Insane
O Ouro, o Roxo e o Doce Amargo
A saída da escola parecia um formigueiro atingido por um jato de água fervente. O burburinho não era o habitual som de chaves, risadas e planos para o shopping; era um sussurro contínuo, uma vibração coletiva que fazia os pelos do braço de Sua se arrepiarem. Ela sentia os olhares. Eram flechas invisíveis disparadas de todos os cantos do pátio, vindas de grupos que ela sequer conhecia.
— Cara, eu não tô acreditando nisso — Till soltou uma gargalhada, balançando o celular na frente do rosto de Sua. — Você viu? Você subiu igual a um foguete!
Sua tentou desviar o olhar, mas foi impossível. A tela do celular de Till mostrava a atualização em tempo real do "Confesse Alien Stage". A enquete de "Quem será a próxima?" tinha sofrido um terremoto. Hyuna tinha caído para o terceiro lugar. Em primeiro, isolada com uma vantagem absurda, estava Vianna. E em segundo, com uma barra de votos que crescia a cada segundo, estava ela. Sua.
— Segundo lugar, Sua! — Hyuna exclamou, sem um pingo de inveja, apenas chocada. — O post das cores invertidas quebrou a internet da escola. Todo mundo tá falando que vocês são o "conceito estético perfeito".
— Isso é ridículo — Sua murmurou, sentindo o rosto queimar de uma forma que a água gelada do banheiro não tinha conseguido aplacar. — Eu namoro o Acorn! Todo mundo sabe disso. Por que diabos me colocariam numa lista dessas?
— Porque as pessoas amam um drama proibido, "nuvem" — Ivan disse, encostado em um pilar, observando a cena com um prazer quase sádico. — A namorada fiel e melancólica versus a rainha do caos recém-solteira. É um roteiro de cinema.
— Eu vou matar quem fez aquele post — Sua sibilou, os olhos roxos faiscando de uma frustração que ela mal conseguia conter.
— Ah, relaxa — brincou Till, dando um tapinha no ombro dela. — Pelo menos você tá ganhando da Hyuna. Isso já é uma vitória histórica.
— Ei! — Hyuna protestou, rindo.
Enquanto o grupo continuava a provocação, o mar de alunos se abriu. Mizi estava saindo, e a aura ao redor dela parecia ter mudado. Ela não parecia mais a garota aérea de minutos atrás; ela caminhava com uma energia renovada, ciente de que cada par de olhos no pátio estava cravado nela.
Mizi avistou o grupo e mudou sua trajetória, caminhando em direção a eles com um sorriso que Sua conhecia bem: o sorriso de quem estava prestes a causar.
— Mas vejam só — Mizi disse, parando a poucos passos de Sua, a voz carregada de um sarcasmo vibrante. — A minha "nuvem" agora é uma celebridade. Segundo lugar, hein?
Sua cruzou os braços, tentando manter a fachada de indiferença.
— É uma piada de mau gosto, Mizi. As pessoas não têm o que fazer.
— Ah, eu não sei — Mizi deu um passo para mais perto, inclinando a cabeça, os olhos dourados brilhando com uma malícia que fazia o estômago de Sua dar voltas. — O post das cores tinha um ponto interessante. Você fica muito bem de rosa, Sua. Talvez devesse considerar mudar o visual.
— Eu estou muito bem com o meu cabelo preto, obrigada — Sua respondeu, a voz firme, apesar do coração martelar contra as costelas. — E eu não sou uma opção em uma enquete idiota.
— Uuuuh, ela está brava — Mizi provocou, olhando para os outros. — Cuidado, gente, a celebridade morde.
Antes que Sua pudesse retrucar, uma sombra cruzou o espaço entre elas. Vianna surgiu como se tivesse sido invocada pelo próprio caos. Sem pedir licença ou dizer uma palavra, a novata passou o braço pelo pescoço de Mizi e a puxou para longe do grupo de Sua, com uma possessividade que deixou todos atônitos.
— Chega de conversa com os figurantes, Mizi — Vianna disse, a voz aveludada e perigosa. — A gente tem coisas mais interessantes para discutir.
Mizi pareceu surpresa, mas não se soltou. Vianna a manteve por perto, mas não saiu dali. Ela queria uma plateia. A novata virou Mizi de frente para ela, flertando abertamente, os dedos longos brincando com os fios rosa do cabelo de Mizi.
— Sabe — Vianna continuou, aproximando o rosto do de Mizi, ignorando a multidão que assistia em silêncio absoluto —, eu vi a enquete. Segundo lugar para a garota quieta? O povo aqui tem um gosto... peculiar. Mas eu prefiro o que está no topo. E eu sempre consigo o que está no topo.
Vianna deslizou a mão do cabelo para a nuca de Mizi, a voz baixando para um tom perversamente sugestivo.
— Você parece o tipo de garota que gosta de ser desafiada, Mizi. E eu garanto que posso ser o seu maior desafio. Que tal a gente terminar essa conversa em um lugar onde não tenha tantos olhos curiosos?
O pátio inteiro parecia ter parado de respirar. Sua sentia uma náusea profunda, uma mistura de nojo pela audácia de Vianna e um medo paralisante de que Mizi simplesmente cedesse. Lexy tinha acabado de sair da vida dela; o espaço estava vazio, e Vianna estava tentando ocupá-lo com a força de um furacão.
Mizi, no entanto, não desviou o olhar. Pela primeira vez desde o ataque da manhã, ela parecia estar no controle total. Ela ergueu a mão, mas não para abraçar Vianna. Seus dedos envolveram o queixo da novata, apertando-o levemente, puxando-a para ainda mais perto.
Os rostos estavam a milímetros. Parecia que o beijo era inevitável. O burburinho de excitação começou a subir entre os alunos. Sua sentiu as unhas cravarem na palma das mãos.
Mizi inclinou-se para o ouvido de Vianna. Ela não sussurrou. Sua voz saiu clara, firme e alta o suficiente para que todos em um raio de cinco metros ouvissem perfeitamente.
— Não.
Vianna estacou. O sorriso predatório vacilou.
Mizi se afastou com uma calma glacial, soltando o queixo da outra. Ela não deu tempo para Vianna reagir ou tentar outra investida. Mizi simplesmente virou as costas para a novata, que ficou parada no meio do pátio com uma expressão de choque total, e caminhou de volta para Sua.
O grupo de amigos estava estático. Mizi parou na frente de Sua. Sem dizer uma palavra, ela levou a mão à boca, retirando o pirulito que estava saboreando — um doce de cereja, vermelho vibrante.
Com um movimento rápido e inesperado, Mizi segurou o rosto de Sua com a mão livre e enfiou o pirulito na boca dela.
Sua arregalou os olhos, o gosto doce e artificial inundando seu paladar instantaneamente. O toque da mão de Mizi em sua bochecha era quente, um contraste absurdo com o ar frio da tarde.
— Fica com o doce, Sua — disse Mizi, com um sorriso de canto que não era sarcástico, mas algo muito mais profundo e indecifrável. — Você parece precisar de açúcar para lidar com tanta amargura ao seu redor.
Mizi soltou o rosto dela, deu uma piscadela geral para o grupo e saiu andando em direção ao portão principal, pegando o celular no bolso e começando a digitar como se nada tivesse acontecido.
O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som de Ivan engasgando com a própria saliva.
— Cara... o que foi isso? — Till perguntou, a voz falhando.
— Ela acabou de... dar o pirulito dela pra Sua? — Hyuna estava com as mãos na boca, os olhos brilhando de excitação. — Na frente da Vianna? Na frente de todo mundo?
Sua sentia o pirulito em sua boca, o cabo plástico entre seus dentes. Ela não conseguia se mexer. O sabor de cereja parecia queimar. Ela olhou para Vianna, que ainda estava parada no mesmo lugar, o rosto transformando-se de choque para uma fúria contida. Vianna olhou para Sua, um olhar de puro veneno, antes de dar as costas e sair em passos pesados.
— Sua? — Acorn apareceu, vindo do estacionamento de bicicletas, parecendo completamente alheio ao drama épico que acabara de ocorrer. — Por que você tá com esse pirulito? E por que tá todo mundo olhando pra cá?
Sua tirou o pirulito da boca, olhando para o doce vermelho. Sua mão tremia.
— A Mizi... — Sua começou, mas a voz sumiu.
— A Mizi deu pra ela — Ivan completou, cruzando os braços e lançando um olhar significativo para Sua. — Foi um gesto de... amizade. Muito intensa.
Acorn franziu a testa, confuso.
— Ah, legal. Ela é meio doida mesmo. Vamos? Eu te levo pra casa.
Sua assentiu mecanicamente, subindo na garupa da bicicleta de Acorn. Enquanto ele pedalava para longe da escola, ela olhou para trás uma última vez. Mizi já tinha sumido na multidão, mas o rastro que ela deixara era permanente.
O post das cores invertidas não era mais apenas uma montagem de internet. O roxo de Sua e o ouro de Mizi tinham se chocado no meio do pátio, e o resultado tinha sido um gosto doce que Sua sabia que nunca conseguiria esquecer.
— Você tá quieta, Sua — comentou Acorn, enquanto atravessavam a avenida principal. — Tá tudo bem?
— Tá — mentiu Sua, apertando o cabo do pirulito contra a palma da mão. — Só estou cansada.
Mas ela não estava cansada. Ela estava em chamas. Por baixo da superfície calma da "nuvem cinza", um vulcão estava começando a entrar em erupção. Mizi tinha rejeitado a novata mais desejada da escola e, em vez disso, tinha marcado Sua na frente de todos.
Não era apenas um pirulito. Era uma declaração de guerra contra a normalidade. E Sua, pela primeira vez em sua vida, não queria mais a paz. Ela queria o caos, queria o ouro, e queria descobrir por que, mesmo com o pirulito na mão, o gosto que permanecia em sua língua era o do perigo.