ingles maluco
Cinzas, Bile e o Som da Rebeldia
O ar na garagem de Tommy Lee estava saturado com o cheiro de óleo de motor, cerveja barata e o suor de quatro jovens que acreditavam piamente que o mundo se ajoelharia diante deles em breve. Nikki Sixx, com seu baixo pendurado na altura dos joelhos e o cabelo desfiado para todos os lados, era o maestro daquele caos. Mas, naquela tarde, seu foco não estava apenas nos amplificadores estourados. Seu olhar desviava constantemente para o canto da garagem, onde Edward Livingstone estava sentado em um caixote de madeira, com o caderno de desenhos apoiado nos joelhos ossudos.
Edward parecia uma aparição. A luz do sol poente que filtrava pelas frestas da porta da garagem tornava sua pele quase translúcida, e as sombras sob seus olhos eram tão escuras que pareciam pintadas com carvão. Ele não dizia nada, apenas observava o ensaio com aquele olhar de desdém britânico que Nikki tanto tentava quebrar.
— Certo, chega de barulho por um segundo! — gritou Nikki, batendo nas cordas do baixo para silenciar a microfonia. — O público está entediado. Olha para o Eddie ali. Ele parece que está assistindo a um documentário sobre a reprodução dos fungos.
Tommy, sentado atrás de sua bateria, soltou uma risada alta e girou as baquetas.
— O cara é duro na queda, Nikki. Desiste. Os cinquenta dólares já são dele.
— Nunca! — Nikki jogou o baixo para o lado, deixando-o pendurado pela correia, e caminhou até o centro da garagem. — Eu tenho uma performance especial. Tommy, vem aqui. Você vai ser a minha co-estrela.
Tommy, que nunca perdia a oportunidade de passar vergonha, pulou do banco da bateria e correu para o lado de Nikki.
— Qual é o roteiro, mestre?
— Vamos encenar uma noite típica na casa dos pais do Vince — Nikki anunciou, aumentando a voz para garantir que Edward ouvisse. — Vince, não fica bravo, cara, mas a gente sabe que sua mãe acha que você é um anjo e seu pai acha que eu sou a reencarnação do diabo.
Vince Neil, que estava bebendo um gole de Jack Daniels perto do microfone, revirou os olhos.
— Me deixem fora disso, seus idiotas.
— Tarde demais! — Nikki agarrou Tommy pela cintura e começou a encenar uma dança grotesca e exagerada, simulando uma cena de sedução barata. — "Oh, Tommy, querido, não faça barulho! Se o pai do Vince entrar aqui com aquela espingarda de sal, ele vai achar que estamos tentando invocar o espírito do Elvis através do contato carnal!"
Tommy começou a fazer gemidos agudos e absurdos, jogando a cabeça para trás enquanto Nikki o sacudia de um lado para o outro.
— "Mas Nikki!" — Tommy guinchou, imitando uma voz feminina afetada. — "Os pais do Vince disseram que o rock and roll é a música do pecado! O que eles diriam se vissem a gente trocando fluidos em cima da colcha de retalhos que a avó dele costurou?"
Nikki parou a "cena" e olhou para o nada com uma expressão de horror cômico.
— "Eles diriam que o Vince canta como uma garotinha porque ele nunca teve um exemplo de masculinidade como o nosso, Tommy! Agora, fique quieto e me deixe mostrar como se faz um solo de baixo... sem o baixo!"
Nikki começou a fazer movimentos pélvicos frenéticos e ridículos contra a perna de Tommy, enquanto imitava o som de uma guitarra distorcida com a boca. Tommy caiu no chão, fingindo um desmaio dramático por excesso de "prazer rock and roll".
A garagem ficou em silêncio por um segundo, até que um som estranho veio do canto.
Era baixo, quase como um engasgo, mas logo se transformou. Edward estava com a mão sobre a boca, os ombros tremendo. Ele tentou segurar, tentou manter a fachada de lorde amargo, mas a imagem de Nikki Sixx fazendo uma cena de sexo imaginária com Tommy Lee enquanto insultava a linhagem de Vince Neil foi demais para suas defesas.
Uma risada curta e genuína escapou. Depois outra. Edward inclinou a cabeça para trás, rindo de forma contida, mas clara o suficiente para todos ouvirem.
— EU GANHEI! — berrou Nikki, pulando no ar e socando o vazio. — Eu ouvi! Todo mundo ouviu! Cinquenta dólares, Eddie! Passa para cá!
Edward limpou uma lágrima do canto do olho, o rosto subitamente ganhando uma cor rosada pelo esforço.
— Você é... patético, Ferrana — disse Edward, a voz ainda trêmula pelo riso. — Realmente patético. Mas eu admito. Foi horrível o suficiente para ser engraçado.
— Cinquenta pratas! — Nikki estendeu a mão, radiante.
Edward suspirou e tateou o bolso da calça, tirando cinco notas de dez dólares amassadas. Ele as entregou a Nikki com uma reverência irônica.
— Use com sabedoria. Ou gaste tudo em spray de cabelo, o que for mais provável.
Nikki pegou o dinheiro, beijando as notas e guardando-as no bolso da jaqueta com um ar de triunfo absoluto. Ele se sentia o rei do mundo. Ele não tinha apenas ganhado uma aposta; ele tinha dobrado a vontade do sujeito mais difícil que já conhecera.
No entanto, nem todos na garagem estavam comemorando. No canto oposto, sentado em um amplificador, Mick Mars observava a cena com olhos pesados. Ele não tinha rido. Ele raramente ria. Mick mantinha sua guitarra apoiada no colo, as mãos pálidas descansando sobre as cordas. Ele vinha observando Edward desde o primeiro dia em que o garoto apareceu nos ensaios. Ele reconhecia o jeito que Edward se sentava. Reconhecia a forma como ele evitava movimentos bruscos e como sua respiração era curta, calculada para não despertar a dor.
Quando o ensaio terminou e Tommy e Vince saíram para buscar mais bebida, deixando apenas Nikki, Mick e Edward na garagem, o clima mudou. Edward se levantou devagar, guardando o caderno na mochila.
— Eu preciso ir — disse o loiro, a voz soando subitamente cansada, como se a risada tivesse drenado o resto de sua energia. — Minha mãe está esperando.
— Ei, Eddie! — Nikki o chamou, ainda com o sorriso no rosto. — Amanhã a gente vai celebrar. Eu pago a primeira rodada com o seu próprio dinheiro!
Edward deu um aceno vago e saiu da garagem, caminhando com uma rigidez que o fazia parecer muito mais velho do que realmente era.
Nikki começou a guardar seu baixo, cantarolando uma melodia vitoriosa, quando a voz rouca de Mick o interrompeu.
— Você se sente um gênio agora, não é, Nikki?
Nikki parou e olhou para o guitarrista. Mick raramente falava se não fosse sobre música ou para reclamar de algo.
— Qual é, Mick? Eu ganhei a aposta. O cara finalmente se soltou. Ele precisava disso.
Mick se levantou devagar, cada movimento parecendo custar um esforço imenso. Sua espondilite anquilosante era uma companheira cruel, fundindo seus ossos e transformando seu corpo em uma prisão de dor.
— Você não viu, não é? — Mick caminhou até Nikki, parando na frente dele. — Você estava tão ocupado sendo o centro das atenções que não viu o que aquele garoto está passando.
— Do que você está falando? — Nikki franziu a testa, a animação começando a murchar.
— Ele está morrendo, seu idiota — Mick disse, sem rodeios. — Ele tem câncer. No estômago, se eu tivesse que apostar. Eu vejo como ele se dobra quando acha que ninguém está olhando. Eu vejo o sangue que ele tenta limpar do canto da boca depois de tossir.
Nikki sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. O ar na garagem pareceu subitamente frio.
— O quê? Não... ele só é... ele é só um cara mal-humorado, Mick. Ele é inglês, eles são todos pálidos e secos assim.
— Ele não é mal-humorado, Nikki. Ele está com dor. O tempo todo — Mick colocou a mão no ombro de Nikki, e pela primeira vez, havia uma sombra de empatia nos olhos do guitarrista. — Eu sei reconhecer a dor de longe porque eu vivo com ela todos os dias. A diferença é que a minha doença só quer me transformar em pedra. A dele quer devorá-lo por inteiro. Aqueles cinquenta dólares que você tirou dele? Provavelmente eram para os remédios que a mãe dele se mata de trabalhar para comprar.
Nikki olhou para o bolso da jaqueta onde o dinheiro estava guardado. As notas agora pareciam queimar contra sua pele. Ele se lembrou da casa de Edward, da mãe com os olhos cansados, do cheiro de hospital que impregnava o apartamento. Ele se lembrou de como Edward hesitou antes de entregar o dinheiro.
— Eu sou um lixo — sussurrou Nikki, a realização caindo sobre ele como uma tonelada de tijolos.
— Você é um egocêntrico — corrigiu Mick. — Mas ainda dá tempo de não ser um lixo completo.
Nikki não esperou mais nada. Ele pegou sua jaqueta, nem se deu ao trabalho de guardar o baixo direito, e saiu correndo da garagem. Ele correu pelas ruas de Los Angeles, o vento batendo em seu rosto, mas a única coisa que ele conseguia ouvir era a risada de Edward — uma risada que ele agora percebia ser um ato de coragem suprema, não apenas o resultado de uma piada idiota.
Ele chegou ao prédio de Edward ofegante, o peito ardendo. Ele subiu as escadas correndo e bateu na porta do 4B com uma urgência desesperada.
A mãe de Edward abriu a porta, os olhos vermelhos como se tivesse acabado de chorar.
— Nikki? O que houve? O Ed acabou de chegar, ele está descansando...
— Eu preciso ver ele, senhora Livingstone. Por favor. É importante.
Ela hesitou, mas abriu espaço. Nikki entrou no quarto pequeno. Edward estava deitado, sem a manta desta vez, e Nikki pôde ver o quão magro ele realmente estava sob as roupas largas. O caderno de desenhos estava caído ao lado da cama.
Edward abriu os olhos, surpreso ao ver Nikki ali.
— Esqueceu de me contar outra piada, Ferrana? — ele tentou brincar, mas a voz era fraca.
Nikki não disse nada. Ele caminhou até a cama e tirou o dinheiro do bolso. Ele não tirou apenas os cinquenta dólares da aposta; ele tirou tudo o que tinha na carteira — mais cem dólares que ele vinha economizando para comprar um pedal novo e algumas cordas de reserva.
Ele jogou o maço de notas sobre o peito de Edward.
— Pega essa droga de volta — disse Nikki, a voz grossa de emoção.
Edward olhou para o dinheiro e depois para Nikki, confuso.
— O que é isso? Você ganhou a aposta, Nikki. Um acordo é um acordo.
— O acordo foi uma merda! — Nikki explodiu, sentando-se na beira da cama. — Eu não quero o seu dinheiro, Eddie. Eu nunca quis. Eu só queria... eu não sei o que eu queria, mas não era isso. Mick me contou.
O rosto de Edward se fechou instantaneamente. Ele desviou o olhar para a parede.
— Aquele guitarrista velho tem a língua comprida demais.
— Ele só me deu um choque de realidade — Nikki se inclinou para a frente. — Por que não me contou, cara? A gente podia ter ajudado. Eu podia ter parado de ser um idiota, pelo menos por cinco minutos.
— Eu não queria que você parasse de ser um idiota — Edward disse, voltando a olhar para ele, e havia uma sinceridade cortante em seus olhos. — Todo mundo olha para mim e vê uma sentença de morte, Nikki. Minha mãe, os médicos, os professores... até os desconhecidos na rua. Mas você... você olhou para mim e viu um desafio. Você me tratou como se eu fosse apenas mais um cara. Você me irritou, me seguiu, me fez rir de coisas estúpidas. Você me fez sentir que eu ainda fazia parte do mundo dos vivos.
Nikki sentiu uma lágrima teimosa escorrer, mas ele a limpou rapidamente.
— Você ainda faz parte, Eddie. E vai continuar fazendo. Pega esse dinheiro. É para os remédios, ou para comprar materiais de desenho novos, ou para mandar a rainha da Inglaterra para o inferno. Eu não ligo. Só não ousa me devolver.
Edward olhou para as notas.
— Isso é mais do que cinquenta dólares, Nikki.
— Considera como juros por eu ser um babaca — Nikki deu um sorriso fraco. — E tem mais. Eu vou passar aqui amanhã. E depois de amanhã. E eu vou trazer o Tommy para ele encenar a parte dois daquela cena, mas desta vez o Vince vai participar.
Edward soltou uma risada fraca, mas verdadeira.
— Por favor, não. Eu acho que meu coração não aguenta tanta vergonha alheia.
— Ele aguenta sim. O seu coração é mais rock and roll do que o de muita gente que eu conheço — Nikki se levantou, sentindo um peso enorme sair de seus ombros. — Eu vou indo. Minha banda precisa de mim para decidir qual vai ser o nome da nossa primeira turnê mundial.
Ele caminhou até a porta, mas parou antes de sair.
— Eddie?
— Sim?
— Me desenha uma coisa? — Nikki perguntou, sem olhar para trás. — Não uma modelo magra, nem o meu baixo. Desenha a gente. A banda. Na Sunset Strip, com as luzes, o barulho e tudo o mais. Como se a gente fosse donos daquela porra toda.
Houve um silêncio no quarto por um momento, antes de Edward responder.
— Eu vou precisar de lápis novos para isso. O grafite comum não consegue capturar o quão ridículo o seu cabelo é.
Nikki riu, desta vez de felicidade pura.
— Combinado, Inglês Maluco. Combinado.
Nikki saiu do apartamento e desceu as escadas. Ele não tinha mais um centavo no bolso, seu pedal novo teria que esperar e ele provavelmente teria que comer macarrão instantâneo pelo resto do mês. Mas, enquanto caminhava pelas ruas barulhentas de Los Angeles, ele sentia que tinha acabado de ganhar a aposta mais importante da sua vida. E, pela primeira vez, o prêmio não era o dinheiro, mas a prova de que, mesmo no meio das cinzas e da bile, ainda havia espaço para um acorde de esperança e uma risada compartilhada antes que as luzes se apagassem.