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Insane

Convite Inesperado e o Caos de Neon

A brisa no terraço estava mais gelada do que Sua previra, e o silêncio entre as duas era preenchido apenas pelo som distante do sinal da escola tocando para o início da primeira aula. Mizi, com os olhos dourados levemente avermelhados, parecia uma pintura borrada contra o céu cinzento da manhã. Ela soltou o ar, e Sua não sabia se o que via era o resto da fumaça do cigarro ou apenas o frio condensando o suspiro de frustração da garota.

— Você está bem? — Sua repetiu, sentindo que a pergunta soava vazia diante do tamanho da confusão que tinha acabado de presenciar no corredor.

— Por que todo mundo pergunta isso quando a resposta é óbvia? — Mizi deu um sorriso de lado, mas não era o seu sorriso sarcástico de sempre. Era algo mais quebrado. — Eu tô um lixo, Sua. A Lexy me tira do sério, o mundo me tira do sério... e eu ainda tenho que lidar com gente bisbilhoteira.

Sua deu um passo à frente, ignorando o frio na barriga.

— Eu não sou bisbilhoteira. Eu só... me importo.

Mizi arqueou uma sobrancelha, o olhar suavizando por um milésimo de segundo. Ela chutou a bituca do cigarro para o canto, escondendo a evidência do seu "mau hábito".

— É, eu sei que você é gente boa. A "nuvem calma" do grupo do Till, né? — Mizi soltou uma risadinha fraca. Ela se desencostou da grade e caminhou até ficar a poucos centímetros de Sua. — Escuta, eu vou dar uma festa de aniversário no sábado. Na minha casa.

Sua piscou, surpresa pela mudança repentina de assunto.

— Festa? Mas você e a Lexy...

— Esquece a Lexy por um segundo — Mizi interrompeu, passando a mão pelo cabelo rosa bagunçado. — Vai ter bebida, música alta e nada de bolo ou parabéns cafona. Só quero esquecer que essa semana existiu. Se você quiser aparecer... leva aquele seu grupo. Eu nem sei o nome de metade deles, mas quanto mais gente pra abafar o silêncio daquela casa, melhor.

— Eu vou falar com eles — Sua respondeu, o coração martelando contra as costelas. — E, Mizi... feliz aniversário. Antecipado.

Mizi não respondeu de imediato. Ela apenas deu um aceno com a cabeça, seus olhos dourados encontrando os roxos de Sua de uma forma que fez o mundo ao redor desaparecer por um instante. Então, sem dizer mais nada, ela passou por Sua e saiu do terraço, deixando apenas o cheiro de tabaco e perfume doce para trás.

***

O intervalo estava uma barulheira só no refeitório. O grupo estava reunido na mesa de sempre, com Ivan tentando roubar as batatas fritas de Till, enquanto Luka lia um livro de física como se o mundo não estivesse desabando ao redor.

— Gente — Sua começou, sentando-se e tentando parecer casual —, a Mizi falou comigo no terraço.

Ivan parou com a mão no ar, o pirulito na boca fazendo um volume na bochecha.

— No terraço? O que você foi fazer lá, Sua? — Ele estreitou os olhos pretos, aquele sorriso provocador surgindo. — Virou conselheira amorosa da rainha da escola agora?

— Não enche, Ivan — Sua revirou os olhos. — Ela só me chamou pra festa de aniversário dela no sábado. Disse que a gente podia ir.

Till quase engasgou com o suco.

— A Mizi? Chamou a gente? — Ele limpou a boca na manga do casaco. — Pô, eu tô dentro. As festas dela são lendárias, mesmo que ela e a Lexy vivam naquele pé de guerra.

— Vai ter bebida? — Hyuna perguntou, já animada, ajeitando o cabelo moreno. — Porque se tiver, eu topo na hora. Preciso desestressar desse simulado de química.

— Ela disse que vai ser só festa e bebida — Sua confirmou, omitindo a parte da fumaça e da tristeza nos olhos de Mizi. — O que você acha, Luka?

Luka levantou os olhos do livro, ajustando os óculos.

— Desde que ninguém me obrigue a dançar ou a carregar o Till bêbado pra casa, eu vou. Preciso de dados sociais novos para observar.

— Você é um esquisito, Luka — Ivan riu, dando um tapa nas costas do loiro. — Fechou então. Sábado a gente invade a casa da Mizi.

Sua sorriu, mas por dentro, uma ansiedade crescente tomava conta. Ela pensou em Acorn. Ele provavelmente iria querer ir também, e ela teria que fingir que era apenas uma namorada dedicada, enquanto seus olhos, inevitavelmente, buscariam o rosa vibrante de Mizi no meio da multidão.

***

Sábado à noite chegou com uma velocidade assustadora. O grupo se encontrou em uma esquina perto da casa de Mizi. O bairro era nobre, com casas grandes e modernas que exalavam dinheiro e sofisticação.

— Caramba, a Mizi mora num palácio? — Till comentou, olhando para a fachada de vidro e concreto.

Dava para ouvir o som abafado das batidas do grave antes mesmo de chegarem no portão. Havia luzes de neon azuis e roxas saindo pelas janelas, e várias pessoas já se amontoavam no jardim frontal, conversando alto e segurando copos plásticos vermelhos.

— Olha lá em cima — Hyuna apontou para a varanda do segundo andar.

Sua olhou e sentiu um aperto no peito. Nas sombras da varanda, era possível ver silhuetas de casais se beijando, o brilho dos celulares e o movimento frenético de uma festa que já estava em pleno vapor.

Ao entrarem, o calor e o cheiro de álcool e suor os atingiram. A sala era enorme, mas parecia pequena para a quantidade de adolescentes que pulavam ao som de uma música eletrônica ensurdecedora.

— Vou buscar bebida! — Hyuna gritou por cima do som, puxando Till e Ivan em direção à cozinha.

Luka ficou perto de uma parede, observando a decoração moderna com um ar de desaprovação intelectual, mas sem ir embora. Sua, sentindo-se deslocada, aceitou um copo que Ivan lhe entregou minutos depois.

— É vodka com alguma coisa doce — Ivan piscou para ela. — Bebe, Sua. Você tá muito tensa.

Sua deu um gole. O líquido queimou sua garganta, mas ajudou a anestesiar um pouco a timidez. Ela olhou ao redor, procurando por Mizi. Viu Lexy em um canto, conversando com algumas amigas, parecendo forçar um sorriso que não chegava aos olhos azuis. Mas Mizi não estava em lugar nenhum no andar de baixo.

Duas horas se passaram. O grupo de Sua já estava em estados variados de embriaguez. Hyuna dançava em cima de um sofá, Till tentava acompanhar o ritmo de uma música que ele claramente não conhecia, e Ivan estava rindo de alguma coisa que um desconhecido dizia. Luka permanecia sóbrio, servindo como a âncora do grupo.

Sua já estava no seu terceiro copo, sentindo a cabeça leve, quando a música parou bruscamente.

O silêncio que se seguiu foi chocante, interrompido apenas por alguns murmúrios confusos. Todos olharam para a escadaria de mármore que levava ao segundo andar.

— Sai da frente! — O grito veio de Lexy.

Ela desceu os degraus correndo, abrindo caminho brutalmente entre os convidados. Seu rosto estava manchado de rímel, as lágrimas escorrendo sem parar. Ela não olhou para ninguém, apenas atravessou a sala e saiu pela porta da frente, batendo-a com tanta força que o vidro pareceu vibrar.

Poucos segundos depois, um garoto chamado Marty, que todos sabiam ser um dos amigos mais próximos (e um tanto arrogantes) de Mizi, apareceu no topo da escada. Ele tinha uma expressão séria e impaciente.

— Acabou a festa, pessoal! — ele gritou, fazendo sinal para que as pessoas se retirassem. — Todo mundo pra fora. Agora! A Mizi não tá bem, a festa acabou. Vão embora!

Um coro de reclamações subiu da multidão, mas Marty começou a descer e a empurrar os mais lentos em direção à saída. Sua, no entanto, não conseguia se mexer. Seus olhos estavam fixos no segundo andar.

Lá em cima, encostada no corrimão da galeria superior, estava Mizi.

Ela parecia pequena naquela casa enorme. O cabelo rosa estava desgrenhado e ela segurava um copo vazio com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela não estava gritando, não estava chorando como Lexy. Ela apenas olhava para o vazio com uma cara de velório, uma expressão de derrota total que partiu o coração de Sua em mil pedaços.

— Sua, vamos — Luka disse, tocando o ombro dela. — O cara tá expulsando todo mundo.

— Mas a Mizi... — Sua começou, a voz falhando.

— Não é hora, Sua — Ivan interveio, agora com um tom mais sério, percebendo o clima. — Ela não quer ninguém aqui. Olha pra ela.

O grupo foi empurrado para fora junto com a massa de adolescentes frustrados. O ar frio da noite foi um choque térmico para a pele quente de Sua. Enquanto caminhavam de volta para a rua principal, o silêncio no grupo era pesado. Até Ivan tinha perdido a vontade de fazer piadas.

— O que será que aconteceu? — Hyuna perguntou, a voz baixa. — A Lexy saiu destruída.

— Provavelmente a briga final — Till comentou, chutando uma pedrinha. — Elas já estavam por um fio.

Sua não disse nada. Quando chegou em casa, ela se jogou na cama sem sequer tirar os sapatos. A imagem de Mizi no topo da escada, sozinha e desolada, não saía de sua mente.

Ela pegou o celular, movida por um impulso desesperado, mas parou com o polegar flutuando sobre a tela. Ela não tinha o número de Mizi. Elas não eram próximas o suficiente para isso. Ela era apenas a namorada do Acorn, a garota quieta que fazia parte de um grupo que Mizi mal conhecia.

— Que droga... — Sua murmurou, sentindo as lágrimas arderem em seus próprios olhos. — Por que eu me importo tanto?

Ela rolou para o lado, abraçando o travesseiro. A preocupação era como um peso físico em seu peito. Ela queria voltar lá, subir aquelas escadas e dizer a Mizi que, mesmo que o mundo estivesse um caos, ela não precisava enfrentar aquilo sozinha. Mas a realidade era cruel e silenciosa.

Naquela noite, Sua não sonhou com Mizi sorrindo ou a provocando. Ela sonhou com o silêncio daquela casa moderna, com as luzes de neon se apagando uma a uma, deixando Mizi na completa escuridão. E, pela primeira vez, Sua sentiu que o abismo entre seus mundos não era feito de popularidade ou beleza, mas de uma dor que ela ainda não sabia como curar.

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