Insane
O Gosto da Rejeição e o Caos das Cores
O silêncio matinal da escola foi estilhaçado não pelo sinal, mas pelo som frenético de centenas de notificações de celulares ecoando simultaneamente pelos corredores. Sua mal tinha pisado no pátio quando sentiu o aparelho vibrar em seu bolso como se estivesse prestes a explodir. Ela não precisou abrir o aplicativo para saber o que era. O burburinho ao redor já entregava tudo.
— Primeiro lugar... Puta que pariu, Sua, você atropelou a Vianna! — Till surgiu correndo, quase tropeçando nos próprios pés, com os olhos esbugalhados para a tela.
A enquete do "Confesse Alien Stage" havia sido encerrada oficialmente. O resultado era histórico: Sua em primeiro lugar, com uma margem de votos que fazia a popularidade de Vianna parecer poeira. O post das "Cores Inversas" tinha selado o destino da escola. Para todos os alunos, a narrativa estava escrita nas estrelas (ou nos pixels): Mizi e Sua eram o fim de jogo.
Mas o clima de celebração de Till foi cortado por uma presença pesada. Acorn estava parado a poucos metros, com o rosto pálido e o celular na mão. Ele não parecia o namorado orgulhoso; ele parecia alguém que tinha acabado de descobrir uma traição pública.
— Sua, a gente precisa conversar. Agora — disse Acorn, a voz saindo mais grossa do que o normal.
O grupo se dispersou rapidamente, sentindo a eletricidade estática da briga iminente. Eles caminharam até um canto isolado atrás do ginásio. O silêncio entre eles era desconfortável, pontuado apenas pelo som distante dos outros alunos.
— O que foi, Acorn? É por causa da enquete? Eu já disse que não tenho culpa disso — começou Sua, tentando manter a voz estável.
— Não é a enquete, Sua. Quer dizer, é também, mas não é só isso — ele a encarou, os olhos castanhos cheios de uma mágoa profunda. — Eu vi os comentários no post do pirulito. Eu não estava lá na hora, mas o vídeo circulou. A Mizi... ela tirou o pirulito da própria boca e colocou na sua. E você aceitou.
Sua sentiu o estômago dar um solavanco. Ela abriu a boca para se defender, mas as palavras pareceram fugir.
— Foi só uma provocação dela, Acorn. Ela queria irritar a Vianna e...
— E ela usou você? Ou você quis ser usada? — Acorn deu um passo à frente, a frustração transbordando. — Todo mundo na escola está dizendo que vocês são "almas gêmeas" por causa daquelas fotos. E agora isso? Você ficou com o doce dela na boca, Sua. Isso é íntimo. É nojento pra mim assistir isso e fingir que tá tudo bem.
— Você está sendo dramático — rebateu Sua, embora sentisse a culpa a corroendo por dentro.
— Não, eu estou sendo lúcido! — exclamou Acorn. — Você nunca olha pra mim do jeito que olhou pra ela naquele vídeo. Você nunca teve essa... essa faísca comigo. A gente tá namorando, mas parece que eu sou só um figurante na sua vida enquanto você espera a protagonista aparecer.
Sua baixou o olhar para os próprios pés. A verdade dói mais quando é dita por outra pessoa.
— Acabou, Sua — disse ele, a voz agora mais baixa e cansada. — Eu não quero ser o cara que fica no caminho de uma fanfic de escola. Boa sorte com ela.
Ele deu as costas e saiu andando, deixando Sua sozinha com o peso do silêncio. Ela deveria estar triste. Deveria estar chorando. Mas, no fundo de seu peito, o que ela sentiu foi uma lufada de ar fresco. O peso de fingir que amava Acorn tinha sido retirado, deixando apenas a expectativa aterrorizante do que viria a seguir.
***
A notícia do término se espalhou mais rápido que fogo em palha seca. Quando Sua voltou para o corredor principal para a troca de aulas, o clima era de "inevitabilidade". As pessoas abriam caminho para ela como se estivessem esperando a passagem de uma rainha.
Lá na frente, encostada em um armário com a pose desleixada de sempre, estava Mizi. Ela parecia estar esperando. Quando viu Sua se aproximar, Mizi se desencostou do metal e caminhou calmamente até o meio do corredor, bloqueando o caminho.
O corredor parou. Alunos fingiam mexer nos armários, mas todos os ouvidos estavam atentos. Mizi abriu um sorriso sarcástico, inclinando a cabeça para o lado.
— Soube que agora você é uma mulher livre, Sua — disse Mizi, a voz projetada para que todos ouvissem. — Parece que o pirulito de cereja teve um efeito colateral forte no seu namoro.
Sua parou a um metro de distância, cruzando os braços e adotando sua melhor expressão de tédio, embora seu coração estivesse tentando saltar pela garganta.
— Não foi o pirulito, Mizi. Foi a sua falta de noção. Você adora estragar a vida dos outros por diversão, não é?
— Diversão? — Mizi deu um passo para frente, invadindo o espaço pessoal de Sua. O cheiro de chiclete e perfume doce era inebriante. — Eu diria que foi um favor. Você parecia entediada naquele relacionamento de comercial de margarina. Agora, a gente pode pular a parte chata e ir direto para o que interessa, não acha?
Alguns alunos no fundo soltaram um "uau" abafado. Mizi estava flertando abertamente, sem filtros.
— E o que seria "o que interessa", Mizi? — perguntou Sua, arqueando uma sobrancelha.
— Ah, qual é? — Mizi riu, passando a mão pelo cabelo rosa. — Por que tá se fazendo de difícil? O mundo inteiro já decidiu que a gente combina. Você vai mesmo negar o óbvio? Ou o problema é que você não curte garotas?
O corredor ficou em um silêncio sepulcral. Era a pergunta de um milhão de dólares. Sua respirou fundo, sentindo o olhar de todos pesarem sobre ela. Ela olhou diretamente nos olhos dourados de Mizi, sustentando a intensidade.
— Eu curto garotas, sim — respondeu Sua, a voz clara e firme. — Eu só não curto você, Mizi.
Um "OHHHHH" coletivo ecoou pelo corredor. Alguém deixou um livro cair. Mizi estacou, o sorriso vacilando pela primeira vez em muito tempo. Era um fora. Um fora público. Na Mizi. A garota que todos queriam, a rainha da escola, tinha acabado de ser rejeitada pela "nuvem cinza".
Mizi piscou, processando a informação. Ela soltou um suspiro longo, recuperando a compostura com uma rapidez impressionante, embora houvesse um brilho de irritação em seus olhos.
— Que pena... — Mizi murmurou, aproximando-se do ouvido de Sua para que apenas ela ouvisse, embora o tom sarcástico ainda fosse audível para quem estivesse perto. — E eu aqui achando que hoje eu finalmente teria uma diversão de verdade. Sabe, do tipo que deixa a gente sem fôlego e sem roupa. Mas se você prefere continuar sendo essa santinha intocável, quem sou eu para estragar o seu martírio?
Sua sentiu o rosto queimar instantaneamente com a audácia da frase. A insinuação sexual de Mizi foi como um tapa, mas ela não recuou.
— Você é inacreditável — disse Sua, com os dentes cerrados.
— E você é teimosa — rebateu Mizi, dando de ombros e voltando a caminhar. — Mas tudo bem. Eu gosto de desafios. Até a próxima, "nuvem".
Mizi saiu desfilando pelo corredor, deixando para trás um rastro de choque e fofoca. Sua ficou parada, tentando controlar a respiração, sentindo que tinha acabado de sobreviver a um furacão.
***
No intervalo, o grupo de amigos estava em estado de choque técnico. Eles se reuniram na mesa de canto do refeitório, mas ninguém conseguia comer.
— Você deu um fora na Mizi. Na Mizi! — Till repetia, como se estivesse tentando processar uma falha na Matrix. — Sua, você tem noção de que você é a primeira pessoa na história desta escola a dizer "não" pra ela?
— Ela mereceu — disse Sua, mexendo na sua salada. — Ela acha que pode ter tudo o que quer na hora que quer.
— Mas é a Mizi! — Hyuna exclamou, gesticulando. — Ela basicamente sugeriu que queria transar com você no meio do corredor! Eu teria desmaiado ali mesmo.
— Ela só queria me desestabilizar — murmurou Sua, embora soubesse que a imagem de Mizi falando aquilo em seu ouvido ficaria gravada em sua mente por semanas.
— Falando em desestabilizar... — Luka interveio, olhando para o celular com uma expressão de pura confusão. — Vocês viram a última atualização do post das "Cores Inversas"?
Todos pegaram os celulares. O post original, que tinha causado todo o caos, tinha recebido um novo comentário fixado pelo autor anônimo. Mas não era apenas um comentário. Eram duas revelações que fizeram o refeitório inteiro entrar em colapso.
A primeira era a identidade do autor do post.
— Ivan? — Sua perguntou, olhando para o amigo que estava sentado ao lado dela, mastigando um doce calmamente. — Foi você que postou aquela foto das cores?
Ivan deu um sorriso calmo e irritante, limpando o canto da boca.
— O conceito era bom demais para ser guardado só pra mim, não acham? Eu sabia que isso ia acelerar as coisas entre vocês duas. De nada, Sua.
— Você é um desgraçado manipulador — disse Sua, mas sem raiva real, apenas chocada.
— E tem mais — disse Hyuna, a voz subindo uma oitava. — Olhem a segunda foto do carrossel que ele postou agora.
Sua arrastou a imagem para o lado. A foto era granulada, tirada à noite atrás do ginásio, há alguns dias. Nela, dois garotos estavam claramente se beijando, encostados na parede de tijolos. As silhuetas eram inconfundíveis.
— Till e Ivan? — Sua exclamou, olhando de um para o outro.
Till ficou vermelho instantaneamente, tentando se esconder atrás do capuz do casaco. Ivan, por outro lado, apenas deu de ombros, esticando o braço e passando-o pelos ombros de Till de forma possessiva.
— A gente estava esperando o momento certo para contar — disse Ivan, com uma naturalidade desconcertante. — Mas como o caos já estava instalado, achei que um pouco mais de lenha na fogueira não faria mal.
— Você postou a gente se pegando no perfil de fofoca da escola?! — Till gritou, entre o pânico e a risada. — Ivan, você é doente!
— Eu sou um artista, Till. E o nosso beijo foi cinematográfico.
O refeitório explodiu em conversas. Em um único dia, Sua tinha terminado o namoro, dado um fora na garota mais cobiçada da escola e descoberto que seus dois melhores amigos estavam ficando escondidos.
Sua olhou para o grupo, para o caos ao redor e para o pirulito de cereja que ela ainda guardava na mochila, enrolado em um guardanapo. Ela percebeu que a vida "nuvem cinza" e segura que ela levava tinha acabado para sempre.
— A escola vai implodir até o final da semana — comentou Luka, fechando seu livro.
— Que imploda — disse Sua, sentindo uma coragem estranha percorrer suas veias.
Ela olhou para o outro lado do refeitório e viu Mizi sentada com Marty e outros amigos. Mizi a observava de longe, com um olhar que não era mais apenas sarcástico, mas curioso. Como se estivesse vendo Sua pela primeira vez de verdade.
Sua não desviou o olhar. Se Mizi queria um desafio, ela teria um. O roxo e o ouro ainda tinham muita história para escrever, e o gosto daquela rejeição era apenas o aperitivo para algo muito mais intenso que estava por vir.