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ingles maluco

O Beijo de Vidro e o Som do Adeus

O cheiro de hospital sempre foi o cheiro da derrota para Nikki Sixx. Era uma mistura estéril de éter, desinfetante industrial e aquele silêncio pesado que parecia sugar a eletricidade da alma. Ele odiava hospitais. Eles lembravam feridas que não cicatrizavam, parentes que sumiam e a fragilidade de uma vida que ele tentava, a todo custo, tornar indestrutível através do volume alto de seu baixo.

Mas lá estava ele, caminhando pelos corredores de linóleo bege do County General, com as botas de fivela ecoando como batidas de um coração ansioso. Ele não sabia por que estava ali. Ou melhor, ele sabia, mas admitir era admitir que o "Inglês Maluco" tinha conseguido cravar uma bandeira em um território que Nikki mantinha cercado de arame farpado.

Edward Livingstone não era apenas uma aposta de cinquenta dólares. Ele era o espelho de algo que Nikki tentava ignorar: a beleza trágica de quem sabe que o tempo é um luxo, não um direito.

Quando Nikki empurrou a porta do quarto 312, o cenário o atingiu como um acorde dissonante. Edward estava deitado, cercado por máquinas que bipavam em um ritmo monótono e irritante. Ele parecia menor do que na garagem, quase fundido aos lençóis brancos, mas a expressão... a expressão era a mesma. Aquele desdém gélido, aquela sobrancelha erguida que dizia que o mundo era um erro de cálculo.

— Você está atrasado, Ferrana — disse Edward, a voz rouca, mas mantendo o corte preciso de sempre. — Eu esperava que você viesse com um nariz de palhaço ou, no mínimo, com um daqueles balões ridículos que murcham em duas horas.

Nikki puxou uma cadeira de metal, fazendo um barulho estridente que pareceu ecoar por todo o andar. Ele se sentou, jogando a jaqueta de couro no encosto.

— Os balões estavam esgotados. E o nariz de palhaço ficou no outro par de calças — Nikki tentou sorrir, mas seus olhos traíam a tensão. — O que houve, Eddie? Decidiu que o figurino de paciente de drama médico caía bem em você?

Edward soltou um suspiro curto, desviando o olhar para o suporte de soro.

— Meu estômago decidiu que não gosta mais de mim. É uma separação litigiosa, temo dizer.

Nikki ficou em silêncio por um momento, observando as mãos de Edward. Elas estavam pálidas, as veias azuladas saltando sob a pele fina, mas os dedos ainda se moviam, como se estivessem traçando desenhos invisíveis no ar.

— Por que você não me disse que era tão sério? — a voz de Nikki perdeu a provocação, tornando-se algo mais sombrio e real.

— E o que você teria feito? — Edward voltou a encará-lo. — Teria parado de me irritar? Teria me olhado com aquela cara de cachorro chutado que os médicos usam? Eu preferi os cinquenta dólares e as suas piadas de merda, Nikki. Foi o melhor investimento que fiz em meses.

Nikki sentiu um nó na garganta. Ele queria brigar, queria gritar que Edward era um idiota por passar por aquilo sozinho, mas ele sabia que o loiro não aceitaria piedade. Edward Livingstone era um guerreiro de porcelana, e qualquer toque de pena poderia despedaçá-lo.

A tarde se arrastou. Nikki não foi embora. Ele ficou lá, contando histórias absurdas sobre a Sunset Strip, sobre como Tommy quase incendiou a própria bateria e sobre os planos de mudar o nome da banda para algo que soasse como um soco na cara da sociedade. Edward ouvia, às vezes fechando os olhos, mas sempre mantendo um comentário ácido na ponta da língua para garantir que Nikki não se sentisse importante demais.

Perto do pôr do sol, a luz alaranjada começou a invadir o quarto, dando um tom de bronze às paredes sem vida. Nikki tinha ligado um pequeno rádio de pilha que trouxera, sintonizado em uma estação de rock alternativo que tocava o que as grandes rádios temiam.

De repente, as notas arrastadas de uma guitarra suja e uma voz carregada de melancolia e heroína preencheram o espaço. Era Johnny Thunders. A música era "You Can't Put Your Arms Around a Memory".

Edward, que parecia estar cochilando, abriu os olhos devagar. Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, ouvindo a letra que falava sobre a impossibilidade de abraçar uma memória, sobre o peso do passado e a futilidade de tentar segurar o que já se foi.

— Curte Johnny Thunders? — perguntou Edward, a voz quase um sussurro.

Nikki olhou para o rádio e depois para o garoto na cama.

— É um cara legal — respondeu Nikki, sentindo a música vibrar em seus próprios ossos. — Ele sabe como transformar a dor em algo que você pode ouvir no volume máximo. É honesto.

Edward deu um sorriso mínimo, um daqueles que Nikki levara uma semana para conquistar.

— É mais do que honesto. É um testamento.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas deixando a música preencher o vácuo entre eles. A canção estava chegando ao fim, os acordes finais de Thunders ecoando como um adeus prolongado.

— A música está acabando, Ferrana — disse Edward, vagamente, os olhos fixos nos de Nikki.

— E daí? — perguntou Nikki, sentindo uma mudança súbita na atmosfera do quarto. O ar parecia mais denso, carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos de seus braços se arrepiarem.

Edward soltou uma risada seca, mas não havia amargura nela. Havia algo que Nikki nunca tinha visto nele: uma vulnerabilidade absoluta, despida de todas as defesas britânicas e do sarcasmo protetor.

— Essa não é a parte onde nós nos beijamos? — perguntou Edward, com uma simplicidade que desarmou Nikki completamente.

Nikki Sixx, o cara que tinha resposta para tudo, o rebelde que não temia nada, sentiu o mundo parar. Ele olhou para Edward — para as olheiras profundas, para o nariz fino, para os lábios pálidos que tinham acabado de lançar o desafio final. Ele não pensou na doença, não pensou no hospital, não pensou na aposta ou no que o futuro reservava.

Ele apenas se inclinou para a frente.

O beijo foi suave no início, um encontro hesitante de lábios que cheiravam a hortelã de hospital e cigarro barato. Mas, em segundos, a intensidade de Nikki assumiu o controle. Ele colocou a mão no rosto de Edward, sentindo a pele quente e febril sob seus dedos, e aprofundou o contato.

Era um beijo que carregava tudo o que eles não tinham dito. Era a raiva de Nikki contra a injustiça do mundo, era a solidão de Edward sendo preenchida por um fogo que ele achava que nunca mais sentiria. Era o som de Johnny Thunders morrendo no rádio e o som de dois corações batendo em um ritmo desesperado, tentando ignorar que um deles estava falhando.

Edward soltou um gemido baixo, uma mistura de alívio e dor, e suas mãos subiram fracamente para agarrar a jaqueta de couro de Nikki. Ele puxou o baixista para mais perto, como se pudesse absorver um pouco daquela vitalidade caótica, como se pudesse roubar um pouco do tempo que Nikki tinha de sobra.

Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Nikki permaneceu com a testa encostada na de Edward, os olhos fechados.

— Você é um desgraçado, Eddie — sussurrou Nikki, a voz embargada. — Você me fez perder a aposta de novo. Eu disse que não ia me importar.

— Você sempre foi um péssimo mentiroso, Frank — Edward respondeu, usando o nome proibido, mas desta vez soava como um segredo compartilhado, não como um insulto.

Nikki se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele.

— Eu vou te tirar daqui. A gente vai para a Strip. Eu vou te mostrar o que é o rock and roll de verdade, sem essas máquinas, sem esse cheiro de morte.

Edward sorriu, e desta vez o sorriso chegou aos olhos, iluminando o rosto pálido com uma beleza que Nikki nunca esqueceria.

— Você já me mostrou, Nikki.

O rádio agora tocava apenas estática. O sol tinha se posto completamente, deixando o quarto mergulhado em sombras azuis, quebradas apenas pelo brilho verde do monitor cardíaco.

— Fica aqui? — pediu Edward, a voz tornando-se pequena, a exaustão voltando a cobrar seu preço.

— Eu não vou a lugar nenhum, Inglês Maluco — Nikki se acomodou na cadeira de metal, pegando a mão de Edward e entrelaçando seus dedos nos dele. — Eu vou ficar aqui até você se cansar de mim.

— Então você vai ficar aqui por muito tempo — murmurou Edward, fechando os olhos.

Nikki ficou lá, no escuro, ouvindo a respiração irregular de Edward. Ele olhou para o dinheiro que ainda estava na mesa de cabeceira, para o caderno de desenhos cheio de figuras que nunca veriam a luz do dia, e para o garoto que tinha lhe ensinado mais sobre a vida em uma semana do que todos os seus anos de rebeldia.

Ele sabia que o "muito tempo" de Edward era curto. Ele sabia que as memórias eram tudo o que restaria, e que Johnny Thunders tinha razão: você não pode abraçar uma memória. Mas, naquela noite, no quarto 312, sob o brilho frio das máquinas, Nikki Sixx decidiu que ia segurar aquela mão com tanta força que nem a morte seria capaz de soltá-la sem uma luta.

Porque, no fim das contas, o rock and roll não era sobre viver para sempre. Era sobre queimar com tanta intensidade que, mesmo quando a luz se apagasse, o brilho ainda permaneceria na retina de quem teve a coragem de olhar. E Nikki Sixx nunca teve medo de olhar para o fogo.