que observava da porta da cozinha com as mãos no rosto, chorando de verdade agora, mas com um brilho de gratidão.
— Eu não tenho o dinheiro aqui, Nikki — disse Edward, a voz subitamente séria. — Mas eu vou conseguir. Eu prometo.
Nikki balançou a cabeça, alcançando a mão de Edward e apertando-a.
— Esquece o dinheiro, Eddie. A aposta era só um pretexto. Eu só queria ver se você ainda estava aí dentro.
Edward apertou a mão de Nikki de volta. A força não era muita, mas a conexão era absoluta.
— Eu ainda estou aqui. Por enquanto.
— Então você vai continuar desenhando — ordenou Nikki. — E eu vou continuar tocando. E na semana que vem, você vai para o meu ensaio. Eu não aceito "não" como resposta.
Edward olhou para o teto, o sorriso ainda brincando em seus lábios. Pela primeira vez em meses, o futuro não parecia apenas um muro escuro. Parecia uma linha de baixo distorcida, barulhenta e cheia de uma esperança rebelde que só alguém como Nikki Sixx poderia ensinar.
— Tudo bem, Ferrana — sussurrou ele. — Eu vou ao ensaio. Mas se for ruim, eu quero meus cinquenta dólares de volta.
Nikki riu, uma gargalhada que preencheu o apartamento e espantou, por alguns instantes, as sombras que rondavam a porta.
— Fechado, Inglês Maluco. Fechado.