Invincible X ALTEREGO
2000 Watts de Estática Pura
O som de *Invincible* reverberava pelas paredes de mármore do apartamento de cobertura em Manhattan, mas não era a versão masterizada que o mundo estava ouvindo nas rádios. Era crua, pesada, com os graves fazendo os cristais da cristaleira vibrarem em uma frequência perigosa. Michael estava sentado no sofá de couro branco, a jaqueta jogada em algum lugar do chão, observando Alexander Rio Valentino se mover pelo espaço como um animal enjaulado que acabara de descobrir que a porta da cela estava aberta.
Rio não conseguia ficar parado. A adrenalina do encontro no banheiro da festa ainda corria em suas veias como veneno, misturando-se à batida industrial de "2000 Watts". Ele parou diante da enorme janela de vidro que dava para as luzes da cidade, mas seu reflexo não mostrava o artista intocável da era *ALTER EGO*. Mostrava um homem cujos lábios estavam inchados e cuja pele ainda queimava onde os dentes de Michael haviam deixado sua marca.
— Essa música... — Rio começou, a voz rouca, quase sumindo sob o peso dos sintetizadores. — Ela soa como um curto-circuito. Como se você estivesse tentando conter uma explosão que é grande demais para os alto-falantes.
Michael inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos. O ritmo da canção parecia ditar os batimentos de seu coração.
— A eletricidade não foi feita para ser contida, Rio — disse Michael, a voz baixa, mas cortante. — Ela foi feita para fluir. Se você tentar segurá-la por muito tempo, ela acaba queimando o sistema por dentro.
Rio virou-se, os cabelos escuros chicoteando suas costas. Ele caminhou até Michael com passos lentos, predatórios. O contraste entre eles era quase insuportável: Michael, o arquiteto do som, o homem que transformava dor em precisão rítmica; e Rio, o caos personificado, que usava a música como um grito de guerra contra a própria sanidade.
— Você está falando de música ou de nós? — perguntou Rio, parando entre as pernas de Michael, forçando o Rei a abrir espaço para ele.
Michael abriu os olhos. Não havia doçura ali. Havia o brilho metálico de alguém que sabia exatamente o poder que exercia. Ele estendeu a mão e agarrou Rio pela nuca, puxando-o para baixo até que seus rostos estivessem a centímetros de distância.
— Eu estou falando de controle — sussurrou Michael. — Você acha que ser agressivo é ser forte, Alexander. Mas a verdadeira força é saber exatamente quando soltar a carga. E agora... eu sinto que você está prestes a derreter os fios.
Rio soltou uma risada anasalada, um som seco que foi engolido pelo baixo da música. Ele levou as mãos ao peito de Michael, sentindo a vibração da voz dele contra as palmas.
— Então me deixe queimar — desafiou Rio. — Eu amasso qualquer um que tente me dizer como sentir. Inclusive você. Especialmente você.
Michael apertou os dedos no couro cabeludo de Rio, uma pressão que beirava a dor, mas que fez o mais jovem soltar um gemido baixo de satisfação.
— Você gosta de fingir que é indomável — disse Michael, observando as pupilas de Rio se dilatarem. — Mas olhe para você. Está tremendo só de me ouvir falar. Você quer que eu te quebre de novo, não quer? Quer que eu te mostre que, no final da noite, todos os watts do mundo não significam nada se você não tiver onde descarregá-los.
Rio não respondeu com palavras. Ele se ajoelhou entre as pernas de Michael, um gesto que poderia parecer submissão para qualquer outra pessoa, mas que entre eles era uma declaração de guerra. Ele começou a desabotoar a camisa de Michael com uma urgência agressiva, arrancando um dos botões no processo. Michael não o impediu. Ele apenas observava, com aquele sorriso de canto que dizia que ele já tinha vencido antes mesmo da batalha começar.
— A imprensa diz que somos rivais — ofegou Rio, expondo a pele de Michael e descendo o rosto para beijar o esterno dele, subindo em seguida para morder a linha do maxilar. — Eles dizem que eu quero o seu lugar.
— E você quer? — Michael perguntou, a voz agora carregada de uma rouquidão perigosa enquanto suas mãos desciam para os ombros de Rio, apertando-os com força.
— Eu quero o que ninguém mais pode ter — retrucou Rio, subindo novamente para encarar Michael nos olhos. — Eu quero o homem que faz o mundo inteiro suar, implorando por misericórdia.
Michael soltou Rio abruptamente e se levantou, caminhando até a mesa de som que ficava no canto da sala. Ele aumentou o volume de "2000 Watts" até que o chão parecesse se mover. O som era físico, uma parede de energia que preenchia cada centímetro do apartamento.
— Então observe, Valentino — disse Michael, encostando-se na mesa, os olhos fixos em Rio. — Você diz que me quer destruído. Mas você não aguenta nem cinco minutos da sua própria voltagem sem ajuda.
Rio sentiu o desafio como um tapa no rosto. Ele ficou ali, no meio da sala, sentindo o suor escorrer por suas têmporas. O desejo era uma pressão física em seu baixo ventre, uma necessidade que a música de Michael parecia amplificar a cada batida. Ele levou a mão ao próprio cinto, desfazendo-o com um movimento brusco.
— Você quer assistir? — Rio perguntou, o tom de voz desafiador, embora seus dedos estivessem levemente trêmulos. — Ótimo. Veja o que você faz comigo. Veja como o seu álbum "invencível" me deixa em pedaços.
Michael cruzou os braços, a postura relaxada, mas o olhar fixo, devorador. Ele não desviou os olhos nem por um segundo enquanto Rio se livrava das calças de alfaiataria, revelando as pernas longas e a tensão muscular de quem estava no limite.
Rio começou a se tocar, os movimentos rápidos e agressivos, em total sincronia com o ritmo frenético da música. Ele fechou os olhos por um momento, imaginando as mãos de Michael em vez das suas, imaginando a boca de Michael em seu pescoço, mas a voz de Michael o trouxe de volta à realidade.
— Abra os olhos, Alexander — ordenou Michael, a voz cortando o som industrial. — Olhe para mim. Se você vai fazer isso por minha causa, eu quero ver cada expressão de derrota no seu rosto.
Rio obedeceu. Seus olhos encontraram os de Michael, e o que ele viu ali foi uma fome que espelhava a sua. O Rei não estava apenas assistindo; ele estava consumindo Rio com o olhar. Cada gemido que Rio tentava abafar era arrancado de sua garganta pela intensidade daquela conexão.
— Isso... — Rio arfou, a mão movendo-se com uma velocidade desesperada. — Isso é culpa sua. Você e essa sua mania de ser... absoluto.
— Eu não sou absoluto, Rio — Michael deu um passo à frente, diminuindo a distância, mas sem tocar em Alexander. — Eu sou apenas o espelho do que você tenta esconder. Você quer ser o melhor, quer ser o maior... mas aqui, neste quarto, você só quer ser meu.
A música atingiu o clímax, uma sobrecarga de sintetizadores e batidas que pareciam eletrocutar o ar. Rio sentiu o corpo tencionar, a pulsação batendo forte em seus ouvidos. Ele estava quase lá, no ponto de não retorno, onde a eletricidade se tornava pura luz branca.
Michael se aproximou o suficiente para que Rio sentisse o calor de seu corpo, mas ainda mantendo as mãos longe. Ele se inclinou e sussurrou no ouvido de Rio, por cima do barulho:
— 2000 Watts, Alexander. Deixe queimar.
Com um grito que foi abafado pelo acorde final da música, Rio desmoronou. Seu corpo teve um espasmo violento, a liberação vindo como uma onda de choque que o deixou sem fôlego, apoiado sobre os próprios joelhos no tapete caro. O silêncio que se seguiu ao fim da faixa foi ensurdecedor, quebrado apenas pela respiração pesada e errática de Rio.
Michael permaneceu parado acima dele por um longo momento. Então, com uma calma exasperante, ele se ajoelhou e passou os dedos pelos cabelos suados de Rio, levantando o rosto dele.
— Viu só? — Michael disse suavemente, o polegar limpando uma lágrima de esforço no canto do olho de Rio. — Você sobreviveu à carga. Mas olhe para você... está em ruínas.
Rio tentou recuperar a compostura, mas seus membros pareciam feitos de chumbo. Ele agarrou o pulso de Michael, puxando a mão dele para sua boca e beijando a palma com uma devoção que ele nunca admitiria em público.
— Eu odeio você — sussurrou Rio, embora o modo como ele se aninhava no toque de Michael dissesse o contrário.
— Não, você não odeia — Michael sorriu, o sorriso discreto e vitorioso de quem conhecia todos os segredos do som e do desejo. — Você apenas odeia o fato de que eu sou o único que sabe como te ligar e como te desligar.
Michael levantou-se e ofereceu a mão para Rio.
— Agora, levante-se. Temos que limpar esse batom borrado antes que o sol nasça. A imprensa já está inventando histórias sobre a nossa "guerra", e seria uma pena se eles descobrissem que nós dois já assinamos o tratado de paz mais sujo da história do pop.
Rio aceitou a mão de Michael, sentindo a força silenciosa que o puxava para cima. Ele ainda estava trêmulo, ainda sentindo a estática sob a pele, mas havia uma clareza nova em seus olhos.
— Isso não foi um tratado de paz, Michael — disse Rio, ajustando a postura e tentando recuperar a aura de Alexander Rio Valentino. — Foi apenas o primeiro round.
Michael riu, um som genuíno e raro, enquanto caminhava em direção ao quarto, deixando Rio para trás para se recompor.
— Então é melhor você começar a treinar, Rio. Porque o álbum se chama *Invincible* por um motivo. E eu ainda nem comecei a mostrar a você o que acontece quando a energia realmente acaba.
Rio observou Michael desaparecer no corredor, o zíper da calça ainda ligeiramente aberto, a jaqueta de couro pendurada em um ombro. Ele sorriu para o reflexo na janela. O mundo veria dois gigantes competindo pelo topo das paradas. Mas Rio sabia que, entre as notas de "2000 Watts" e o silêncio daquela cobertura, a única coisa que importava era quem tinha o poder de fazer o outro queimar.
E, naquela noite, as luzes de Nova York pareciam pálidas perto da faísca que ainda restava entre eles.