Insane
Ecos de uma Noite Neon
O domingo foi um deserto de silêncio e dor de cabeça. Para o grupo de amigos, a ressaca não era apenas física, mas emocional. A festa de Mizi, que deveria ter sido o ápice do semestre, terminou como um acidente de carro em câmera lenta que todos foram forçados a assistir. Sua passou o dia inteiro encolhida em sua cama, ignorando as mensagens de Acorn e revivendo a imagem de Mizi sozinha naquela varanda, cercada por um luxo que parecia sufocá-la.
Na segunda-feira de manhã, o ar da escola estava eletrizante. Não era a energia vibrante de um dia comum, mas aquele zumbido estático que precede uma tempestade de fofocas. Sua mal tinha cruzado o portão quando sentiu o celular vibrar freneticamente no bolso da saia.
Ela abriu o grupo de mensagens, mas antes de ler, um link para o "Confesse Alien Stage" — a página de fofocas anônimas mais temida da escola — brilhou na tela.
— Puta merda... — Sua sussurrou, os olhos arregalados.
Lá estava. O vídeo. Alguém, escondido atrás de uma das colunas da mansão, tinha gravado a briga final. A qualidade estava granulada, as luzes de neon azuis estouravam na lente, mas o áudio era cruelmente nítido. Mizi e Lexy gritavam palavras que não podiam ser retiradas.
— "Você é uma perda de tempo, Lexy! Eu não sei o que eu vi em você, eu juro que não sei!" — a voz de Mizi no vídeo soava cortante, desprovida da doçura que ela costumava mostrar.
O vídeo terminava com Lexy saindo aos prantos, a mesma cena que Sua vira ao vivo, mas agora exposta para centenas de adolescentes sedentos por drama. Abaixo do vídeo, os comentários eram uma zona de guerra. E, para piorar o circo, logo abaixo havia uma nova enquete, criada por algum aluno desocupado e maldoso: "Quem é a próxima? Vote nas garotas mais bonitas/descoladas que teriam chance com a Mizi agora que ela está solteira".
Sua sentiu um nó no estômago. Ela rolou a lista. Nomes de líderes de torcida, garotas do terceiro ano, e lá, no meio do top 10, estava Hyuna.
— Ei, olha a celebridade chegando! — A voz de Ivan ecoou pelo corredor.
Ele estava encostado nos armários, exibindo o vídeo no próprio celular para Till e Luka. Hyuna vinha logo atrás, parecendo alternar entre o orgulho e o constrangimento.
— Dá pra acreditar nessa merda? — Hyuna perguntou, jogando o cabelo para trás e rindo, embora houvesse um traço de desconforto em sua voz. — Eu estou em quinto lugar na enquete. Quinto! Eu deveria estar no topo, fala sério.
— Você está na lista de "alvos" da Mizi, Hyuna — Till provocou, dando uma cotovelada nela. — Cuidado, a Lexy vai querer arrancar seu couro se te vir perto dela.
— Ah, cala a boca, Till — Hyuna retrucou, dando um tapa leve no braço dele. — É só uma votação idiota de gente que não tem o que fazer.
Sua permanecia em silêncio, sentindo uma pontada amarga de inveja que ela tentava desesperadamente esconder. Por que o nome de Hyuna estava lá e o dela não? Não que ela quisesse ser exposta daquela forma, mas o fato de ninguém sequer cogitar que ela e Mizi pudessem ter algo era um lembrete doloroso de quão invisível seus sentimentos eram.
— Você tá bem, Sua? — Luka perguntou, notando a palidez da amiga. — Você parece que viu um fantasma. Ou o vídeo de novo.
— Só não dormi bem — Sua mentiu pela milésima vez naquela semana. — É tudo muito... exagerado, não acham? Elas acabaram de terminar e o povo já está fazendo apostas.
— Bem-vinda ao ensino médio, Sua — Ivan disse, guardando o celular e pegando um pirulito de morango. — As pessoas são abutres. E a Mizi é a carcaça mais bonita da cidade.
Nesse momento, o burburinho no corredor aumentou. Mizi estava entrando.
Ela não parecia a garota destruída de sábado à noite. Ela vestia a jaqueta da escola aberta, uma camiseta de banda por baixo e o cabelo rosa estava preso em um rabo de cavalo alto e perfeitamente bagunçado. Ela caminhava ao lado de Acorn, que falava algo para ela enquanto mostrava a tela do celular.
Sua sentiu o coração disparar. Acorn estava mostrando a página de fofocas para ela?
— ...e olha isso, Mizi, o pessoal perdeu a noção total — Acorn dizia, apontando para a enquete enquanto caminhavam.
Mizi deu uma olhada rápida na tela, soltando uma risada curta e sarcástica que ecoou pelo corredor.
— Que idiotice — Mizi disse, a voz projetada o suficiente para que os curiosos ouvissem. — Mas olha só... até que tem umas bonitinhas nessa lista. O povo tem bom gosto, pelo menos.
Ela não parecia abalada pelo vídeo da briga ou pelo fim do namoro. Mizi era assim: ela sofria intensamente por quarenta e oito horas e depois emergia com uma armadura de deboche. Ela parecia mais solteira do que nunca, exalando uma aura de "não me importo" que atraía olhares de todos os lados.
Quando o grupo de Mizi passou pelo grupo de Sua, Mizi parou por um segundo. Seus olhos dourados varreram o grupo e pararam em Hyuna. Ela deu um sorriso de canto, aquele sorriso que fazia as pernas de Sua tremerem.
— Quinto lugar, hein, Hyuna? — Mizi zombou, os olhos brilhando com malícia. — Nada mal. Você é bonita, realmente.
Hyuna ficou vermelha instantaneamente, abrindo a boca para responder, mas Mizi já tinha desviado o olhar para Luka, que estava ao lado delas.
— Mas acho que você combina mais com o loiro inteligente ali — Mizi continuou, apontando para Luka com o queixo e soltando uma piscadela antes de voltar a andar com Marty, que a esperava mais adiante. — Vamos, Marty, temos aula de história e eu pretendo dormir os cinquenta minutos inteiros.
O grupo ficou em silêncio por alguns segundos após a saída dela.
— Ela... ela acabou de me shippar com o Luka? — Hyuna perguntou, incrédula, enquanto Till caía na gargalhada.
— A Mizi é foda — Till disse, limpando as lágrimas de tanto rir. — Ela acabou de levar um fora público, teve a vida exposta e ainda tem tempo de zoar a Hyuna.
— Eu não fui shippada, ela só foi sarcástica — Hyuna resmungou, embora estivesse rindo também. — E você, Luka? O que achou da bênção da rainha?
Luka apenas ajeitou os óculos, o rosto levemente corado, mas mantendo a compostura.
— Eu acho que a Mizi precisa de terapia, não de uma nova namorada — ele comentou secamente, voltando a caminhar para a sala.
Sua seguiu o grupo, mas sua mente estava em outro lugar. A interação tinha sido rápida, mas reveladora. Mizi estava de volta ao seu jogo, e Sua continuava sendo apenas a espectadora. A inveja de Hyuna ainda queimava um pouco, uma pequena chama de "por que não eu?" que ela sufocava com a lógica de que ela nunca teria a coragem de Hyuna ou a atitude de Mizi.
— Ei, Sua! — Acorn se aproximou, colocando o braço em volta dos ombros dela. — Você viu o vídeo? Bizarro, né? Eu me sinto mal pela Lexy, a Mizi pegou pesado no final.
Sua olhou para o namorado. Ele era tão... normal. Tão seguro.
— É, foi pesado — Sua respondeu, tentando não se afastar do toque dele. — Mas a Mizi sempre foi intensa.
— Intensa é apelido — Acorn suspirou. — Fico feliz que a gente não seja assim. Imagina ter a escola inteira votando em quem vai ser seu próximo namorado?
— É... imagina — Sua murmurou, forçando um sorriso que não sentia.
O resto da manhã passou como um borrão. Durante a aula de literatura, Sua não conseguia se concentrar no livro de poesias. Seus olhos sempre escapavam para a nuca de Mizi, que estava sentada três fileiras à frente, realmente cumprindo a promessa de dormir durante a aula. O cabelo rosa caía sobre a mesa, e Sua se pegou imaginando como seria a sensação de passar os dedos por aqueles fios, de saber o que Mizi pensava quando não estava cercada por uma multidão.
No intervalo, o grupo se reuniu novamente no pátio. O assunto ainda era a enquete.
— A votação atualizou — Ivan anunciou, mexendo no celular enquanto comia um sanduíche. — Hyuna subiu para quarto. Parece que o comentário da Mizi no corredor vazou e o povo achou que foi uma indireta.
— Ai, meu Deus, eu vou desativar minhas redes sociais — Hyuna disse, cobrindo o rosto com as mãos, embora estivesse claramente gostando da atenção.
— Admite, Hyuna, você tá amando — Till provocou. — A Sua é a única que parece sã aqui. Olha pra ela, nem ligando pra essas bobagens.
Sua deu um sorriso amarelo.
— É... é tudo muito infantil — ela disse, a voz quase sumindo.
— Eu acho que a Mizi só quer causar — comentou Luka, que estava sentado no banco com as pernas cruzadas. — Ela sabe que todos estão olhando. O sarcasmo é a defesa dela. Ela não quer que ninguém veja que ela está mal pelo término, então ela transforma tudo em uma piada.
Sua olhou para Luka com surpresa. Às vezes, o jeito nerd e observador dele acertava em cheio.
— Você acha que ela está mal? — Sua perguntou, talvez com um pouco de esperança demais na voz.
— Ninguém termina um relacionamento de anos e sai ileso, Sua — Luka respondeu calmamente. — Nem mesmo a Mizi.
Aquilo ficou ecoando na cabeça de Sua. Se Mizi estava mal, se ela estava apenas fingindo... então o encontro no terraço tinha sido real? A vulnerabilidade que ela vira antes da festa era a verdadeira Mizi?
As aulas terminaram e Sua estava caminhando para o portão de saída quando viu Mizi novamente. Ela estava sozinha, encostada em uma pilastra, esperando por alguém — provavelmente Marty ou algum outro amigo do círculo popular.
Sua hesitou. Acorn já tinha ido na frente para buscar a bicicleta, e os outros amigos estavam distraídos. Era agora ou nunca.
Ela se aproximou de Mizi, o coração batendo tão forte que ela achou que a outra garota pudesse ouvir.
— Mizi? — chamou baixinho.
Mizi levantou a cabeça. Seus olhos dourados estavam um pouco nublados, como se ela estivesse perdida em pensamentos profundos antes de ser interrompida.
— Ah, a amiga da Hyuna — Mizi disse, o tom sarcástico voltando instantaneamente. — Veio me pedir para subir a nota dela na enquete?
Sua sentiu o rosto esquentar, mas não recuou.
— Não. Eu só... queria saber se você está mesmo bem. Depois de sábado. E do vídeo.
Mizi ficou em silêncio. O sorriso sarcástico vacilou por um segundo, transformando-se em uma linha reta. Ela olhou para Sua de uma forma diferente, não como se visse apenas "a namorada do Acorn", mas como se visse alguém que realmente estava enxergando através da sua máscara.
— Você é persistente, né, "nuvem"? — Mizi perguntou, a voz mais baixa.
— Eu só não acho que você precise fingir o tempo todo — Sua respondeu, a coragem vindo de algum lugar profundo e desconhecido.
Mizi soltou um suspiro longo, jogando a cabeça para trás e olhando para o teto do corredor.
— Fingir é mais fácil do que explicar, Sua. As pessoas gostam da Mizi que faz piada e dá festas. Ninguém quer a Mizi que grita com a namorada no meio do corredor.
— Eu não me importaria — Sua disse, antes que pudesse se conter.
Mizi baixou a cabeça e olhou nos olhos de Sua. Houve um momento de silêncio absoluto entre elas, um momento que pareceu durar uma eternidade. Mizi abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompida por um grito do outro lado do pátio.
— Mizi! Vamos logo, a gente vai se atrasar! — Marty acenava de longe.
Mizi piscou, o momento quebrando-se como vidro. Ela deu um passo para trás, o sorriso de lado voltando ao lugar.
— A gente se vê por aí, Sua. E diz para a Hyuna que o quarto lugar combina com ela.
Ela saiu andando, deixando Sua parada no meio do corredor deserto. Sua tocou o próprio peito, sentindo a vibração do seu coração acelerado. Mizi a chamara pelo nome. Não era "nuvem", não era "amiga da Hyuna". Era Sua.
Enquanto caminhava para encontrar Acorn, Sua sentiu uma mistura confusa de tristeza e uma faísca de esperança. O mundo de Mizi era um caos de neon, fofocas e dramas públicos, mas, por um breve segundo, Sua sentiu que tinha conseguido atravessar a barreira.
Ela sabia que a inveja de Hyuna era boba. Hyuna estava em uma lista pública, mas Sua... Sua tinha tido o silêncio de Mizi. E, naquele mundo barulhento da escola, o silêncio era a coisa mais preciosa que ela poderia ter ganhado.
— Ei, demorou por quê? — Acorn perguntou quando ela chegou à saída.
— Nada — Sua respondeu, subindo na garupa da bicicleta dele. — Só estava pensando na aula de literatura.
— Literatura é um saco — Acorn riu, começando a pedalar.
Sua encostou a cabeça nas costas dele e fechou os olhos. Ela sabia que o que sentia era errado, sabia que era perigoso, mas enquanto o vento batia em seu rosto, ela só conseguia pensar no brilho dourado dos olhos de Mizi e no jeito que seu nome soara nos lábios dela. O jogo estava apenas começando, e Sua, pela primeira vez, não queria mais ser apenas uma espectadora.