Insane
Ouro, Roxo e o Doce Sabor da Rendição
A luz neon do shopping refletia nas poças de água do estacionamento, criando um mosaico de cores vibrantes que parecia combinar perfeitamente com o caos interno de Sua. O passeio havia sido, para dizer o mínimo, uma experiência antropológica. Mizi, a garota que na noite anterior havia sido um furacão de agressividade e desejo entre quatro paredes, tinha passado as últimas três horas sendo a personificação da "tia rica e descolada".
Hamin estava em um estado de euforia que beirava o delírio. Mizi não apenas o levou para ver o filme de animação mais barulhento da temporada, como também, ao saírem do cinema, parecia decidida a falir a própria conta bancária em nome do sorriso do menino.
— Mizi, você não precisa comprar tudo isso! — exclamou Sua, observando a pilha de sacolas que Mizi carregava com uma facilidade irritante.
— Relaxa, "nuvem". Dinheiro serve para ser gasto com coisas importantes — respondeu Mizi, entregando mais um pacote de balas Fini para Hamin. — E carrinhos de metal e Beyblades são assuntos seríssimos. Não é, capitão?
— É! — gritou Hamin, abraçado a uma caixa enorme de Lego Star Wars. — Mizi, você é a melhor pessoa do mundo inteiro!
Mizi riu, um som limpo que fez o estômago de Sua dar um solavanco. Ela carregava sacolas em uma das mãos, enquanto a outra estava livre. Hamin caminhava do outro lado, segurando a mão esquerda de Sua. O shopping já estava esvaziando, e o clima entre as duas garotas era carregado de uma tensão que Hamin, em sua inocência de seis anos, não conseguia captar.
De repente, sem aviso prévio, Mizi esticou a mão livre e buscou a mão direita de Sua. Seus dedos se entrelaçaram com uma firmeza possessiva, a palma quente de Mizi colando-se à de Sua.
Sua sentiu o sangue subir para o rosto instantaneamente. O toque não era apenas um gesto de carinho; era uma marcação de território. Hamin, que estava pulando enquanto andava, parou de repente. Ele olhou para as mãos entrelaçadas das duas e, com a sinceridade brutal de uma criança, soltou a mão de Sua.
— Ei! — Hamin protestou, parando na frente delas. — Eu que tenho que segurar a mão da Mizi!
Sua ficou estática, a boca levemente aberta. Mizi, no entanto, não soltou a mão dela. Em vez disso, deu um sorriso de canto, olhando para o menino com diversão.
— E por que só você, Hamin? — perguntou Mizi.
— Porque ela é minha irmã! E você é minha amiga! — o menino explicou, tentando puxar a mão de Mizi.
— Bom — disse Mizi, inclinando-se para ficar na altura dele, mas ainda mantendo os dedos entrelaçados aos de Sua —, acontece que a Sua também tem que segurar minha mão. Porque ela é minha namorada.
O silêncio que se seguiu no corredor do shopping foi tão denso que Sua jurou que podia ouvir as engrenagens da cabeça de Hamin girando. O menino congelou, os olhos arregalados, olhando de Mizi para Sua como se tivesse acabado de descobrir que o Papai Noel era, na verdade, um super-herói.
— Irmã... ela é sua namorada? — Hamin perguntou, a voz subindo uma oitava. — De verdade? Tipo, de beijar e tudo?
Sua sentiu que ia desmaiar. Ela olhou para Mizi, buscando algum sinal de que aquilo era apenas mais uma provocação, mas os olhos dourados de Mizi estavam fixos nela, brilhando com uma seriedade que a deixou sem fôlego.
— É, Hamin... — Sua conseguiu balbuciar, o coração martelando contra as costelas. — Ela é.
Hamin soltou um grito de alegria que ecoou pelo estacionamento quase vazio. Ele começou a pular ao redor delas, as sacolas de brinquedos balançando perigosamente.
— Ela é muito legal! Sua, você vai dividir ela comigo, não vai? Por favor! — O menino agarrou o braço de Sua, implorando. — Eu faço o que você quiser! Eu arrumo meu quarto, eu não conto pra mamãe que você comeu chocolate antes do jantar! Só deixa ela ser nossa namorada!
— Hamin, não é assim que funciona... — Sua tentou explicar, mas Mizi estava rindo abertamente agora.
— Tudo bem, Sua. Eu posso ser a namorada da família — brincou Mizi, dando um aperto final na mão de Sua antes de levá-las até o carro.
A viagem de volta foi barulhenta, com Hamin listando todos os motivos pelos quais Mizi era "muito melhor que o Acorn de cuia". Mizi apenas dirigia, mantendo um sorriso enigmático, ocasionalmente lançando olhares rápidos para Sua, que estava encolhida no banco do passageiro, tentando processar o fato de que Mizi tinha acabado de se autodeclarar sua namorada na frente de sua família.
Quando chegaram à casa de Sua, Mizi ajudou a descarregar a montanha de brinquedos.
— Tchau, capitão — disse Mizi, bagunçando o cabelo de Hamin. — Vejo você em breve.
— Tchau, Mizi-namorada! — Hamin gritou, correndo para dentro com seus tesouros.
Mizi virou-se para Sua. O clima mudou em um segundo. O brilho divertido nos olhos dela foi substituído por aquela intensidade sombria que Sua aprendera a temer e desejar.
— Você está bem, "nuvem"? — Mizi perguntou, a voz baixando. — Ficou muito chocada com o título?
— Você não me perguntou — sussurrou Sua. — Você só decidiu.
— Eu sempre decido — Mizi deu um passo à frente, roçando o nariz no de Sua. — E você sempre aceita. Até amanhã, Sua.
Mizi entrou no carro e partiu, deixando Sua plantada na calçada, sentindo o frio da noite finalmente alcançá-la.
Dentro de casa, o caos era outro. Hamin já tinha encontrado a mãe na sala e estava despejando a informação como se fosse o furo jornalístico do século.
— Mãe! A Mizi é namorada da Sua! — gritava o menino, espalhando Legos pelo tapete. — E ela comprou tudo isso! E elas seguraram a mão!
A mãe de Sua estava parada no meio da sala, segurando um copo de água, com uma expressão de choque absoluto. Ela olhou para Sua, que entrava na sala tentando parecer invisível.
— Namorada, Sua? — a mãe perguntou, a voz falhando. — A garota do cabelo rosa? A que jantou aqui ontem?
— Mãe, eu... — Sua começou, mas Hamin a interrompeu.
— Ela é muito legal, mãe! Ela disse que a Sua é namorada dela! A gente vai ser uma família de meninas agora?
A mãe de Sua sentou-se lentamente no sofá, processando a informação.
— Eu... eu preciso de um momento — disse ela, embora não parecesse brava, apenas profundamente confusa. — Aquela menina... ela é muito intensa, não é?
— É, mãe — suspirou Sua, subindo as escadas. — Você não tem ideia.
***
Na manhã seguinte, Sua sentia que estava caminhando para o cadafalso. Ela encontrou seu grupo de amigos perto dos armários. Hyuna, Luka, Ivan e Till estavam em um círculo apertado, conversando em sussurros excitados.
— Vocês não vão acreditar — disse Sua, aproximando-se com as olheiras de quem não dormiu um segundo. — A Mizi se declarou pro meu irmão ontem.
— O quê?! — Till quase derrubou o skate. — Pro Hamin?
— Não, seu idiota — Sua revirou os olhos. — Ela disse pro Hamin que é minha namorada. Na frente da minha mãe. O Hamin contou pra todo mundo em casa.
— Puta que pariu — Ivan soltou uma gargalhada genuína. — A Mizi não dá ponto sem nó. Ela pulou o pedido e foi direto pra adoção legal.
— Sua, isso é... uau — Hyuna estava com os olhos brilhando. — Então é oficial? Vocês estão namorando?
Antes que Sua pudesse responder, o corredor pareceu esfriar e aquecer ao mesmo tempo. O perfume de chiclete e cereja anunciou a chegada dela antes mesmo que alguém a visse.
Mizi surgiu da multidão, caminhando com aquela confiança inabalável que fazia todos os alunos pararem para olhar. Ela não parou para cumprimentar o grupo. Ela foi direto para trás de Sua.
Sem dizer uma palavra, Mizi envolveu a cintura de Sua com os braços, puxando-a para trás até que as costas de Sua estivessem coladas ao seu peito. Mizi encostou o queixo no ombro de Sua, fechando os olhos por um momento, como se estivesse apenas descansando.
O grupo de amigos ficou em silêncio absoluto. Till abriu a boca, mas Ivan lhe deu uma cotovelada para que ele ficasse quieto.
Sua sentiu o calor do corpo de Mizi a envolvendo. Era um contraste absurdo com a brutalidade da noite anterior; ali, no meio do corredor, Mizi parecia quase... carente. Sua, instintivamente, levou as mãos aos braços de Mizi que circulavam sua cintura. Com as unhas, ela começou a fazer um carinho leve e rítmico na pele do antebraço de Mizi, sentindo a outra garota relaxar contra ela.
— Bom dia, "nuvem" — sussurrou Mizi, a voz abafada pelo pescoço de Sua.
— Bom dia — respondeu Sua, a voz saindo em um fio.
Mizi inclinou a cabeça e, sem se importar com os amigos ou com as dezenas de alunos que passavam, virou o rosto de Sua levemente para o lado e roubou um beijo rápido, mas profundo. O som do beijo foi audível no silêncio do grupo.
— Ei, a gente ainda está aqui, sabia? — brincou Hyuna, embora estivesse sorrindo de orelha a orelha.
Mizi abriu um dos olhos, olhando para o grupo com um desdém divertido, mas não soltou Sua. Pelo contrário, apertou o abraço, prendendo Sua contra o armário frio enquanto o calor de seu corpo servia de escudo.
— Ocupada — disse Mizi, voltando a esconder o rosto no pescoço de Sua.
Sua continuou o carinho no braço de Mizi, sentindo-se, pela primeira vez, não como uma vítima do furacão, mas como o centro dele. O roxo e o ouro não estavam mais apenas em um post de internet; eles estavam ali, entrelaçados em um abraço que cheirava a cereja e a uma promessa de que o caos, afinal, era o lugar onde Sua sempre pertencera.