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🟣 Irmã do melhor amigo / Holly Wheeler

Segredos no Vapor da Vitória

As três semanas que se seguiram àquela noite transformaram-se num jogo intrincado de olhares roubados e toques fugazes. Para o resto do mundo, principalmente para o grupo de amigos que era o centro do universo deles, Mark e Holly continuavam a ser o que sempre foram: o melhor amigo e a irmã mais nova. Uma dinâmica tão antiga e cimentada que ninguém pensaria em questionar. Mas sob a superfície da normalidade, fervilhava um segredo delicioso e aterrorizante.

Eles se tornaram mestres na arte da dissimulação. Numa tarde de sábado, com a sala dos Wheeler cheia, eles se sentaram em extremidades opostas do sofá. Dustin contava uma história elaborada sobre uma falha no sistema do fliperama, gesticulando com as mãos sujas de Cheetos, enquanto Lucas e Max discutiam sobre qual faculdade tinha o melhor programa de artes. Mike e Eleven estavam, como sempre, no seu próprio mundo, compartilhando um fone de ouvido.

Mark sentia o olhar de Holly sobre ele. Não era um olhar direto, mas um roçar de atenção, um feixe de luz que ele sentia na pele. Ele virou a cabeça minimamente, o suficiente para capturar o brilho nos olhos dela por uma fração de segundo. Ela sorriu, um sorriso minúsculo, quase imperceptível, antes de voltar a atenção para a conversa de Nancy, que acabara de chegar com uma pilha de livros da biblioteca.

O telemóvel de Mark vibrou no bolso. Ele o puxou discretamente sob a almofada do sofá.

*Holly: Se você continuar me olhando desse jeito, o Mike vai começar a construir um muro entre nós.*

Ele sorriu para o ecrã, o coração a dar um salto.

*Mark: A culpa é sua por estar tão linda hoje. É uma distração perigosa.*

*Holly: Idiota. Presta atenção no Dustin. Ele está prestes a ter um colapso por causa de um jogo de vídeo.*

*Mark: Eu preferia ter um colapso por sua causa.*

Ele enviou a mensagem e bloqueou o ecrã, o rosto a arder. Levantou o olhar e viu Holly a morder o lábio inferior para não rir. Aquele pequeno gesto, aquela cumplicidade silenciosa no meio da multidão, era mais eletrizante do que qualquer beijo em público poderia ser.

— Mark? Terra a chamar Mark! — A voz de Mike cortou os seus pensamentos. — Falei contigo.

Mark piscou, voltando à realidade.

— Desculpa, cara. O que disseste?

Mike revirou os olhos, mas sorriu.

— Perguntei se vais ao jogo de basquete na sexta. É a semifinal do condado. Precisamos de todo o apoio possível.

— Claro que vou — disse Mark, a voz mais firme do que se sentia. — Não perderia por nada.

— A Holly também vai — acrescentou Mike, casualmente. — Ela prometeu que faria cartazes e tudo. Não é, Holly?

Holly, apanhada de surpresa, engasgou-se com o gole de refrigerante.

— Ah, sim! Claro. Cartazes. Com muito glitter.

Mark teve de se esforçar para não rir. A ideia de Holly, que era a pessoa mais pragmática que ele conhecia, a mexer com glitter por causa dele era hilariante e incrivelmente terna. O perigo e a doçura da situação eram uma corda bamba sobre a qual eles dançavam a cada minuto.

***

A sexta-feira chegou com a tensão elétrica que precede um jogo importante. O ginásio da Hawkins High estava a abarrotar. O som de ténis a ranger no chão de madeira polida, os gritos da multidão e o apito estridente do árbitro criavam uma cacofonia familiar.

Mark estava no seu elemento. O basquete sempre fora o seu escape, o lugar onde a ansiedade se transformava em energia pura. Mas hoje era diferente. Cada drible, cada passe, cada olhar para as bancadas era carregado de um novo significado.

Ele a viu. Estava sentada com Mike, Eleven e Max. E, fiel à sua palavra, segurava um cartaz. Não tinha glitter. Em vez disso, em letras grandes e tortas, lia-se: "VAI, TIGRES! E MARK, NÃO SE ESQUEÇA DE DOBRAR OS JOELHOS NO LANCE LIVRE".

Ele riu no meio de um aquecimento, recebendo um olhar confuso do seu treinador. Aquilo era tão Holly. Prática, direta e com um toque de provocação que era só para ele.

O jogo foi renhido. Uma batalha de cestos e faltas que se arrastou até ao último minuto. Hawkins perdia por um ponto. Faltavam três segundos no relógio. Mark sofreu uma falta ao tentar o cesto da vitória. O ginásio silenciou. Dois lances livres.

Ele caminhou para a linha, o suor a escorrer-lhe pela testa. O seu coração batia descompassado, não apenas pela pressão do jogo, mas porque os seus olhos encontraram os dela na multidão. Ela não estava a gritar. Estava apenas a olhar para ele, os lábios a formar silenciosamente as palavras "dobra os joelhos".

Ele respirou fundo. O mundo encolheu até ser apenas ele, a bola e o cesto. O primeiro lançamento foi perfeito, o som da rede a balançar foi como música. Empate.

O segundo lançamento. Ele repetiu o ritual. Driblou três vezes. Olhou para o aro. Dobrou os joelhos. Lançou.

A bola voou num arco limpo e preciso. Por um momento eterno, pareceu pairar no ar antes de cair suavemente pela rede.

O som do alarme final coincidiu com a explosão da multidão. Os seus colegas de equipa saltaram sobre ele, um amontoado de corpos suados e gritos de vitória. No meio do caos, ele só conseguia ver Holly, de pé, a aplaudir com um sorriso que iluminava todo o ginásio. Aquele sorriso era o seu verdadeiro troféu.

***

Uma hora depois, o ginásio estava quase vazio. A equipa celebrou ruidosamente no balneário, mas a euforia deu lugar ao cansaço. Aos poucos, os jogadores foram saindo, prometendo encontrar-se mais tarde para comemorar.

Mark ficou para trás, saboreando o silêncio que se instalava. Ele precisava de um momento para processar tudo. O jogo, a vitória, o sorriso dela. Ele despiu o uniforme, o tecido húmido a colar-se à pele, e caminhou para os chuveiros no fundo do balneário.

O vapor quente envolveu-o instantaneamente, um véu branco e denso que abafava os poucos sons restantes. Ele encostou a testa nos azulejos frios, deixando a água a jorros levar o suor e a tensão do jogo. Fechou os olhos, a imagem de Holly a invadir-lhe a mente. O seu cabelo, o cheiro dela, o toque da sua pele contra a dele na escuridão do quarto, há três semanas.

Um som metálico e suave cortou o barulho da água. O clique da porta do balneário a fechar-se.

Mark franziu o sobrolho. Provavelmente era o treinador a fazer uma última verificação ou um colega que se tinha esquecido de algo.

— Já estou a sair! — gritou ele por cima do som do chuveiro.

Não houve resposta.

Ele esperou um segundo. O único som era o da água a bater no chão. Uma estranha sensação de alerta percorreu-o. Anos a viver em Hawkins tinham-lhe ensinado a não ignorar a intuição.

Ele desligou a água. O silêncio repentino foi quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo gotejar lento de um chuveiro vizinho.

— Olá? — chamou ele, a voz a ecoar ligeiramente no espaço amplo e húmido.

Passos. Leves, hesitantes, no chão de cimento.

O seu coração acelerou. Ele espreitou pela abertura do seu cubículo, o vapor a distorcer a visão. Uma silhueta esguia movia-se entre os cacifos. Por um segundo de pânico irracional, a sua mente viajou para monstros e portais.

Mas então a figura parou sob a luz fraca de uma das lâmpadas fluorescentes.

Era Holly.

Ela usava o mesmo blusão da universidade de Indiana que usara no jogo e uns jeans. O seu cabelo estava ligeiramente húmido da garoa que começara a cair lá fora. Ela olhava em volta, claramente nervosa.

— Holly? — A voz dele saiu como um sussurro rouco.

Ela sobressaltou-se, virando-se na direção da sua voz. Os seus olhos arregalaram-se quando o encontraram, parado na entrada do cubículo do chuveiro, nu, com gotas de água a escorrer-lhe pelo peito e pelos ombros.

— Mark! — Ela corou violentamente, desviando o olhar. — Meu Deus, desculpa. Eu... eu pensei que já tinhas saído. O Mike disse que te ia dar boleia, mas depois teve de levar a Max a casa e...

— Holly, o que estás a fazer aqui? — interrompeu ele, um misto de pânico e uma excitação vertiginosa a tomar conta de si. — Este é o balneário masculino. Se alguém te apanha...

— Eu sei, eu sei, foi estúpido — disse ela rapidamente, ainda a olhar para uma fila de cacifos como se fossem a coisa mais interessante do mundo. — Eu só... eu queria ver-te. E dar-te isto.

Ela estendeu a mão, segurando uma garrafa de Gatorade azul.

Mark olhou para a garrafa e depois para ela. O absurdo da situação atingiu-o. Ela tinha-se infiltrado num balneário masculino, arriscando-se a ser apanhada, para lhe trazer uma bebida isotónica. Um sorriso lento abriu-se no seu rosto.

— Tu és inacreditável.

— Eu sei — murmurou ela, finalmente ousando olhar para ele. O seu olhar percorreu o peito dele, as gotas de água, e ele viu uma faísca acender-se nos seus olhos. — Parabéns pela vitória. Aquele último cesto... foi incrível.

— Eu tive uma boa treinadora nas bancadas — disse ele, dando um passo para fora do chuveiro, esquecido ou indiferente à sua nudez. O ar frio do balneário arrepiou-lhe a pele.

Eles ficaram ali, a poucos metros de distância, numa bolha de vapor e silêncio. O mundo exterior, com os seus irmãos superprotetores e as regras sociais, parecia a um milhão de quilómetros.

— Estás a tremer — observou ela, a voz baixa. — Estás com frio.

— Não é do frio.

Holly deu um passo hesitante na sua direção, e depois outro. Ela parou em frente a ele, tão perto que ele podia sentir o calor que emanava do corpo dela. Ela levantou a mão, os dedos a pairar sobre o peito dele por um momento antes de o tocar. A sua mão estava quente contra a pele fria e húmida dele.

— Mark... — O nome dele foi um suspiro.

Ele cobriu a mão dela com a sua, entrelaçando os dedos.

— Valeu a pena o risco de vires aqui só por causa disto? — perguntou ele, a voz um murmúrio.

— Valeu a pena o risco só para ver o teu sorriso quando viste o meu cartaz ridículo — confessou ela, e o seu polegar acariciou o dorso da mão dele. — Mas isto... isto é um bónus.

Ele não aguentou mais. Puxou-a pela mão, trazendo-a para si num movimento fluido. O corpo dela chocou contra o dele. Ela arquejou de surpresa quando o frio e a humidade da pele dele se transferiram para a sua roupa.

— Mark, a minha roupa! — protestou ela, mas sem qualquer convicção, os braços já a envolverem-lhe o pescoço.

— Depois arranjamos uma solução para isso — sussurrou ele contra os lábios dela, antes de a beijar.

O beijo foi faminto, desesperado. Tinha o gosto da vitória, do segredo e da adrenalina de serem quase apanhados. As mãos dele subiram pelas costas dela, perdendo-se no tecido grosso do blusão, puxando-a para mais perto, até não haver qualquer espaço entre eles.

Holly inclinou a cabeça para trás, dando-lhe acesso ao pescoço. Ele beijou a pele macia, sentindo o pulso dela a acelerar sob os seus lábios.

— Alguém pode entrar a qualquer momento — ofegou ela, os dedos a apertarem-lhe os ombros.

— Então temos de ser rápidos — respondeu ele, e guiou-a de costas para o cubículo do chuveiro.

Ele abriu a água novamente, não para se lavar, mas para criar uma cortina de som e vapor, um santuário privado para eles. A água quente começou a jorrar, salpicando-os.

— Mark, estás louco! — riu ela, enquanto a água começava a ensopar o seu cabelo e o seu blusão.

— Completamente louco por ti — disse ele, sério, e a intensidade no seu olhar fê-la parar de rir.

Ele encostou-a contra os azulejos frios, o contraste com a água quente e o corpo dele a fazê-la estremecer. A roupa dela estava a ficar pesada, a colar-se a cada curva. A imagem dela, com o cabelo escurecido pela água, os jeans colados às pernas e os olhos a brilhar para ele no meio do vapor, era a coisa mais erótica que ele já vira.

— Tira o blusão — pediu ele, a voz rouca.

Obedientemente, ela encolheu os ombros, e ele ajudou-a a livrar-se do blusão ensopado, atirando-o para um canto. Ela ficou apenas com uma t-shirt branca, que se tornou instantaneamente transparente sob a água, revelando o contorno de um sutiã de renda por baixo.

Mark engoliu em seco, o desejo a apertar-lhe as entranhas com força.

— Holly...

— Eu sei — sussurrou ela, e foi ela quem o beijou desta vez. Um beijo profundo, que falava de semanas de contenção e de um amor que se recusava a ficar escondido.

As mãos dele deslizaram pela sua cintura, por baixo da t-shirt molhada, encontrando a pele quente das suas costas. Ela arrepiou-se ao seu toque. As mãos dela exploravam o peito dele, os ombros, os braços, como se estivesse a memorizar cada músculo.

— Eu odeio ter de me esconder — confessou ela entre beijos, a voz abafada contra a boca dele. — Odeio ter de fingir que és só o amigo do meu irmão.

— Eu sei — disse ele, afastando-se o suficiente para olhar nos olhos dela. — Mas o Mike... ele ia surtar. E depois todo o grupo... ia ficar estranho.

— Ele ia superar — argumentou ela, a determinação a brilhar no seu rosto. — E o grupo já passou por coisas bem mais estranhas do que nós os dois a namorar. Lutámos contra monstros de outra dimensão, Mark. Acho que sobrevivemos a contar ao meu irmão que estamos apaixonados.

Ele sorriu, acariciando-lhe o rosto molhado.

— Tens razão. Como sempre. Mas podemos ter só mais um pouco disto? Deste nosso segredo? É perigoso e excitante.

Ela sorriu de volta, um sorriso malicioso.

— Desde que inclua mais emboscadas em balneários, por mim tudo bem.

Ele riu, um som genuíno e feliz que ecoou no pequeno espaço. Ele puxou-a para mais um beijo, mais lento desta vez, cheio de ternura. A água caía sobre eles, lavando tudo menos o sentimento que os unia.

Ficaram ali por minutos que pareceram uma eternidade, perdidos um no outro, protegidos pelo vapor e pelo som da água. Eventualmente, o frio começou a infiltrar-se de verdade.

— Ok, ok, vamos sair daqui antes que apanhes uma pneumonia e eu tenha de explicar à tua mãe como é que isso aconteceu — disse Mark, finalmente a desligar a água.

O silêncio voltou, mais pesado desta vez. O vapor começou a dissipar-se, revelando a realidade do balneário desarrumado.

Holly estava encharcada da cabeça aos pés, a tremer ligeiramente, mas com um sorriso radiante.

— E agora? — perguntou ela, olhando para as suas roupas encharcadas.

Mark abriu o seu cacifo e tirou uma toalha seca e um blusão de moletom limpo do time.

— Primeiro, seca-te — disse ele, entregando-lhe a toalha. — Depois, podes usar isto. Vai ficar-te enorme, mas é melhor do que sair daqui a pingar.

Enquanto ela se secava desajeitadamente, ainda vestida, ele enrolou outra toalha à volta da cintura e começou a secar o cabelo. A domesticidade do momento, depois da paixão febril, era estranhamente íntima.

Ela vestiu o blusão dele, que lhe chegava a meio das coxas, escondendo completamente os seus jeans molhados. O cheiro dele envolveu-a. Era reconfortante.

— Igual à tua camisa que eu "roubei" — comentou ela, enfiando as mãos nos bolsos.

— Esta podes ficar. É um troféu de guerra — brincou ele, já a vestir umas calças de fato de treino e uma t-shirt.

Vestidos e relativamente secos, o feitiço do momento começou a quebrar-se, substituído pela ansiedade.

— Como é que vais sair? — perguntou ele, a voz baixa. — A porta da frente dá para o corredor principal.

— Eu entrei pela porta dos fundos, perto do campo de futebol. Estava encostada. Vou sair por aí. Ninguém me vai ver — assegurou ela.

Ele assentiu, mas a preocupação não o largou. Ele aproximou-se e deu-lhe um último beijo, rápido e suave.

— Tem cuidado. Manda-me uma mensagem quando chegares a casa.

— Vou mandar — prometeu ela. — E tu... és o meu herói. Dentro e fora do campo.

Ela deu-lhe um último sorriso e depois, tão silenciosamente como chegou, desapareceu por entre os cacifos e saiu pela porta dos fundos, deixando para trás apenas uma poça de água e o cheiro do seu perfume misturado com o do cloro e do vapor.

Mark ficou parado por um momento, o coração ainda a bater forte. Ele pegou no seu saco de desporto, sentindo-se exausto e mais vivo do que nunca. Ao pegar no telemóvel para o guardar no bolso, o ecrã acendeu-se com uma nova mensagem.

Era de Mike.

*Mike: Cara, onde te meteste? A El e eu estamos a pensar ir buscar uma pizza para comemorar. A Holly desapareceu, viste-a por aí?*

Mark olhou para a mensagem, depois para a porta por onde Holly tinha saído. O segredo deles, tão belo e tão frágil, pendia por um fio. Ele respirou fundo e começou a digitar uma resposta, o peso de cada letra a parecer uma tonelada.

*Mark: Não, não a vi. Estou a sair do balneário agora. Encontramo-nos na Pizzaria do Gino em 15 minutos.*

Ele enviou a mensagem, sentindo-se um traidor e o homem mais sortudo do mundo, tudo ao mesmo tempo. O jogo tinha acabado, mas um outro, muito mais perigoso, estava apenas a começar.